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As Vidas de Miguel de Cervantes, de Andrés Trapiello (tradução de Luís Carlos Cabral; José Olympio; 350 páginas; 43 reais) – O espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) – criador de um dos personagens mais célebres da literatura, Dom Quixote – sempre foi uma esfinge para os estudiosos. Pouco se sabe sobre sua vida, ainda que inúmeras biografias do escritor tenham vindo à luz desde o século XVIII. Ao mesmo tempo, muito se fantasiou a seu respeito. Cervantes é retratado de forma equilibrada pelo espanhol Andrés Trapiello. Ele confronta os relatos já publicados sobre o escritor, investiga até que ponto sua vida se espelha em sua obra e usa da imaginação para especular sobre os mistérios a seu respeito. O livro, de 1993, chega ao Brasil numa versão atualizada por Trapiello em 2001.

Leia trecho

1. MENDIGOS NA ESTAÇÃO DE RECOLETOS. QUANDO A ESPANHA ERA VELHA. A PRIMEIRA NOVELA NA VIDA DE MIGUEL DE CERVANTES E UMA MULHER RICA SEM HONRA

Cervantes nasceu, provavelmente, em Alcalá de Henares, com certeza no dia 29 de setembro de 1547.

Como se vê, nem as coisas mais simples da vida de Cervantes podem ser contadas sem que se recorra a hipóteses.

A cada hora sai um trem de passeio de Recoletos de Madri para Alcalá de Henares.

A estação costuma estar vazia. Dois mendigos dormem jogados em um banco, garrafas de vinho ao lado, e do túnel chegam ruídos de uma eterna goteira que enche o lugar com desolados ecos de esgotos.

A iluminação é escassa e insuficiente. Alguns dos tubos de néon estão quebrados, parecem ter sido estilhaçados por pedradas, mas não deve ter sido essa a causa, já que lá dentro não há pedras. É possível que as tenham trazido nos bolsos. Os catadores de lixo tentaram arrancar as lâmpadas, mas não conseguiram, e por isso muitas delas estão destruídas. Essa tenacidade destrutiva intimida e paralisa. O que resta delas são tripas de um repugnante plástico negro.

Os trens demoram a chegar, e por isso há quem fique observando, com curiosidade, os mendigos que roncam sem preocupação nem modos. Alguns observadores até se atrevem a cometer a imperdoável vulgaridade de acreditar que eles são felizes, livres e coisas desse tipo.

Os mendigos são os únicos personagens cervantinos de toda a cena. Cervantino é aquele que não mudou com o passar dos séculos: ainda vive a pobreza, a loucura, o fracasso, a desolação, a delinqüência, e também a bondade, a falta de razão, a liberdade.

De quando em quando, os trilhos rangem surda e vagamente, deixando escapar gemidos de lamento. Acredita-se, então, que a chegada do trem é iminente, mas é um equívoco. Em instantes tudo volta ao silêncio inóspito e pode-se ouvir a gota d.água martelando à distância, implacável, agourenta, sinistra.

Três ou quatro viajantes chegam tropeçando nos mendigos. Seus passos, martelando sob a abóbada do cânone, lembram os dos servidores do Santo Ofício.

Quando percebem os mendigos, os viajantes distraídos empurramos com um safanão, olham-nos com repugnância e, com um pulo, se colocam a salvo a uma distância prudente, sem, no entanto, perdê-los de vista.

Os próprios passageiros estudam-se com o rabo dos olhos. Há em seus rostos receio, amargura, angústias indecifráveis, tão intensas, que quando eles se aproximam dos limites da plataforma fica-se receoso de que estejam alimentando a idéia de se atirar contra a locomotiva assim que ela se aproxime.

Eles também são personagens de Cervantes. Um exibe olheiras de quem não dormiu bem à noite; o outro, um brilho piedoso no olhar; o terceiro, o mistério de uma carta de baralho devolvida e um sorriso amplo e inexpressivo.

O trem chega meio vazio. Alguns vagões estão totalmente desertos. Em um deles, aparece a figura de um estudante que repassa algumas anotações; é provável que tenha perdido as primeiras aulas. Em Alcalá, assim como na velha Compluto, voltou a haver universitários. E é para Alcalá de Henares, pátria de Miguel de Cervantes, que vai o biógrafo.

Este dado tão simples, o de que Alcalá de Henares é a pequena pátria de Cervantes, levou séculos para ser elucidado. Houve muitas disputas, os eruditos trocaram navalhadas nas vielas e becos de suas teses, alguns apresentaram provas falsas, outros exumaram arquivos, muitos se perderam em Eldorado.

Alcázar de San Juan, Consuegra, Sevilha, Lucena, Madridejos, Herencia, Madri, Toledo, Alcalá de Henares são algumas das cidades que foram apontadas, sucessiva ou simultaneamente, como berço de Cervantes...

Até quarenta ou cinqüenta anos atrás, as paisagens vistas das janelas do trem podiam ser consideradas cervantinas. Os povoados com suas casas de um ou dois andares e torres de duas, três igrejas ou conventos. Torres de cantaria, de ardósia e esferas de granito coroadas por um catavento louco.

Tenho à vista algumas fotografias da época. As plataformas ribeirinhas, que foram cruzadas, as hortas e os campos de Jarama, as alamedas e a planície manchega. Era uma paisagem bonita, com humildes casas de lavradores, caminhos empoeirados, camponeses montados em burricos, arbustos cercando currais, os cantos de bulerías dos álamos, a pobreza das terras recém-lavradas; imagens que davam a esta terra um caráter único, inconfundível, de grande solenidade.

Agora resta pouco de toda essa paisagem. Os currais foram transformados em fábricas e desengonçadas plantas industriais, e nos campos de cevada avançam inclementes e macedônicas as dunas de lixo, os detritos, os casebres.

Cervantes, que tem boa memória para os detalhes precisos, nunca disse o nome do seu povoado. Chega a mentir algumas vezes sobre suas origens e a jurar, em benefício de uma causa ou de um vizinho, ter nascido em Córdoba.

Afirmou, muitas vezes, ser morador de Esquivias, Toledo, Sevilha e Madri, mas jamais mencionou Alcalá de Henares. Como o próprio dom Quixote, Cervantes parece ter ocultado o nome de seu berço para que, nos séculos vindouros, ele fosse disputado por todas as aldeias da Mancha. Chegar a Alcalá de Henares pela estrada é uma experiência desoladora, e de trem ocorre o mesmo: conjuntos residenciais, uma auto-estrada enjaulada, garrafões de gás butano nas janelas...

Foram feitas estas peregrinações, mas é absurdo perseguir "cinzas, pó, nada", como se lê no sepulcro do cardeal Portocarrero da catedral de Toledo.

A lápide que hoje recorda Cervantes em Alcalá menciona seu nome, mas qualquer traço cervantino esfumaçou-se do povoado.

Há cinqüenta anos, nem se tinha certeza de que Cervantes nascera. Até 1743, não havia nem mesmo suspeitas.

Quando, finalmente, se pôde provar que Cervantes era de Alcalá, foram vasculhados todos os arquivos paroquiais e registros públicos porque a ânsia dos homens de saber fatos que não sejam transcendentais parece ser insaciável.

Sabe-se, pois, que Cervantes nasceu em Alcalá, mas, para radicalizar, o único fato transcendente é que Cervantes nasceu, e que nasceu na Espanha, e não tanto em uma pátria, mas em uma língua chamada Espanha. Isso teria sido suficiente. Mas descobriram a igreja onde foi batizado, e até mesmo a casa onde nasceu.

As mesmas hipóteses que os eruditos usaram para descobrir a casa de Miguel de Cervantes cercam a data de seu nascimento.

De acordo com a ata de batismo, sabe-se que recebeu as águas em 9 de outubro de 1547. Suspeita-se, pelo nome recebido, que tenha nascido em 29 de setembro, dia de São Miguel. Estas datas, se forem definidas pelo calendário gregoriano reformado, correspondem, respectivamente, para nascimento e batismo, aos nossos dias 9 e 19 de outubro. Como se vê, a partir de certo ponto a erudição é tão apaixonante quanto a filatelia.

Sua casa natal - caso se acredite que a casa natal de Cervantes é a da rua da Imagem -, depois de inúmeras reformas e transformações, não guarda mais qualquer semelhança com a que Cervantes conheceu. E será possível usar o verbo conhecer? Cervantes teria deixado a casa e o povoado quando ainda não tinha completado quatro anos.

Durante algum tempo, até se acreditou que Cervantes era descendente dos reis de León, tese que o afastava .do círculo dos visigodos.. O mais curioso nisso tudo é que os que procuraram estabelecer uma relação de parentesco de Cervantes com o próprio El Cid não desconfiavam que o escritor talvez fosse um "cristão-novo., ou seja, um descendente de judeus convertidos ao catolicismo.

Sabe-se um pouco mais a respeito dos avós paternos de Cervantes, mas mesmo assim são muitas as lacunas. Seus avós maternos foram lavradores em Arganda, Argamasilla, Barajas e em outros povoados das cercanias de Madri - lavradores conformados da época ou - para dizer melhor - dos pobres.

A avó materna procedia de uma família de médicos de Córdoba. Naquela época, a profissão de médico era vaga, uma mistura de veterinário, barbeiro e sangrador. O avô paterno, de nome dom Juan de Cervantes, também de Córdoba, estudou as leis, chegou a tenente corregedor e ocupou diversos cargos públicos em diferentes aldeias e cidades. Entre elas, Alcalá.

Dom Juan de Cervantes procurou Alcalá de Henares para escapar da língua do povo durante o processo que ele e sua filha Maria moveram contra um certo dom Martín de Mendoza.

A vida de dom Juan de Cervantes parece ter sido tirada de uma das novelas do seu neto. Viveu-a reivindicando. Às vezes pelos outros; outras, por si próprio. Não parece que fosse um homem que tivesse escrúpulos nem para com ele nem para com ninguém.

Em muitos dos lugares onde exerceu cargos foi acusado de diversos delitos e de abuso de autoridade, o que não o impediu de buscar e obter a proteção de pessoas proeminentes e nobres.

Uma delas foi Diego Hurtado de Mendoza, duque do Infantado, que o nomeou membro de seu Conselho, em Guadalajara.

Este duque, já velho, realizou a fantasia de casar-se com uma jovem plebéia, mulher à qual legou, depois de sua morte, a quinta parte de seus bens, fato que enfureceu seu herdeiro e um irmão deste, chamado Martín de Mendoza, fruto bastardo de uma relação amorosa do velho duque com uma cigana.

Maria de Cervantes esteve, durante algum tempo, e com o consentimento do pai, que a deixou em paz, amancebada com este dom Martín. E recebeu durante o período fieiras de pérolas, roupas e somas em dinheiro, presentes que lhe foram dados para que se submetesse a desejos mais intensos.

Com a morte do velho duque, seu herdeiro e o irmão despediram o conselheiro Juan de Cervantes e se livraram de Maria, sem lhe pagar a despropositada quantia de seiscentos mil maravedis que dom Martín lhe havia prometido como dote.

Muitos acreditam que dom Juan de Cervantes foi um rufião mesquinho e interesseiro. Durante o processo, foi chamado destas e de coisas piores. Ele limitou-se a ouvir, como se estivesse pensando: "Chamem-me de cão, mas me joguem o pão"

Dom Juan, como já foi dito, conhecia bem as leis e abriu um processo contra a importante casa do Infantado. No decorrer da ação, chegou a ficar preso no cárcere de Valladolid (o mesmo que seu filho Rodrigo, pai de Miguel, e o próprio Miguel conheceriam mais tarde), mas acabou ganhando a causa. A honra da manteúda ficou a salvo e as quantias recebidas foram consideradas satisfatórias.

Fatos como estes protagonizados por dom Juan de Cervantes e sua filha não eram excepcionais na época. As mulheres estabeleciam um preço para a única virtude que se valorizava nelas. Quando bem administrada, a honra de uma mulher podia produzir benefícios bastante razoáveis.

Uma vez ganha a causa, os Cervantes puderam levar, durante alguns anos, uma vida tranqüila e prazerosa. A relação com dom Martín também deu a Maria uma filha, batizada de Martina, que ficaria mais tarde conhecida como Maria de Mendoza.

Depois de alguns anos, e sem que se saiba por quê, dom Juan abandonou a mulher e o resto da família, levando junto o mais jovem de seus filhos. Passou por umas três ou quatro cidades, não foi bem-sucedido, e acabou instalando-se em Córdoba, sua cidade natal, onde chegou amasiado com sua criada.

Dom Américo Castro acredita que essa vida errática é uma prova irrefutável de que os Cervantes eram judeus convertidos - e também as profissões que exerceram, pois foram advogados, médicos, cirurgiões e arrecadadores de impostos. Para reforçar sua tese, cita Quevedo, que sabia muito bem o que fazer para não parecer um deles: "Para ser cavaleiro ou fidalgo, mesmo sendo judeu ou mouro, escreva com letra ruim, fale depressa e asperamente, ande a cavalo, contraia muitas dívidas e vá aonde não o conheçam, e assim o serás."

A fuga do chefe do clã, o avô de Miguel de Cervantes, mergulhou a família em dificuldades financeiras.

Foi nessa época que Rodrigo, o segundo dos filhos de dom Juan de Cervantes e pai de Miguel, se casou com dona Leonor de Cortinas. O velho pai sequer assistiu à cerimônia matrimonial. E, pelo que se sabe, também não esteve presente no batizado de seus netos, nem no de Miguel.

Miguel foi o quarto dos sete filhos do casal Rodrigo e Leonor. O primeiro, que chamaram de Andrés, morreu pouco depois de nascer, mas em sua memória deram o nome de Andrea à menina que nasceu no ano seguinte. Depois veio outra menina, que chamaram de Luísa, que seria freira. O quarto foi Miguel.

Sabe-se tão pouco de Rodrigo, pai de Miguel, quanto do avô de Cervantes.

Era surdo de nascimento, e isto condicionou seu caráter: retraído e triste. A surdez impediu-o de tornar-se médico, mas não praticante ou prático, como eram chamados na época os assistentes que ficavam no meio caminho entre o sangrador e o barbeiro. Sabe-se também que Rodrigo só precisou ler três livros para tornar-se "médico-cirurgião": a gramática de Lebrija, a Prática de cirujía, de Juan de Vigo, e o tratado De las cuatro enfermedades, de Lobera de Ávila.

Depois da fuga do pai e sem sua proteção, Rodrigo decidiu dar um salto em busca de uma fortuna melhor. Vendeu tudo o que possuíam em Alcalá e levou a mãe, a tia Maria e os quatro filhos que sustentava para Valladolid. Este fatos aconteceram no ano de 1551.


 
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