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Era Bom que Trocássemos umas Idéias sobre o Assunto, de Mário de Carvalho (Companhia das Letras; 246 páginas; 37 reais) – Funcionário dedicado, mas sem talento, o cinqüentão Joel Strosse Neves não consegue se adaptar à modernização da empresa onde trabalha, em Lisboa. Deslocado para um gabinete sem importância, ele afinal se revolta: tira o pó dos livros de Marx e decide se tornar comunista. Mário de Carvalho – um dos muitos bons nomes da literatura portuguesa contemporânea – narra os dramas de Joel com um sarcasmo irredutível. O romance é um retrato satírico da geração que amadureceu nos anos 70, durante a redemocratização de Portugal, e que hoje não sabe mais o que fazer de seus antigos ideais socialistas.

Leia trecho

Resvés ao caminho-de-ferro de Entrecampos, em rua estreita e discreta, de que o nome não me ocorre, foi construído, há anos, o controverso edifício da Fundação Helmut Tchang Gomes, que, como é sabido, suscitou indignações veementes na migalha de público dita "os intelectuais", cismas avinagrados na Associação dos Arquitectos, balanceios incómodos na cadeira dum ministro, e choros convulsos numa misteriosa viúva de quem nunca mais se soube nada, nem eu nem ninguém. De controversa, a própria instituição também houve o seu quê, quando, em tempos, sediando ainda em Belém, no bairro das embaixadas, a alguns jornais desinibidos, muito hábeis em perscrutações, lhes deu para farejar tortuosidades financeiras, sumptos bizarros e habilidades de engenharia fiscal. Os anos passaram, as inflamadas arguições bocejaram em inquéritos inconclusos, um banqueiro que estrangulou a esposa com fio de pesca atraiu as atenções gerais, e a Fundação, discretamente, pacatamente, mortiçamente, lá foi patrocinando uns concertos de câmara, uma excursão à Nova Zelândia ("pátria ancestral dos bravos Maori") e um recital de poesia hexamétrica em baixo-latim.

Naquela rua de Entrecampos, certo dia, fizeram implodir um velho prédio de estilo dito de Munique, com larga presença de basbaques e prevenção acautelada das forças da ordem. Ergueu-se um tapume, com os competentes janelos para espreitadores profissionais, destinados a evitar o chamado efeito Parmentier, ou "do fruto proibido" exconjurado pela máxima implícita: "observa mas não saltes!", tapume que atraiu mais os amadores de grafitti e os roubadores de tábuas que os espreitas de feitio. Não tardaram trabalhadores imigrados, escavadoras, martelos pneumáticos, andaimes, uma grua medonha, terror dos aviadores, e, em menos de nada, no espaço de se ir ali e já vir, estava a edificação pronta, pintada e inaugurada, com discursos, bandeirinhas e croquetes.

Escândalo! Escândalo e alarido! Talvez de entre os milhares de pessoas que nas empardecidas horas de ponta por aí circulam, azamboadas do sono e do cansaço, e que, de ordinário, não têm disposição para levantar os olhos, algumas, mais atentas aos jornais e aos televisores, se prestassem então a uma breve apreciação do prédio. Não consta que alguém tivesse desviado os passos ou arriscado o transporte por causa dum exame mais demorado e circunspecto. Apreciações contidas num "afinal não desgosto", ou "ele há cada mamarracho", breve haviam de ser esquecidas nas páginas dum jornal desportivo, entre os solavancos dum autocarro ou nos apertos belicosos duma carruagem de comboio. E seguramente não eram lembradas ao jantar, na altura da telenovela brasileira.

Sempre que em Lisboa se constrói um prédio de estilo, com prosápia inovadora, cai Tróia, caem o Carmo e a Trindade, caem dirigentes políticos, caem reputações, as ondas sonoras dos desmoronamentos imaginários ressoam, vibram, enervam, insistem, maçam e só o que não cai é o edifício em causa, como não caiu este. De novo a pacatez da Fundação foi ofendida, violada a sua discrição, e o seu nome mencionado. Houve agitação, a subir nos primeiros dias, a estacionar depois e a descer sempre daí por diante. A polémica foi transferida dos diários para os semanários, destes para as revistas especializadas, daí passou aos livros e acabou, naturalmente, no olvido. As televisões dedicaram um minuto e meio ao evento, mas de forma tão veleira, alegrete e trapalhona que ninguém percebeu nada. De vez em quando, ainda se insinua algum remoque raivoso numa coluna de jornal. Um contumaz professor das Belas Artes continua a trovejar, por alturas de Março, defronte dos seus alunos transidos. Nada que abale a firmeza dos materiais, nem a consciência ou a algibeira de quem os mandou convergir assim.

A Fundação brilha e refulge, entre os evinéis fuliginosos e azulejos tisnados das redondezas, no seu colorido de magenta, sabiamente combinado com o verde-alface de uns acrescentos metálicos construtivistas, em forma de canudo. Uns salpicos de cravos de latão dourado, organizados ao longo da fachada, evocam formas que se prestam à discussão, embora já desapaixonada. Uns vislumbraram ali os contornos selectos duma harpa, outros, o brado nacionalista dum barrete de campino. Numa homenagem a Jorge Luis Borges do arquitecto letrado — ou, quem sabe, do inspirado mestre-de-obras — lá está mesmo uma escada que não leva a parte nenhuma e que, a determinada vadiagem da zona, pareceu vazadouro ideal para seringas usadas e outros dejectos correlativos.

Com olhos de ver, ressalta ali a história arquitectónica da Humanidade numa síntese muito proveitosa para estudantes. Está representado o divino Imnhotep com a sua pirâmide de Sacara, Fídias com os frisos do Partenão, Vitrúvio com os seus criptopórticos, Mestre Afonso Domingues, com a abóbada da Batalha, a Bauhaus com as suas lisuras escorridas, Frank Loyd Wright com uma grande superfície vidrada, Niemeyer com uma esfera polida, e Raul Lino, com beirais próprios de andorinhas, por cima de tudo o que seja abertura, grande ou pequena, quadrada ou redonda, sisuda ou festiva. A obra figura na capa dum álbum chamado Lisboa pós-moderna que as más-línguas denunciam encomendado pela própria Fundação a uma senhora com fama de excelente fazedora de álbuns, especializada em porcelanas Ming, ex-votos, e — dizem — muito hábil a adivinhar destinos pelos astros. Na reprodução, por deficiência da tipografia, aquela cor magenta aparece um tanto esbatida, e não deixa adivinhar as apóstrofes enraivecidas, que, de roldão com outras, vituperaram em tempos a pintura.

Houve, convenhamos, algum exagero e sobrecarga de nervos. A magenta não é tão hedionda como isso e há outras cores que ligam pior com o verde-alface. Creio que a maior parte dos detractores se encontrava então fortemente influenciada por certo cineasta suíço que chamou a Lisboa "cidade branca", confundindo-a porventura com Évora, ou com Campo Maior. As pessoas comuns têm destas coisas... Deixam-se levar pelas declarações de gente prestigiada, mesmo quando a gente prestigiada se deixou iludir por impressões fugidias e sacudidas pela sequência de fusos horários... Um autor fatigado resolve dar um título assim a uma fita. Há mais gente a reparar no título que na fita, e a olhar em volta, ninguém.

O venerando Alexandre Herculano chamou à Capital "cidade de mármore e de granito" e durante século e meio, nos discursos oficiais, nos arrebatamentos de bodas e baptizados, na retórica de alguns professores de liceu, e na conversa dos anciãos ao adormecer de netos, Lisboa de mármore e granito jazeu. E olharam-se de viés aqueles espíritos positivos que, fiando-se mais nos sentidos e no saber geológico que na imaginação romântica, alertavam para a comprovada ausência de granito em Lisboa e seu termo e se recusavam a confundir com o mármore a humilde pedra lioz.

Se o grande Herculano fosse conhecido e estimado por esse mundo fora, como infelizmente não sucede, haveria agências a organizar safaris aos problemáticos juncais da Mauritânia, para observar o tigre nativo inexistente, apenas porque o escritor, num frémito de imaginação, pespegou a fera no Eurico...

Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a alameda D. Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes-esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.

Mas isto de gostos e de cores, parece que não é para discutir. Já foi, mas agora não é outra vez. Se o meu amigo João de Melo, num dos seus livros, me assevera, com uma convicção firmemente reiterada, que "o mar é branco", seria de um mau gosto prosaico e burgesso ir dizer-lhe, contrariando-o, embora com afabilidade: "olha que não, João, o mar não é branco, isso são as espumas; o mar é...". Aqui há que condescender com convicções entranhadas, tolerar as daltonias íntimas, garantir a liberdade poética, libertas vatum. Já com os tigres da Mauritânia, espreitando entre juncais africanos, me parece mais complicado de lidar, mas, também, nada me obriga a isso...

O que importa asseverar por agora é que, ainda que a cor magenta não venha nos dicionários, o que quase a candidata à inexistência, lançada naquela rua, desmerece tanta gritaria e intolerância. Não é improvável que daqui a sessenta anos — se a qualidade da construção o garantir — retinam campainhas, alertando para a notícia gritante, com esquadrias de vermelho ameaçador nos computadores de pulso e nos monitores que ocuparão paredes inteiras: "Alto, que querem pintar de cinzento o célebre prédio magenta da rua tal, que foi em tempos da Fundação Helmut e onde hoje estão instalados os serviços de vigilância da quadrícula 38. Segue-se a oração da tarde, para os que não puderam comparecer no templo!".

E porque já vamos na página dezasseis, em atraso sobre o momento em que os teóricos da escrita criativa obrigam ao início da acção, vejo-me obrigado a deixar para depois estas desinteressantes e algo eruditas considerações sobre cores e arquitecturas, para passar de chofre ao movimento, ao enredo. Na página três já deveria haver alguém surpreendido, amado, ou morto. Falhei a ocasião de "fazer progredir" o romance. Daqui por diante, eu mortes e amores não prometo, mas comprometo-me a tentear algumas surpresas. E enquanto me apresso, vou protestando que houve um escritor que demorou trinta magníficas páginas a acordar de um sono e outro que gastou muitas mais a tentar demonstrar, fraudulenta mas genialmente, que a baleia é um peixe...

 

Ora, no sexto andar do edifício aludido, num gabinete amplo e com decoração assim-assim, que seria ocioso especificar, fitam-se duas personagens: uma, do lado do proprietário da secretária, a outra, do outro. O titular do gabinete e anfitrião chama-se Rui Vaz Alves, é vogal da administração e dirige o "departamento de contacto" da casa; o outro chama-se Joel Strosse Neves, estancia habitualmente num dos pisos de baixo e tem, sobre o primeiro, a única vantagem de ser o protagonista desta história. Como, neste breve relance, os dois homens estão apenas a olhar um para o outro, e não adiantam nada, eu aproveito a ocasião para me prevalecer duma velha tradição literária e apresentá-los ao leitor, com o acrescento dumas circunstâncias esclarecedoras.

Rui Vaz Alves ainda não aqueceu o lugar. Foi chamado logo para o topo da hierarquia após o êxito dum despedimento colectivo numa empresa de que era chefe de pessoal e ter escrito para um jornal popular um artigo célebre intitulado "A mão invisível actua com pés de lã", finalizado com um bramido muito festejado pela originalidade: "Laissez faire! Laissez passer!". Formou-se em Antropologia na Escola de Estudos Superiores de Montpognon, na Suíça, depois de alguns insucessos no limiar das Universidades Portuguesas por mor duns critérios de classificação rabugentos com que se sentiu desfeiteado e severamente ofendido. Zangado com a Pátria não lhe ocorreu o desprezo de Cipião que não consentia que a Ingrata tivesse os seus ossos, antes a ameaça de que Ela o havia de aturar, em carne e osso, quer o quisesse ou não. E vá de abalar para a Suíça, para vir de lá licenciado em Antropologia Analítica. A sua tese, que ainda não foi publicada, versa sobre "As disposições das alminhas nas encruzilhadas do alto da Beira" e suscitou um acolhimento benevolente dos professores helvéticos, mediocremente qualificados para se aperceberem dos erros de ortografia. Aos docentes estrangeiros há-de interessar pouco que um licenciado escreva perjorativo em vez de pejorativo, árbito em lugar de árbitro, ou orquesta por orquestra. Ter-lhes-á constado a igual indiferença dos professores portugueses por estes pormenores... De qualquer modo, parece transmitir-lhes um prazer sardónico isto de despachar para cá intermináveis levas de licenciados, doutorados e mestres, como se tivessem boas razões para nos querer mal. Com a Suíça, que eu esteja lembrado, nunca houve guerra. Não explorávamos os mesmos lagos e, quanto a montanhas, sempre nos puxou mais o Tibete. Fica, portanto, por explicar a má vontade que os sábios de Montpognon acalentam contra a inocência lusa. Alguma refeição no Algarve a cair mal a certo reitor, um jardineiro português excessivamente namoradeiro e adúltero, um turista que deitou um caroço de azeitona para o chão, e se deixou surpreender... Caso para melhor averiguar...

Dizia então o doutor Vaz Alves, enquanto passava os dedos pela carneira garantidamente genuína da agenda Exec, com o seu nome impresso a letras douradas e encomendada por vinte e cinco contos, fora os portes do correio:

— Eu sou assim, eu gosto de desafios e estou certo de que você também gosta!

Esta frase, ouvida com digna circunspecção, causou um estremecimento íntimo assaz desagradável no interlocutor que era muito avesso e relapso em relação aos desafios. Sem risco de exageros, pode mesmo asseverar-se que odiava desafios. Mas sobre o tremor íntimo irrompeu uma vulcânica consternação, também ela interior, que apenas se manifestou no gesto de apertar o nó da gravata. O licenciado Joel Strosse Neves dificilmente suportava que, fora de uma leve intimidade, um desconhecido o tratasse por você. Você é estrebaria, sete fardos por dia...

A questão das formas de tratamento na Língua portuguesa chegou a dar duelos e mortes, em tempos ainda recentes. Ocorre-me um desfecho sanguinolento ali na rua do Carmo, quando um fidalgo sobranceiro tratou outro por "Vossa Mercê". As soluções violentas não estavam, porém, ao alcance de Joel Neves que, além de ser cinquentão e de físico para o esguio, não se encontrava bastantemente apetrechado de independência material e social para enfrentar o seu chefe directo, nem tão anacronizado que o reptasse para um duelo ao nascer do Sol, nos brejos anexos ao Estádio da Luz, onde ainda pastam carneiros, uma trinca na relva, outra no cimento... Mas também não vislumbrou formas de demonstrar ao Vaz Alves que ele não se encontrava muito ao corrente da pragmática do Português. Ou, dito por outras palavras, mais chegadas ao pensamento de Strosse, que o outro era um casca-grossa um tanto ajavardado, simbólico de ruins tempos. Procurou no entendimento expressões subtis que manifestassem um descontentamento entretecido de finura. Apenas maltratou de novo a gravata. A elaboração mental era, de resto, ociosa, porque se Joel Strosse tivesse encontrado a frase fina e cortante que perseguia, provavelmente o interlocutor não a teria compreendido.

— Desafios? — inquiriu Joel Strosse, enfim, com a frieza cortês que pôde arranjar.

Abra-se aqui uma analepse, que é a figura de estilo mais antiga da literatura, vastamente usada pelo bom do Homero, quando não dormia, e não sei mesmo se pelo autor do Gilgamesh. Logo verei, com mais vagar. Os cineastas — deslembrados de Homero ou Camões — estão candidamente convencidos de que foi o cinema que inventou a analepse, a que chamam flash-back. E até há alguns que manifestam animadversão contra os flash-backs, e nisto fazem lembrar uma escritora que tinha tanta repulsa aos diálogos, como os monges medievais ao grego e Mafoma ao toucinho: "Diálogos? Não se lê!"... São estranhas e peculiares tinetas, desculpáveis por esta defeituosa natureza humana de não poder acudir a tudo. Não me ocorre agora nenhum escritor que abomine as analepses, mas deve haver algum. Esse não será, com mágoa minha, leitor deste livro, o que lhe restringe perigosamente o alcance.

E vem a tal analepse para contar o que se passou momentos antes (mais exactamente, quatro minutos e meio) quando, apreensivo, Joel Strosse, avisado por um contínuo, penetrou no gabinete de Vaz Alves, apertou o botão do casaco com a mão esquerda e a mão direita de Vaz Alves com a outra.

Vaz Alves abriu gestos largos, de braços em volteio elegante, exibiu o relógio Rolex que descaiu um pouco sobre uma daquelas pulseiras com duas esferazitas que servem para dar energia e evitar doenças e não sei se maus-olhados, e sorriu abundantemente. Instalados, fez considerações sobre a decoração do gabinete, acoimando de surrealista um inofensivo candeeiro italiano daqueles que articulam varinhas muito compridas e esterlicadas a rematar numa luzinha de halogéneo. Depois, remexeu na pasta pessoal de Joel e entalou-a entre as páginas da sua agenda especial de executivo, de onde sobrou bastante. Pigarreou, fez-se sério, contemplou o tecto e comprimiu as mãos no gesto a que os especialistas de gestos chamam "em abóbada". Embora não fosse, de ordinário, muito previsto, Joel nessa altura alarmou-se e pensou: "temo-la armada!".

Tinha, pois! Alves já explicitava, com vigor, as profundezas do seu conceito sobre a Fundação. Aquilo — deixássemo-nos de tretas! — era uma empresa. Como todas as empresas, tinha clientes. Aos destinatários do giro da empresa preferia ele chamar "o cliente difuso", designação que lhe parecia preferível à de "cliente global", configurando os "alvos" da "oferta de produtos". Nessa conformidade (ele dizia "como tal") o primeiro requisito que se exigia era que os colaboradores (eufemismo para "empregados") fossem capazes de "implementar", em primeiro lugar a eficácia, em segundo a eficácia e em terceiro, a eficácia.

Esperou uns instantes fitando olhos de águia em Joel, que a Joel mais pareceram de abutre, para ver o efeito que produzia o achado. Na verdade não havia efeito nenhum, apenas algum espanto, porque Joel Strosse, se bem que desmemoriado, ainda se lembrava da tripla audácia de Danton, nos tempos em que Danton, o Terror e a Convenção podiam ser matéria de conversa entre pessoas de ilustração tão-somente mediana.

"Em termos de" eficácia, ponderara Vaz Alves que Joel estava mal aproveitado e que convinha tirar partido dos seus interesses intelectuais, atestados e reiterados pelo Público entalado devotamente debaixo do braço, numa casa em que toda a gente, quando lia, lia o Correio da Manhã. E aqui encaixou aquela pergunta sobre se o outro gostava de desafios que deixou Joel Strosse a matutar sobre se não estaria em marcha uma maroteira de alto lá com ela. Estava, estava... Vaz Alves propunha-lhe que passasse a ocupar-se da biblioteca da Fundação, lugar criado mesmo à medida das suas morosidades reflexivas e filosofantes. Via-se logo que ele — Joel — tinha aquela coisa de ser muito capaz de gostar de livros. Era assim que Alves considerava a "optimização dos recursos" humanos. Para as tarefas de velocidade, os jovens cheios de genica, para as tarefas de sossegada ponderação, os veteranos cobertos duma pátina de sabedoria acumulada, que mais não fosse, pela provectude.

E como, no dia seguinte, por inspirada coincidência, Joel Strosse seguia para férias, quando regressasse já encontraria o seu gabinete instalado na biblioteca. E tinha gostado muito de conhecê-lo, havia sido mesmo um verdadeiro prazer e contava que se propiciassem mais oportunidades para outras conversas assim instrutivas. E desejava-lhe boas férias. Não ia para Benidorme? Fazia mal, que Benidorme era muito bonito, embora ele, Vaz Alves, preferisse as Seichelles, um paraíso em que o único problema eram as diarreias. E já lhe estendia a mão, apertando-lha de estalo, com um grande sorriso, como quem diz: "sempre camaradões, hem?".

Só no patamar alcatifado da escada Joel Strosse teve oportunidade de resmonear, mas apenas de si para si — porque a porta almofadada do outro já estava fechada e a secretária acabara de proferir um "bom dia" sorridente, musical e impróprio, dado o adiantado da hora — que não gostava nada de ser bibliotecário e ainda se sentia com energia suficiente para continuar a redigir ofícios e pareceres. Um bibliotecário não mandava em nada. Não tinha mão sobre os destinos dos cidadãos...

Desde há anos que passavam pelo gabinete de Joel, a um ritmo regular, embora não excessivo, os pedidos de subsídios que ele devia atender ou desatender, de acordo com a política da Fundação que dividia o mundo das solicitações em três continentes de tamanho desigual. O das "dignificantes" que, em tempos de maior francofonia, seriam apodadas de "chic" ou "très chic", o das "interessantes mas não prioritárias" e o das "inexistentes". Por exemplo, uma exposição de colchas bordadas à mão pela marquesa de Valverde, um curso de ikebana, ou uma conferência sobre heráldica & armoria, seriam classificados de "dignificante"; um espectáculo da Cornucópia, um recital de versos de Alexandre O’Neill, ou um filme português em busca de subsídio, sofreriam a nota de "interessante mas não prioritário". Um livro de poesia de um jovem autor seria inexistente. A distinção, às vezes, exigia termos hábeis, para o que a Instituição havia sempre contado com a argúcia de Joel Strosse Neves. Uma proposta interessante mas não prioritária poderia transformar-se em dignificante desde que suficientemente "mediatizada", ou seja, propalada pela chamada comunicação social. A "mediatização" era assim uma espécie de banho dourado, apto a transformar um castiçal de chumbo desvalido numa peça de vitrina. Este critério levou mesmo a que o senhor Marco Paulo, arrumado de início na categoria de "inexistente", por causa daquele hábito de actuar nas feiras e romarias, fosse promovido per saltum a "dignificante" desde que apareceu com um programa (um "chou") na televisão.

Joel orgulhava-se de jamais ter deixado uma carta sem resposta, e de, com uma única excepção que lamentava, mas sempre omitia — e eu, portanto, respeitarei — nunca ter repetido os vocábulos de ofício para ofício, fruto de aturado labor sobre o dicionário de sinónimos. Chegava a gabar-se de intuição para qualificar as requestas e promovê-las ou despromovê-las consoante "os ventos ambientais", como ele próprio confessava em casa. Tinha criado um estilo. A face da Fundação durante anos e anos havia sido a sua prosa. E tudo em vão. Um badameco recém-chegado, ainda por cima licenciado em Montpognon, especialista em "alminhas", tinha poderes para o sepultar na biblioteca.

Num arremesso de rebeldia, tocou em dois botões e chamou os dois elevadores simultaneamente, violando, com descaro, uma circular da Administração. Daí a instantes teria de escolher entre a caixa forrada de napa branca com altifalantes que emitiam As quatro estações, de Vivaldi, o Adagio de Albinoni e o Coro dos escravos de Verdi, ou a de fórmica cinzenta com círculos de néon luminoso em que se ouvia O marco do correio, o Fado do embuçado, ou um cantor de Coimbra, agora desembargador na Relação, que trilava: "Que lindos olhos tem/ / a filha da moleirinha/ Mal empregada é ela/ a andar ao pó da farinha...".

Foi precisamente ao som do "pó da farinha" que Joel saiu no piso competente e deitou ao seu gabinete um olhar melancólico e derradeiro, quase tão dramático como aqueles condenados à morte que antes de o carrasco lhes apertar o nó ao pescoço, e de proferirem a cabal frase histórica, aspiram profundamente o perfume da terra e formulam meiguices mentais para os campanários em volta, os rebanhos, os alecrins, as vedações, o Sol, a Lua, o bom povo, a mulher chorosa, o filho de bracito estendido e, de forma geral, as coisas que consideram aprazíveis e boas. Assim aquelas estantes de raiz de nogueira, aquela Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, o Dicionário de sinónimos da tertúlia edípica, o pesa-papéis figurando a Vénus de Milo, embora lascada no pedestal, a fotografia do filho Cláudio aos dez anos de idade, já muito esmaecida, o tapete de Arraiolos, com um furo de cigarro escondido debaixo da perna da secretária, torneada à holandesa, as rimas de documentos, folhetos, prospectos e fotografias a consultar, os despachos já minutados e prontos para entrega: "Em resposta à prezada carta de V. Ex.a datada de... do corrente, cumpre-nos informar que o seu projecto denominado ‘Biblioteca elementar básica’, se bem que interessante não consta actualmente das prioridades desta Fundação...".

Nunca mais. Aquelas mãos, tão aptas a compor subtilezas, teriam de se limitar a partir de agora a esgatanhar frases secas, desprovidas de encanto e de império: "Acusamos recebida a amável oferta de V. Ex.a que penhoradamente agradecemos", ou "Verificando com pesar que V. Ex.a ainda não devolveu...".

Futuro sombrio, descriativo e monótono... Sentou-se, de queixo pousado nas mãos, recusou o café da tarde, desenhou uns bonecos mais ou menos idiotas numa folha de papel (borboletas e casinhas com chaminés fumegantes) e não redigiu uma única linha até à hora de sair. Ainda considerou a probabilidade de comunicar o caso à secretária do corredor e de fazer cara queixosa, numa despedida pungente. Mas a fulana provavelmente iria rir-se dele para os lavabos, com as outras. Prudentemente, Joel optou por gasalhar o seu desgosto em silêncio, até à hora de saída.


 
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