O
Clube Filosófico Dominical,
de Alexander McCall Smith (tradução de Alexandre Hubner; Companhia
das Letras; 264 páginas; 38 reais) Nascido na Rodésia (atual
Zimbábue) e radicado na Escócia, McCall Smith um professor
de direito especializado em medicina legal consagrou-se como escritor policial
com livros estrelados por Preciosa Ramotswe, a "única detetive de Botsuana".
Clube Filosófico inaugura uma nova série, ambientada em Edimburgo.
A detetive, desta vez, é a filósofa Isabel Dalhousie, editora de
uma revista de ética. No final de um concerto, ela testemunha a queda de
um jovem executivo do alto das galerias do teatro. Convencida de que não
foi um suicídio, passa a investigar o caso.
Leia
trecho Capítulo
1 Isabel
Dalhousie viu o rapaz cair do parapeito do último andar do teatro, das
galerias. Foi tão repentino, tão rápido, ela o viu por menos
de um segundo, os cabelos despenteados, de cabeça para baixo, a camisa
e o paletó suspensos na altura do peito, expondo o abdome. Então
ele se chocou contra o guarda-corpo do balcão e desapareceu, de pernas
para o ar, rumo à platéia. A
primeira coisa que lhe veio à cabeça foi, curiosamente, o poema
de Auden sobre a queda de Ícaro. Acidentes como esse, dizia Auden, acontecem
contra o pano de fundo dos afazeres cotidianos das pessoas. Elas não olham
para cima, não vêem o rapaz caindo do céu. Eu estava conversando
com uma amiga, pensou ela. Eu estava conversando com uma amiga e o rapaz
caiu do céu. Isabel
não esqueceria aquela noite, mesmo que isso não tivesse acontecido.
Estivera em dúvida sobre o concerto - uma apresentação da
Sinfônica de Reykjavik, da qual nunca ouvira falar - e não teria
ido se não houvesse sido instada a tanto pelo ingresso que sobrara nas
mãos de um de seus vizinhos. Reykjavik teria mesmo uma orquestra sinfônica
profissional ou seriam músicos amadores? Ainda que o fossem, se haviam
feito tão longa viagem até Edimburgo, faziam jus a um bom público;
não se podia permitir que viessem da Islândia para tocar para um
teatro vazio. De modo que Isabel foi ao concerto e resistiu bravamente à
primeira parte do programa, composta de uma mistura romântica de repertório
germânico e escocês: Mahler, Schubert e Hamish McCunn. Fazia
uma noite quente - extraordinariamente quente para fins de março -, e o
interior do Usher Hall estava abafado. Ela se vestira com roupas leves, por precaução,
e congratulou-se por isso, pois, como sempre, fazia calor demais no balcão.
No intervalo, descera para se refrescar do lado de fora do teatro, evitando a
aglomeração junto ao bar e sua balbúrdia cacofônica.
Encontraria amigos ali, é claro - em Edimburgo era impossível sair
e não encontrar pessoas conhecidas -, mas naquela noite não se sentia
disposta a conversar com ninguém. Quando chegara o momento de voltar para
dentro, aventara por alguns instantes a possibilidade de não assistir à
segunda parte do concerto, mas sempre a inibia qualquer atitude que sugerisse
falta de concentração ou, pior ainda, de seriedade. De modo que
retornara a seu lugar, apanhara o programa que havia deixado sobre o braço
da cadeira vizinha e verificara o que estava por vir. Foi preciso tomar fôlego.
Stockhausen! Trouxera
consigo um pequeno binóculo - extremamente necessário, mesmo tendo
em vista a moderada altura do balcão. Com o instrumento voltado para o
palco, lá embaixo, passou em revista todos os músicos, um por um,
impulso a que jamais resistia quando ia a um concerto. Normalmente, ninguém
olha para as pessoas com um binóculo, mas ali no teatro isso era permitido,
e se porventura ele apontasse de quando em quando para o público, quem
haveria de dar por isso? Entre as cordas não havia nenhuma figura digna
de nota, porém um dos clarinetistas, observou Isabel, era dotado de um
rosto admirável: malares protuberantes, olhos afundados e um queixo que
fora, sem a menor sombra de dúvida, esculpido a machadadas. Seu olhar demorou-se
no rapaz, e ela pensou nas gerações de robustos islandeses, e dinamarqueses
antes deles, que haviam pelejado para gerar um tal espécime: homens e mulheres
lavrando o solo estéril das montanhas do interior; pescadores singrando
as águas gélidas e cinzentas em busca de bacalhau; mulheres lutando
para manter seus filhos vivos à base de peixe seco e farinha de aveia;
e agora, ao cabo de todo esse esforço, um clarinetista. Deixou
o binóculo de lado e reclinou o corpo na cadeira. Era uma orquestra bastante
razoável, e haviam tocado McCunn com entusiasmo, mas por que a insistência
em Stockhausen? Talvez fosse uma declaração de sofisticação
cultural. Pois é, viemos de Reykjavik, e há quem diga que a nossa
pequena capital fica num fim de mundo, mas tocamos Stockhausen e não devemos
nada a ninguém. Isabel fechou os olhos. Era insuportável, realmente,
e o tipo de música que uma orquestra visitante devia impedir-se de impingir
a seus anfitriões. Isabel ruminou por alguns instantes a noção
de cortesia orquestral. Constrangimentos políticos por certo deviam ser
evitados: as orquestras alemãs, é claro, costumavam ter o cuidado
de não tocar Wagner no exterior, ao menos em certos países, optando
antes por compositores germânicos um tanto mais... contritos. Isso convinha
a ela, que não gostava de Wagner. A
peça de Stockhausen era a última do programa. Quando o maestro finalmente
se retirou e os aplausos definharam - não tão calorosos quanto poderiam
ter sido, pensou ela; algo a ver com Stockhausen -, Isabel levantou-se para ir
à toalete. Abriu a torneira da pia e, com a mão em concha, tomou
um gole d’água - bebedouros eram uma modernidade que o Usher Hall ainda
não alcançara - e molhou o rosto. Sentindo-se mais fresca, retornou
ao corredor. Foi então que divisou sua amiga Jennifer ao pé do pequeno
lance de escada que dava acesso ao balcão. Isabel
hesitou. Continuava muito abafado ali dentro, mas fazia mais de ano que não
via Jennifer, e não podia passar por ela sem cumprimentá-la. Abriu
caminho entre as pessoas que se dirigiam à saída. "Estou
esperando o David", disse Jennifer, apontando para o interior do balcão.
"Ele perdeu uma lente de contato, imagine só, e uma das vaga-lumes
emprestou a lanterna para ele dar uma espiada debaixo da poltrona. Já tinha
perdido uma no trem, quando foi para Glasgow. Agora aprontou de novo." As
duas amigas ficaram conversando enquanto os últimos espectadores desciam
a escadaria atrás delas. Jennifer, uma mulher bonita, recém-chegada
aos quarenta - como Isabel -, trajava um tailleur vermelho, enfeitado com um enorme
broche dourado em formato de cabeça de raposa. Isabel não conseguia
parar de olhar para a raposa, que tinha olhos cor de rubi e parecia observá-la.
Senhor Raposo, pensou. É o próprio senhor Raposo. Após
alguns minutos, Jennifer lançou um olhar ansioso para o topo da escada. "É
melhor a gente ir ver se o David precisa de ajuda", disse num tom irritado.
"Vai ser uma chateação se ele tiver perdido essa outra lente." Subiram
alguns degraus do pequeno lance de escada e olharam para um ponto mais abaixo,
onde puderam entrever as costas de David, arqueadas atrás de uma poltrona,
o facho da lanterna luzindo entre um assento e outro. E foi nesse momento, quando
estavam ali paradas, que o rapaz despencou das galerias - sem fazer barulho, completamente
mudo, batendo os braços como se quisesse voar ou desviar do chão
- e sumiu de vista. Por
um breve instante, as duas amigas se entreolharam, incrédulas. Então
ouviram um grito lá embaixo, uma voz de mulher, um som agudo; depois um
homem gritou e em algum lugar uma porta bateu. Isabel
estendeu a mão e segurou o braço de Jennifer. "Meu Deus!",
exclamou ela. "Meu Deus!" No
lugar onde estivera agachado, o marido de Jennifer levantou-se. "O que foi
isso?", perguntou-lhes. "O que aconteceu?" "Alguém
caiu", disse Jennifer, apontando para as galerias, para o ponto onde elas
encontravam a parede do teatro. "Foi dali. Ele caiu." As
duas amigas tornaram a entreolhar-se. Então Isabel foi até a beirada
do balcão. Ao longo do parapeito havia um corrimão de latão,
sobre o qual ela se debruçou para olhar para baixo. Na
platéia, caído sobre o espaldar de uma cadeira, as pernas trançadas
sobre os braços dos assentos vizinhos, um pé, notou ela, sem o sapato,
mas ainda calçado com a meia, lá estava o rapaz. Isabel não
via a cabeça dele, que se encontrava abaixo do nível da cadeira,
mas via um dos braços esticado para cima, como se ele quisesse alcançar
alguma coisa, embora permanecesse completamente imóvel. Ao lado do rapaz
estavam dois homens em traje a rigor, um dos quais agora o tocava, enquanto o
outro tinha se virado para olhar para a porta. "Rápido!",
gritou um deles. "Corra!" Uma
mulher deu um grito e um terceiro sujeito desabalou pelo corredor até chegar
ao lugar onde o rapaz estava caído. Inclinou-se e tentou erguê-lo.
Foi então que sua cabeça veio à tona e vergou-se, como se
estivesse solta do corpo. Isabel recuou e olhou para Jennifer. "Temos
de descer", disse ela. "Nós vimos o que aconteceu. É melhor
descermos para contar a alguém o que vimos." Jennifer
assentiu com a cabeça. "Não deu para ver muita coisa",
volveu ela. "Foi tudo tão rápido. Ah, meu Deus." Observando
que a amiga tremia, Isabel colocou um braço em seu ombro. "Que acidente
horrível!", disse. "Também estou abalada." Jennifer
fechou os olhos. "Foi sem mais nem menos, ele caiu assim... tão de
repente. Acha que ainda está vivo? Deu para ver?" "Deve
ter sido sério, ele parece ter se machucado bastante", disse Isabel,
pensando com seus botões: foi bem pior que isso. Desceram
a escadaria. Havia um pequeno grupo de pessoas junto à porta de entrada
da platéia e ouvia-se um murmurinho de conversas a meia-voz. Quando Isabel
e Jennifer se aproximaram, uma mulher voltou-se para elas, dizendo: "Um rapaz
caiu das galerias. Está aí dentro". Isabel
fez que sim com a cabeça. "Nós vimos", disse ela. "Estávamos
lá em cima." "Vocês
viram!?", exclamou a mulher. "Viram o rapaz cair?" "Ele
passou na nossa frente", disse Jennifer. "Estávamos no balcão.
Ele caiu e passou por nós." "Que
horrível", disse a mulher. "Ver uma coisa assim..." "É." A
mulher olhou para Isabel com a súbita intimidade solidária que as
tragédias facultam a seus testemunhos. "Não
sei se devíamos continuar aqui", sussurrou Isabel, em parte para Jennifer,
em parte para a outra mulher. "Só vamos atrapalhar." A
mulher se afastou. "As pessoas querem ajudar", disse sem convicção. "Espero
que ele esteja bem", comentou Jennifer. "Cair de uma altura dessas.
Ele ainda bateu na beirada do balcão, sabe? Talvez isso tenha amortecido
um pouco a queda." Pelo
contrário, pensou Isabel, deve ter piorado ainda mais as coisas: aos ferimentos
causados pela queda, se somariam os derivados do choque contra a beirada do balcão.
Ela olhou para trás: havia uma agitação junto à entrada
do teatro, e via-se na parede o reflexo intermitente do facho de luz azul projetado
pela ambulância que acabara de estacionar no meio-fio. "É
melhor sairmos do caminho", disse Jennifer, afastando-se do agrupamento de
pessoas junto à porta. "A ambulância chegou." Deram
alguns passos para trás quando dois sujeitos trajando roupas verdes bem
folgadas passaram correndo com uma maca dobrada nas mãos. Não tardaram
a sair - na realidade, pareceram ficar menos de um minuto lá dentro -,
e passaram por elas levando o rapaz na maca, braços cruzados sobre o peito.
Preocupada em não parecer intrusiva, Isabel virou-se para o outro lado,
porém viu o rosto dele antes de desviar o olhar. Divisou o halo de cabelos
pretos desgrenhados e as feições delicadas, intactas. Tão
bonito, pensou, e agora morto. Fechou os olhos. Sentia-se seca por dentro, vazia.
Esse pobre rapaz, amado em algum lugar por pessoas cujo mundo viria abaixo naquela
noite, pensou, quando a notícia cruel lhes fosse transmitida. Todo o amor
investido num futuro que não se materializaria, findo num segundo, numa
queda das galerias. Virou-se
para Jennifer. "Vou dar um pulo lá em cima", disse num tom de
voz mais baixo. "Avise que nós o vimos cair. Diga que volto num instante." Jennifer
concordou com a cabeça e olhou em volta para ver quem estava no comando
da situação. Era um momento de confusão. Uma mulher estava
aos prantos, provavelmente uma das que se achavam na platéia quando o rapaz
caiu, e um homem alto, em traje a rigor, tentava consolá-la. Isabel
se afastou e foi até a escadaria que levava às galerias. Sentiu-se
constrangida e olhou rapidamente para trás, mas não havia ninguém
ali. Depois de galgar os últimos degraus, passou por uma das arcadas que
davam para o compartimento de assentos escarpados. O lugar estava em silêncio,
e o brilho das luzes que pendiam do teto era embaciado por seus globos de vidro
ornamentado. Olhou para baixo, para o guarda-corpo que o rapaz transpusera ao
cair. Ela e Jennifer se achavam praticamente embaixo do ponto de onde ele despencara,
o que lhe permitiu determinar o lugar em que ele provavelmente estivera antes
de escorregar. Desceu
até o parapeito e caminhou ao longo da primeira fileira de assentos. Ali
estava o corrimão de latão sobre o qual ele provavelmente se debruçara
antes de cair, e alguns passos adiante, no chão, um programa. Isabel curvou-se
e o apanhou; a capa, observou ela, estava um pouco rasgada, mas isso era tudo.
Recolocou a brochura onde a havia encontrado. Então, debruçou-se
sobre o guarda-corpo e olhou para baixo. Decerto era ali que o rapaz estivera
sentado, na extremidade da fileira de assentos, onde as galerias se encontravam
com a parede do teatro. Se fosse um pouco mais para o meio, ele teria caído
no balcão; somente no fim da fileira de assentos era possível uma
queda livre até a platéia. Isabel
sentiu uma pequena tontura e fechou os olhos. Depois tornou a abri-los e olhou
para a platéia, não menos de quinze metros abaixo dali. Perto do
lugar onde o rapaz tinha caído, bem embaixo dela, havia um homem com um
impermeável azul. Então ele olhou para cima e seus olhares se encontraram.
Ambos ficaram surpresos, e Isabel aprumou o corpo, como se se sentisse recriminada
pelo olhar do sujeito. Afastou-se
do parapeito e retornou pelo corredor entre as fileiras de assentos. Não
fazia idéia do que contara descobrir ali - se é que de fato tivera
a intenção de descobrir algo - e sentia-se intimidada por ter sido
vista por aquele homem lá embaixo. O que ele teria pensado dela? Certamente
a tomara por alguém que tentava imaginar o que o pobre rapaz vira em seus
últimos segundos neste mundo. Mas não fora isso que ela viera fazer
ali; não, de jeito nenhum. Alcançou
a escadaria e, agarrando-se ao corrimão, começou a descer. Os degraus
eram de pedra e espiralados, quem não tomasse cuidado podia escorregar.
O que teria acontecido com ele?, pensou ela. Ele devia ter se debruçado,
talvez para ver se conseguia identificar alguém lá embaixo, quem
sabe um conhecido, e então se desequilibrara e caíra. Não
era impossível de acontecer - o guarda-corpo era muito baixo. Parou
no meio da escada. Estava sozinha, mas escutara um ruído. Ou teria sido
só imaginação sua? Aguçou os ouvidos, porém
não distinguiu som nenhum. Deu um suspiro. Ele provavelmente ficara sozinho
lá em cima, não devia ter sobrado ninguém além dele
depois que os outros espectadores se retiraram e a balconista fechou o bar. O
rapaz ficara sozinho e olhara para baixo e então caíra, silenciosamente,
talvez avistando Jennifer e Isabel ao cair, com as quais teria estabelecido, assim,
seu último contato humano. Isabel
chegou ao fim da escadaria. O homem de impermeável azul estava ali, a alguns
metros de distância, e, ao divisá-la, lançou um olhar carrancudo
em sua direção. Ela
se aproximou. "Eu vi", disse. "Eu estava no balcão. Eu e
minha amiga vimos o rapaz cair." O
sujeito a examinou com os olhos. "Precisaremos conversar com a senhora",
disse ele. "Teremos de colher seu depoimento." Isabel
assentiu com a cabeça. "Não deu para ver muita coisa",
comentou. "Foi tão rápido." O
homem franziu o cenho. "O que estava fazendo lá em cima agora há
pouco?", inquiriu. Isabel
olhou para o chão. "Queria saber o que podia ter acontecido",
explicou. "E agora sei." "Ah?" "Ele
deve ter se debruçado no guarda-corpo para olhar para baixo", disse
ela. "Então perdeu o equilíbrio. Tenho certeza de que não
seria difícil de acontecer." O
homem comprimiu os lábios. "Vamos verificar isso. Não há
por que ficar fazendo suposições." Era
uma reprimenda, mas não muito severa, pois era visível o abalo que
o acidente causara a ela. Seu corpo tremia. E ele estava acostumado com isso.
Acontecia uma coisa horrível e as pessoas punham-se a tremer. Era a lembrança
que as assustava, a lembrança de que, na vida, estamos sempre, a todo instante,
a um passo do outro lado. |