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O
Oriente Médio,
de Bernard Lewis (tradução de Ruy Jungmann; Jorge
Zahar Editor; 389 páginas; 49,50 reais)
Síntese que cobre 2.000
anos, um livro desse quilate só poderia ter sido escrito
por um acadêmico como o inglês Bernard Lewis, um dos
mais respeitados estudiosos da história do Oriente Médio.
De acordo com Lewis, quatro processos sucessivos moldaram a região:
a helenização, a romanização, a cristianização
e, finalmente, a islamização. À medida que
percorre cada um desses períodos, Lewis acumula evidências
para uma tese forte: a de que, de todas as civilizações
medievais, a islâmica era a que apresentava a maior promessa
de avançar em direção à modernidade.
A promessa, entretanto, não se realizou e explorar
os motivos disso é o grande objetivo do livro. Na parte mais
substancial de sua obra, Lewis retrata as sociedades muçulmanas
do Oriente Médio em todos os seus aspectos. Destaca as diferentes
contribuições de árabes, persas e turcos. E,
em seus capítulos finais, que avançam até meados
da década de 1990, aborda com grande lucidez os dilemas modernos
do relacionamento entre o Ocidente e o mundo muçulmano.
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Trechos do livro
Se
tivesse sido permitido a Saddam Hussein um êxito em sua aventura,
a ONU, já desprestigiada, teria seguido o caminho da defunta
Liga das Nações em direção a uma merecida
ignomínia, e o mundo teria pertencido aos violentos e implacáveis.
Não se permitiu que ele tivesse sucesso e um impressionante
conjunto de forças, de dentro e fora da região, foi
mobilizado para expulsá-los do Kuwait. Mas - e esta é
a indicação mais notável da nova era- ele foi
expulso do Kuwait, não do Iraque, e pôde reiniciar
seu estilo característico de governo e muitas de suas políticas
no país. A mensagem foi clara. Se os iraquianos querem uma
nova e diferente forma de governo, eles mesmos têm que mudá-lo.
Ninguém vai fazer isso para eles.
Esta
tem sido, em geral, a mensagem das potências externas nesta
última década do século. Essas potências,
no máximo, agirão para defender seus próprios
interesses, isto é, mercados e petróleo, e os interesses
da comunidade internacional, isto é, um respeito decente
pelas normas básicas da ONU. Fora isso, os povos e governos
do Oriente Médio, pela primeira vez em dois séculos,
determinarão seu próprio destino. Poderão gerar
novas potências regionais, talvez agindo de acordo, talvez
rivalizando pela hegemonia regional. Poderão seguir o caminho
da Iugoslávia, e da Somália, caindo na fragmentação
e no caos interno- e há movimentos e indivíduos na
região que deixarão claro que preferem esse caminho
a chegar a uma solução conciliatória, acreditando
que seguem seus deveres religiosos ou direitos nacionais. Fatos
ocorridos no Líbano durante a guerra civil poderão
tornar-se facilmente o paradigma para toda a região. Os países
podem se unir- talvez, como pregam alguns, para um guerra santa,
uma nova juihad que, mais uma vez como no passado, poderá
provocar a reação de uma nova Cruzada. Ou podem se
unir para a paz- entre si, com seus vizinhos e o mundo externo,
usando e compartilhando com os demais não só recursos
materiais, mas também espirituais na busca de uma vida mais
completa, mais rica, mais livre. Por ora, o mundo externo parece
disposto a deixá-los em paz e tlavez até mesmo a ajudá-los
a alcançá-la. Só eles- os povos e governos
do Oriente Médio- podem decidir-se e como aproveitarão
essa oportunidade, enquanto ela, em um intervalo da atribulada história
moderna da região, permanecer viável.
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