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Página Órfã, de Régis Bonvicino (Martins; 136 páginas; 29 reais) – Augusto dos Anjos, um dos mais estranhos poetas brasileiros, definiu-se como "aquele que ficou sozinho / Cantando sobre os ossos do caminho / A poesia de tudo quanto é morto". Quase um século depois, pode-se dizer que Régis Bonvicino, um dos mais destacados poetas contemporâneos do Brasil, coloca-se na mesma tradição. É um cantor da matéria desprezada – mas com um novo acento, talvez mais agressivo, marcado pelo gigantismo urbano de São Paulo, sua cidade natal. Os poemas de Página Órfã buscam sua matéria no lixo, na poluição, nos ratos, nos mendigos, em contraste irônico com os outdoors publicitários onde figuram modelos decadentes. "Há cacos de vidro na comida todos os dias", diz um de seus contundentes versos.

Leia trecho

Página órfã

Um semáforo
não cabe num parágrafo,
cúmplice passivo
dos mendigos

presentes no velório,
porta da garagem,
dos quatro ratos assassinados
por pigmeus finados

fãs de tânatos
Uma negra posterga seu semblante
na entremanhã seca
e parabólica dos prédios

Jesus é um recurso abstrato
que ela traz debaixo do braço
jardins de aspérulas
e cabeças-brancas

na calçada, uma caçamba
objetos abandonados
Nem uma dupla cabeça de Hermes
entenderia aquele homem

dormindo na cadeira
sobre o entulho e o lixo,
beco sem saída, página órfã,
nunca, imitação de vida

Extinção

O lobo-guará é manso
foge diante de qualquer ameaça
é solitário
avesso ao dia, tímido

detesta as cidades
para fugir do ataque
cada vez mais inevitável
dos cachorros

atravessa estradas
onde quase sempre é atropelado
onívoro, com mandíbulas fracas
come pássaros, ratos, ovos, frutas

às vezes, quando está perdido,
vasculha latas de lixo nas ruas
engasga ao mastigar garrafas
de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder
lâmpadas fluorescentes
ou engolir fios elétricos
morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta
ou ao engolir remédios vencidos
ou seringas e agulhas
descartáveis

dócil, sem astúcia,
é facilmente capturado e morto
por traficantes de pele
quando então uiva


 
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