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livros
Wilton Montenegro
Clara Nunes: rainha inconteste do samba

Clara Nunes: Guerreira da Utopia, de Vagner Fernandes (Ediouro; 329 páginas; 49,90 reais) – A cantora mineira Clara Nunes (1942-1983) é cultuada pela nova geração. Marisa Monte já a apontou como uma de suas artistas prediletas, e novatas como Mariana Aydar incluem em seus discos canções que fizeram parte do repertório de Clara. Essa biografia ajuda a entender as razões de tanta admiração. O jornalista Vagner Fernandes reconstitui a trajetória da cantora, que começou cantando boleros de gosto duvidoso antes de se converter ao samba – no qual fez história, criando registros definitivos das melhores composições do gênero. Há também histórias de bastidores sobre a rivalidade de Clara com Beth Carvalho, na disputa do posto de a maior sambista do Brasil – que, aliás, cabe ainda hoje a Clara Nunes.

Leia trecho

Antonio Vieira de Mello deu início à operação. Clara estava anestesiada em função de uma mistura de halotano, protóxito de azoto e oxigênio. Tudo corria normalmente. A perna direita já havia sido operada. E a segunda estava sendo suturada, quando Antonio Vieira de Mello percebeu que o sangue de Clara apresentava uma coloração diferente, mais escura. O médico assustou-se. Voltou-se para o anestesista e pediu para que lhe aferisse a pressão. Naquele tempo, com aparelho ainda manual. A pressão arterial de Clara estava em queda, a artéria femoral estava sem pulsação. Ela estava tendo uma parada cardíaca. A equipe entrou em ação. Dr. Antonio Vieira de Mello mandou fechar a saída do anestésico e aumentar para 100% a entrada de oxigênio no tubo traqueal. Em intervalos de segundos, era verificado o pulso na femoral para certificar-se da ausência de batimentos cardíacos. A compressão torácica externa já começara a ser realizada, mas foi interrompida. Como o coração fibrilava, lançaram mão do choque elétrico. O aparelho, um desfibrilador que estava em um dos cantos da sala, foi imediatamente ligado. Vieira de Mello colocou os eletrodos sobre o tórax de Clara e deu o choque. O coração bateu novamente. Alívio geral. Os sinais vitais foram recuperados, mas Clara não respondia voluntariamente aos estímulos. Havia entrado aparentemente em coma. O desespero tomou conta dos médicos e assistentes. A cantora havia tido uma reação alérgica a alguma das substâncias do anestésico, uma anafilaxia. No popular: choque anafilático, o que provoca vasodilatação generalizada de todos os capilares do corpo. O cérebro não suportou e um enorme edema se formou. Morte cerebral certa. Os médicos ainda não sabiam da extensão do problema. Reconheciam que o caso era grave, mas não havia naquele momento como precisar o quão grave era. O tomógrafo da Clínica São Vicente, uma das mais caras do Rio, localizada na Zona Sul da cidade, estava quebrado. Só havia outro na Santa Casa de Misericórdia, no Centro. Tomógrafo naquela época era aparelho top de linha na medicina. No Rio, só havia aqueles dois. Clara foi encaminhada para o CTI às vinte para as quatro. A partir daquele momento, antes de qualquer decisão, Paulo César Pinheiro tinha de ser comunicado. Antonio Vieira de Mello ligou para Paulo. Pediu que ele comparecesse urgentemente à clínica. De cara, o compositor percebeu que havia algo de errado. Pegou o carro e saiu em disparada. Ao chegar na casa de saúde foi levado para uma sala, na qual estava reunida toda a equipe. Paulo lembra:

"Cheguei lá no início da tarde. Me levaram para uma sala em que estava a junta médica, todos os que participaram da cirurgia. Deviam ser umas seis pessoas. O médico-cirurgião, Antonio Vieira de Mello, teve de me explicar. Ele lá falando e eu pensando: ‘alguma merda aconteceu’. Ele, na verdade, tentava me preparar para o que viria depois. Eu fui olhando para o rosto de cada um deles e percebi algo estranho no anestesista, que estava pálido, com os lábios secos. Eu pensei: ‘foi esse cara quem fez a merda’. Ele era o único que estava transtornado. O médico disse que Clara tinha ido para o CTI, que havia sofrido choque anafilático, e foi falando, falando. Explicou que o caso era grave. Até falar tudo, demorou. E eu com o olho no anestesista, totalmente apavorado. Depois fui me inteirar do assunto e vi que não tinha jeito mesmo. Aí veio a família dela toda lá de Minas. E ficou aquela loucura. Eu ia dormir em casa, tomava o café-da-manhã, ia para o hospital e só voltava onze horas, meia-noite, uma hora da manhã. Eu nunca mais vi a Clara. Não quis entrar no CTI. A última imagem que tenho dela é saindo de casa no carro".

(página 258)


 
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