Otavio
Dias
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Carrasco: uma viagem espiritual | |
A
Senhora das Velas, de Walcyr Carrasco (Arx; 160 páginas; 24,90
reais) Escritor, dramaturgo e cronista de Veja São Paulo, Walcyr
Carrasco é autor de telenovelas de grande sucesso, como Chocolate com
Pimenta e Alma Gêmea. Nesta última, Carrasco colocou elementos
do espiritismo como a reencarnação no meio das tramas
de época tradicionais das novelas das 6. O leitor de A Senhora das Velas
vai encontrar a mesma sensibilidade para os temas espirituais. O personagem
central é Felipe, um menino que perde a mãe muito pequeno. Sua avó
explica que a mãe do garoto teve a chama da vida apagada pela Senhora das
Velas uma explicação enigmática que vai lançar
o inquieto Felipe em uma viagem cheia de percalços e aventuras. Leia
trecho
Pãozinho quente. Barulho de chinelo. Vovó.
Galinhas cacarejando e até o cheiro das penas molhadas. Muito,
muito tempo depois, Felipe ainda se lembraria dos ruídos, dos aromas, das
mil sensações anunciando o amanhecer. A cada vez, teria a mesma
saudade, idêntico desejo de abraçar a avó, de ouvir a voz
do pai, de tomar o leite morno e açucarado com queijo fresco feito em casa.
Ah, que saudade daquele tempo repleto de abraços! Acordava
cedo, logo depois do canto do galo, abria a janela de tábuas velhas e deixava
o sol iluminar o assoalho gasto, de madeiras soltas e pregos enferrujados. Não
se cansava de admirar o verde do sítio, a claridade do céu, de respirar
o ar gostoso do amanhecer, úmido de orvalho. Era uma sensação
deliciosa deixar o olhar se perder em uma paisagem tão bonita! Mal tinha
noção da pobreza em que vivia, da perpétua falta de dinheiro
da família. Sua vida era simples, mas repleta de amor. O dinheiro não
parecia ter tanta importância. A
roupa era a mesma de sempre. Não tinha nada novo. Usava o tênis velho,
já apertado, tão apertado que o dedão abrira um buraquinho
na ponta. Encolhia os pés para o pai não perceber. Só poderia
ganhar tênis novos depois da colheita de milho e feijão. Sabia disso.
Teria de continuar se virando com os velhos, mesmo que os pés crescessem
como abóboras. Lavava o rosto na torneira do tanque, fora de casa. Água
fria e sabão. Nos últimos tempos, até mesmo um sabonete perfumado
se tornara um luxo impossível. A avó juntava os restos de sabão
e derretia no fogo, fazendo depois novas barras. Às vezes, na escola, ao
aproximar-se de alguma garota, Felipe sentia um delicioso cheiro de banho recém-tomado,
com sabonete dos bons. Respirava
fundo, disfarçando para ninguém perceber. Era muito ligado em cheiros,
o Felipe. Por exemplo, o dos lençóis. A avó se esforçava,
mas tinha muito trabalho cuidando da casa, da comida, das galinhas, para ajudar
o pai. Lençóis bem brancos, com aquele cheirinho de limpeza... ah...
só no tempo da mãe! As lembranças eram tão vagas!
Pouco se recordava de quando a mãe era viva! Morrera quando ele ainda era
muito pequeno. Lembrava dos dedos delicados fazendo cafuné em seus cabelos,
do som de uma voz feminina, mais suave do que a da avó. Ainda agora, quando
estava em casa, sozinho, de repente parecia ouvir a risada da mãe. Corria
para a cozinha. A varanda. Nada! Seria apenas o som do vento passando por entre
as árvores? Às vezes tinha esperança. De uma forma misteriosa,
talvez ela pudesse visitá-lo de vez em quando. De todas as recordações
da mãe, a principal era de suas risadas cheias de alegria! Por mais longe
que ela estivesse, por mais impossível de alcançar, uma coisa ele
sabia: o amor nunca terminava! A mãe continuava viva em seu coração. A
vida em casa era boa. Mas, na escola, um sofrimento! Suas roupas, velhas e remendadas,
mais pobres que as de qualquer outro, eram motivo de deboche. Faziam piada, perguntavam
se dormia no galinheiro, pois cheirava a galinha! O
pior é que era verdade! A janela de seu quarto ficava ao lado do enorme
galinheiro da avó. Em dias de chuva, o odor das penas molhadas tomava conta
de tudo. Nos dias de sol, exalava um forte cheiro de excrementos. Felipe realmente
cheirava a pena molhada. Por mais que tomasse banho e se esfregasse, o cheiro
continuava lá, grudado na pele. Parecia se misturar com suas roupas, penetrar
nos cabelos, em todos os poros. Mas isso nem era o pior. Muito, muito pior eram
suas orelhas, motivo de riso geral. Ninguém o chamava pelo nome. Só
de Orelhudo. As
orelhas de Felipe eram bem maiores do que as de um garoto de sua idade. E abertas.
Orelhas de abano, diziam. Loiro, tinha os cabelos curtos, a pele rosada. Seria
bonito se as orelhas não se destacassem tanto. Todas as manhãs,
logo após lavar o rosto, observava-se no pedaço de espelho precariamente
apoiado sobre o cano da torneira. Oh! As orelhas não cabiam no espelho!
Saíam da moldura! Não
fazia questão de ser bonito. Nem dava tempo para isso. Quando terminavam
as aulas, ajudava o pai na plantação. Principalmente em época
de colheita. Horrível era sentir-se tão feio! Esquisito. E as brincadeiras
dos colegas! Escondiam sua mochila, jogavam tinta nas páginas de seus cadernos.
Certa vez, pegaram seu tênis logo após a aula de esportes. Ficou
desesperado. Um ficava atirando o tênis para o outro, rindo, enquanto ele
corria tentando pegar, feito joão-bobo. Riam às gargalhadas. -
Tem tanto chulé que é melhor jogar no rio! - gritava um garoto. Um
grande medo tomou conta de Felipe. E se perdesse um pé do seu único
par de tênis? Pulou em cima do menino. Este jogou para outro. Felipe saltava
cada vez mais, tentando salvar o tênis. O que faria se não tivesse
mais o que calçar? De repente foi salvo. Uma garota, filha do dono do bar
da rua logo adiante, aproximou-se deles. Era baixinha, morena, com gestos firmes
e rápidos. Tão brava que nem fez esforço para tirar o tênis
da mão de um garoto, totalmente sem jeito diante da fúria da menina.
Devolveu. -
Chega! Felipe
pegou, agradecido. Os garotos pararam, a risada desapareceu do rosto deles. Uns
dois ou três assobiaram. Vaiaram. Mas a gozação acabou. -
Obrigado - agradeceu Felipe. -
Ah, também não tem tanta importância. Você exagerou,
gritando desse jeito. Fez o que eles queriam! - respondeu a menina, observando
o pé do tênis. - Está muito velho. Já devia ter ido
para o lixo faz tempo. -
Eu não tenho outro - murmurou Felipe, envergonhado. Ela
mudou de expressão. Ficou séria e olhou-o de um jeito que ele não
conseguiu entender. Mesmo assim, sorriu. - Meu nome é Celeste. E o seu? -
Felipe - falou, com um nó na garganta, emocionado pelo gesto de amizade. No
outro dia, no intervalo, Celeste lhe ofereceu um pedaço de sanduíche.
A partir de então, quando trazia algum salgadinho no lanche, lhe oferecia
um. Ele sempre aceitava. Adorava coxinha, empadinha, pastel. Quase nunca se falavam.
Trocavam apenas sorrisos, um "quer?", outro "obrigado!", dito
com os olhos no chão. Mesmo assim, era a única pessoa que Felipe
podia considerar sua amiga. Às vezes, pensava: "Se eu fosse namorar,
seria ela!". Mas nem tinha coragem de se aproximar. Dizer
o quê? A maior parte das vezes, quando ela se aproximava, ficava vermelho!
Perto dela, sentia um calorzinho no peito! Seria
tão bom se pudessem conversar um pouco mais. Se encontrasse alguma coisa
para dizer! Puxar papo, como os outros garotos sabiam fazer tão bem. Ou
simplesmente se pudessem ficar juntinhos, olhando as estrelas! |