Marcel
Mochet/AFP
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Casares: absurdos plausíveis | |
Histórias
Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares (tradução de
José Geraldo Couto; Cosac Naify; 304 páginas; 46 reais) Como
seu amigo Jorge Luis Borges, o argentino Bioy Casares (1914-1999) era um mestre
da literatura fantástica. Seu primeiro romance, A Invenção
de Morel, é um clássico do gênero no século XX.
Publicados entre 1948 e 1969, os catorze contos desse livro são povoados
de deuses, demônios e engenhocas fantásticas (como uma máquina
capaz de absorver e eternizar a alma de uma pessoa). Bioy Casares era eclético:
recorria tanto a antigas lendas celtas como à ficção científica
para compor suas histórias. Todos os contos trazem um enredo que se imaginaria
absurdo mas que a narrativa habilidosa do autor torna estranhamente plausível.
.
Leia trecho Trecho
do conto "A trama celeste" Comentário: "A
trama celeste" foi publicado originalmente em 1944, na revista Sur,
e incluído posteriormente em
La trama celeste, 1948. A moldura narrativa é o relato do médico
Carlos Alberto Servian, que chega às mãos do narrador, contando
de um processo militar instaurado após um teste de aviação:
o capitão Irineo Morris atravessa para uma dimensão paralela onde
não teriam existido os galeses, nem Cartago desapareceu totalmente. O detalhe
só é percebido pelo narrador após constatar que as ruas e
personagens com nomes de origem celta não existiam na realidade paralela
em que Morris teria transitado. Os improváveis Louis-Auguste Blanqui (L’Éternité
par les astres) e Cícero (Primeiras Acadêmicas) são
as principais referências textuais citadas nesta "teoria da pluralidade
dos mundos" de Adolfo Bioy Casares. É curioso que, para o narrador,
o "outro mundo" talvez seja o Brasil. A
trama celeste Quando
o capitão Ireneo Morris e o doutor Carlos Alberto Servian, médico
homeopata, desapareceram de Buenos Aires, num 20 de dezembro, os jornais mal comentaram
o fato. Falou-se que havia gente enganada, gente complicada e que uma comissão
estava investigando; falou-se também que o escasso raio de ação
do aeroplano utilizado pelos fugitivos permitia afirmar que estes não tinham
ido muito longe. Recebi por aqueles dias uma encomenda; continha: três volumes
in quarto (as obras completas do comunista Louis-Auguste Blanqui); um anel
de escasso valor (uma água-marinha em cujo fundo se via a efígie
de uma deusa com cabeça de cavalo); umas tantas páginas escritas
à máquina – As aventuras do capitão Morris –, assinadas
por c. a. s.
Transcreverei essas páginas. As
aventuras do capitão Morris Este
relato poderia começar com alguma lenda celta que nos falasse da viagem
de um herói a um país que fica do outro lado de uma fonte, ou de
uma infranqueável prisão feita de ramos macios, ou de um anel que
torna invisível quem o usa, ou de uma nuvem mágica, ou de uma jovem
chorando no remoto fundo de um espelho que está na mão do cavaleiro
destinado a salvá-la, ou da busca, interminável e sem esperança,
pela tumba do rei Artur: Esta
é a tumba de March e esta a de Gwythyir; esta
é a tumba de Gwgawn Gleddyffreidd; mas
a tumba de Artur é desconhecida. Também
poderia começar com a notícia, que ouvi com assombro e indiferença,
de que o tribunal militar acusava o capitão Morris de traição.
Ou com a negação da astronomia. Ou com uma teoria desses movimentos,
chamados "passes", que se empregam para que os espíritos apareçam
ou desapareçam. Entretanto,
escolherei um começo menos estimulante; se a magia não o favorece,
o método o recomenda. Isso não implica um repúdio ao sobrenatural;
menos ainda, o repúdio às alusões ou invocações
do primeiro parágrafo. Eu
me chamo Carlos Alberto Servian e nasci em Rauch; sou armênio. Faz oito
séculos que meu país não existe; mas deixe que um armênio
se apóie em sua árvore genealógica: toda a sua descendência
odiará os turcos. "Uma vez armênio, sempre armênio."
Somos como uma sociedade secreta,
como um clã, e, dispersos pelos continentes, nos unem o indefinível
sangue, uns olhos e um nariz que se repetem, um modo de compreender e de desfrutar
a terra, certas habilidades, certas intrigas, certos desarranjos em que nos reconhecemos,
a apaixonada beleza de nossas
mulheres. Sou,
além disso, um homem solteiro e, como o Quixote, moro (morava) com uma
sobrinha: uma moça agradável, jovem e laboriosa. Acrescentaria outro
qualificativo – tranqüila –, mas devo confessar que nos últimos tempos
não o mereceu. Minha sobrinha se divertia fazendo as funções
de secretária, e, como não tenho secretária, ela mesma atendia
o telefone, passava a limpo e arrumava com lucidez certeira os históricos
médicos e as sintomatologias que eu anotava ao sabor das declarações
dos pacientes (cuja regra comum é a desordem) e organizava meu bvasto
arquivo. Praticava outra diversão menos inocente: ir comigo ao cinema nas
tardes de sexta-feira. Aquela tarde era uma sexta-feira. Abriu-se
a porta; um jovem militar entrou, energicamente, no consultório. Minha
secretária estava à minha direita, de pé, atrás da
mesa, e me estendia, impassível, uma dessas folhas grandes em que anoto
os dados que os pacientes me informam. O jovem militar se apresentou sem vacilações
– era o tenente Kramer – e, depois de fitar ostensivamente minha secretária,
perguntou com voz firme: –
Posso falar? Disse-lhe
que falasse. –
O capitão Ireneo Morris quer vê-lo. Está detido no Hospital
Militar. Talvez
contaminado pela marcialidade de meu interlocutor, respondi: –
Às suas ordens. –
Quando irá? –
Hoje mesmo. Desde que me deixem entrar a esta hora... –
Deixarão – declarou Kramer, e com movimentos ruidosos e ginásticos
fez uma reverência. Retirou-se no ato. Olhei
para minha sobrinha; estava alterada. Senti raiva, e perguntei o que estava acontecendo.
Ela me interpelou: –
Sabe quem é a única pessoa que interessa a você? Tive
a ingenuidade de olhar para onde ela apontava. Me vi no espelho. Minha sobrinha
saiu do quarto, correndo. Fazia
já algum tempo que estava menos tranqüila. Além do mais, havia
adquirido o costume de me chamar de egoísta. Parte da culpa disso eu atribuo
a meu ex-libris. Leva triplamente inscrita – em grego, latim e espanhol – a sentença
Conhece-te a ti mesmo (nunca suspeitei até onde me levaria
essa sentença) e me reproduz contemplando, através de uma lupa,
minha imagem num espelho. Minha sobrinha colou milhares desses ex-libris em milhares
de volumes da minha versátil biblioteca. Mas há outra causa para
essa fama de egoísmo. Eu era um metódico, e nós, os homens
metódicos, os que, sumidos em ocupações obscuras, postergamos
os caprichos das
mulheres, parecemos loucos, ou imbecis, ou egoístas. Atendi
(confusamente) dois clientes e fui ao Hospital Militar. Haviam
dado as seis quando cheguei ao velho edifício da rua Pozos. Depois de uma
solitária espera e de um cândido e breve interrogatório, conduziram-me
ao aposento ocupado por Morris. Junto à porta havia um sentinela com baioneta.
Dentro, muito perto da cama de Morris, dois homens que não me cumprimentaram
jogavam dominó. Morris
e eu nos conhecemos a vida toda; nunca fomos amigos. Eu gostava muito de seu pai.
Era um velho excelente, com a cabeça branca, redonda, raspada, e os olhos
azuis, excessivamente duros e despertos; tinha um ingovernável patriotismo
galês, uma irreprimível mania de contar lendas
celtas. Durante muitos anos (os mais felizes da minha vida) foi meu professor.
Todas as tardes estudávamos um pouco, ele contava e eu escutava as aventuras
dos mabinogion*, e em seguida recobrávamos as forças tomando
uns mates com açúcar queimado. Ireneo andava pelos quintais; caçava
pássaros e ratos, e com um canivete, um fio e uma agulha, combinava cadáveres
heterogêneos; o velho Morris dizia que Ireneo ia ser médico. Eu ia
ser inventor, porque os experimentos de Ireneo me aborreciam e porque uma vez
havia desenhado um projétil com molas que permitiria as mais longas viagens
interplanetárias, e um motor hidráulico que, posto em movimento,
não se deteria nunca. Ireneo e eu estávamos afastados por uma mútua
e consciente antipatia. Agora, quando nos encontramos, sentimos uma grande alegria,
uma floração de nostalgias e cordialidades, repetimos um breve diálogo
com ferventes alusões a uma amizade e um passado imaginários, e
logo ficamos sem saber o que dizer. O
país de Gales, a tenaz corrente celta, havia acabado em seu pai. Ireneo
é tranqüilamente argentino, e ignora e desdenha por igual a todos
os estrangeiros. Até em sua aparência é tipicamente argentino
(alguns o julgaram sul-americano): mais para o pequeno, magro, de ossos finos,
cabelo preto – muito bem penteado, reluzente –, olhar sagaz. Ao me ver, pareceu
emocionado (eu nunca o vira emocionado; nem sequer na noite da morte de seu pai).
Disse-me com voz clara, como que para ser ouvido pelos que jogavam dominó: –
Dê-me sua mão. Nessas horas de provação você
demonstrou ser o único amigo. Isso
me pareceu um agradecimento excessivo para minha visita. Morris
continuou: –
Temos que falar de muitas coisas, mas você compreenderá que, diante
de um par de circunstâncias assim – olhou com gravidade os dois homens –,
prefiro calar. Dentro de poucos dias estarei em casa; então será
um prazer recebê-lo. Julguei
que a frase fosse uma despedida. Morris acrescentou que eu ficasse mais um pouco,
"se não estivesse com pressa". –
Não quero me esquecer – continuou. – Obrigado pelos livros. Murmurei
alguma coisa, confusamente. Ignorava a que livros se referia. Cometi erros; não
o de mandar livros a Ireneo. Falou
de acidentes de aviação; negou que existissem lugares – o Palomar,
em Buenos Aires; o Vale dos Reis, no Egito – que irradiavam correntes capazes
de provocá-los. Em
seus lábios, "o Vale dos Reis" me pareceu incrível. Perguntei-lhe
como o conhecia. –
São as teorias do padre Moreau – retomou Morris. – Outros dizem que nos
falta disciplina. É contrária à idiossincrasia de nosso povo,
se é que me entende. A aspiração do aviador criollo*
é que os aviões sejam como gente. Se não, lembre-se das proezas
de Mira, com o Golondrina, uma
lata de conservas amarrada com arames... Perguntei-lhe
por seu estado e pelo tratamento a que o submetiam. Então fui eu que falei
em voz bem alta, para que os que jogavam dominó ouvissem. –
Não admita injeções. Nada de injeções. Não
envenene seu sangue. Tome um Depuratum 6 e depois um Arnica 10000. Você
é um caso típico de Arnica. Não se esqueça: doses
infinitesimais. Saí
com a impressão de haver conquistado um pequeno triunfo. Passaram três
semanas. Em casa houve poucas novidades. Agora, retrospectivamente, talvez descubra
que minha sobrinha esteve mais atenta que nunca, e menos cordial. De acordo com
nosso costume, nas duas sextas-feiras seguintes fomos ao cinema; mas na terceira
sexta, quando entrei em seu quarto, ela não estava lá. Havia saído,
havia esquecido que naquela tarde iríamos ao cinema! Depois
chegou um recado de Morris. Dizia-me que já estava em casa e que eu fosse
vê-lo qualquer tarde. Recebeu-me
no escritório. Digo sem reticências: Morris tinha melhorado. Há
naturezas que tendem tão invencivelmente ao equilíbrio da saúde
que os piores venenos inventados pela alopatia não as abatem. Ao
entrar naquele cômodo tive a impressão de retroceder no tempo; quase
diria que me surpreendeu não encontrar o velho Morris (morto há
dez anos), asseado e benigno, ministrando com sossego os impedimenta do
mate. Nada havia mudado. Na estante encontrei os mesmos livros; os mesmos bustos
de Lloyd George e de William Morris, que haviam contemplado minha agradável
e ociosa juventude, agora me contemplavam; e pendia da parede o horrível
quadro que sobressaltou minhas primeiras insônias: a morte de Griffith ap
Rhys, conhecido como O fulgor, o
poder e a doçura dos varões do Sul. Tentei
levá-lo imediatamente à conversa que lhe interessava. Disse ele
que só tinha que acrescentar alguns detalhes ao que me havia exposto em
sua carta. Eu não sabia o que responder, pois não tinha recebido
carta alguma de Ireneo. Com súbita decisão, pedi-lhe que, se não
fosse incômodo, me contasse tudo desde o princípio. Então
Ireneo Morris me relatou sua misteriosa história. Até
23 de junho passado havia sido piloto de provas dos aviões do exército.
Primeiro cumpriu essas funções na fábrica militar de Córdoba;
ultimamente havia conseguido que o transferissem para a base do Palomar. Deu-me
sua palavra de que, como piloto de provas, era uma pessoa importante. Tinha feito
mais vôos de teste que qualquer aviador americano (do sul e do centro).
Sua resistência era extraordinária. Tanto
havia repetido esses vôos de prova que, automaticamente, inevitavelmente,
chegou a executar apenas um. Tirou
do bolso uma caderneta e numa folha em branco traçou uma série de
linhas em ziguezague; escrupulosamente anotou números (distâncias,
alturas, gradação de ângulos); depois arrancou a folha e me
deu de presente. Apressei-me a agradecer. Declarou que eu possuía "o
esquema clássico
de seus testes". Por
volta de 15 de junho, comunicaram-lhe que por aqueles dias testaria um novo Breguet
– o 309 – de um só lugar. Tratava-se de um aparelho construído segundo
uma patente francesa de dois ou três anos antes, e o teste seria realizado
com bastante sigilo. Morris foi para sua casa, apanhou uma
caderneta de anotações – "como havia feito hoje" –, desenhou
o esquema – "o mesmo que eu tinha no bolso". Depois se dedicou a complicá-lo;
depois – "naquele mesmo escritório onde conversávamos amigavelmente"
– imaginou esses acréscimos, gravou-os na memória. O
23 de junho, alvorada de uma bela e terrível aventura, foi um dia cinzento,
chuvoso. Quando Morris chegou ao aeródromo, o aparelho estava no hangar.
Teve que esperar que o retirassem. Caminhou, para não adoecer de frio;
conseguiu que seus pés ficassem encharcados. Finalmente, apareceu
o Breguet. Era um monoplano de asas baixas, "nada do outro mundo, lhe asseguro".
Inspecionou-o superficialmente. Morris me olhou nos olhos e em voz baixa me comunicou:
o assento era estreito, notavelmente incômodo. Recordou que o indicador
de combustível marcava
"cheio" e que nas asas o Breguet não tinha nenhuma insígnia.
Disse que saudou com a mão e que em seguida o gesto lhe pareceu falso.
Correu uns quinhentos metros e decolou. Começou a cumprir o que chamava
de seu "novo esquema de teste". Ele
era o piloto de provas mais resistente da República. Pura resistência
física, me assegurou. Estava disposto a me contar a verdade. Mesmo que
eu não pudesse acreditar nele, de repente sua vista ficou nublada. Notas: *
Os mabinogion são romances galeses de cavalaria escritos pela primeira
vez no século XIV,
mas que, na tradição oral, remontam a antes do século XI.
* Criollo:
o nativo da América que descende de espanhóis, em contraposição
ao indígena, e
ao imigrante mais recente, de outras partes do mundo. |