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livros

Conversação, de Theodore Zeldin (tradução de Sérgio Flaksman; Record; 136 páginas; 35 reais)

Respeitado historiador de Oxford, o inglês Zeldin tem a seriedade de um filósofo moral e o pragmatismo de um autor de auto-ajuda. Ele sustenta nesse livro, reunião de seis palestras feitas para a rede BBC, que a conversação é uma arma para "melhorar o mundo". Brevíssima e ilustrada, a obra propõe maneiras de melhorar o papo em família, no amor e no trabalho. Seria ótimo se toda obra de auto-ajuda tivesse o nível de Conversação.

Leia trechos do livro:

Como toda nova era muda o tema das conversas

"Conversar é bom", diz um anúncio recente da British Telecom estimulando os britânicos a usarem mais o telefone. Mas é claro que isto é apenas uma meia-verdade. Ninguém jamais diria apenas "comer é bom", sem acrescentar que existem, entre as muitas coisas que gostamos de comer, algumas que não nos fazem nenhum bem. Se, como ocorre com o que comemos, pudéssemos usar também para as nossas conversas o equivalente de guias de restaurantes ou livros de receitas, eles impediriam que nossa dieta incluísse certos tipos de diálogo, mas mesmo assim lhes seria muito difícil indicar-nos com certeza como e onde encontrar a verdadeira haute cuisine da conversação.

"Conversar é bom" é um slogan típico do século XX: tem a ver com o estímulo à auto-expressão, ao compartilhamento da informação e ao esforço individual para fazer-se entender. Mas nem toda conversa é capaz de mudar os sentimentos e as idéias, sejam nossos ou dos outros. A meu ver, o século XXI precisa de uma nova meta: desenvolver não simplesmente a arte de falar, mas a verdadeira arte da conversa, que, esta sim, é capaz de mudar as pessoas. A boa conversa é estimulante e irresistível, e consiste em muito mais do que uma simples troca de informações.

Milhares de livros já pretenderam discorrer sobre a arte da conversa, com instruções detalhadas sobre as formas de bajular, iludir ou seduzir os outros, de formar frases que soem elegantes ou, ainda, de lidar com pessoas da espécie de Clark Gable que, segundo Ava Gardner, era "o tipo de homem que, se você lhe dissesse 'Oi Clark ficava todo atrapalhado para como vai responder". Mas minha intenção não é levar aos leitores mais uma dessas coletâneas de receitas, afirmando poder ajudá-los a produzir um estilo de conversa de que possam se orgulhar.

0 tipo de conversa em que estou interessado é aquele em que você deseja sair dela pelo menos um pouco mudado. Conversas assim são sempre uma experiência, cujos resultados jamais podem ser garantidos. Há muitos riscos envolvidos. São uma aventura na qual concordamos em cozinhar juntos o mundo, tentando tornar seu paladar um pouco menos amargo.

Tudo que tenho a lhes dizer vem de conversas que tive. Meu último livro velo das minhas conversas que travei com mulheres de dezoito países, tratando do que era mais importante para elas, seus desejos e temores Isto me levou a procurar conhecer como foram as conversas entre homens e mulheres também no passado, e em todas as civilizações, sobre seus desejos e temores Desde então, venho falando com inúmeras pessoas so bre a maneira como conduzem as suas conversas. Li tudo que pude sobre a arte da conversação, o que inclusive me levou a conversar com vários autores que só encontrei no papel. Depois pensei bastante sobre tudo isso o que não deixou de ser mais uma conversa, clesta vez comigo mesmo. E, finalmente, debati o resultado com minha mulher, Deirdre Wilson, que passou muito anos investigando o que ocorre na mente das pessoa quando elas se comunicam; nós discordamos e discutimos, e disso surgiram idéias que antes não nos haviam ocorrido.

Este é o aspecto da prática da conversa que mais me estimula: o fato de que pode mudar a maneira como vemos o mundo, além de poder mudar até mesmo o próprio mundo. E o que eu gostaria de discutir é justamente o modo como isto acontece.

Como é que uma simples conversa pode fazer tanta diferença? A resposta é que não pode, se você acreditar que o mundo é totalmente governado pelas forças avassaladoras da economia e da política, que o conflito é a essência da Vida, que o ser humano é fundamentalmente um animal e que a história não passa de uma luta constante pela sobrevivência e pela dominação. Neste caso, realmente não se pode mudar multa coisa. Tudo o que se pode fazer é trocar algumas palavras com a finalidade de nos distrairmos ou nos divertirmos um pouco.

 



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