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As Grandes Paixões, de Guy de Maupassant (tradução de Léo Schlafman; Record; 400 páginas; 45,90 reais) – O francês Maupassant (1850-1893) é, ao lado do russo Tchekov, um dos grandes mestres do conto no século XIX. Essa coletânea traz uma seleção de seus melhores textos, em nova tradução. O primeiro conto é o clássico Bola de Sebo, o retrato de uma prostituta cuja dignidade não é reconhecida pelos comerciantes hipócritas com quem ela divide uma carruagem. Maupassant gostava desses personagens marginais – e tinha uma visão ácida da burguesia francesa de seu tempo. Outro clássico, o conto fantástico Horla, é apresentado nessa coletânea em duas versões, o que permite acompanhar o trabalho de depuração da narrativa realizado pelo autor.

Leia trecho

Bola de sebo

Durante vários dias os destroços do exército derrotado atravessaram a cidade. Já não eram tropas, mas hordas em debandada. Os homens tinham a barba comprida e suja, uniformes em farrapos, e avançavam em marcha cansada, sem bandeira, sem regimento. Pareciam todos acabrunhados, derreados, incapazes de pensamento ou resolução, marchando apenas por hábito e caindo de fadiga logo que paravam. Eram sobretudo reservistas, pessoas pacíficas, rendeiros tranqüilos, curvados sob o peso do fuzil; rapazolas alertas, fáceis de assustar e de entusiasmar; prontos para o ataque e para a fuga; depois, entre eles, alguns culotes vermelhos; restos de uma divisão esfacelada numa grande batalha; artilheiros sombrios lado a lado com soldados de infantaria; e, às vezes, o capacete brilhante de um dragão com passo arrastado que seguia aflito a marcha mais leve dos infantes.

Legiões de franco-atiradores de nomes heróicos (Os Vingadores da Derrota, Os Cidadãos do Sepulcro, Os Partilhadores da Morte) passaram, por seu turno, com ar de bandidos.

Os chefes, antigos comerciantes de tecidos ou de cereais, ex-vendedores de sebo ou sabão, guerreiros de ocasião, nomeados oficiais por seus escudos ou pelo tamanho do bigode, cobertos de armas, de flanela e de galões, falavam com voz retumbante, discutiam planos de campanha e pretendiam sustentar sozinhos a França agonizante sobre os ombros de fanfarrões, mas temiam às vezes os próprios soldados, camaradas perigosos, perigosos demais, saqueadores e debochados.

Dizia-se que os prussianos iam entrar em Rouen.

A Guarda Nacional, que nos últimos dois meses realizava manobras de reconhecimento nos bosques vizinhos, fuzilando às vezes suas próprias sentinelas (e se preparando para combater quando um simples coelhinho se agitava nas moitas), voltara para casa. Armas, uniformes e todo o aparato mortal com que espantava há pouco os viajantes nas estradas, num raio de dezoito quilômetros, desapareceram de súbito.

Os últimos soldados franceses acabavam enfim de atravessar o Sena para chegar a Pont-Audemer, passando por Saint-Sever e Bourg-Achard. Desesperado, o general, marchando na retaguarda, sem nada poder tentar com aqueles frangalhos disparatados, perdido em meio à debandada de um povo habituado a vencer, desastrosamente batido apesar de sua bravura lendária, seguia a pé entre dois ajudantes-de-ordens.

Depois, uma calma profunda, uma expectativa espavorida e silenciosa caíram sobre a cidade. Muitos burgueses barrigudos, desfibrados pela rotina comercial, aguardavam com ansiedade os vencedores. Tremiam só de pensar que pudessem considerar como armas os espetos de assar ou os facões de cozinha.

A vida parecia suspensa. As lojas estavam fechadas, e as ruas, desertas. De vez em quando um habitante, intimidado pelo silêncio, esgueirava-se ao longo das paredes.

A angústia da espera fazia desejar a chegada do inimigo.

Na tarde do dia seguinte à partida das tropas francesas, alguns ulanos, saídos não se sabe de onde, atravessaram a cidade às pressas. Um pouco mais tarde, uma massa negra desceu da costa de Saint-Catherine, enquanto duas outras ondas invasoras surgiam pelas estradas de Darnétal e Bois-Guillaume. As vanguardas dos três corpos se juntaram, com precisão, na praça da prefeitura. Por todas as ruas vizinhas, o exército alemão chegava, estendendo seus batalhões que faziam ressoar o chão sob os passos duros e ritmados.

Ordens gritadas por uma voz desconhecida e gutural subiam ao longo das casas que pareciam mortas e desertas, enquanto por trás das venezianas cerradas olhos espreitavam estes homens vitoriosos, donos, por "direito de guerra", da cidade, das fortunas e das vidas. Em seus quartos escurecidos, os habitantes sentiam o desespero dos grandes cataclismos, as grandes convulsões terrestres, contra os quais eram inúteis a sabedoria e a força. Sensação idêntica reaparece cada vez que se subverte a ordem estabelecida das coisas, a segurança deixa de existir e tudo que era protegido pelas leis dos homens ou da natureza se encontra à mercê de uma brutalidade inconsciente e feroz. O terremoto que esmaga populações inteiras sob os escombros das casas; o rio que transborda e carrega camponeses afogados juntamente com cadáveres de bois e traves arrancadas dos tetos; ou o exército glorioso dizimando aqueles que se defendem, aprisionando os restantes, pilhando em nome da espada e agradecendo a Deus ao som dos canhões — são os flagelos terríveis que abalam a crença na justiça eterna e a confiança incutida na proteção do céu e a razão humana.

Pequenos destacamentos batiam nas portas e depois desapareciam no interior das casas. Era a ocupação depois da invasão. Iniciava-se, para os vencidos, o dever de se mostrar delicados com os vencedores.

Ao cabo de algum tempo, uma vez dissipado o terror inicial, estabeleceu-se uma calma nova. Em algumas famílias o oficial prussiano comia à mesa. Era às vezes bem-educado e, por polidez, lamentava a França e manifestava repugnância por participar da guerra. As pessoas se mostravam agradecidas por este sentimento: um dia ou outro podiam necessitar de sua proteção. Ao tratá-lo bem talvez tivessem menos homens para alimentar. Por que magoar alguém de quem se dependia? Seria menos bravura que temeridade. E a temeridade deixou de ser defeito dos burgueses de Rouen, como no tempo das defesas heróicas que fazem parte da história da cidade. Dizia-se, enfim, razão suprema inspirada na urbanidade francesa, que era melhor ser polido dentro de casa desde que não se mostrasse intimidade, em público, com o soldado estrangeiro. Na rua, as pessoas não se conheciam, mas em casa se conversava com prazer, e, à noite, o alemão permanecia mais tempo se aquecendo na lareira comum.

A cidade retomava pouco a pouco o aspecto normal. Os franceses quase não saíam, mas os soldados prussianos formigavam nas ruas. De resto, os oficiais hussardos, que arrastavam com arrogância, nas calçadas, seus instrumentos de morte, não pareciam ter pelos cidadãos comuns mais desprezo do que os oficiais caçadores que, no ano anterior, bebiam nos mesmos cafés.

Havia no entanto alguma coisa no ar, sutil e desconhecida, uma atmosfera estranha e intolerável, como um cheiro espargido — o cheiro da invasão. Enchia as casas e as praças, alterava o sabor dos alimentos, dava a impressão de que se estava em viagem, em lugares longínquos, entre tribos bárbaras e perigosas.

Os vencedores exigiam dinheiro, muito dinheiro. Os habitantes pagavam sempre; eram ricos, aliás. No entanto, quanto mais um negociante normando se torna opulento, mais sofre por qualquer sacrifício, por qualquer parcela de sua fortuna que passa para as mãos de um outro.

Mas, a dez ou quinze quilômetros além da cidade, seguindo o curso do rio, em direção a Croisset, Dieppedalle ou Biessart, marinheiros e pescadores traziam muitas vezes do fundo da água algum cadáver alemão inchado dentro do uniforme, morto a facada ou tamancadas, a cabeça esmagada por uma pedra ou empurrado do alto de uma ponte. O lodo do rio sepultava estas vinganças obscuras, selvagens e legítimas, heroísmos desconhecidos, ataques mudos, mais perigosos do que as batalhas à luz do dia e sem o clamor da glória.

O ódio ao estrangeiro sempre arma alguns valentes dispostos a morrer por uma idéia.

Enfim, como os invasores, ainda que sujeitassem a cidade à sua disciplina inflexível, não praticaram nenhum dos horrores que a fama os fizera cometer ao longo de sua marcha triunfal, as pessoas começaram a criar coragem e a necessidade dos negócios movimentou de novo o coração dos comerciantes locais. Alguns tinham grandes interesses no Havre, ocupado pelo exército francês, e resolveram tentar atingir o porto indo por terra até Dieppe, onde embarcariam.

Usaram a influência dos oficiais alemães com quem se relacionavam, e uma autorização de partida foi concedida pelo general comandante.

Contrataram uma grande diligência de quatro cavalos, e dez pessoas se inscreveram para a viagem. Resolveram partir numa terça-feira bem cedo, para evitar qualquer ajuntamento.

Já havia algum tempo a geada endurecera a terra, e na segunda-feira, pelas três horas, grossas nuvens negras vindas do norte trouxeram a neve que caiu sem interrupção durante toda a tarde e à noite.

Às quatro e meia da manhã, os viajantes se reuniram no pátio do Hotel Normandie, onde embarcariam.

Ainda estavam sonolentos e tiritavam de frio dentro dos agasalhos. Enxergava-se mal na obscuridade. O amontoado de pesadas roupas de inverno fazia os corpos parecerem curas obesos com suas longas sotainas. Dois homens se reconheceram, um terceiro os abordou, e eles conversaram:

— Levo minha mulher — disse um deles.

— Faço a mesma coisa.

— Eu também.

O primeiro acrescentou:

— Não voltaremos a Rouen. Se os prussianos se aproximarem do Havre, partiremos para a Inglaterra.

Todos tinham projetos iguais, sendo de natureza semelhante.

Enquanto isto, não se atrelavam os cavalos. Uma lanterninha, levada por um cavalariço, saía de vez em quando de uma porta escura e desaparecia logo em outra. Patas de cavalos batiam no chão, amortecidas pelo esterco das baias. Ouvia-se, do fundo da construção, uma voz de homem, falando aos animais e praguejando. Um leve rumor de guizos anunciou que as correias estavam sendo colocadas. O rumor logo se tornou frêmito claro e contínuo, ritmado pelo movimento do animal, cessando às vezes, recomeçando em brusca sacudida acompanhada pelo ruído surdo de um casco ferrado batendo no chão.

A porta se fechou de súbito. O ruído cessou.

Os burgueses, enregelados, calaram-se. Permaneciam imóveis e rígidos.

Uma cortina de flocos brancos brilhava continuamente e descia sobre a terra, desfazia as formas e polvilhava as coisas com uma espuma de neve. No grande silêncio da cidade calma e sepultada sob o inverno, só se ouvia o roçar vago, sem nome e flutuante, da neve que cai — muito mais uma sensação do que um ruído, entrelaçamento de átomos leves que pareciam encher o espaço, cobrir o mundo.

O homem reapareceu com a lanterna, puxando pela corda um cavalo triste que vinha contrafeito. Colocou-o contra o varal, prendeu os tirantes e deu várias voltas para segurar bem os arreios porque só podia usar uma das mãos, já que a outra segurava a lanterna. Quando ia buscar o segundo animal, reparou nos viajantes imóveis, brancos de neve, e disse:

— Por que não sobem para o carro? Pelo menos ficarão abrigados.

Eles não tinham pensado nisto, e se precipitaram. Os três homens instalaram suas mulheres no fundo e subiram em seguida. Depois, as outras formas indecisas e veladas ocuparam por sua vez os lugares restantes, sem trocar palavra.

O chão do veículo estava coberto de palha, onde os pés mergulharam. As senhoras do fundo acenderam seus pequenos aquecedores de cobre, munidos de carvão químico, e, durante algum tempo, em voz baixa, enumeraram suas vantagens, repetindo coisas mais que sabidas.

Enfim, estando a diligência atrelada com seis cavalos, em vez de quatro, por causa da puxada mais penosa, uma voz de fora indagou:

— Já subiram todos?

Uma voz de dentro respondeu:

— Sim — e partiram.

O carro avançava com lentidão. As rodas afundavam na neve. A carruagem gemia, com estalidos surdos. Os animais escorregavam, resfolegavam, fumegavam pelas ventas. O chicote gigantesco do cocheiro estalava sem cessar, vibrando por todos os lados, enrolando-se e se desenrolando como uma serpente magra, fustigando bruscamente alguma anca encurvada que então se retesava num esforço mais violento.

Mas o dia apontava imperceptivelmente. Os flocos leves que um dos viajantes, rouenense legítimo, comparou a uma chuva de algodão não mais caíam. Uma suja claridade se filtrava através de nuvens escuras e pesadas que tornava mais brilhante a alvura do campo, onde surgia ora uma linha de grandes árvores vestidas de geada, ora uma choupana com capuz de neve.

 


 
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