O
Calcanhar do Aquiles,
de Duda Teixeira (Arquipélago Editorial; 224 páginas; 34 reais)
Da filosofia de Platão e Aristóteles aos jogos olímpicos,
os gregos antigos lançaram as fundações daquilo que hoje
se entende por "civilização ocidental". Não é de estranhar
que a imagem idealizada que ficou da Grécia Antiga seja a de um lugar rigorosamente
ordenado segundo proporções clássicas entalhadas em mármore.
O jornalista de VEJA Duda Teixeira apresenta uma Grécia mais informal e
acessível mas não menos fascinante em O Calcanhar
do Aquiles. Dividido em capítulos temáticos, o livro é
uma coletânea de curiosidades sobre os gregos, do hábito de misturar
pimenta ao vinho às arrepiantes práticas cirúrgicas do médico
Hipócrates.
Leia
trecho EM BUSCA DA OUTRA
METADE O casamento entre um homem
e uma mulher era a forma mais comum de relacionamento na Grécia Antiga.
Mas não a única. Além da esposa, os homens da época
mantinham relações com concubinas, que pertenciam a uma condição
social inferior. Era um comportamento plenamente aceito. As concubinas chegavam
a viver na mesma casa da família. Os homens mais abastados também
mantinham relações com os escravos, considerados sua propriedade.
A exploração de homens escravos era disseminada e podia significar
um mero ato de agressão contra prisioneiros de guerra. Havia
também os casais de homens apaixonados, que muitas vezes não se
importavam com idade ou beleza. No início do século 4 a.C., o poeta
Xenofonte afirmou que em diversas cidades garotos e homens viviam juntos, como
gente casada. Em Esparta, era comum que os mais velhos ajudassem nos seus treinos
físicos e na educação de seus pares. Além disso, homens
espartanos com menos de 30 anos eram proibidos de freqüentar o mercado. Suas
necessidades obrigatoriamente tinham de ser supridas por parentes ou por seus
amantes. Strabo, um geógrafo
que viveu no período em que a Grécia era uma província romana,
narrou uma celebração de casamento entre homossexuais na ilha de
Creta, no Mediterrâneo. Três dias antes do matrimônio, o amante
avisava três amigos ou mais de que iria raptar seu amado. Quando os seqüestradores
encontravam o objeto do desejo, duas possibilidades apareciam. No caso de o alvo
ser mais velho, mais rico ou mais respeitado, o grupo o perseguia e o mantinha
sob controle apenas um pouco para não desrespeitar as leis vigentes. Se,
ao contrário, a vítima não tivesse grandes atributos, a trupe
o levava embora. O amado era conduzido a um local de refeições onde
os homens adultos jantavam e bebiam vinho. Depois de presentear o jovem, o amante
e as testemunhas iam com ele para o campo. Dava-se início à lua-de-mel.
Por alguns meses, o grupo comia banquetes e fazia caçadas. Ao voltar à
cidade, o amado sacrificava um boi para Zeus e dava um banquete para os que o
acompanhavam. Nessa festa, ele tornava público se estava ou não
de acordo com o relacionamento que lhe aparecia. Tudo de acordo com a lei cretense.
O hábito era tão comum que não ter sido raptado por um adulto
significava a vergonha para os jovens bonitos e de boas famílias. Um
dos casos mais notórios de casais gays citados nos mitos gregos foi o do
herói Aquiles, que teve participação fundamental no ataque
à cidade de Tróia. Aquiles era muito próximo de Pátroclo
e ficou extremamente aborrecido (e bravo) quando seu namorado foi morto no campo
de batalha. Quando Aquiles morreu, seu corpo foi cremado e seus ossos foram misturados
aos de Pátroclo, num costume normalmente reservado a casais de homem e
mulher. Era no campo militar, aliás,
em que as relações homossexuais eram mais admiradas. Em primeiro
lugar, a possibilidade de satisfazer os instintos sexuais no campo de batalha
era um costume bem-vindo. Em segundo, acreditava-se que quando casais de homens
apaixonados integravam um mesmo exército eles lutariam com mais garra para
defender seu parceiro. Na cidade de Tebas, ficou famoso o Batalhão Sagrado,
constituído por 300 gays, alistados em casais. A tropa desempenhou papel
central em muitas investidas militares até perder a batalha de Charonea,
em 338 a.C. Depois da guerra, Filipe da Macedônia, vitorioso, percorreu
o campo de batalha para espiar os corpos. Todos estavam deitados com suas armaduras
e abraçados uns aos outros. Filipe ficou maravilhado e, depois de aprender
que se tratava do bando de amantes, derramou-se em lágrimas. Havia,
portanto, casais com parceiros do mesmo sexo e de sexos opostos. Engenhosa foi
a forma relatada pelo pensador Platão para explicar essa diversidade. Em
sua obra O Banquete, uma das personagens (Aristófanes) conta uma
história engraçada. Ele afirma que os humanos eram originalmente
duplos. Isto é, seres com quatro braços, quatro pernas, quatro orelhas
e por aí vai. Suas costas e seus lados formavam um círculo e sua
cabeça tinha duas faces olhando em sentidos contrários. Havia duplos-homens,
duplas-mulheres e duplos misturados (metade homem, metade mulher). Quando queriam
correr rapidamente esses seres se utilizavam de seus oito membros para dar grandes
passos como saltadores acrobatas. Eram extremamente fortes e tinham grandes pensamentos
em seus corações. Um dia, tramaram escalar os céus e atacar
os deuses que viviam tranqüilamente no Olimpo. Ao tomarem conhecimento do
caso, as divindades ficaram em dúvida quanto ao que fazer. Zeus, após
muito refletir, teve uma idéia genial: cortá-los em dois. "Se continuarem
a ser insolentes e não se calarem, eu vou dividi-los de novo e eles vão
ter de pular com um pé só", ameaçou Zeus. Para nossa sorte,
isso não foi preciso. Separados
por Zeus, cada um saiu à procura da tampa certa para sua panela. Os que
faziam parte de um duplo-homem foram atrás de um homem. Os que faziam parte
de um duplo-mulher, de uma companheira. Os que anteriormente eram andróginos
compunham a maioria dos humanos. Quando essa busca era bem-sucedida, Platão
afirmava que as partes eram cimentadas com amizade, intimidade e amor. "Essas
são as pessoas que vivem juntas a vida inteira", disse o sábio.
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