O
Homem que Inventou Fidel,
de Anthony DePalma (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das
Letras; 368 páginas; 48 reais) Em 1957, a ditadura de Fulgencio
Batista, em Cuba, afirmava que Fidel Castro havia morrido. Coube ao jornalista
americano Herbert Matthews desmascarar a impostura. Ele publicou uma entrevista
com o guerrilheiro no The New York Times. Ingenuamente, Matthews escreveu
que a guerrilha de Castro era "democrática" e "anticomunista". DePalma,
também jornalista do The New York Times, narra a história
de Matthews e examina a sua influência na opinião pública
americana.Leia
trecho 5.
Fortalezas impenetráveis Fidel
passou entre as guaguasís altas e esguias e os arbustos espessos
que pingavam o orvalho matutino para saudar o surpreso correspondente americano
que fizera esperar durante a noite. O dia começava a nascer e Matthews
estava enlameado, faminto, com frio e precisando fazer a barba e tomar um banho
quente. Mas para isso viera de Nova York, o motivo pelo qual havia abandonado
uma carreira confortável na universidade: era o tipo de encontro com a
história que sempre o fazia sentir-se mais vivo. Fidel entrou na clareira
quando o sol acabava de irromper através das nuvens, inaugurando o dia.
Vestia uniforme de serviço novo e um boné cinza-oliva, e carregava
um rifle longo com lente telescópica. "Podemos
acertá-los a uma distância de mil metros com estas armas", jactou-se
para Matthews logo depois de cumprimentá-lo, brandindo o rifle como se
fosse um troféu. O impacto das palavras dificilmente poderia ter sido mais
dramático. Era uma cena clássica de um encontro inesperado, a reunião
histórica de duas forças atraídas mutuamente pelo destino.
Matthews já dispunha de uma quantidade substancial de informações
sobre a vida de Fidel, seu movimento e sua história, mas precisava descobrir
muito mais. Fidel não sabia nada sobre Matthews, exceto que era americano
e escrevia para o Times. E como havia passado vários meses em Nova
York tentando angariar fundos, tinha uma idéia das posições
do jornal e do valor potencial que um artigo publicado nele, livre da censura
de Batista, conferiria a seu vacilante movimento. Fidel tinha o controle do cenário,
do momento e, em larga medida, do conteúdo da entrevista. Tanto Fidel como
Matthews pretendiam usar um ao outro para seus próprios fins. Para o cubano,
o americano era um conduto para suas idéias, um sistema de comunicação
com o público que transmitiria uma mensagem importante ao mundo. Matthews
via em Fidel uma maneira de provar que ainda era capaz de entrar numa situação
fisicamente difícil e furar a concorrência. Fidel queria impressionar
Matthews, intimidá-lo e talvez até assustá-lo com sua conversa
sobre acertar soldados. Mas Matthews estava ocupado demais registrando o que via
para demonstrar que estava com medo. "Levando
em conta, como alguém faria de início, seu físico e sua personalidade,
tratava-se de um homem e tanto, com mais de 1,80 metro de altura, pele azeitonada,
rosto cheio, barba irregular", escreveria Matthews no primeiro dos três
artigos baseados na entrevista. À luz do dia, ele avaliou rapidamente o
acampamento temporário montado para a entrevista. Percebeu que, com exceção
de Fidel, ninguém tinha nem metade da sua idade e que os rebeldes que o
seguiam estavam inflamados com a excitação da juventude revolucionária.
"Como são jovens!", rabiscou em suas anotações.
Embora os combatentes que viu tivessem menos de 25 anos, suas armas eram rifles
americanos antigos e obsoletos e uma metralhadora de confiabilidade questionável
que os rebeldes diziam ter capturado em um ataque a uma base do Exército
semanas antes. Matthews observou que alguns homens trajavam uniformes grosseiros
e descombinados, enquanto outros vestiam roupas civis esfarrapadas. Um deles usava
uma camisa branca que, apesar de suja, brilhava inconvenientemente no meio da
vegetação verde: um traje arriscado para fazer guerrilha. "Sou
o primeiro", anotou Matthews, saboreando o furo que conseguiria por ser o
primeiro repórter - americano ou cubano - a visitar o acampamento rebelde
e preparar uma matéria notável sobre a sobrevivência de Fidel.
Não trouxera caderno ou máquina de escrever e usava folhas de papel
de carta dobradas em três, de tal forma que cabiam em sua mão esquerda
enquanto escrevia com a direita. Com 1,85 metro de altura, Matthews estava acostumado
a olhar para seus entrevistados de cima. Agora, via-se olhando direto para os
olhos castanhos de Fidel e ficou cativado pelo modo como eles brilhavam de inteligência
e ousadia. Notou sua "extraordinária eloqüência" e
sua "personalidade irresistível". Até a barba do rebelde,
um conjunto incompleto de suíças negras esfarripadas, o impressionou,
embora não pudesse imaginar que ela se tornaria parte significativa de
sua iconografia revolucionária. Porém, ao destacar a juventude de
Fidel quando escreveu sobre a entrevista e ao mencionar sua barba, os cabelos
longos de seus seguidores e sua tentativa audaciosa de desafiar a ordem estabelecida,
Matthews estava identificando os elementos essenciais do caráter rebelde
de Fidel para os americanos, que muito em breve veriam sua juventude adotar algumas
dessas características nos anos radicais e rebeldes da década de
1960. Matthews
foi submetido ao talento teatral de Fidel. No decorrer da entrevista, o líder
cubano agachou-se perto dele e sussurrou que colunas de soldados de Batista cercavam
a área onde estavam, uma pequena crista no sítio miserável
de um morador local chamado Epifanio Díaz. A área estava envolta
em densa folhagem e havia nas proximidades um riacho. Ele sabia que o Exército
pretendia liquidar os remanescentes de suas forças rebeldes antes que se
desse o término do período de censura, marcado para 1.0
de março. Fidel inclinou-se na direção de Matthews, que usava
um sobretudo escuro e um boné comum, e pôs os lábios perto
do ouvido do correspondente. Falava num sussurro rouco e com uma intensidade que
fazia com que tudo o que dizia parecesse possível. Matthews
não se deu conta, mas não havia penetrado fundo na Sierra. O local
do encontro estava a apenas quarenta quilômetros da cidade de Manzanillo,
longe do coração da floresta. No entanto, o terreno era selvagem
o bastante para dificultar a chegada de uma patrulha do governo. A principal linha
de cerco do Exército estava montada a cerca de 25 quilômetros do
ponto em que estavam, e no terreno acidentado que os separava não havia
estrada pavimentada, apenas algumas trilhas marcadas pelos sulcos de carros de
bois. Era um território perigoso para os soldados, porém uma boa
região para os guerrilheiros. A floresta densa oferecia também camuflagem
para escondê-los das patrulhas aéreas. Os
rebeldes esticaram cobertores no chão para Fidel e para Matthews e deram
ao americano um pouco de seus víveres: suco de tomate, café, bolachas
e presunto. Fidel disse que os camponeses locais que os abasteciam com seus produtos
eram pagos com generosidade e elogiou vigorosamente o apoio que davam à
revolução. Os trezentos dólares trazidos por Matthews seriam
usados para esse fim, e no lugar de onde vinha aquele dinheiro havia muito mais.
Pessoas de todo o país apoiavam seus esforços para se livrar de
Batista, jactou-se Fidel, algumas delas tão ricas e poderosas que causariam
surpresa se seus nomes fossem revelados. Fidel
podia falar em inglês, mas deixou claro que preferia fazer a entrevista
em espanhol. Matthews concordou, embora registrasse a maior parte de suas anotações
em inglês. No decorrer da conversa, Fidel falou-lhe de seu objetivo mais
amplo de um país livre e independente, governado pelo império da
lei e o respeito aos direitos de todos os cubanos. Enquanto escutava com atenção
o plano de batalha de Fidel, Matthews pôde perceber como a coragem e a liderança
dele animavam aqueles que o seguiam. Seria
uma campanha clássica de guerrilha, na qual a cobertura profunda da Sierra
obstruiria e confundiria o Exército regular que perseguia os rebeldes.
Surpresa e ação furtiva seriam suas principais táticas, com
ataques aos soldados onde e quando eles menos esperassem, para depois desaparecer
no meio da Sierra. Ali, o menor número dos rebeldes se tornava uma vantagem
tática, e cada árvore ou arbusto era um aliado. Fidel
disse a Matthews que os soldados de Batista lutavam mal e não estavam preparados
para aquele tipo de ofensiva na montanha, ao passo que seus homens se adaptaram
à guerra de guerrilhas durante o longo treinamento feito no México.
Mesmo com a superioridade inconteste do governo em efetivos e na qualidade dos
armamentos, os soldados não podiam fazer muito mais do que ter esperança
de topar com uma patrulha de rebeldes e capturá-los ou matá-los
antes que conseguissem fugir. Quando os soldados recuavam para seus quartéis,
revelou Fidel, estavam sujeitos a sofrer ataques enquanto dormiam ou então
a serem alvejados por um rifle de longo alcance sem nem saber que eram alvo. Os
homens de Batista estavam ficando desmoralizados, e os rebeldes, por sua vez,
se sentiam mais fortes e mais confiantes a cada dia. Fidel contou a Matthews que
o Exército havia executado alguns de seus homens depois de capturá-los
para dar um exemplo do que poderia acontecer àqueles que desafiavam o governo.
Mas ele tratava seus prisioneiros com humanidade e mais tarde os libertava, num
gesto destinado a conquistar uma fatia mais ampla do povo cubano. Fidel
estava consciente de que a censura de Batista impedia a maioria dos cubanos de
ter uma noção mais concreta sobre o movimento: "Você
será o primeiro a contar isso para eles". Matthews percebeu que tinha
uma notícia sensacional nas mãos, daquelas que aconteciam somente
uma vez na vida. Para um adepto intransigente da liberdade de imprensa, aquela
matéria iria servir para muitos fins, mas seu objetivo principal era romper
o silêncio que Batista havia imposto. Repugnava-lhe a simples idéia
de censura governamental. Um artigo sobre Fidel na primeira página do New
York Times tornaria a censura sem sentido e ressuscitaria Fidel dos mortos. Como
advogado e estudioso da revolução, Fidel compreendia a importância
de uma imprensa que nutrisse alguma simpatia pelo movimento. Sabia que, para conquistar
Matthews, teria de convencê-lo de que os rebeldes dominavam a Sierra e ficavam
mais fortes a cada dia. Pouca coisa em relação ao encontro se deveu
ao acaso. Celia Sánchez, que se uniu a Fidel nas montanhas e seria sua
confidente mais próxima durante toda a revolução, encarregara-se
de montar o acampamento temporário, para que Matthews acreditasse que os
soldados desgrenhados compunham um exército. Seu estado era lamentável
depois de dois meses e meio em fuga: as roupas estavam rasgadas, os sapatos enlameados
e estragados, alguns amarrados com pedaços de fios. Ela mandou que se limpassem
da melhor forma possível. Eles tiraram a lama dos rifles e marcharam em
formação militar perto o suficiente para que Matthews os visse.
Um deles, cuja camisa estava tão rasgada que fora presa nas costas por
uns farrapos, marchou de perfil para que o americano não se desse conta
de que parecia mais um vagabundo do que um soldado. Mas é difícil
imaginar que Matthews não o tenha visto e percebido o ardil imediatamente. Relatos
contemporâneos daquele dia não mencionam nenhuma tentativa dos rebeldes
de marchar em círculos ao redor de Matthews para fazê-lo crer que
eram em número maior. E a topografia do local de encontro torna improvável
a ocorrência dessa cena. A clareira em que Fidel se reuniu com Matthews
era uma crista que se projetava sobre um pequeno riacho, chamado pelos camponeses
da região de rio Tio Lucas. Como o rio cercava o lugar por três lados,
os soldados de Batista não poderiam se aproximar sem que fossem detectados
pelos rebeldes. Mas isso significa também que não havia espaço
para que os homens marchassem em torno de Matthews sem que ele notasse a manobra. Não
obstante, houve ampla direção de palco durante o encontro. Enquanto
Fidel e Matthews conversavam, um dos rebeldes, Luis Crespo, retornou de uma expedição
de reconhecimento e se apresentou para Raúl Castro, que o afastou para
um canto. Crespo faria uma ponta no espetáculo que se desenrolava. Seguindo
as instruções de Raúl, ele correu até Fidel, que estava
mergulhado na conversa com Matthews, e o interrompeu: "Meu comandante, conseguimos
alcançar a segunda coluna". Fidel
também desempenhou seu papel no drama revolucionário. "Espere
até eu terminar", gritou para Crespo, e voltou-se para Matthews, explicando
que os homens e os equipamentos ao redor deles constituíam a unidade central
da primeira coluna e que a Sierra estava cercada por colunas de soldados rebeldes.
O lugar em que estavam era bem guardado e nada se movia sem que soubessem. Os
rebeldes haviam avaliado o inimigo e conheciam seu tamanho, sua força e
sua estratégia. Matthews
escreveu que Fidel acreditava que Batista tinha 3 mil soldados em campo fazendo
o cerco aos rebeldes, enquanto seus homens caminhavam em células de sete
a dez, "algumas de trinta ou quarenta". Segundo ele, Fidel teria dito:
"Não vou lhe revelar quantos somos, por razões óbvias.
Ele [Batista] trabalha em colunas de duzentos; nós, em grupos de dez a
quarenta, e estamos vencendo. É uma batalha contra o tempo e o tempo está
do nosso lado". Matthews
tinha de comparar aquela informação com as estimativas independentes
que já conhecia a respeito das forças rebeldes. Durante a semana
que passara entrevistando fontes em Havana, disseram-lhe que o grupo original
de 82 homens do Granma fora reduzido a não mais de quinze, mas que
havia se reconstituído e atraído gente suficiente para montar uma
força combatente de várias centenas, além de outros tantos
simpatizantes em toda a Sierra. Matthews teve a presença de espírito
de contar os indivíduos que viu durante a entrevista, embora o cenário
fosse confuso e sua atenção estivesse mais voltada para as palavras
de Fidel. Calculou ter visto em torno de 25 homens e mulheres no acampamento temporário.
Podia acrescentar a essa cifra os líderes do Movimento 26 de Julho reunidos
na casa de Manzanillo, além dos batedores e guias que o ajudaram a chegar
ao acampamento. No total, Matthews estimou ter visto ou ouvido mais ou menos quarenta
indivíduos, o que parecia corresponder à descrição
de Fidel de "grupos de dez a quarenta" e sugeria que faziam parte de
uma força maior. Era um cálculo que combinava com o que lhe fora
dito por várias fontes, e o correspondente não viu nada que indicasse
algum erro nisso. Se tivesse escrito que Fidel estava enfiado nas montanhas acompanhado
por não mais do que um punhado de rebeldes, seu despacho causaria estranheza
em Nova York, pois contradiria o que já havia sido noticiado no Times
e o que Ruby Phillips contara aos editores em seus memorandos. Uma estimativa
tão baixa, embora mais próxima, na verdade, do que as centenas que
alguns supunham estivessem com Fidel, teria sido igualmente contestada pela embaixada
americana e por quase todos os cubanos com quem Matthews falara antes de ir para
a Sierra. A
entrevista inteira durou cerca de três horas. Matthews fez apenas algumas
perguntas gerais e Fidel deu uma demonstração magnífica de
oratória. O jornalista ficou impressionado com o modo como "os olhos
castanhos [de Fidel] brilham; como seu rosto veemente se aproxima do ouvinte e
como sua voz sussurrante, como numa peça de teatro, empresta um sentimento
intenso de drama". Um dos homens de Fidel trouxe uma caixa de charutos. O
líder rebelde pegou um e ofereceu a caixa a Matthews, que também
era apreciador. Enquanto o ar se enchia de fumaça aromática, os
dois conversaram sobre política e sobre os objetivos nebulosos de Fidel.
Matthews perguntou se o que ouvira era verdade: que Fidel ia usar o poderio de
suas forças para declarar um governo revolucionário, assumindo o
controle da província de Oriente e fazendo de Santiago a nova capital. "Ainda
não", respondeu Fidel, como se simplesmente precisasse determinar
a hora certa para fazer isso. "Vou me fazer conhecido no momento oportuno.
O retardamento causará mais efeito, pois então estarão todos
falando de nós. Estamos seguros de nós mesmos." Enquanto
fumava seu charuto, Matthews tentava avaliar o homem que estava diante dele. Era
óbvio que Fidel tinha uma enorme autoconfiança e sua crença
em si mesmo e em sua causa era o combustível que detonava a paixão
dos homens ao seu redor. Mas Matthews pensou ter detectado também algumas
fraquezas. Não achava que Fidel tivesse convicções firmes
sobre questões complexas da economia nacional. Nem viu provas de que fosse
um grande líder militar. Obviamente, era dotado de um pensamento revolucionário,
e político. Fidel
deixou claras suas ambições nesse terreno, embora não fosse
capaz de descrever como pretendia alcançar seus objetivos. O nacionalismo
estava no cerne de sua revolução, e isso significava que ele se
posicionava contra as forças do colonialismo e do imperialismo que, em
suas palavras, oprimiam Cuba. Estava irado com os Estados Unidos pelo apoio que
davam a Batista e as armas que lhe forneciam para combater os rebeldes na Sierra
e contra os cubanos em toda a ilha. Mas isso não significava que fosse
antiamericano, disse a Matthews: "Pode ter certeza de que não temos
nenhuma animosidade contra os Estados Unidos e o povo americano". Matthews
não o contestou, ainda que tivesse captado, nas entrevistas feitas em Havana,
laivos de sentimentos ambivalentes de Fidel em relação aos Estados
Unidos. Matthews
pensou ter detectado fortes traços democráticos nos objetivos revolucionários
de Fidel. Ele defendia a liberdade, a democracia e a justiça social, e
seu alvo maior era restaurar a Constituição que Batista havia violado
com o golpe de 1952. Realizar novas eleições, disse Fidel, o ex-candidato
a deputado, e devolver aos cubanos o direito democrático de escolher seus
líderes - esse era o objetivo principal. Matthews
atribuiu outros objetivos aos rebeldes, ainda que os tenha esboçado somente
em termos gerais. Repetindo as observações feitas por Ruby Phillips,
indicou que o movimento era levado a cabo principalmente por jovens e rotulou
Fidel de "símbolo flamejante da oposição" ao regime
de Batista, não obstante soubesse que havia líderes fortes em outros
grupos de oposição. Descreveu o Movimento 26 de Julho como revolucionário
e o classificou de socialista e nacionalista, mas definitivamente não comunista.
Matthews aderiu à definição formal de comunista, que incluía
somente aqueles que pertenciam ao Partido Comunista e que recebiam ordens do Comitê
Central, um enfoque estreito assumido por muitos outros observadores. Sabia que
Fidel pretendia forçar Batista a abandonar a presidência, entretanto
só vagamente conseguia prever o que poderia acontecer depois que o poder
não estivesse nas mãos de ninguém. "Significa um new
deal para Cuba", registrou Matthews, descrevendo a visão do rebelde
de uma Cuba nova que seria "radical, democrática e, portanto, anticomunista". "Sobretudo",
disse Fidel a Matthews naquela manhã, "estamos lutando por uma Cuba
democrática e pelo fim da ditadura. Não somos contra os militares;
por isso soltamos os soldados prisioneiros. Não há ódio do
Exército enquanto tal, pois sabemos que os homens são bons, assim
como muitos oficiais." Porém,
ele não hesitava em se vangloriar de sua perícia para alvejar aqueles
mesmos soldados com seu rifle telescópico e cinqüenta outros iguais
que disse que seus homens carregavam. Nesse ponto, Matthews foi obviamente pouco
crítico. Se tivesse pedido para ver os outros rifles, Fidel teria sido
pego numa flagrante mentira. Naquela época, não havia outros e,
mesmo depois que os rebeldes obtiveram esse tipo de arma, jamais houve cinqüenta.
E Fidel disse mais: quando a revolução triunfasse, os soldados receberiam
cem dólares por mês, bem mais do que os 72 mensais que ganhavam então.
Ele dispunha de dinheiro para pagar por isso e por todos os seus outros planos;
para provar, mandou um de seus homens trazer um pacote embrulhado num pano marrom.
Dentro havia uma grande pilha de notas de pesos. Matthews estimou que ali deveria
haver cerca de 4 mil dólares. Àquela
altura, a friagem da noite já era uma lembrança distante. Eram nove
da manhã e o sol caribenho chamejava. De repente, um bombardeiro passou
no céu e o infeliz rebelde de camisa branca foi empurrado para as moitas
a fim de não ser visto. O avião do Exército seguiu para elevações
mais altas da Sierra, de onde lançou seus explosivos, longe dos acampamentos
rebeldes. "Eles bombardeiam todos os dias", disse Fidel, indicando que
a entrevista acabara. Era hora de Matthews voltar para a cidade. "Você
assumiu um risco e tanto ao vir aqui", disse Fidel, e pela primeira vez reconheceu
a missão de Matthews. Se fosse possível definir o momento em que
nasceu uma relação pessoal entre os dois, foi aquele. O fato de
compartilhar o perigo, assim como haviam partilhado comida e charutos naquela
manhã, os uniu em um pacto sem palavras. Matthews já havia demonstrado
a disposição de acreditar em Fidel. Suas perguntas durante a entrevista
foram diretas e até gentis, desprovidas da intenção de prejudicá-lo
ou surpreendê-lo em contradição. Ele não contestou
as afirmações de Fidel, nem mesmo aquelas que devem ter parecido
improváveis, como a alegação de que suas tropas esfarrapadas
haviam vencido muitas batalhas contra o Exército bem equipado de Batista.
E agora, no final do encontro, Fidel expressava preocupação pelo
bem-estar do americano. Com grande sinceridade, assegurou a Matthews que ele seria
devolvido sem problemas: "Temos toda a área coberta e tiraremos você
em segurança". Antes
de partir, Matthews fez um último pedido, o qual mais uma vez os uniria
num só lado, movidos pelo mesmo objetivo. Mostrou as folhas dobradas em
que fizera as anotações e pediu-lhe que assinasse seu nome nelas.
Haveria quem duvidasse, explicou, mas a assinatura autenticaria a entrevista com
o líder rebelde que se acreditava estar morto. Pediu também que
um dos homens de Fidel os fotografasse juntos, fumando charutos e conversando
sobre as raízes da revolução. Após
o fim da entrevista, Javier Pazos conduziu Matthews morro abaixo até uma
casa de fazenda onde esperaram o jipe em que cumpririam o resto do trajeto. Matthews
foi levado de volta a casa em Manzanillo onde Nancie havia passado a noite. Ali
tirou as roupas enlameadas, tomou banho e fez a barba, cansado, mas explodindo
de expectativa. Comeu alguma coisa antes de ir para Santiago, onde entrevistou
três professores da Universidade de Oriente que eram adeptos do Movimento
26 de Julho. Matthews considerava o apoio deles um sinal da popularidade do movimento
em círculos de classe média. Mais
tarde, no mesmo dia, Matthews e Nancie tomaram o vôo da tarde para Havana.
Embora tivesse sido pressionado a partir em seguida - e Ruby Phillips o incitou
a cair fora antes que alguém descobrisse o que ele havia feito -, Matthews
insistiu em permanecer na cidade por mais um tempo, a fim de entrevistar líderes
estudantis, entre eles José Antonio Echeverría, presidente da Federação
dos Estudantes Universitários, um rival em potencial de Fidel que nem sempre
estava de acordo com ele. Matthews foi levado ao esconderijo dos estudantes no
bairro de El Vedado para um encontro secreto com Echeverría e outros jovens
fanáticos dedicados a derrubar Batista. "Estamos acostumados com lutas
clandestinas", disse o estudante de arquitetura de 24 anos, cujos amigos
o chamavam de "El Gordo". "Os estudantes cubanos não têm
medo de morrer", jactou-se. Não demoraria muito para que tivessem
a chance de provar isso. Como
Matthews sabia, a entrevista era apenas uma das atividades planejadas por Fidel
para aquele dia. Pela primeira vez desde seu retorno a Cuba, ele havia convocado
uma reunião dos líderes nacionais do Movimento 26 de Julho. Pretendia
coordenar seus esforços e controlar as facções concorrentes.
Um grupo queria dispersar os combatentes em várias frentes nas montanhas
e nas cidades. Fidel insistiu que se concentrassem todas as armas e fundos na
Sierra. Ele também estava preocupado com grupos de oposição
como o dos estudantes de Havana, em maior número e mais poderosos do que
o seu, e que disputariam com ele o controle do movimento contra Batista. Fidel
pretendia deixar bem claro que somente uma pessoa deveria estar no comando - e
essa pessoa era ele. Depois
que Matthews deixou a clareira, Fidel tinha outro assunto importante a resolver
antes da reunião com os líderes da resistência nacional. Estava
convencido de que o camponês Eutimio Guerra era um traidor que espionava
para o Exército de Batista. Nas semanas anteriores, Guerra havia se insinuado
no grupo rebelde e, uma noite, Fidel até compartilhara um cobertor com
ele. Guerra deitou-se ao lado de Fidel com uma pistola 45 nas mãos. Tudo
o que tinha a fazer era puxar o gatilho. Seu alvo estava a centímetros
de distância, desguarnecido e totalmente vulnerável. Mas não
foi capaz de fazê-lo. Enquanto
Matthews descia a montanha, Fidel mandou vários homens procurar Guerra
e trazê-lo para uma clareira perto do local da entrevista. Quando o revistaram,
acharam uma pistola, três granadas de mão e uma carta do comandante
local do Exército dando-lhe salvo-conduto na região. Para completar,
Guerra estava usando um par de botas novas do Exército, recompensa pelas
informações que dera sobre os rebeldes e símbolo inconfundível
de sua traição. O
camponês caiu de joelhos e pediu para ser fuzilado imediatamente. Mas Ciro
Frías, um dos homens de Fidel, insistiu que esperassem enquanto o humilhava,
lembrando a ele como se beneficiara do convívio com os rebeldes e como
os havia traído sem piedade. Guerra, de cabeça baixa, pediu apenas
que a revolução cuidasse de seus filhos. O dia havia ficado tempestuoso.
Quando um trovão estalou, um dos homens deu-lhe um tiro na cabeça. Três
dias depois da entrevista com Matthews, Fidel escreveu sua primeira mensagem pública
desde o desembarque, em dezembro. Conforme planejara, o manifesto coincidiria
com a publicação do artigo de Matthews. Nele, delineava rapidamente
como, apesar dos rumores espalhados por Batista, seus seguidores não apenas
sobreviveram, como se reagruparam numa força de combate efetiva que assustava
o Exército. Fidel descrevia as batalhas que haviam vencido e exagerava
suas vitórias, pintando o Exército com as piores cores; a certa
altura, sugeriu mesmo que os soldados haviam fugido e deixado seus mortos para
os abutres. E anunciava: "Pode Batista continuar a esconder do país
e de todo o mundo o que está acontecendo aqui? A entrevista que demos no
coração da Sierra ao correspondente do New York Times será
publicada com fotografias a qualquer momento". A
censura de Batista manteve o manifesto fora dos jornais e das rádios e
poucos cubanos tomaram conhecimento de sua existência. Mas em poucos dias
eles saberiam muito mais. Com
as entrevistas de Echeverría e dos líderes estudantis, Matthews
havia cumprido todos os itens de sua agenda, exceto um. Naquela noite, ele e Nancie
visitaram Ernest e Mary Hemingway na Finca Vigia, a propriedade do casal nas cercanias
de Havana. A Revolução Cubana manteria os dois velhos amigos da
Guerra Civil Espanhola em contato durante um longo tempo. Depois da visita, Matthews
retornou ao Sevilla Biltmore e preparou-se para partir de Cuba, ansioso por começar
a trabalhar nos artigos. Estava preocupado com a passagem pela alfândega
de suas anotações e das fotografias da entrevista. Se fossem descobertas,
poderia haver problemas, especialmente porque traziam a assinatura de Fidel. "Elas
são perigosas", disse Nancie ao marido. "Deixe que eu as levo." Ela
pegou as sete páginas dobradas de anotações e as enfiou em
sua cinta, certa de que os fiscais cubanos não ousariam revistá-la.
Partiram no primeiro vôo disponível, de Havana a Nova York na manhã
de terça-feira, 19 de fevereiro, dois dias após a entrevista na
Sierra. Depois que o bimotor se afastou de Havana e tomou a direção
de Key West, no sul da Flórida, Nancie pediu licença e foi até
o lavatório do avião. Voltou com as anotações amassadas.
Matthews já estava escrevendo a matéria que acreditava iria renovar
sua carreira. Nas
primeiras linhas do que seriam três longos artigos baseados nas entrevistas
feitas em Cuba, ele expunha sua história extraordinária e se colocava
sem rodeios no meio dela para sempre. Fidel
Castro, o líder rebelde da juventude cubana, está vivo e lutando
arduamente e com sucesso nos redutos escarpados e quase impenetráveis da
Sierra Maestra, na extremidade meridional da ilha. O
presidente Fulgencio Batista mantém a elite de seu Exército ao redor
da área, mas seus soldados estão travando uma batalha até
agora perdida para destruir o inimigo mais perigoso que o general Batista encarou
até agora, em uma carreira longa e cheia de aventuras como líder
e ditador de Cuba. Esta
é a primeira notícia segura de que Fidel Castro está vivo
e ainda está em Cuba. Ninguém ligado ao mundo exterior, muito menos
a imprensa, viu o señor Fidel, exceto este jornalista. Ninguém
em Havana, nem mesmo na embaixada dos Estados Unidos, com todos os recursos com
que conta para obter informações, sabe, até a publicação
desta reportagem, que Fidel Castro está realmente na Sierra Maestra. |