|
Entre
os Fiéis
(tradução de Cid Knipel Moreira; Companhia das Letras;
544 páginas; 39,50 reais), de V.S. Naipaul
Filho
de indianos, nascido no Caribe e educado na Inglaterra, o escritor
V.S. Naipaul volta seu olhar, nesses dois livros, para a cultura
muçulmana. Ambos são relatos de suas viagens a países
que professam a religião islâmica, narrados com agudo
senso crítico e a técnica impecável
de sempre. Entre os Fiéis, baseado na primeira jornada
do autor, no fim dos anos 70, traz uma visão um tanto pessimista.
A conclusão a que ele chega no livro é que tais sociedades
comungariam um traço comum: a obsessão por um ideal
de pureza religiosa que reverte em ódio e ressentimento contra
o Ocidente.
.
Trecho do livro
Submissão
Karachi,
Paquistão, seis meses depois. Muitas coisas aconteceram nesses
seis meses; o mundo muçulmano estivera em ebulição.
A embaixada americana em Teerã fora capturada por estudantes
iranianos e mais de cinqüenta membros da embaixada foram mantidos
como reféns. Tinha havido um cerco e tiroteio na mesquita
em Meca, sugerindo movimentos clandestinos no reino da Arábia
Saudita. Os russos haviam invadido o Afeganistão.
No
Paquistão também haviam ocorrido mudanças.
Em agosto e setembro, tinha-se falado em eleições.
Essas eleições foram canceladas; a lei marcial fora
enrijecida; os jornais censurados; houvera chicoteamentos públicos.
Um jornalista de renome fora preso, aparecera no tribunal acorrentado,
e fora condenado a um ano de prisão. Multidões - percebendo
influência americana nos acontecimentos em meca - haviam atacado
prédios da embaixada americana nas cidades de Islamabad e
Rawalpindi, no norte do país. Um cientista paquistanês
residente na Europa havia ganho um prêmio Nobel, mas ele pertencia
à seita proscrita ahmadia, que venerava seu próprio
Messias Prometido; e sua visita ao Paquistão levara a um
tumulto estudantil.
Parecia
terror e despotismo. Mas o estado ainda proclamava sua meta de ser
o verdadeiro caminho islâmico. Isso devia ser levado a sério.
Na Indonésia, na Malásia e no Irã, o islã
servia a outras causas ou as abrangia. No Paquistão - embora
houvesse políticos e pessoas ambiciosas entre os fundamentalistas
- a fé servia a si mesma. No mundo muçulmano, o Paquistão
era especial, uma criação dos muçulmanos da
Índia, minoria que jamais deixara de sentir-se ameaçada.
|