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Só
para Fumantes, de Julio Ramón Ribeyro (tradução
de Laura Janina Hosiasson; Cosac Naify; 304 páginas; 45 reais)
Ao contrário de contemporâneos como Mario Vargas
Llosa, o peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) nunca investiu
nos romanções de fundo político típicos
do boom literário da América Latina nos anos 60. Era,
na sua própria expressão, um "corredor de distâncias
curtas". Admirador do francês Guy de Maupassant, Ribeyro dominava
o conto realista, com retratos irretocáveis tanto da pobreza
de Lima quanto dos habitantes do aristocrático bairro de
Miraflores uma versatilidade social que está bem representada
nos treze contos dessa primeira coletânea do autor no Brasil.
A narrativa que dá título ao livro, de inspiração
autobiográfica, fala da relação íntima
de um escritor com seus cigarros.
Leia
trecho
Sem
ter sido um fumante precoce, a partir de certo momento minha história
se confunde com a história de meus cigarros. Do meu período
de aprendizado não guardo nenhuma lembrança muito
nítida, salvo o primeiro cigarro que fumei, aos catorze ou
quinze anos. Era um cigarro de fumo claro, marca Derby, que um colega
me ofereceu na saída do colégio. Acendi-o muito assustado,
à sombra de uma amoreira, e depois de dar algumas tragadas
me senti tão mal que passei a tarde toda vomitando, e jurei
a mim mesmo não repetir a experiência.
Juramento
inútil, como tantos outros que se seguiram, já que,
anos mais tarde, quando ingressei na faculdade, tornou-se indispensável
para mim entrar no Pátio das Letras com um cigarro aceso.
Metros antes de atravessar o velho saguão, já tinha
riscado o fósforo e acendido o cigarro. Eram então
os Chesterfield, cujo aroma adocicado guardo até hoje na
memória. Um maço durava dois ou três dias, e
para poder comprar eu tinha que me privar de outros caprichos, pois
naquela
época
vivia de bicos. Quando não tinha cigarros nem dinheiro para
comprá-los, roubava-os do meu irmão. Ao menor descuido,
já havia deslizado a mão na jaqueta dele, dependurada
numa cadeira, e surrupiado um cigarro. Digo isso sem nenhuma vergonha
porque ele fazia o mesmo comigo.
Tratava-se
de um acordo tácito e também de uma demonstração
de que as ações repreensíveis, quando recíprocas
e equivalentes, criam um status quo, permitindo uma convivência
harmoniosa.
Ao
subir de preço, os Chesterfield volatilizaram-se de minhas
mãos e foram substituídos pelos Incas, escuros e nacionais.
Ainda vejo o maço amarelo e azul, com o perfil de um inca
no invólucro. Aquele tabaco não devia ser muito bom,
mas era o mais barato que se encontrava no mercado. Em algumas vendas,
eram oferecidos em metades ou quartos de maço, em canudinhos
de papel de seda. Dava vergonha tirar um desses canudinhos do bolso.
Eu sempre tinha uma caixinha vazia, onde punha os cigarros comprados
picado. Mesmo assim, os Incas eram um luxo, comparados aos outros
cigarros que fumei naquele tempo, quando minha necessidade de tabaco
aumentou sem que o mesmo acontecesse com os meus recursos: um tio
militar me trazia do quartel cigarros da tropa, amarrados como se
fossem fogos de artifício, produto repugnante, onde era possível
encontrar pedaços de cortiça, farpas, palhas e uns
raros fiapos de tabaco. Mas não me
custavam nada, e se deixavam fumar.
*
Não
sei se o tabaco é um vício hereditário. Papai
era um fumante moderado, que largou o cigarro em tempo, quando percebeu
que lhe fazia mal. Não guardo nenhuma lembrança dele
fumando, salvo uma noite em que, não sei por que capricho,
pois fazia anos que tinha renunciado ao vício, pegou um na
cigarreira da sala, cortou em dois com uma tesourinha e acendeu
uma das partes. Na primeira tragada, apagou, dizendo que era horrível.
Meus tios, ao contrário, foram grandes fumantes,
e é sabida a importância dos tios na transmissão
de hábitos familiares e modelos de conduta. Meu tio paterno
George sempre levava um cigarro nos lábios e acendia o seguinte
na bituca do anterior. Quando não tinha um cigarro na boca,
tinha um cachimbo. Morreu de câncer no pulmão. Meus
quatro tios maternos viveram escravizados pelo tabaco. O mais velho
morreu de câncer na língua, o segundo de câncer
na boca e o terceiro de infarto. O quarto esteve a ponto de rebentar
por causa de uma úlcera estomacal perfurada, mas se recuperou
e continua de pé, e fumando.
De
um desses tios maternos, o mais velho, guardo a primeira e mais
impressionante lembrança da paixão pelo tabaco. Estávamos
de férias na fazenda Tulpo, a oito horas a cavalo de Santiago
de Chuco, nos Andes setentrionais. Por causa do mau tempo, o tropeiro
que trazia mantimentos à fazenda toda semana não apareceu,
e os fumantes ficaram sem cigarros. Tio Paco passou dois ou três
dias passeando desesperado pelas arcadas da casa, subindo no mirante
a cada momento para espiar a estrada de Santiago. Por fim, não
suportou mais e, apesar da oposição de todos (para
que não selasse um cavalo, escondemos as chaves do quarto
de arreios), lançou-se a pé rumo a Santiago, em plena
noite e sob um aguaceiro atroz. Apareceu no dia seguinte, quando
terminávamos de almoçar. Por sorte tinha encontrado
com o tropeiro no meio do caminho. Entrou na
sala ensopado, enlameado, varado de frio até os ossos, mas
sorridente, com um cigarro fumegante entre os dedos.
*
Os
escritores, de modo geral, têm sido e são fumantes.
Mas é curioso que não tenham escrito livros sobre
o vício do cigarro, como têm escrito sobre o jogo,
a droga, o álcool. Onde estão o Dostoievski,
o De Quincey ou o Malcolm Lowry do cigarro? A primeira referência
literária ao tabaco que conheço data do século
xvii e figura no Don Juan de Molière. A obra começa
com a frase: "Diga o que disser Aristóteles e toda a
filosofia, não existe nada comparável ao tabaco...
quem vive sem tabaco não merece viver". Ignoro se Molière
era fumante – embora naquela época o tabaco fosse aspirado
pelo nariz, ou mascado –, mas essa frase sempre me pareceu precursora
e profunda, digna de ser tomada como divisa pelos fumantes. Os grandes
romancistas do século xix – Balzac, Dickens, Tolstói
– ignoraram por completo o problema do tabagismo, e nenhuma de suas
centenas de personagens, pelo que lembro, tiveram qualquer coisa
a ver com o cigarro. Para encontrar referências literárias
a esse vício é preciso chegar ao século xx.
Na Montanha mágica, Thomas Mann põe estas palavras
nos lábios de seu herói, Hans Castorp: "Não
entendo como se pode viver sem fumar... Quando acordo, fico contente
em saber que poderei fumar durante o dia, e
quando como tenho o mesmo pensamento. Sim, posso dizer que sim,
que como para poder fumar... Um dia sem tabaco seria o cúmulo
do aborrecimento, seria para mim um dia absolutamente vazio e insípido
e se, pela manhã, tivesse que dizer hoje não posso
fumar, acho que não teria coragem de me levantar". A
observação me parece muito penetrante e revela que
Thomas Mann deve ter sido um fumante encarniçado, o que não
o impediu de viver até os oitenta anos. Mas o único
escritor que tratou do tema do cigarro extensamente, com uma agudeza
e um humor insuperáveis, é Italo Svevo, que lhe dedica
trinta páginas magistrais de seu romance A consciência
de Zeno. Depois dele, não vejo nada digno de nota, a
não ser uma frase no diário de André
Gide, que também morreu octogenário e fumando: "Escrever
é para mim um ato complementar ao prazer de fumar".
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