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Saturno nos Trópicos, de Moacyr Scliar (Companhia das Letras; 274 páginas; 29 reais) – Em seu novo livro, o gaúcho Moacyr Scliar deixa a ficção de lado e investe em outra de suas especialidades: o ensaio. Saturno nos Trópicos é um estudo sobre a melancolia, e custou cinco anos de pesquisa ao escritor. Não se trata de uma obra difícil: ao contrário, sua linguagem é sempre acessível e envolvente. Scliar enfoca o tema em vários momentos históricos. Fala da Idade Média dos tempos da peste negra e da Renascença dos grandes avanços científicos. Mas seu objetivo é, sobretudo, compreender a melancolia à moda brasileira e traçar uma história dela. Scliar examina a cultura nacional desde os primeiros tempos até o século XX – tratando de personagens como Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, e Macunaíma, de Mário de Andrade.

Leia trechos do livro

I. O RENASCIMENTO DA MELANCOLIA


A PESTE - E UM LIVRO

Em outubro de 1347 uma frota genovesa vinda do Oriente entrou no porto de Messina, na Sicília. Não foi uma chegada festiva, antes um tétrico espetáculo: quase todos os marinheiros haviam morrido ou estavam agonizantes. De peste.

Medidas foram tomadas pelas autoridades do porto visando isolar a tripulação dos navios - mas pelas cordas que mantinham os barcos atracados já chegavam à terra os ratos portadores das pulgas transmissoras da doença. Em poucos dias o temível mal já se espalhara pela cidade e seus arredores; em seis meses, metade da população morrera ou fugira. Estava começando a grande epidemia da Peste Negra que, a partir de 1347 (ou de 1348: os autores divergem), devastou a Europa, matando um terço da população e aterrorizando os sobreviventes. Narra um cronista da época, sobre a peste em Siena: "A mortandade começou em maio de 1348. É impossível descrever o horror: filhos ficaram sem pais, maridos sem esposas. Ninguém, nem mesmo por amizade ou dinheiro, queria enterrar os mortos, que eram atirados em enormes valas comuns... Ninguém chorava pelos mortos, porque todos esperavam morrer".

Em 1621 foi publicado na Inglaterra um livro intitulado A anatomia da melancolia (The Anatomy of Melancholy). Seu autor era Robert Burton. A obra teve grande sucesso; nada menos do que cinco edições foram publicadas enquanto o autor viveu, e uma sexta, ainda revista e ampliada por ele, saiu após a sua morte. Isso representava uma grande vendagem - o editor gabou-se de ter comprado uma propriedade com os lucros obtidos. Disse um contemporâneo, Thomas Fuller: "Raramente teve um livro, em nossa terra, tanta repercussão e num período tão curto". A história dessas edições envolve até tentativas de pirataria.

No contexto editorial de hoje, tal êxito é surpreendente. Em primeiro lugar, não se tratava exatamente de novidade: já os antigos gregos falavam de melancolia. Depois, não é um texto exatamente curto. Há uma edição de bolso (do New York Review of Books) que não cabe em qualquer bolso: são 1417 páginas. E trata-se de pesquisa exaustiva: Burton cita abundantemente e algumas partes são, na verdade, uma sucessão de citações, não raro em latim culto - à época um idioma já expulso por rudes línguas vernáculas, mas ainda usado como prova de conhecimento e erudição. É enorme a lista de autores a que recorre - inclusive e principalmente os da Antiguidade clássica: Plutarco, Juvenal, Ovídio, Catulo, Apuleio, Sêneca, Plínio, Heródoto... Mais do que isso, Burton aborda enorme quantidade de assuntos, como demonstra o índice remissivo: Alquimia e Amazonas, Apoplexia e Antimônio, Apetite e Aritmética, Anjos e Açores, para ficar só na letra A. É como se estivéssemos surfando nos sites de uma memória enciclopédica e prodigiosa. É verdade que a erudição não prejudicava a comunicação. Como Montaigne, Burton escrevia bem, de forma agradável, informal mesmo. Tratava-se de um pessimista - ele acreditava que o mundo só havia piorado desde a Criação -, mas era um pessimista bem-humorado. Consolando os maridos traídos, sustentava que essa é uma condição comum em muitas partes do mundo; que certos esposos, como acontece com a Lua, periodicamente exibem cornos. Com erudição ou com humor, o certo é que Burton fez renascer nos círculos intelectuais um termo que já existia, mas que agora ganhava novo significado. Burton estava falando de uma renascida melancolia.

A peste retorna à Europa, um livro sobre a melancolia é editado com grande sucesso. Pergunta: que há de comum entre esses fatos? A resposta mais óbvia é: nos dois casos trata-se de doença. Mas não é bem assim. A peste é, inquestionavelmente, uma doença. A melancolia, como veremos, às vezes é doença e às vezes não é. Além disso, a peste avança rapidamente para a cura ou para a morte. A melancolia se prolonga no tempo e sua evolução tem caráter indefinido.

Agora: há sim uma conexão entre as duas situações. A peste, doença transmissível, dissemina-se pela população. A melancolia também pode disseminar-se - uma espécie de contágio psíquico -, dominando o clima de opinião e a conjuntura emocional em um grupo, uma época, um lugar. E isso enseja a questão que é o nosso ponto de partida: seria o livro de Burton a ponta de um iceberg emocional, o reflexo de uma conjuntura psicológica e filosófica? Que conjuntura foi essa? Tratou-se de um fenômeno isolado, ou veio a repetir-se? Qual a relação, por exemplo, entre a melancolia e a chegada dos colonizadores ao Brasil, ocorrida quase exatamente no meio do período histórico considerado? Teria essa conjuntura um caráter cíclico, repetindo-se em outro lugar, em outra época?

Essas são as perguntas para as quais tentaremos achar respostas nas páginas que seguem. Para isso precisamos primeiro examinar o cenário em que surge a melancolia renascida.


O CENÁRIO HISTÓRICO DA NOVA MELANCOLIA

Os quase trezentos anos que separam a epidemia de Peste Negra da publicação da obra de Burton foram decisivos para a Europa e para a humanidade: uma época, em primeiro lugar, de grandes mudanças econômicas e políticas. Já não estamos diante de sociedades predominantemente agrárias; surge uma forte economia mercantil. O regime feudal vai dando lugar a governos centralizados sob a forma de monarquias nacionais e, sobretudo na Itália, de cidades-Estado lideradas por ricas famílias oligárquicas, que adotam os preceitos de Maquiavel em O príncipe. A Reforma protestante cinde a Europa do ponto de vista religioso e político, ao rejeitar a autoridade do papa como líder espiritual. Preconizando a relação direta com Deus através da leitura da Bíblia, reforça atitudes individualistas.

É uma época de grandes progressos científicos. Época da imprensa, da introdução da pólvora. E também de intensificação do comércio marítimo: graças ao desenvolvimento da construção naval e, com a introdução da bússola, de mapas e de cálculos para a determinação da latitude, os navegadores vão mais longe. É também uma época revolucionária para o pensamento. A abertura do mundo graças à navegação e ao comércio parece ter propiciado uma descoberta do conhecimento, como observa Francis Bacon, arauto da ciência moderna, que sonhava ser o Colombo de um novo mundo intelectual. Época em que o próprio Bacon lança o método científico, baseado na experimentação e na indução. Uma iniciativa revolucionária, na medida em que Bacon rejeita a atitude meramente contemplativa da filosofia e a "mescla danosa" de ciência com certo tipo de teologia, responsável por uma visão teleológica dos fenômenos naturais (visão essa que acaba por ser revelar estéril: uma virgem, diz, pode ser consagrada a Deus, mas isso não significa que ela será fértil). Os sistemas filosóficos são, para Bacon, como teias de aranha: bem urdidos, mas fabricados com matéria-prima que sai de dentro da própria aranha. Daí sua admiração pelo filósofo grego Demócrito (nome que aparecerá muitas vezes neste texto), para quem deuses e natureza eram coisas separadas. Bacon também diz que a leitura de livros não substitui a observação direta do mundo. Uma biblioteca é fonte importante de conhecimento - desde que funcione ao lado de uma coleção de animais e plantas, de um museu e de um local que hoje chamaríamos de laboratório. O sábio rejeita a astrologia e a numerologia - a chamada "sabedoria oculta". É preciso, sim, fazer com que a Natureza revele seus segredos, e de forma ativa, agressiva mesmo, "torcendo o rabo do leão"; assim intimidada, a Natureza, Natura vexata, será uma fonte constante de aprendizado.

Essa é a época em que Copérnico descreve o sistema heliocêntrico, em que Vesálio dá foro científico à anatomia, em que Harvey estuda o sistema circulatório, em que Newton lança as bases da física moderna; uma época prometéica, em que se busca o fogo sagrado do conhecimento sem hesitação, sem temor. É a época em que as universidades, surgidas no fim da Idade Média, se multiplicam, chegando até à recém-descoberta América, onde são criadas fundações universitárias em Santo Domingo (1538), Lima (1551) e México (1551). Verdade que com claros objetivos coloniais e missionários.

Essa é a época do Renascimento. O termo, cunhado por Giorgio Vasari (1511-74), designa o grande surto artístico ocorrido na Itália nos séculos XIV e XV e que consagrou o termo "humanismo", um movimento cultural que conferia grande ênfase à dignidade individual (Sobre a dignidade do homem é o título de uma obra do renascentista Pico della Mirandola) e às possibilidades de realização pessoal no mundo - realização baseada sobretudo no conhecimento, remontando até às suas raízes clássicas greco-latinas. A expressão "Homem renascentista" (e quase sempre tratava-se, mesmo, de homens: o alargamento de horizontes não fora suficiente para acolher as mulheres) refere-se a uma pessoa que, além de participar ativamente da vida social, possui ampla cultura e domina várias habilidades. Leonardo da Vinci é o exemplo clássico.

Cinco anos antes do início da peste, em 1342, Petrarca - poeta laureado - escrevera Italia mia, inaugurando um novo ciclo na literatura européia. Assim, na literatura - e nas artes plásticas, e na arquitetura - foram anos férteis. O período que vai de 1300 a 1600 foi extraordinariamente inovador em várias áreas do conhecimento humano. Nas artes plásticas, é a época de Duccio, Giotto, Brunelleschi, Donatello, Fra Angelico, Masaccio, Alberti, Piero della Francesca, Bellini, Mantegna, Botticelli, Bramante, Leonardo da Vinci, Dürer, Michelangelo, Memling, Tiziano, Giorgione, Rafael, Correggio, Vasari, Palladio, Tintoretto, Veronese. Uma época de grandes pensadores: Pico della Mirandola e Erasmo, Bacon e Montaigne. A época de Shakespeare e Cervantes.


UMA NOVA CONCEPÇÃO DE TEMPO E DE ESPAÇO

Surge uma nova concepção de tempo e de espaço. Na Antiguidade e na Idade Média não havia a preocupação com um registro temporal preciso. Existiam os relógios de sol e os de água, as ampulhetas e outras formas de cronometria, que não estavam, contudo, ao alcance do comum das pessoas. No cotidiano medieval, os sinos - das igrejas, dos mosteiros - desempenhavam papel importante, não apenas porque davam as horas como também porque convocavam as pessoas a se reunir e anunciavam perigo: incêndio, invasão de inimigos; havia até mesmo a crença de que o som dos sinos podia afastar epidemias. Mas, à medida que as cidades iam crescendo e que a atividade econômica se expandia, surgia a necessidade de novas maneiras de marcar o tempo: mais exatas, mais individualizadas. No curso do século XIV os relógios mecânicos foram se tornando progressivamente mais comuns na Europa. No começo eram grandes relógios públicos, nas torres das igrejas. Substituíam os sinos, mas, para que continuassem cumprindo um papel religioso, traziam uma inscrição: Mors certa, hora incerta, a hora pode ser incerta, mas a morte é certa. Esses relógios foram rapidamente incorporados à vida comunitária: anunciavam até a hora de fazer sangria, procedimento médico comum à época. Surgiram, mais adiante, os relógios domésticos e individuais.

O relógio mexeu com a cultura. Trouxe um novo modo de vida. As atividades de várias pessoas distantes umas das outras podiam agora ser coordenadas em função de um horário preciso. Introduziu-se, assim, uma forma de controle e de autocontrole que abrangia até a vida emocional. Não por acaso, no alegórico poema Li Orloge amoureus [O relógio amoroso, c.1380], Jean Froissart compara o amor a um relógio: assim como este tem mecanismos de autocontrole, o amor precisa ser refreado. Filósofos e cientistas como Descartes, Kepler e Boyle adotaram uma visão mecanicista do universo e mesmo do corpo humano.

O calendário foi também alterado: em 1528 o calendário juliano deu lugar ao calendário gregoriano, instituído pelo papa Gregório XIII. De novo: atrás dessa medida estava o conflito religioso. Gregório XIII era um decidido promotor da Contra-Reforma e o seu calendário enfrentou a resistência dos protestantes.

Ao mesmo tempo, surge uma nova consciência de espaço. Do espaço artístico: em 1425 Brunelleschi introduz na pintura a noção de perspectiva, teorizada por Alberti e desenvolvida por Uccelo, Leonardo e Dürer, entre outros. Detalhe importante na perspectiva é o ponto de fuga, que atrai o olhar do observador e, privilegiando-o, legitima, de alguma forma, a subjetividade. Brian Rotman compara-o ao zero, introduzido na matemática ocidental no século anterior e que, significando nada, permitiu operações impossíveis ou difíceis de executar com os algarismos romanos, da mesma forma que o papel-moeda, sendo apenas papel, permitiu operações financeiras. A introdução dos números arábicos, aliás, fez parte do processo de renovação que caracterizou o advento da modernidade. Como em outras situações, essa mudança não se fez sem conflito; em Florença, no ano de 1299, os números arábicos foram proibidos, sob a alegação de que podiam facilitar a falsificação de documentos - seria fácil adicionar o zero a um número qualquer. Mas a verdade é que os cálculos ficaram consideravelmente facilitados bem como as técnicas contábeis - em 1494 aparecia o que pode ser considerado o primeiro tratado de contabilidade, de Luca Pacioli, frade franciscano que fora tutor dos filhos de um mercador de Veneza. A contabilidade era apenas parte de uma revolucionária mudança de mentalidade, em que o número desempenhava um papel importante: Roger Bacon mede o ângulo do arco-íris, Giotto pinta com a geometria em mente, e os músicos ocidentais, que até aquele momento praticavam um tipo de polifonia conhecida como ars antiqua, aderem à ars nova e passam a compor de forma "precisamente medida".

A perspectiva representa também metáfora: o horizonte distante sugere uma ampliação do mundo, uma nova consciência do espaço geográfico manifesta, entre outras coisas, no desenvolvimento da cartografia. Redescobre-se a concepção do mapa segundo Ptolomeu, baseada na projeção de um território sobre superfície plana. Durante a Idade Média a elaboração de mapas esteve entregue, em grande medida, aos monges, que, nos conventos, elaboravam mapas - muito ornamentados, mas freqüentemente inexatos. Com as Cruzadas, e sobretudo com as navegações, os mapas se tornaram uma necessidade. Surgiram centros de cartografia na Itália, na Espanha e em Portugal - a famosa escola de Sagres, onde o Infante Dom Henrique reuniu astrônomos, geógrafos e cartógrafos de vários países -, e, depois, nos Países Baixos. Os mapas permitiram uma nova visão do mundo e serviram de instrumento à divisão de poder, como mostra a linha de Tordesilhas.

Os mapas refletiam também crenças e temores. A expressão Terra incognita, por exemplo, apelava à imaginação; tratava-se de regiões que podiam ser povoadas por seres estranhos, ameaçadores - agentes da Morte, que é, nas palavras de Hamlet, "A terra ainda não descoberta, de cujos limites nenhum viajante retorna". Havia alusões mais diretas. Um mapa medieval contém, em cada um dos quatro cantos, as letras M, O, R, S, que, juntas, formam a palavra latina significando Morte. Num outro curioso mapa datado de 1575 e atribuído a Jean de Gourmont, citado por Burton em seu livro, vemos a figura de um palhaço com seu chapéu de guizos - e cuja face foi substituída pelo mapa propriamente dito. Mapas desse tipo - Fool's Maps, mapas dos tolos - eram comuns à época e tinham certa analogia com a imagem da nau dos insensatos.

Para os filósofos medievais, o sentido da visão era o mais enganador; fonte de equívocos mais do que de conhecimento: Non potest fieri scientia per visum solum, não se pode fazer ciência unicamente com a visão. Tocar era mais importante do que ver. A modernidade, contudo, não apenas acredita no olhar como vai ampliar o poder da visão com as lentes, que, embora conhecidas desde o século XIII, só então passam a ser usadas em instrumentos - como o telescópio - dos quais se utilizaram Galileu e Kepler; e, mais tarde, o microscópio. O telescópio desempenharia papel fundamental nas guerras e nas viagens de exploração marítima.


 
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