O
Homem Secreto, de Bob Woodward (vários tradutores; Rocco; 224 páginas;
25 reais) Há pouco mais de um mês, o ex-diretor do FBI Mark
Felt, de 91 anos, revelou à revista Vanity Fair que ele foi o Garganta
Profunda a fonte secreta que, em 1972, forneceu informações
vitais aos jornalistas americanos Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal Washington
Post, no escândalo de Watergate, que culminou na renúncia do
presidente americano Richard Nixon. Felt decidiu revelar as manobras mais escusas
de Nixon depois que foi preterido pelo presidente em uma promoção
no FBI. Nesse livro, Woodward revela detalhes de seu relacionamento sigiloso com
Felt e explica como pôde manter a identidade de sua fonte em segredo
por 33 anos.
Leia
trecho
Durante aquele ano mantive contato com Felt
telefonando para seu escritório ou sua casa. Estávamos nos tornando
amigos, de certa maneira. Ele era o mentor, mantendo-me afastado de investigações
sobre papel higiênico, e eu era o discípulo que pedia conselhos e
fazia perguntas. Eu conseguia conversar com ele ao telefone por 10 ou 20 minutos.
Num certo fim de semana fui até sua casa em Virgínia e conheci Audrey,
sua mulher.
Para meu espanto, constatei
que Felt era um admirador de J. Edgar Hoover. Ele gostava da ordem de Hoover,
que dirigia o Bureau com procedimentos rígidos e mão-de-ferro. Hoover
estava sempre bem-vestido, era saudável e objetivo. Felt gostava do fato
de Hoover chegar ao escritório às 6:30 da manhã e todos saberem
o que esperar dele. Com a Casa Branca de Nixon era diferente. As pressões
políticas eram imensas, revelou ele, sem entrar em detalhes. Mas acho que
quis dizer corrupta e sinistra. Para Felt, Hoover, ele e a velha guarda constituíam
a muralha que protegia o FBI.
Em
seu livro de memórias, The FBI Pyramid, que recebeu pouca atenção
quando foi lançado em 1979, cinco anos depois da renúncia de Nixon,
Felt denunciou, irritado, o esforço para controlar politicamente o FBI
através daquilo que ele chamou de uma ""trama conjunta da Casa Branca
com o departamento de Justiça".
Naquele
tempo, no período pré-Watergate entre 1970 e 1971, o público
pouco sabia sobre a vasta gama de desenvolvimentos e acrimônia entre a Casa
Branca e o FBI. Como revelaram posteriormente as investigações sobre
Watergate, por exemplo, em 1970 um jovem assessor da Casa Branca chamado Tom Charles
Huston propôs um plano para permitir à CIA, ao FBI e às unidades
militares de inteligência intensificar a vigilância eletrônica
de "ameaças domésticas a segurança", autorizar
a violação ilegal de correspondências e suprimir as restrições
às buscas não autorizadas para apreensão de dados informativos.
Huston alertou, em memorando classificado como altamente secreto, que seu plano
era ‘claramente ilegal’. Inicialmente o presidente Nixon aprovou o plano. Hoover
objetou vigorosamente, em grande parte porque escutas clandestinas, violação
da correspondência e invasão de residências e escritórios
contendo ameaças domésticas à segurança era basicamente
tarefas do FBI e ele não admitia a concorrência. Quatro dias depois,
Nixon cancelou o plano de Huston.
Mais
tarde Felt escreveu que considerava Huston "uma espécie de gauleiter
da Casa Branca para controle da comunidade de inteligência". O Webster’s
Encyclopedic Unabridged Dictionary define gauletier como "o líder
ou oficial comandante de um distrito político sob a autoridade nazista".
Não há dúvidas
a respeito do que Felt pensava da equipe de Nixon. Durante aquele período,
ele também impediu os esforços de alguns funcionários do
Bureau para "identificar cada membro de cada comunidade hippie" da área
de Los Angeles, ou para abrir uma pasta para cada membro da organização
Estudantes por uma Sociedade Democrática.
"Aquela
foi uma proposta totalmente ridícula", escreveu Felt. "Para começar,
apenas um número muito reduzido dos membros dessa organização
havia efetivamente defendido a violência ou dela participado e não
havia justificativa para investigar os outros". Além disso, uma investigação
dessas envolveria a abertura de milhares de novos casos e o FBI não tinha
pessoal para isso.
Nada disso foi
abordado em nossas conversas, mas para mim era óbvio que ele era um homem
sob pressão. Para Felt, a ameaça à integridade e à
independência do Bureau era clara e preocupante.