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O
Legado da Perda, de Kiran Desai (tradução
de José Rubens Siqueira; Objetiva; 292 páginas; 48,90
reais) Radicada em Nova York, a indiana Kiran Desai compôs
um romance ambientado numa aldeia remota de seu país natal,
mas com uma visão atenta ao mundo globalizado. A história
se passa em um lugarejo no Himalaia, na fronteira com o Nepal. A
órfã Sai muda-se para essa vila, para viver com o
avô, um juiz amargo que, educado na Inglaterra, cultiva ressentimentos
por viver num local tão atrasado. Sai se apaixona pelo professor
de matemática, um nepalês que se engaja no nacionalismo
extremista. Como contraponto, aparece a história de Biju,
indiano nascido na mesma aldeia que tenta a vida em subempregos
nos Estados Unidos. Essa bela história de choques culturais
valeu a Kiran o prestigioso prêmio Man Booker do ano passado.
Leia
trecho
Um
Durante
todo o dia as cores tinham sido como as do anoitecer, neblina deslizando
como uma criatura de água pelos grandes flancos de montanhas
tomadas por sombras e profundidades oceânicas. Brevemente
visível acima do vapor, o Kanchenjunga era um pico distante
talhado em gelo, absorvendo o resto da luz, no topo uma pluma de
neve soprada alto pelas tormentas.
Sentada
na varanda, Sai lia um artigo sobre lulas-gigantes num exemplar
antigo da National Geographic. De vez em quando, levantava os olhos
para o Kanchenjunga, observava sua mágica fosforescência
com um arrepio. Sentado num canto isolado com seu tabuleiro de xadrez,
o juiz jogava consigo mesmo. Enfiada debaixo de sua cadeira, onde
se sentia segura, estava Mutt, a cachorra, roncando baixinho no
sono. Uma única lâmpada nua pendia do fio no alto.
Fazia frio, mas dentro da casa era ainda mais frio, a escuridão,
o ar gélido contidos por paredes de pedra muito espessas.
Ali,
nos fundos, dentro da cozinha cavernosa, estava o cozinheiro tentando
acender a lenha úmida. Mexia nos gravetos com cuidado, por
medo da comunidade de escorpiões que vivia, amava e se reproduzia
na pilha. Uma vez, encontrara uma mãe, inchada de veneno,
com 14 bebês nas costas.
O fogo
enfim se acendeu e ele colocou a chaleira em cima, tão amassada,
tão encoscorada como uma coisa escavada por uma equipe arqueológica,
e ficou esperando que fervesse. As paredes eram chamuscadas, encharcadas,
alhos pendurados pelos caules encardidos nas vigas queimadas, chumaços
de fuligem grudados como morcegos no teto. A chama lançou
um mosaico alaranjado brilhante sobre o rosto do cozinheiro, e a
metade superior de seu corpo esquentou, mas um vento gelado torturava
a artrite de seus joelhos.
A fumaça
subiu pela chaminé e saiu, misturou-se à névoa
que ganhava velocidade, a chegar cada vez mais densa, escurecendo
as coisas por partes: metade de uma montanha, depois a outra metade.
As árvores, transformadas em silhuetas, surgiam e submergiam
de novo. Gradualmente, o vapor tomou o lugar de tudo, objetos sólidos
viraram sombra e nada restou que não parecesse moldado ou
inspirado no vapor. O alento de Sai voava em nuvens de suas narinas
e o diagrama de uma lula-gigante construída inteiramente
de fragmentos de informação, sonhos de cientistas,
afundou inteiramente nas trevas.
Ela
fechou a revista e saiu para o jardim. No limiar do gramado, a floresta
era antiga e densa; as touceiras de bambu subiam a mais de três
metros na escuridão; as árvores eram gigantes ataviadas
de musgo, encaroçadas e tortas, cheias de tentáculos
das raízes de orquídeas. A carícia da névoa
em seu cabelo parecia humana e, quando estendeu os dedos, o vapor
tomou-os delicadamente na boca. Pensou em Gyan, o professor particular
de matemática, que devia ter chegado há uma hora com
seu livro de álgebra.
Mas
já passava das quatro e meia e ela usou a neblina pesada
para desculpá-lo.
Quando
olhou para trás, a casa havia desaparecido; ao subir de volta
os degraus da varanda, o jardim desapareceu. O juiz tinha adormecido
e a ação da gravidade sobre os músculos relaxados
puxava para baixo as rugas de sua boca, fazia pesarem as faces,
mostrava a Sai exatamente como ele ia fi car quando morresse.
- Onde
está o chá? - ele acordou e exigiu. - Ele está
atrasado - disse o juiz, falando do cozinheiro, não de Gyan.
- Vou
buscar - ela ofereceu.
A cor
cinzenta tinha vindo também para dentro, pousou na prataria,
fuçou pelos cantos, transformou o espelho do corredor em
nuvem. Ao entrar na cozinha, Sai viu de relance a própria
imagem se borrar e inclinou-se para gravar seus lábios na
superfície, um beijo de estrela de cinema perfeitamente desenhado.
- Oi
- disse, meio para si mesma, meio para alguém.
Nenhum
humano jamais vira uma lula-gigante viva, e embora elas tivessem
olhos do tamanho de maçãs para varrer o escuro do
oceano, sua solidão era tão profunda que podiam jamais
encontrar outra de sua tribo. Sai sentiu-se banhada pela melancolia
dessa situação.
Seria
possível sentir a plenitude tão profundamente quanto
a perda? Romanticamente concluiu que o amor deve com certeza residir
no espaço entre o desejo e a plenitude, no vazio, não
na satisfação. O amor era a ânsia, a expectativa,
a reserva, tudo em torno que não a emoção em
si.
A água
ferveu, o cozinheiro pegou a chaleira e a esvaziou dentro do bule
de chá.
- Terrível
- disse. - Me doem os ossos, me doem as juntas; preferia morrer.
Se não fosse Biju... - Biju era seu filho que estava na América.
Trabalhava no Don Pollo. Ou seria no The Hot Tomato? No Ali Baba's
Fried Chicken? O pai não conseguia lembrar, nem entender,
nem pronunciar os nomes e Biju estava sempre mudando de emprego,
como um fugitivo à solta, sem documentos.
- É,
muita neblina - disse Sai. - Acho que o professor não vem.
- Montou como um quebra-cabeças as xícaras, pires,
bule de chá, leite, açúcar, coador, bolachas
Marie e Delite para caberem na bandeja.
- Eu
levo - ofereceu.
- Cuidado,
cuidado - disse ele, ralhando, e foi atrás com uma baciazinha
de ágate com leite para Mutt. Ao ver Sai se aproximar nadando,
as colheres soando musicais a bater na folha de estanho moldada,
Mutt levantou a cabeça. - Hora do chá? - diziam seus
olhos enquanto o rabo ganhava vida.
- Por
que não tem nada para comer? - perguntou o juiz, irritado,
ao levantar o nariz da confusão de peões do centro
do tabuleiro.
Olhou,
então, o açúcar no açucareiro: grânulos
sujos, cintilantes como mica. Os biscoitos pareciam papelão
e havia marcas de dedo escuras no branco dos pires. Nunca jamais
era o chá servido como devia ser, mas ele exigia ao menos
um bolo ou pãezinhos, biscoitos amendoados ou palitos de
queijo. Algo doce e algo salgado. Aquilo era uma falsificação
e ia contra o próprio conceito do chá da tarde.
- Só
bolacha - respondeu Sai à expressão dele. - O padeiro
foi ao casamento da fi lha.
- Não
quero bolacha.
Sai
suspirou.
- Como
ele ousa ir a um casamento? E isso é jeito de tocar uma padaria?
Idiota. Por que o cozinheiro não pode fazer alguma coisa?
- Não
tem mais gás, nem querosene.
- Por
que ele não pode fazer no fogo de lenha? Os cozinheiros de
antigamente conseguiam fazer bolos perfeitos com uma lata rodeada
de brasas. Acha que antigamente existia fogão a gás,
fogão a querosene? Preguiçosos demais hoje em dia.
O cozinheiro
veio correndo com um resto de pudim de chocolate aquecido ao fogo
numa frigideira, o juiz comeu a deliciosa massa marrom e seu rosto
aos poucos assumiu uma expressão de rancorosa satisfação
pudínica.
Beberam
e comeram, toda a existência ignorada pela não-existência,
esse portal que leva a lugar nenhum, e observaram as copiosas fitas
de vapor que o chá emitia, observaram suas respirações
lentamente a se enrolar e torcer, enrolar e torcer.
Ninguém
notou os rapazes se esgueirando pelo grama- do, nem Mutt, até
eles estarem praticamente na escada. Não que isso importasse,
pois não havia trancas para mantê-los fora e ninguém
à distância de um grito, a não ser tio Potty
do outro lado do despenhadeiro jhora, que a essa hora devia estar
bêbado caído no chão, imóvel mas sentindo
tudo rodar.
-
Não ligue para mim, querida - ele sempre dizia a Sai depois
de uma bebedeira, abrindo um olho só, como uma coruja - só
vou ficar deitadinho aqui para descansar um pouco...
Tinham
vindo a pé pela floresta, com jaquetas de couro do mercado
negro de Katmandu, calças cáqui, bandanas: a moda
universal dos guerrilheiros. Um dos rapazes tinha uma arma.
As
últimas notícias acusavam a China, o Paquistão
e o Nepal, mas naquele lado do mundo, assim como em qualquer outro,
havia bastantes armas circulando para alimentar o esquálido
movimento de um confuso exército. Estavam à procura
do que encontrassem: facões kukri, machados, facas de cozinha,
pás, qualquer tipo de arma de fogo.
Tinham
vindo atrás dos rifles de caça do juiz.
Apesar
da missão e da roupa, não eram convincentes. O mais
velho parecia ter menos de vinte anos e um latido de Mutt bastou
para fazê-los parecer um bando de meninas de colégio,
correndo escada abaixo para se acovardar atrás das moitas
borradas pela névoa.
-
Ela morde, Tio? Meu Deus! - tremendo atrás da camufl agem.
Mutt
começou a fazer o que sempre fazia quando encontrava estranhos:
virou para os intrusos um traseiro que se abanava furiosamente e
olhou para trás, sorrindo, demonstrando ao mesmo tempo timidez
e esperança.
O juiz
detestava vê-la degradar-se assim, então chamou- a
e ela afundou o focinho em seus braços.
Os
rapazes subiram de novo os degraus, envergonhados, e o juiz se deu
conta de que essa vergonha era perigosa porque, se os rapazes projetassem
inquebrantável segurança, estariam menos inclinados
a usar os músculos.
O rapaz
que tinha o rifle disse alguma coisa que o juiz não entendeu.
- Não
fala nepalês? - cuspiu, os lábios retorcidos para demonstrar
o que achava daquilo, mas continuou em hindi. - Armas?
- Aqui
não temos armas.
- Vá
buscar.
- Você
deve estar mal informado.
- Pode
parar com essa nakhra. Vá buscar.
- Ordeno
- disse o juiz - que saiam de minha propriedade imediatamente.
- Traga
as armas.
- Vou
chamar a polícia.
Era
uma ameaça ridícula, porque não havia telefone.
Eles
deram uma risada de cinema e depois, também como no cinema,
o rapaz que tinha o rifle apontou a arma para Mutt.
- Vá
buscar senão mato o cachorro primeiro e você depois,
o cozinheiro em terceiro, as damas por último - disse ele,
sorrindo para Sai.
- Vou
buscar - disse ela, apavorada, e derrubou a bandeja de chá
ao passar. O juiz sentou-se com Mutt no colo. As armas eram da sua
época de Serviço Civil Indiano. Uma espingarda BSA
com tambor de cinco balas, um rifl e Springfield calibre 30 e um
rifle de cano duplo, Holland & Holland. Não estavam nem
trancadas: ficavam penduradas no fim do corredor acima de uma fileira
empoeirada de patinhos-chamariz verdes e marrons.
- Xi,
tudo enferrujado. Por que não cuida delas?
- Mas
ficaram contentes e a valentia desabrochou. - Vamos aceitar o chá.
- Chá?
- Sai perguntou, amortecida de terror.
- Chá
e um lanchinho. É assim que vocês tratam as visitas?
Mandar a gente de volta para esse frio sem nada para esquentar?
- Olharam uns para os outros, olharam para ela, de cima a baixo,
e piscaram.
Ela
se sentiu intensamente, apavoradamente feminina.
Claro,
os rapazes todos conheciam as cenas de filmes em que herói
e heroína, engalanados em confortáveis roupas de inverno,
tomavam chá servido em serviços de prata por criados
cerimoniosos. Então a neblina rolava, exatamente como rolava
na realidade, eles cantavam e dançavam, brincando de esconde-esconde
num belo hotel. Era o cinema clássico ambientado em Kulu-Manali
ou, nos dias pré-terrorismo, na Caxemira, antes de atiradores
surgirem da neblina e terem de fazer outro tipo de filme.
O cozinheiro
estava escondido debaixo da mesa de jantar e os rapazes o arrastaram
para fora.
- Ai
aaa, ai aaa - ele juntou as mãos, implorando aos rapazes
- por favor, sou um homem pobre, por favor. - Levantou os braços
e encolheu-se como se esperasse um golpe.
- Ele
não fez nada, deixe ele em paz - disse Sai, detestando vê-lo
humilhado, detestando ver que o único recurso que lhe restava
era humilhar-se ainda mais.
- Por
favor, só vivo para ver meu filho por favor não me
matem por favor sou pobre me poupem.
Falas
aprimoradas ao longo de séculos, passadas de geração
em geração, porque os pobres precisavam de certas
falas; o roteiro era sempre o mesmo e eles não tinham opção,
a não ser implorar misericórdia. O cozinheiro sabia
instintivamente chorar.
Essas
falas conhecidas permitiram que os meninos relaxassem ainda mais
em seus papéis, que ele lhes entregara de presente.
- Quem
é que quer matar você? - disseram ao cozinheiro. -
Só estamos com fome, só isso. Olhe, o seu sahib vai
ajudar você. Aí - disseram ao juiz -, o senhor sabe
como é que tem de ser. - O juiz não se mexeu, então
os rapazes apontaram a arma para Mutt outra vez. O juiz agarrou-a
e colocou atrás de si.
- Coração
mole demais, sahib. Devia mostrar essa delicadeza com as visitas
também. Vá, arrume a mesa.
O juiz
se viu na cozinha, onde nunca tinha estado antes, nem uma vez, Mutt
enfiada entre os pés, Sai e o cozinheiro apavorados demais
para olhar, desviando os olhos.
Ocorreu-lhes
que poderiam morrer todos com o juiz na cozinha; o mundo estava
de ponta-cabeça e podia acontecer absolutamente qualquer
coisa.
- Nada
para comer?
- Só
bolacha - disse Sai pela segunda vez naquele dia.
- Xi!
Que sahib é esse? - perguntou o líder ao juiz.
- Nenhum
petisco! Prepare alguma coisa então. Acha que a gente pode
continuar de barriga vazia?
Choramingando,
implorando pela vida, o cozinheiro fritou pakoras, massa mergulhada
em óleo quente, esse som de violência parecendo um
acompanhamento adequado à situação.
Em
busca de uma toalha de mesa, o juiz revirou uma gaveta cheia de
cortinas amarelas, lençóis e trapos. Com as mãos
trêmulas, Sai preparou chá numa panela e coou, embora
não fizesse idéia de como preparar direito o chá
desse jeito indiano. Só sabia preparar do jeito inglês.
Os
rapazes deram uma busca na casa com algum interesse. A atmosfera,
observaram, era de intensa solidão. Umas poucas peças
de mobília caindo aos pedaços recobertas pela escrita
cuneiforme dos cupins, isoladas nas sombras junto com umas cadeiras
dobráveis baratas de tubo metálico. Com o nariz torcido
por causa do mau cheiro de rato de um lugar pequeno, embora os tetos
tivessem a altura de um monumento público e os cômodos
fossem espaçosos à antiga maneira dos ricos, janelas
colocadas para paisagens de neve. Examinaram um diploma expedido
pela Universidade de Cambridge que havia quase desaparecido debaixo
de camadas de manchas marrons que desabrochavam nas paredes inchadas
de umidade, enfunadas como velas de barco. A porta havia se fechado
para sempre no quartinho de depósito em que o soalho afundara.
Os suprimentos do depósito e o que parecia uma quantidade
maluca de latas de atum vazias estavam empilhados em cima de uma
mesa de pingue-pongue quebrada na cozinha, e só um canto
da cozinha era usado, uma vez que fora originalmente concebida para
os subordinados escravizados, não para o único criado
restante.
- A
casa precisa de um monte de consertos - os rapazes aconselharam.
- O
chá está fraco - disseram, como sogras. - E está
faltando sal - disseram das pakoras. Molhavam os biscoitos Marie
e Delite no chá e chupavam ruidosamente o líquido
quente. Dois baús que encontraram nos quartos eles encheram
de arroz, lentilha, açúcar, chá, óleo,
fósforos, sabonete Lux e Cold Cream Pond's. Um deles garantiu
a Sai: - Só coisas que o movimento precisa. - O grito de
um deles alertou a todos para um gabinete trancado. - Dê a
chave.
O juiz
foi buscar a chave, escondida atrás dos exemplares da National
Geographic que, quando jovem, imaginando outro tipo de vida, havia
levado a uma loja para encadernar em couro com os anos marcados
em caracteres dourados.
Abriram
o armário e encontraram garrafas de Grand Marnier, xerez
amontillado e uísque Talisker. O conteúdo de algumas
garrafas tinha evaporado completamente, alguns tinham virado vinagre,
mas os rapazes colocaram as garrafas no baú mesmo assim.
- Cigarros?
Não
havia. Isso os enfureceu e embora não houvesse água
nos reservatórios, defecaram nas privadas e deixaram tudo
fedendo. Então, estavam prontos para ir embora.
- Diga:
Jai Gorkha - disseram ao juiz. - Gorkhalândia para os gorkhas.
- Jai
Gorkha.
- Diga:
sou um idiota.
- Sou
um idiota.
- Mais
alto. Não estou ouvindo, hazur. Fale mais alto.
Ele
repetiu na mesma voz vazia.
- Jai
Gorkha - disse o cozinheiro, e - Gorkhalândia para os gorkhas
- disse Sai, embora não tivessem pedido que dissessem nada.
- Sou
um idiota - disse o cozinheiro.
Rindo,
os rapazes saíram para a varanda e desapareceram na neblina,
levando os dois baús. Um dos baús tinha letras brancas
pintadas sobre o metal preto que diziam: Mr. J. P. Patel, SS Strathnaver.
O outro dizia: Miss S. Mistry, Convento de Santo Agostinho. E desapareceram
tão subitamente como haviam aparecido.
- Foram
embora, foram embora - disse Sai. Mutt tentou reagir, apesar do
medo que ainda havia em seus olhos, e LegadoPerda.indd 17 29/5/2007
11:16:00 tentou abanar o rabo que insistia em se dobrar entre suas
pernas. O cozinheiro irrompeu num alto lamento: - Humara kya hoga,
hai hai, humara kya hoga - deixava ele a voz voar. - Hai hai, o
que vai ser de nós?
- Cale
a boca - disse o juiz e pensou: esses malditos serviçais
nascidos e criados para gritar.
Ele
próprio ficou sentado ereto, a expressão travada para
evitar distorções, agarrado com firmeza aos braços
da poltrona para controlar o violento tremor e embora soubesse que
estava tentando deter um movimento interno, a sensação
que tinha era de que o mundo sacudia com uma força arrasadora
contra a qual tentava se segurar. Na sala de jantar estava a toalha
que ele havia estendido, branca com um desenho de videiras interrompido
por uma mancha vermelha escura onde, muitos anos antes, ele havia
derrubado um cálice de vinho do porto ao tentar atirá-lo
em sua mulher por mastigar de um jeito que o repugnava.
- Que
lerdo - os rapazes haviam provocado. - Vocês! Gente sem vergonha...
Não fazem nada sozinhos.
Tanto
Sai como o cozinheiro tinham desviado os olhos do juiz e de sua
humilhação e mesmo agora evitaram olhar a toalha de
mesa, deram uma grande volta à sala, porque se registrassem
a toalha, não dava nem para falar do castigo que o juiz lhes
daria. Era uma coisa horrível, o rebaixar de um homem orgulhoso.
Ele podia matar a testemunha.
O cozinheiro
fechou as cortinas; a vulnerabilidade deles parecia realçada
pelo vidro e pareciam estar expostos na fl oresta e na noite, com
a floresta e a noite estendendo seus escuros mantos felpudos sobre
eles. Mutt viu o próprio reflexo antes de o pano se fechar,
tomou-o por um chacal e saltou. Depois virou-se, viu sua sombra
na parede e saltou mais uma vez.
Era
fevereiro de 1986. Sai tinha dezessete anos e seu romance com Gyan,
o professor particular de matemática, não tinha nem
um ano.
Quando
os jornais conseguiram passar de novo pelos bloqueios das estradas,
diziam assim:
Em
Bombaim, uma banda chamada Hell No ia se apresentar no Hyatt International.
Em
Délhi, uma feira tecnológica sobre fogões a
gás de esterco de vaca recebia delegados de todo o mundo.
Em
Kalimpong, no alto do nordeste do Himalaia onde eles viviam - o
juiz aposentado e seu cozinheiro, Sai e Mutt - havia relatos de
nova insatisfação nas montanhas, reunindo insurreição,
homens e armas. Eram os indo-nepaleses dessa vez, cansados de serem
tratados como minoria em um lugar onde eram a maioria. Queriam seu
próprio país, ou pelo me- nos seu próprio estado,
para gerir seus próprios assuntos. Ali, onde a Índia
se dissolvia no Butão e no Sikkim, e o exército fazia
flexões de pernas e braços, mantendo seus tanques
com tinta cáqui para o caso de os chineses ficarem famintos
de mais territórios além do Tibete, ali o mapa sempre
fora confuso. Os jornais soavam resignados. Tinha havido grande
quantidade de guerras, traições, permutas; entre Nepal,
Inglaterra, Tibete, Índia, Sikkim, Butão; Darjiling
roubada aqui, Kalimpong surrupiada ali - apesar, ah, apesar de a
neblina baixar como um dragão, dissolvendo, desmanchando,
tornando ridículo o desenho de fronteiras.
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