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Quase
a Mesma Coisa,
de Umberto Eco (tradução
de Eliana Aguiar; Record; 492 páginas; 50 reais) Um
dos mais renomados teóricos da literatura, o italiano Umberto
Eco examina nesse livro os problemas da tradução.
O ideal do tradutor é dizer, em outra língua, a mesma
coisa que vai dita no texto original mas, dadas as diferenças
culturais que separam os dois idiomas, esse é um empreendimento
impossível. Com uma profusão de exemplos de várias
línguas italiano, inglês, francês, alemão
, Eco se dedica a mostrar, na prática, como se chega
a uma versão aproximada e aceitável do original. O
livro vai de traduções de clássicos como Shakespeare
com divertidas especulações sobre a palavra
rat (rato) em Hamlet às traduções
de O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, do
próprio Eco.
Leia
trecho
1. OS
SINÔNIMOS DO ALTAVISTA
Parece
que não é fácil definir tradução.
No Vocabolario della lingua italiana editado
por Treccani encontro "a ação, a operação
ou a atividade de traduzir
de uma língua para uma outra um texto escrito ou mesmo oral",
definição
um pouco tautológica que não se revela mais perspícua
se passo ao
verbete tradurre [traduzir]: "verter para outra língua,
diversa da originária,
um texto escrito ou oral". Visto que no verbete volgere
[verter] estão
todas as acepções possíveis exceto a que concerne
à tradução, o máximo
que aprendo no final é o que já sabia.
Não
me oferece mais ajuda o Zingarelli, para o qual a tradução
é a atividade
de traduzir e o traduzir "converter, transportar de uma língua
para
uma outra", embora logo em seguida proponha como definição
"dar
o equivalente de um texto, de uma expressão, de uma palavra".
O problema,
que não é apenas do dicionário, mas deste livro
e de toda a tradutologia,
é o que significa dar o equivalente.
Devo
admitir que o Webster New Collegiate Dictionary me parece
mais
"científico": ele hospeda, entre as definições
de to translate, "to transfer
or turn from one set of symbols into another", transferir ou
verter de
um conjunto de símbolos para outro. Parece-me que a definição
se
adapta perfeitamente ao que fazemos quando escrevemos em alfabeto
Morse
e decidimos substituir cada letra do alfabeto por diversas sucessões
de
linhas e pontos. Contudo o Código Morse fornece uma regra
de "transliteração",
exatamente como acontece quando se decide que a letra a
do alfabeto cirílico deve ser transliterada como ia.
Esses códigos podem ser
usados por um transliterator que, não conhecendo o alemão,
translitere
uma mensagem alemã em Morse, por um revisor de provas que,
mesmo sem conhecer o russo, conheça as regras para o uso
dos signos diacríticos
— e definitivamente os processos de transliteração
poderiam ser
confiados a um computador.
Os
dicionários, porém, falam da passagem de uma língua
a outra (inclusive
o Webster, a rendering from one language into another), e
uma língua
põe em jogo conjuntos de símbolos que veiculam significados.
Se tivéssemos
que adotar a definição do Webster deveríamos
imaginar que, dado
um conjunto de símbolos a, b, c... z
e um conjunto de símbolos a, b,
g... w, para traduzi-lo seria preciso substituir um item do primeiro
conjunto
por um do segundo apenas se, segundo alguma regra de sinonímia,
a tivesse um significado equivalente a a, b a b e
assim por diante.
A desventura
de toda teoria da tradução é que ela deveria
partir de uma
noção compreensível (e férrea) de "equivalência
de significado", enquanto em
muitas páginas de semântica e filosofia da linguagem
não é raro
acontecer de o significado ser definido como aquilo que permanece
inalterado
(ou equivalente) nos processos de tradução. Círculo
vicioso não
desprezível.
1.1
Equivalência de significado e sinonímia
Poderíamos
decidir que equivalentes em significado, assim como dizem os
dicionários, são os termos sinônimos. Mas logo
percebemos que justamente a
questão da sinonímia coloca sérios problemas
a todo tradutor.
Certamente
consideramos sinônimos termos como father, père,
padre e mesmo
daddy, papà e assim por diante — ou pelo menos
é o que asseguram os
dicionários de bolso para turistas. Contudo sabemos muito
bem que
existem várias situações em que father não
é sinônimo de daddy (não se
diz God is our daddy, mas God is our Father) e mesmo
père nem sempre é
sinônimo de padre (em italiano entendemos que a expressão
francesa père
X deve ser traduzida como papà X, de modo que
traduzimos Le père Goriot
[O pai Goriot], de Balzac, como Papà Goriot
— e no entanto os ingleses
não acham que devem traduzi-la para Daddy Goriot e
preferem deixar
o título original francês). Em termos teóricos
isso seria um caso em
que a equivalência referencial (certamente John’s daddy
é exatamente a
mesma pessoa que John’s father, le père de John
ou il papà di John) não coincide
com a equivalência conotativa — que diz respeito ao modo como
as palavras ou expressões complexas podem estimular na mente
dos
ouvintes ou leitores as mesmas associações e reações
emotivas.
Mas
suponhamos também que a equivalência de significado
se torne possível
a partir de algo como a sinonímia "seca" e que
a primeira instrução a
ser dada a uma máquina tradutora deveria ser um dicionário
interlingüístico
de sinônimos, que permita que mesmo uma máquina realize,
traduzindo, uma equivalência de significado.
Dei
ao sistema de tradução automática oferecido
na Internet pelo Altavista
(dito Babel Fish) uma série de expressões inglesas,
pedi uma tradução
em italiano e em seguida pedi que retraduzisse a tradução
italiana para
o inglês. No último exemplo fiz também uma passagem
do italiano
para o alemão. Eis os resultados:
(1)
The Works of Shakespeare = Gli impianti di Shakespeare = The systems
of Shakespeare
(2)
Harcourt Brace (nome de uma editora americana) = Sostegno di Harcourt
= Support of Harcourt
(3)
Speaker of the chamber of deputies = Altoparlante ell’alloggiamento
dei
delegati = Loudspeaker of the lodging of the delegates
(4)
Studies in the logic of Charles Sanders Peirce = Studi nella logica
delle sabbiatrici
Peirce del Charles = Studien in der Logik der Charlessandpapierschleifmaschinem
Peirce
= Studies in the logic of the Charles of sanders
paper grinding machines Peirce
Limitemo-nos
a considerar o caso (1). O Altavista certamente tinha "em
mente" (se é que o Altavista tem uma mente) definições
dicionarizadas, pois
é verdade que a palavra inglesa work pode ser traduzida
em italiano
como impianti e o italiano impianti pode ser traduzido
em inglês como
plants ou systems. Mas então devemos renunciar
à idéia de que
traduzir significa apenas "transferir ou verter de um conjunto
de símbolos para
um outro", porque — à exceção dos casos
de simples transliteração entre
alfabetos — uma certa palavra em uma língua natural Alfa
tem muitas vezes mais de um termo correspondente em uma língua
natural
Beta. Além do mais, à parte os problemas de tradução,
o problema se
coloca também para o próprio falante inglês.
O que significa work em
sua língua? O Webster diz que um work pode ser uma
atividade, um task,
um duty, o resultado de tal atividade (como no caso de uma
obra de arte),
uma estrutura de engenharia (como no caso de um forte, uma ponte,
um túnel), um lugar onde se desenvolve um trabalho industrial
(como
uma instalação ou uma fábrica) e muitas outras
coisas. Assim, mesmo
que aceitemos a idéia de uma equivalência de significado,
temos que
dizer que a palavra work é sinônima e equivalente
em significado tanto
de literary masterpiece quanto de factory.
Porém,
quando uma só palavra exprime duas coisas diversas, não
falamos mais
de sinonímia, mas de homonímia. Existe sinonímia
quando duas
palavras diversas exprimem a mesma coisa e homonímia quando
a mesma
palavra exprime duas coisas diversas.
Se
no léxico de uma língua Alfa houvesse apenas sinônimos
(e a sinonímia não
fosse um conceito tão ambíguo), essa língua
seria riquíssima e nos
permitiria diversas formulações do mesmo conceito;
o inglês, por exemplo,
apresenta freqüentemente para uma mesma coisa ou conceito tanto
uma palavra baseada no étimo latino, quanto uma outra baseada
no
étimo anglo-saxônico (como, por exemplo, to catch
e to capture, flaw e
defect) — e vale mencionar que o uso de um sinônimo
em vez de um outro
pode conotar educação e extração social
diversas, de modo que, num
romance, atribuir a um personagem um uso de preferência a
um outro
pode contribuir para desenhar seu perfil intelectual e, portanto,
incidiria
sobre o sentido global da história contada. Donde, se existissem
termos
sinônimos entre língua e língua, a tradução
seria possível, até mesmo
para o Altavista.
Ao
contrário, seria muito pobre uma língua com homônimos
em demasia,
onde, por exemplo, variadíssimos objetos se chamassem todos
eles
o coisa. Ora, pelos poucos exemplos que viemos de examinar,
vem à tona
que muitas vezes, para identificar dois termos sinônimos no
confronto entre
uma língua e outra, é preciso primeiro desambigüizar,
como faz
o falante nativo, os homônimos no interior da língua
da qual se deveria traduzir.
E o Altavista não parece capaz de fazê-lo. No entanto
um falante
inglês é capaz de fazê-lo quando decide como
entender work em relação
ao contexto verbal em que aparece ou à situação
externa em que é
pronunciado.
As
palavras assumem significados diversos segundo o contexto. Para
fazer
referência a um exemplo célebre, bachelor pode
ser traduzido como soltero,
scapolo, celibataire [solteiro] em um contexto humano
possivelmente ligado
a questões atinentes ao matrimônio. Em um contexto
universitário e
profissional pode ser uma pessoa que recebeu um BA e, em um
contexto medieval, o pajem de um cavaleiro. Em contexto zoológico,
é
um animal macho, como uma foca, que fica sem companheira durante
a
estação do acasalamento.
A essa
altura compreende-se por que o Altavista estava condenado ao
fracasso em qualquer caso: o Altavista não tem um dicionário
que contenha
aquelas que em semântica se chamam "seleções
contextuais" (cfr.
Eco, 1975, § 2.11). Ou recebeu a instrução de que
work em literatura significa
uma série de textos e em contexto tecnológico significa
uma série
de instalações, mas não tinha condições
de decidir se uma frase em que
Shakespeare era nomeado remetia a um contexto literário ou
tecnológico.
Em
outros termos, faltava-lhe um dicionário onomástico
que estabelecesse que
Shakespeare foi um célebre poeta. Talvez o problema fosse
devido ao fato de que foi "alimentado" com um dicionário
(como os
que se costuma dar aos turistas), mas não com uma enciclopédia.
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