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Tu
Carregas Meu Nome,
de Norbert e Stephan Lebert (tradução de Kristina
Michahelles; Record; 206 páginas; 30 reais) Até
que ponto os laços de família determinam o destino
dos indivíduos? Esse livro aborda a questão de maneira
dramática, ao focalizar os descendentes de altos oficiais
nazistas, como Rudolf Hess e Hermann Göring. A maioria carregou
o nome do pai como uma maldição, que obrigou a gestos
radicais de revolta ou a uma vida de silêncio e sentimentos
reprimidos. No primeiro caso encontra-se Klaus Frank, filho de Hans
Frank, o chefe de Auschwitz. Jornalista, ele expôs seu ódio
ao pai em público. No segundo caso encontra-se Gudrun Himmler,
filha do chefe da terrível polícia secreta de Hitler.
Ela viveu no anonimato, cultivando em segredo a memória do
pai e tecendo uma rede de contatos com velhos nazistas. Os autores
de Tu Carregas Meu Nome são também pai e filho.
Norbert abordou o tema do livro numa série de reportagens
em 1959 e Stephan retomou o trabalho quarenta anos depois.
Leia
trecho do livro
O
texto de 1959: Wolf-Rüdiger Hess
- O
próximo, por favor - grita um homem para o corredor.
Jovens nascidos em 1937 estão esperando nos bancos do corredor
de uma repartição militar em Munique, na Kaulbachstrasse,
45, para serem submetidos a exame médico. Fumam, contam piadas,
jogam cartas.
Chega a vez de Wolf-Rüdiger Hess, que está apenas de
chinelos e calção, como manda o regulamento. É
que na democracia não é mais obrigatório despir-se
para o exame médico.
De calção e chinelos, Wolf-Rüdiger Hess se apresenta
à junta. Tudo transcorre conforme a rotina. O exame de vista
é satisfatório. Pressão e pulso, normais.
- Vinte flexões, por favor.
O coração está funcionando bem. O pulmão,
idem. O jovem está apto para serviço militar. Seu
atestado é aprontado. O psicólogo do Exército
o recebe na sala ao lado.
- Que arma o senhor prefere?
- Se não tivesse vindo até aqui para recusar-me a
servir o Exército, eu me interessaria pelos caças
- diz Wolf-Rüdiger Hess.
Um silêncio se instala no recinto. O sol lança raios
oblíquos no chão liso. Um telefone toca ao longe.
- Por que o senhor não quer servir? - pergunta o psicólogo.
- Meu pai está preso em Spandau. Sou o filho de Rudolf Hess.
O senhor entende?
Mas o psicólogo daquela unidade militar em Munique não
precisa entender. Não está ali para tratar de
questões de consciência.
- O senhor faça o favor de enviar por escrito seus motivos
à comissão que examina os pedidos de dispensa do Exército
Wolf-Rüdiger Hess se veste, guarda o calção e
os chinelos na bolsa e sai. Mais alguns passos, e está no
Englischen Garten. A relva está coberta de margaridas. Ele
sente o perfume das flores de tílias.
Já passa das duas da tarde. A próxima aula na faculdade
começa às quatro: estatística de construção
de pontes, com o professor Huber. Ainda tem duas horas pela frente.
Acende um cigarro e passeia pelo parque. É um belo jovem,
alto, louro, olhos claros, vinte e dois anos de idade. Pára
diante de uma cerca. Atrás dela há uma pequena horta
com canteiros de alface, tomates, girassol. Em Spandau, o pai tem
uma horta parecida. Nas cartas, ele fala sempre dessa horta. Tornei-me
especialista no cultivo de tomate ou Este ano plantarei
principalmente girassóis ou Nomearam-me responsável
pelo departamento de cenouras.
Assim passaram-se os anos. Depois das cenouras, o prisioneiro plantou
batatas. Um ano mais tarde, cebolas. Nesse meio tempo recebeu congratulações
pelos seus sessenta anos. E, há algumas semanas, pelo sexagésimo
quinto aniversário.
É difícil para Wolf-Rüdiger Hess imaginar seu
próprio pai. As fotos do álbum de família são
todas de vinte ou trinta anos atrás. Nenhum fotógrafo
penetra na prisão de Spandau. Só houve um que conseguiu
a façanha de clicar as sombras dos detentos com uma teleobjetiva
por cima de muros e arame farpado. Uma dessas sombras era Rudolf
Hess, seu pai.
A única coisa que o filho possui são cartas do pai
- da Inglaterra, de Nurembergue, de Spandau. Nada mais do que isso,
nenhuma lembrança. Ele tinha apenas três anos quando
Rudolf Hess voou para a Inglaterra. Crianças nessa idade
não costumam guardar lembranças.
Wolf-Rüdiger Hess continua caminhando. Em sua pasta há
alguns pedaços de pão. (Ele alimentará os cisnes
e os patos no lago de Kleinhesselohe.) Hoje está sem fome.
De repente lembra-se dos girassóis. Será que germinaram
as sementes que o pai tinha plantado? Na próxima carta haverá
de perguntar-lhe isso. Wolf-Rüdiger Hess nunca esteve em Berlim
nem em Spandau. Afinal, qual seria o sentido de ficar olhando para
muros e torres de defesa?
Rudolf Hess é o único detento de Spandau que se recusa
a receber visitas. Nestas condições que considero
indignas jamais me encontrarei com ninguém nesta prisão
Hoje Wolf-Rüdiger Hess entende esta postura. Mas quando era
pequeno não entendia, naquele fatídico mês de
setembro de 1946, em Nurembergue
Ele viajava com sua mãe, num compartimento superlotado, de
Hindelang para Nurembergue, trocando de trem em Kempten e Augsburg.
Naturalmente não conseguiram assento. Tiveram que viajar
em pé, em corredores lotados. Alguns passageiros abriam os
seus jornais. Na primeira página grandes manchetes falavam
do processo. Havia meses era assim. O menino lia tudo e escutava
o que as pessoas falavam.
- Talvez o Hess saia dessa - dizia alguém.
- É possível - respondia uma voz enferrujada.
- Esse aí eles vão prender num manicômio.
O menino agarrava uma carta no bolso de sua calça. Prison
of War, Rudolf Hess, Nurembergue - era o remetente. Uma carta
dirigida exclusivamente a ele. O garoto sabia toda a carta de cor.
Querido Buz,
obrigado por sua carta, na qual você me informa que desistiu
de se tornar condutor de locomotiva para ajudar na retirada dos
escombros em Munique e agora quer ser maquinista de locomotiva de
verdade. Para isso, você tem desde já minha aprovação.
Pois compreendo muito bem que goste de velocidade. Claro, você
poderia ser ainda mais rápido como piloto de avião.
Mas provavelmente nunca voou em toda a sua vida e por isso não
sabe o que isso significa. Bem, você ainda tem algum tempo
pela frente para pensar no assunto. Mas, se eu fosse você,
esqueceria essa idéia de ser condutor de bonde. O bonde parece
uma lesma em comparação com os outros meios de transporte,
e toda hora você tem que frear porque passam carros, ciclistas,
pessoas ou cachorros pelo caminho
O trem faz uma curva.
- Acho que todos eles vão acabar pagando com a vida - diz
a voz enferrujada.
Na estação central de Nurembergue, o menino e a mãe
descem do trem, cansados e excitados. A água da chuva pinga
pela cúpula da estação. Nas plataformas e no
salão central pessoas dormem pelo chão.
Os dois seguem até o centro e pernoitam em algum lugar.
No dia seguinte Wolf-Rüdiger Hess viu pela primeira vez o Palácio
de Justiça de Nurembergue. Percorreu longos corredores, infinitamente
longos. Passaram por controles e outras instâncias, de uma
sala para a outra, rostos sempre novos. Um americano altíssimo
até apertou sua mão. Mas ele não entendeu o
que ele quis dizer. Talvez o Hess saia dessa, dissera
o homem no trem. O menino agarrava firme a carta em seu bolso com
a mão esquerda. Ele queria encontrar o pai, olhar para ele
com coragem e dizer-lhe que voltara a pensar no assunto e decidira
tornar-se piloto de avião...
Em todos os corredores havia soldados de patrulha, com armas pesadas,
luvas e capacetes brancos. Algumas paredes estavam forradas com
sacos de areia. Wolf-Rüdiger não entendia para quê
mas tampouco queria perguntar.
Quando, depois de uma hora, voltaram a atravessar o centro de Nurembergue
sob a chuva, Wolf-Rüdiger não dizia mais nenhuma palavra.
Apenas lutava contra as lágrimas. O advogado baixinho que
defendia o pai lhes retransmitira o recado:
- O sr. Hess pede que o compreendam. Ele gostaria de conservar lembranças
felizes da família
Não isto aqui, entre arame
farpado e soldados armados. Quer que lhes transmita saudações
Foi assim, alguns dias antes de o Tribunal Militar Internacional
divulgar a sentença de prisão perpétua.
Wolf-Rüdiger Hess espalha as últimas migalhas de pão
para os patos no lago de Kleinhesselohe. Faz um lindo dia de primavera.
Os garçons no restaurante à beira do lago servem taças
de sorvete. Lampiões balançam nos barcos a remo. Naquele
tempo, quando Nurembergue estava sob escombros, ninguém
pensava em sorvete ou lampiões. Ele tinha oito anos e vestia
um terno azul-marinho. Hoje está usando calças compridas
e uma camisa esporte com a gola aberta. Não quer mais
ser maquinista de locomotiva nem piloto de avião
Olha para o relógio no pulso. Passa das três e meia.
Ele deveria se apressar para não perder a hora na Escola
Técnica. Mas decide matar a aula de estatística de
construção de pontes. Sou filho de Rudolf Hess
e isso parece não ser suficiente para a comissão que
investiga os pedidos de dispensa. Precisarei justificar tudo minuciosamente.
Pouco depois das quatro ele toca a campainha do dr. Alfred Seidl,
advogado, na Neuhauserstrasse.
- A quem devo anunciar? - pergunta a secretária.
- Wolf-Rüdiger Hess. E o assunto é Nurembergue.
Ele é imediatamente atendido. O dr. Seidl levanta-se atrás
da sua mesa. O jovem Hess é bem mais alto do que ele.
- Então o senhor é aquele garoto
- Sou.
- Por favor, sente-se.
O dr. Seidl afasta uma pilha de processos e examina o jovem. Quando
assumiu a defesa de Rudolf Hess, em 1946, era um rábula.
Hoje é um advogado famoso. Atuou em centenas de processos,
defendendo conhecidos e anônimos - empresários, cafetões,
assassinos, inocentes e culpados. Mas nenhum processo ficou tão
presente em sua memória como aquele, há treze anos,
naquela sala do tribunal de Nurembergue com iluminação
de néon, onde estavam sentados os 21 acusados, quando o Código
Civil estava fora de vigor, os acusadores usavam uniformes estrangeiros
e das atas emanava o espírito de milhões de mortos
inocentes
- O senhor se parece muito com sua mãe - disse o dr. Seidl.
- Só os olhos, acredito, são do seu pai. É
isso mesmo?
- Sim - responde Wolf-Rüdiger Hess, hesitante. Todos os que
conheceram seu pai dizem isto. Portanto, deve ser verdade.
- O senhor já está trabalhando?
- Não. Ainda estou na universidade. Engenharia civil. Aqui,
na Escola Técnica.
- E está morando em Munique?
- Sim, num quarto alugado.
Conversam um pouco. Sobre os planos, sobre o futuro. Mas os pensamentos
do advogado voltam-se para o passado. A voz e alguns gestos do jovem
o fazem lembrar o pai, o segundo acusado mais importante de Nurembergue,
seu cliente. Cabeça baixa, expressão de indiferença,
Hess passou meses sentado ao lado de Hermann Göring sem proferir
uma palavra. Os outros vinte acusados assumiram o papel de testemunhas,
defendendo sua própria causa. Só Rudolf Hess permaneceu
mudo. Até o último dia, quando afirmou:
- Não me arrependo de nada. Faria tudo de novo...
- Como vai seu pai? - perguntou o dr. Seidl.
- Obrigado. O senhor sabe que ele lida bem com a solidão.
Faz agora vinte anos que está preso.
- Mas continua recusando o pedido de anistia.
- Sim - responde Wolf-Rüdiger Hess.
Na ante-sala ouve-se o barulho de máquinas de escrever. O
telefone toca. O barulho dos bondes entra pela janela aberta.
- Já lhe permitem receber fotografias? - pergunta o dr. Seidl.
- Sim. Mandamos muitas fotografias. Mas ele escreveu para minha
mãe dizendo que ainda não sabia como eu sou verdadeiramente,
porque em cada foto tenho um rosto diferente, dependendo do ambiente,
da iluminação, da direção do olhar
O advogado assente com a cabeça.
- O que posso fazer para ajudá-lo? - pergunta finalmente.
- Fui examinado hoje pelo Exército - diz Wolf-Rüdiger
Hess. - Obviamente, fui dado como apto para servir, mas não
quero. Enquanto meu pai continuar preso em Spandau, não vou
servir. Agora preciso encaminhar meus motivos à comissão
julgadora. Para isso preciso da justificativa que fundamenta a sentença
do meu pai.
O dr. Seidl aperta um botão.
- Por favor, traga-me imediatamente todo o processo sobre Rudolf
Hess. E desejo não ser mais interrompido.
Naquele mesmo dia, à noite, Wolf-Rüdiger Hess, sentado
no quarto alugado no bairro de Bogenhausen, redige uma longa carta
à comissão examinadora dos pedidos de dispensa militar.
A carta é datada de 8 de junho de 1959.
(
) quero descrever-lhes as circunstâncias pelas
quais o meu pai se encontra no presídio de Spandau
Nos dias 30 de setembro/1º de outubro de 1946 meu pai foi declarado
isento de culpa pelo Tribunal Militar Internacional em relação
a dois itens: crime de guerra (acusação número
três) e crime contra a humanidade (acusação
número quatro). Foi declarado culpado nos itens um e dois
(preparativos de uma guerra de ataque) e condenado a prisão
perpétua
(
) Nesta sentença, no caso do meu pai, está
indicado que ele participou ativamente dos preparativos da guerra.
Para justificar esta afirmação, o tribunal aponta
o fato de meu pai ter assinado a lei que instituiu o serviço
militar obrigatório em 16 de março de 1935
(
) o tribunal se compunha exclusivamente de membros
da atual Otan, à qual está associado o Exército
alemão, excetuando a União Soviética.
Os senhores haverão de compreender que a minha consciência
me proíbe de servir militarmente os juízes do meu
pai.
Esta carta, arquivada sob o número PA-110/59/IV/37 no órgão
que cuida dos pedidos de dispensa militar em Munique (Kreiswehrersatzamt),
inaugurou o caso Wolf-Rüdiger Hess que haveria de passar ainda
por várias outras instâncias, causando um rebuliço
considerável.
A mansão dos Hess ficava na Harthauserstrasse, às
margens do rio Isar, com amplos jardins, piscina e quadra de tênis.
Foi ali que Wolf-Rüdiger nasceu, em 18 de novembro de 1937.
Seu padrinho foi Adolf Hitler.
Foi em 10 de maio de 1941 que a vida da família Hess mudou
completamente. Rudolf Hess voltara recentemente para casa. Estava
recebendo Alfred Rosenberg e já conversava a sós com
ele há cerca de uma hora. Depois disso retirou-se para o
seu gabinete de trabalho.
Por volta das duas e meia da tarde apareceu diante da mulher vestindo
trajes incomuns. Calças azul-acinzentadas, uma camisa azul
e botas de cano longo de piloto.
- O que houve? - indagou Ilse Hess, surpresa.
- Recebi um telefonema. Infelizmente, acabaram-se as férias.
Preciso voltar imediatamente a Berlim.
- Quando é que você volta?
- Ainda não sei direito
Hess foi ao quarto do pequeno Wolf-Rüdiger, mas este ainda
estava dormindo. Alguns minutos mais tarde Ilse Hess escutou o barulho
do compressor do Mercedes.
Dois dias mais tarde, à noite, o jovem ajudante de Hess irrompeu
na casa, ofegante:
- Rudolf Hess caiu com o avião no mar do Norte, e é
provável que tenha morrido.
Ilse Hess pediu uma ligação urgente com o Obersalzberg.
Mas não conseguiu falar com Hitler. Em seu lugar, atendeu
o Reichsleiter Martin Bormann.
- Ainda não se sabe nada de definitivo - disse ele.
Somente no dia 13 de maio chegou a informação de que
o vice do Führer havia saltado sobre território escocês
de um Me 110, em estado de confusão mental, conforme
informou a imprensa nazista. Apesar disso, ordenanças, ajudantes,
secretárias, motoristas e amigos de Rudolf Hess foram detidos.
Ilse Hess deixou Munique com o filho pequeno e foi para o Bürgle,
um aconchegante chalezinho de férias em Hindelang, na região
do Allgäu. A mansão da Harthauserstrasse ficou vazia.
- Tínhamos dois pôneis no Bürgle - conta Wolf-Rüdiger
Hess. - Minha avó e minha tia moravam conosco. Fora disso,
lembro-me apenas do meu primeiro dia de aula - diz dando de ombros.
- Notícias do pai? - perguntamos.
- Algumas cartas nos chegaram através da Cruz Vermelha Internacional.
A primeira só chegou depois de oito meses. Mas não
havia muita coisa escrita, pois meu pai tinha ordens de simular
confusão mental na Inglaterra.
- O senhor sabe, sr. Hess, durante muito tempo se acreditou que
o seu pai tinha efetivamente perdido a razão e a memória.
- Eu poderia arranjar-lhe centenas de evidências para provar
o contrário - disse o jovem Hess. - Mas meu próprio
pai é que tratou disso. Em Nurembergue, ele não queria
de jeito nenhum ser julgado incapaz de negociar. Por isso declarou
oficialmente diante do tribunal que, por razões táticas,
simulara perda de memória na Inglaterra
- E essa explicação bastou?
- Sim, pois meu pai ainda se lembrava de todas as perguntas do psiquiatra
inglês. Sabia até a resposta errada que tinha dado.
E, obviamente, a certa também.
- Por que ele adotou essa tática?
- Em sua carta de despedida, meu pai aconselhou Hitler a simplesmente
tachá-lo de louco, caso o seu plano para a Inglaterra fracassasse.
Wolf-Rüdiger Hess só se interessava pelos fatos ligados
ao pai.
- Não me interesso por questões políticas,
presentes ou passadas.
Quando, num dia de maio de 1945, franceses e marroquinos ocuparam
a região do Allgäu, o filho do representante do Führer
estava no terceiro ano do colégio. Um capitão francês
interrogou a mãe dele e mandou iniciar uma ação
de busca para apreender documentos em sua casa. Fora isso, nada
aconteceu. Todo mundo se virava para sobreviver - avó, tia,
mãe e o menino. Exatamente como milhões de outros
alemães. Nem mais, nem menos.
Em Hindelang, Wolf-Rüdiger Hess era conhecido apenas por Buz.
Os filhos de camponeses e de artesãos não se importavam
com o fato de ele ser descendente de um nazista famoso. Buz jogava
bola e esquiava como um campeão. Em Hindelang, era o suficiente.
Além disso, a maioria das crianças alemãs não
tinha pai no final da guerra. Os pais alemães estavam hospitalizados,
tinham morrido ou estavam desaparecidos.
Em fins do outono de 1945, o pai de Wolf-Rüdiger Hess foi levado
da Inglaterra para Nurembergue. A família leu a notícia
no jornal, ainda em Hindelang. Mas a primeira carta chegou apenas
em janeiro de 1946. Não se deixem ludibriar por fotos
ruins nem por matérias tendenciosas, não importa quem
as tenha escrito. Não me modifiquei, nem por fora nem por
dentro, comparado com antes. Obviamente, emagreci: estou comendo
pouco de propósito, porque assim me sinto melhor...
Buz passa a escrever uma carta por semana ao pai na prisão
em Nurembergue. Fala de partidas de futebol, de cachorros, gatos,
da escola, da piscina, de pequenas preocupações infantis.
Obviamente, devemos estar preparados para qualquer tipo de
sentença: morte, casa de detenção ou manicômio
,
escreve o representante do Führer em carta à mulher
no dia 2 de setembro.
Em 1º de outubro a família ouve em silêncio a
sentença pelo rádio, em Hindelang: Hess era
o confidente mais íntimo de Hitler (
) ocupou cargo
de confiança no partido nazista (
) apoiou a política
enérgica de rearmamento de Hitler (
) participou ativamente
dos ataques alemães à Áustria, à Tchecoslováquia
e à Polônia
No dia seguinte, um colega de escola diz a Wolf-Rüdiger Hess
no recreio:
- O mais importante é que seu pai está vivo. Você
vai à aula de música hoje?
- Não - responde ele balançando a cabeça. -
Hoje não.
Não se dizia mais do que isso entre garotos de nove anos
de idade.
A família Hess teve de entregar o chalé no campo.
Passaram uma temporada na pensão Hirsch, até se alojarem
em alguns cômodos num sítio em Bad Oberdorf. Ilse Hess
passou a vender jóias. Buz entrou para o ginásio de
Hindelang.
No dia 3 de junho de 1947 um policial bateu à porta.
- Preciso levá-la, sra. Hess - disse ele.
- Levar... O senhor quer dizer que estou sendo detida?
- É mais ou menos isso - grunhiu o policial. - De qualquer
maneira, é melhor levar a escova de dente...
- Por que estou sendo presa? - perguntou Ilse Hess.
- É uma ordem do Ministério Extraordinário
da Baviera.
Ilse Hess tirou o avental, colocou alguns pertences numa mala, fez
um carinho no filho e disse:
- Isso não vai nos abalar, não é mesmo, filho?
- Não - respondeu Wolf-Rüdiger.
Ele se escondeu no celeiro onde se guardava o feno e ficou observando
sua mãe afastar-se ao lado do policial.
Será que ela também corria o risco de ser condenada
a prisão perpétua?
Inicialmente, Ilse Hess foi levada para a prisão de Sonthofen.
No dia 6 de junho foi transferida para o campo de internação
de Göggingen, perto de Augsburg. Ficou alojada no galpão
V, quarto 5.
O campo de Göggingen era dividido entre mulheres de um lado
e homens do outro. Galpões, arame farpado, torres de comando
Em pouco tempo haveria também crianças brincando no
campo. Elas carregavam sobrenomes como Hess, Göring, Frank,
Schirach. Muitas delas se conheceram ali, e a maioria nunca mais
se viu depois disso. O campo de Göggingen foi a última
encruzilhada de seus destinos.
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