Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 496 páginas; 56 reais) – O canadense Alberto Manguel – um dos maiores especialistas mundiais em história da leitura – e o editor italiano Gianni Guadalupi tiveram uma idéia original: criar um livro com descrições de lugares que existiram só na imaginação de escritores. O resultado é esse dicionário de mais de 1.000 verbetes, lançado nos anos 80 e recentemente revisado pelos autores. Há informações de todo tipo – da geografia da ilha de Lilipute, de Viagens de Gulliver, aos costumes das fadas na Terra do Nunca, lar de Peter Pan. Nas quatro páginas dedicadas ao mundo de O Mágico de Oz, aprende-se: "As plantas canibais crescem ao longo das estradas e suas folhas agarram quem se aproxima demais. Para evitar o ataque, basta assobiar". A presente edição inclui verbetes extraídos da literatura nacional, como o Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Leia trecho do livro

SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO - Propriedade rural de não mais de cem alqueires de terra rica em petróleo,situada em lugar bonito do interior do Brasil. Sabe-se quedista légua e meia da vila mais próxima, mas sua localizaçãoexata é desco nhecida, pois a proprietária, dona Benta Encerrabodesde Oliveira, impede a divulgação do endereço. A sede do sítio,uma casa branca de cômodos espaçosos e frescos, possuiquatro quartos: o maior, de dona Benta, o de sua neta Narizinho, o de Pedrinho, primo de Narizinho que lá passa as férias, e o de tia Anastácia, a cozinheira e faz-tudo da casa. Em um canto do escritório, onde ficam três estantes de livros e a mesa de estudo da menina, moram a boneca Emília e o sabugo de milho conhecido como Visconde de Sabugosa. A sala de jantar é bem ampla, com janelas dando para o jardim; depois vêm a copa e a cozinha. A residência dispõe ainda de uma sala de visitas com piano, sofá de cabiúna e palhinha bem esricada, duas poltronas do mesmo estilo e seis cadeiras. A mesa de centro é de mármore e pés também de cabiúna. Na entrada, há uma sala de es pera, com chão de grandes ladrilhos "cor de chita cor-de-rosa desbotada", que se abre para uma varanda muito gostosa. Cercada por gradil de ma deira muito singelo, pintado de azul-claro, cheia de orquídeas e vasos de avenca miúda, é onde do na Benta costuma sentar na cadeira de balanço, com a cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz. Da varanda desce-se para o terreiro por uma escadinha de seis degraus. O jardim, nos fiândos da sala de jantar, é composto por plantas antígas e fora de moda. No seu centro, há um tanque redondo comum a cegonha de louça toda esverdeada de limo, que deveria esguichar água pelo bico, mas o bico e até a cabeça foram vítimas das pelotadas do bodoque de Pedrinho. Nos fundos da casa, depois do "quintal da cozinha", do galinheiro, do tanque de lavar roupa e do puxado da lenha, encontra-se o pomar, com a famosa pitangueira da Emília, as três jabuticabeiras de Pedrinho, a mangueira de espada de Narizinho e os pés de mamão da tia Nastácia.

O terreiro é vedado por uma cerca de paus a pique e uma porteira, bem no centro. Para lá da porteira fica o pasto, onde há um célebre cupim de metro e meio de altura; e mais adiante, um velho cedro, ainda do tempo da mata virgem.

O Sítio do Pica-Pau Amarelo costuma ser visitado por personagens das fábulas, da mitologia, do folclore e da literatura infantil, bem como por nobres da estirpe de Don Quixote de la Mancha. Recentemente, dona Benta adquiriu mais 1200 alqueires de terras vizinhas para ali instalar o Mundo da Fábula.

O visitante não deve deixar de provar as jabuticabas e os bolinhos de polvilho de tia Nastácia. Aconselha-se a consumir com moderação o pó de pirilimpimpim, guardado pelo rinoceronte Quindim e administrado pelo burro falante Conselheiro. Trata-se do pó mais mágico que as fadas inventaram, que deixa a pessoa leve como pluma, tonta, dá uma zoeira nos ouvidos e conduz ao País das Fábulas e ao Mundo das Maravilhas. Mas deve-se tomar cuidado para não molhar o pó com água salgada, pois cessa o efeito.

(José Bento Monteiro Lobato, 0 Saci, São Paulo; 1921; Reinações de Narizinho, São Paulo, 1931; 0 Picapau Amarelo, São Paulo, 1939)

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio