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O Cosmos de Humboldt, de Gerard Helferich (tradução de Adalgisa Campos da Silva; Objetiva; 392 páginas; 49,90 reais) – O naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) foi uma das maiores mentes científicas de seu tempo. Fez descobertas fundamentais nas áreas de geografia, climatologia, oceanografia, entre outras, e influenciou cientistas como Charles Darwin. Foi também um aventureiro: em suas andanças pela América do Sul e Central, percorreu mais de 9.600 quilômetros e retornou à Europa levando mais de 6.000 plantas e inúmeros animais do Novo Mundo. O alemão Helferich seguiu os passos de Humboldt para compor um relato detalhado das viagens de seu compatriota. O livro reconstitui uma das mais fascinantes expedições científicas da história.

Leia trecho

UM
Tegel

nascido em 1769, alexander von humboldt cresceu em um dos períodos de exploração marítima mais empolgantes já vistos pela Europa. Embora já fizesse quase 250 anos que Fernão de Magalhães partira na primeira viagem de circunavegação do globo, em meados do século XVIII, o oceano Pacífico ainda era um vasto desconhecido. Mas com o fim da Guerra dos Sete Anos em 1763, a França e a Grã-Bretanha decidiram levar sua rivalidade política, científica e comercial aos cantos mais remotos da Terra. Em 1800, haviam enviado meia dúzia de expedições de circunavegação, no que ficaria conhecido como "a Segunda Grande Era de Descobrimentos".

Como as expedições que as precederam nos séculos XV e XVI (a chamada Grande Era da Exploração), estas novas foram lançadas principalmente na esperança de lucro financeiro com o comércio ultramarino em expansão. Mas também foram produtos da tendência decididamente racional e secular da época, e diferiram das viagens anteriores em dois aspectos importantes. Primeiro, não sendo motivadas por zelo religioso, não procuravam converter ninguém a fé nenhuma. E segundo, foram realizadas em parte por curiosidade científica, a fim de promover descobertas em história natural. Assim os capitães desta época levavam a bordo não apenas marujos e homens do mar, mas também astrônomos e naturalistas.

O supremo explorador francês do século XVIII foi o encantador e brilhante Louis-Antoine de Bougainville, que, tendo lutado com Montcalm no Canadá durante a Guerra dos Sete Anos, foi o primeiro de seus conterrâneos a dar a volta ao mundo. Partindo da Europa em 1766 com os velozes Boudeuse e L’Étoile, Bougainville visitou o Taiti, que, logo depois de recém-descoberto por Samuel Wallis, já havia assumido seu lugar como o protótipo da ilha paradisíaca do Pacífico. O grupo parou em outras ilhas, incluindo Samoa, as Novas Hébridas, e as Salomão, contornou a Grande Barreira de Recifes, e aí, escapando por pouco das ferozes tempestades no mar de Coral, regressou à França três anos depois com uma coleção de espécimes de história natural, entre eles os primeiros marsupiais já vistos na Europa. Bougainville foi recebido como herói nacional, e seu livro, Voyage Autour du Monde, revelou-se um enorme best-seller.

Mas o maior navegador da época foi o inglês James Cook. Tendo abandonado uma carreira promissora de comandante de navios carvoeiros no mar do Norte a fim de ingressar na Marinha Real já com 27 anos, Cook era conhecido pelo bom temperamento, a solicitude para com seus homens e a extrema competência para a navegação. Especializou-se em mapear litorais, e considera-se que seu estudo magistral do rio São Lourenço tenha permitido aos britânicos tomarem Quebec em 1759, durante a Guerra dos Sete Anos.

Quando Cook partiu em sua primeira viagem, seu objetivo precípuo era ir ao Taiti para observar um raro trânsito de Vênus pelo Sol, que permitiria calcular com mais precisão a distância da Terra ao nosso astro e forneceria outros dados úteis aos navegadores. No entanto, Cook também foi incumbido de uma missão mais delicada e estrategicamente importante — resolver as duas questões mais prementes da exploração do Pacífico. Primeiro, deveria confirmar ou não a existência do Grande Continente Austral, postulado por Ptolomeu 1.500 anos antes. Segundo, deveria dizer se a Nova Zelândia era um cabo que se projetava da Nova Holanda (Austrália) ou uma ilha em si.

Escolhendo o Endeavour, um dos navios-carvoeiros sólidos porém lentos que ele conhecia bem, Cook partiu da Inglaterra em agosto de 1768. Após observar no Taiti o trânsito de Vênus, ultrapassou os 40 graus de latitude sul, e, não encontrando nenhum Continente Austral, passou os seis meses seguintes estudando a Nova Zelândia, que provou ser formada de ilhas, e mapeando parte da costa leste da Austrália. Também penetrou na Grande Barreira de Recifes, em que por pouco não perdeu o navio quando este encalhou nos baixios traiçoeiros. Com o Endeavour consertado, Cook atravessou o estreito Torres, confirmando que a Nova Guiné também não era ligada à Austrália, e prosseguiu para a Inglaterra.

A primeira circunavegação de Cook foi considerada a exploração do Pacífico mais bem-sucedida já levada a cabo, mas ainda havia muito a aprender sobre o maior oceano do mundo. De 1772 a 1775, Cook fez uma segunda viagem em dois navios-carvoeiros mais equipados, o Resolution e o Adventure, em que se tornou a primeira pessoa a cruzar o Círculo Antártico. Fazendo esta circunavegação na mais baixa latitude já tentada, também desmentiu de uma vez por todas a existência do Grande Continente Austral, pelo menos em qualquer região habitável por humanos. (A Antártida só seria descoberta em 1820, pelos britânicos William Smith e James Bransfield e o americano Nathaniel Palmer.) Nessa viagem, Cook também descobriu a Geórgia do Sul e a Nova Caledônia, entre outras ilhas do Pacífico Sul.

Em sua terceira e última viagem, Cook deixou a Inglaterra em 1776, novamente no comando do Resolution e do Adventure. Dessa vez, foi incumbido de subir a costa pacífica da América do Norte em busca da suposta Passagem Noroeste; embora não tivesse conseguido encontrar o elusivo caminho marítimo, fez uma de suas maiores descobertas, as ilhas Sandwich (Havaí), onde, em 1799, foi morto pelos indígenas numa briga por causa de um barco roubado. O Resolution e o Adventure regressaram à Inglaterra em outubro de 1780.

Jamais alguém explorara o Pacífico de forma tão completa quanto Cook, e suas descobertas eram sem paralelo. De fato, com os mapas aperfeiçoados e as incríveis coleções de espécimes de história natural, as viagens de Cook foram muito mais bem-sucedidas de uma perspectiva científica do que de uma comercial. Acompanhado na primeira expedição do famoso naturalista Joseph Banks, bem como de dois ilustradores botânicos, Cook regressou à Europa com várias espécies novas de plantas e animais exóticos. Na segunda viagem, tinha com ele o renomado naturalista alemão Johann Forster e o filho de Forster, Georg, bem como o botânico sueco Anders Sparrman e dois astrônomos. O livro resultante de Forster, Observações Feitas Durante uma Viagem ao Redor do Mundo, foi uma mistura magistral de história natural, antropologia e relato de viagem e tornou-se um best-seller internacional, estimulando ainda mais o fascínio da Europa pelas terras exóticas do outro lado do mundo.

Apesar das inúmeras outras descobertas, o maior avanço científico de Cook foi contra o escorbuto, uma doença corrosiva que havia séculos era a maldição dos marinheiros; na primeira e na segunda viagens, ele fez experiências com frutas cítricas, sauerkraut, hortaliças frescas e até capim, e, por incrível que pareça, não perdeu um único homem para a doença, que é causada pela carência de vitamina C. Foi de fato pela vitória sobre o escorbuto, não pelas descobertas geográficas, que Cook recebeu o maior prêmio da Royal Society, a Medalha Copley, em 1776. Enquanto isso, seu naturalista, Joseph Banks, tornou-se um defensor das ciências mundialmente famoso, ocupando o cargo de presidente da Royal Society até sua morte em 1820.


 
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