Quando
Fui Mortal, de Javier Marías (tradução de Eduardo
Brandão; Companhia das Letras; 160 páginas; 37 reais) Na
introdução, Javier Marías um dos melhores escritores
espanhóis contemporâneos explica que a maioria dos doze contos
reunidos nessa coletânea foi produzida sob encomenda para jornais e revistas.
E também diz que só aceitou essas encomendas porque acreditava que
poderia se divertir com elas. O resultado é igualmente divertido para o
leitor. Os contos quase sempre terminam com uma nota desconcertante. A Herança
Italiana começa como uma inocente crônica da vida de duas italianas
que moram em Paris, mas se encerra com um inesperado toque de humor negro. Domingo
de Carne parece apenas o retrato de um tedioso balneário da Espanha
mas traz um final violento e perturbador.
Leia
trecho O
médico noturno Para
LB, no presente, e
DC, no passado Agora
que sei que minha amiga Claudia enviuvou com a morte natural do marido, não
pude deixar de me lembrar de uma noite em Paris, seis meses atrás: eu havia
saído após um jantar para sete pessoas a fim de acompanhar até
sua casa uma das convidadas, que não tinha carro mas morava perto, quinze
minutos a pé de ida e quinze de volta. Tinha me parecido uma moça
meio louca e bastante simpática, uma italiana amiga da minha anfitriã
Claudia, também italiana, em cujo apartamento de Paris eu me hospedava
por uns dias, como em outras ocasiões. Era a minha última noite
naquela viagem. A moça, cujo nome não lembro mais, tinha sido convidada
por gentileza para me fazer companhia e para diversificar um pouco a mesa, melhor
dizendo, para que as duas línguas faladas ficassem mais bem repartidas. Mas
durante o passeio tive de arranhar o italiano, como havia feito durante metade
do jantar. Durante a outra metade, foi o francês que arranhei pior ainda
e, para dizer a verdade, já estava farto de não poder me exprimir
corretamente com ninguém. Tinha vontade de me ressarcir do sacrifício,
mas naquela noite não teria mais chance, pensava, porque, quando voltasse
para a casa da minha amiga Claudia, que fala um espanhol convincente, ela já
teria ido para a cama com seu maduro e gigantesco marido e até a manhã
seguinte não haveria oportunidade de trocar umas palavras bem armadas e
pronunciadas. Sentia impulsos verbais, mas tinha de reprimi-los. Desliguei-me
durante o passeio: deixei que a amiga italiana da minha amiga italiana falasse
com propriedade na sua língua, e eu, contra a minha vontade e o meu desejo,
me limitava a assentir e a comentar de vez em quando: "Certo, certo",
sem prestar atenção, cansado como estava por causa do vinho e enfastiado
pelo esforço lingüístico. Enquanto caminhávamos soltando
vapor pela boca, eu sabia apenas que ela dizia coisas sobre a nossa amiga comum,
como aliás era natural, já que além da reunião a sete
de que saíamos não tínhamos nenhum assunto em comum. Pelo
menos era o que eu achava. "Ma certo", seguia comentando sem
nenhum sentido, enquanto ela, que devia se dar conta das minhas omissões,
continuava um pouco para si mesma ou talvez por cortesia. Até que, de repente,
sempre falando de Claudia, houve uma frase que entendi perfeitamente como frase
mas não como significado, já que a entendi sem querer e isolada
de todo o contexto. "Claudia sarà ancora con il dottore",
foi o que disse sua amiga no meu entender. Não fiz muito caso, porque já
estávamos à sua porta e eu tinha pressa de falar a minha língua
ou pelo menos de ficar a sós pensando nela.
Naquela porta havia uma figura esperando e ela acrescentou: "Ah no, ecco
il dottore", ou algo do gênero. Entendi que aquele doutor vinha
visitar seu marido, que por estar mal não a tinha acompanhado ao jantar.
O doutor era um homem da minha idade ou quase jovem e que descobri ser espanhol.
Talvez só por isso é que fomos apresentados, muito brevemente contudo
(os dois falaram entre si em francês, o do meu compatriota com inconfundível
sotaque), e embora eu não me importasse de ficar um tempo conversando com
ele para satisfazer minha ânsia de verbalidade correta, a amiga da minha
amiga não me convidou a subir, mas apressou a despedida, dando a entender
ou dizendo que o doutor Noguera já estava ali havia alguns minutos, esperando-a.
Esse médico compatriota trazia uma maleta preta, como os de outra época,
e tinha um rosto antiquado, como que saído dos anos trinta: um homem bem-apessoado
mas ossudo e pálido, cabelos louros de piloto de caça, penteados
para trás. Como ele, pensei um momento, deve ter havido muitos em Paris
depois da guerra, médicos republicanos exilados. Ao
voltar para casa, surpreendeu-me ver ainda acesa a luz do escritório, por
cuja porta eu tinha de passar a caminho do quarto de hóspedes. Assomei
à porta, supondo tratar-se de um esquecimento e disposto a apagar a luz,
e então vi que minha amiga ainda estava acordada, encolhida numa poltrona,
de camisola e penhoar. Eu nunca a vira de camisola e penhoar, apesar de me hospedar
havia tantos anos em suas diversas casas cada vez que ia a Paris por uns dias:
as duas peças eram de cor salmão, um luxo. Embora o marido gigantesco
com quem se casara havia uns seis anos fosse muito endinheirado, também
era muito pão-duro devido ao seu caráter, à sua nacionalidade
ou à sua idade, relativamente avançada em comparação
à de Claudia, e minha amiga tinha se queixado muitas vezes de nunca poder
comprar nada que não fosse para embelezar a casa, grande e cômoda,
e, segundo ela, a única manifestação visível da sua
riqueza. Quanto ao resto, viviam mais modestamente do que podiam permitir-se,
quer dizer, abaixo das suas possibilidades. Eu
quase não havia tido nenhum contato com ele, fora um ou outro jantar como
o daquela noite, que são perfeitos para não se relacionar nem conhecer
ninguém que já não se conhecia antes. Esse marido, que respondia
pelo extravagante e ambíguo nome de Hélie (um tanto feminino aos
meus ouvidos), eu via como um apêndice, esse tipo de apêndice tolerável
que muitas mulheres ainda atraentes, solteiras ou divorciadas, têm a propensão
de se enxertar quando beiram os quarenta anos, ou talvez os quarenta e cinco:
um homem responsável e bem mais velho, cujos interesses lhes são
indiferentes e com quem nunca riem, e que no entanto lhes serve para continuar
vigentes na vida social e organizar jantares para sete como o daquela noite. Hélie
chamava a atenção por seu tamanho: media quase dois metros e era
gordo, sobretudo no peito, uma espécie de pião ciclópico
arrematado por duas pernas tão magras que pareciam uma só; quando
eu cruzava com ele no corredor, sempre bamboleava e ia com as mãos bem
estendidas, junto das paredes, para ter um ponto de apoio se escorregasse; nos
jantares ele tinha por força de ocupar uma cabeceira, pois de outro modo
a lateral em que se houvesse instalado teria ficado abarcada por sua figura desmedida
e em desequilíbrio, ele sozinho diante de quatro comensais apertados. Só
falava francês, e segundo Claudia era um luminar em seu campo, que era o
da advocacia. Ao fim de seis anos de casamento, não é que visse
minha amiga decepcionada, pois nunca havia mostrado entusiasmo, mas sim incapaz
de dissimular, até mesmo na frente de estranhos, a irritação
que sempre nos causa quem está sobrando para nós. —O
que foi? Ainda acordada?—perguntei-lhe com o alívio de finalmente poder
me expressar na minha língua. —Sim.
É que me sinto mal. Chamei um médico. —A
esta hora? —Um
médico noturno, um médico de plantão. Muitas noites tenho
de chamá-lo. —Mas
o que você tem? Não me disse nada. Claudia
baixou a luz graduável que havia acendido junto da poltrona, como se antes
de responder quisesse estar na penumbra, ou que eu não distinguisse suas
expressões involuntárias, nossos rostos, quando falam, se enchem
de expressões involuntárias. —Nada,
coisas de mulher. Mas dói muito quando tenho. O médico me dá
uma injeção que acalma a dor. —Entendi.
E Hélie não poderia aprender a aplicá-la? Claudia
olhou para mim com exagerada reserva e o que agora baixou foi a voz para responder
a essa pergunta, não a tinha baixado para responder às outras. —Não,
não pode. A mão dele treme demais, não confio. Se ele aplicasse
não me faria efeito, tenho certeza, ou pode ser até que se confundisse
e me injetasse outra coisa, um veneno qualquer. O médico que costumam mandar
é um médico muito amável, de resto para isso servem os médicos
de plantão, para vir às casas altas horas da noite. É espanhol,
claro. Está para chegar a qualquer momento. —Um
médico espanhol? —É,
acho que de Barcelona. Bem, não sei se tem nacionalidade francesa, deve
ter para exercer. Está aqui há muitos anos. Claudia
tinha mudado o penteado depois que saí de casa para acompanhar sua amiga.
Talvez tivesse se limitado a desfazer o coque para se deitar, mas estava agora
com o que parecia um penteado, não um despenteado de fim de dia. —Quer
que eu te faça companhia enquanto espera ou prefere ficar sozinha, quando
sente dor?—perguntei de forma retórica, já que, estando ela acordada,
eu não estava disposto a ir para a cama sem consumar meu desejo de trocar
umas palavras e descansar das abomináveis línguas e do vinho da
noitada. Antes que ela me respondesse acrescentei, para que ela não pudesse
me responder:—Muito simpática a sua amiga. Disse que o marido dela estava
doente, noite atarefada para os médicos do bairro. Claudia
hesitou uns segundos e pareceu que me olhava outra vez com reserva enquanto não
dizia nada. Depois disse, já sem olhar para mim: —Sim,
tem um marido, ainda mais insuportável que o meu. O dela é moço,
um pouco mais velho que ela, mas lhe faz companhia há dez anos e é
igualmente sovina. Ela não ganha bastante com seu trabalho, como acontece
comigo, e ele raciona até a água quente. Uma vez ela utilizou a
água usada da banheira para regar as plantas, que morreram pouco depois.
Quando saem juntos não lhe paga nem um café, cada um tem de pagar
o seu, de modo que às vezes ela não toma nada enquanto ele lancha.
Como ela ganha pouco, é um desses homens que pensam que quem ganha menos
num casamento se aproveita necessariamente do outro. Está obcecado com
isso. Vigia seus telefonemas, pôs no aparelho um dispositivo que bloqueia
ligações para fora da cidade, de modo que para falar com a família
na Itália ela tem de ir a um telefone público com moedas ou cartão. —Por
que não se separa? Claudia
demorou a responder: —Não
sei, pelo mesmo motivo por que eu não me separo, embora minha situação
não seja tão grave. Acho que de fato ela ganha menos, acho que certamente
ela se aproveita; acho que têm razão os homens que vivem obcecados
com o dinheiro que gastam ou conseguem poupar com suas mulheres que ganham menos;
mas para isso serve o casamento, tudo tem suas compensações e sua
paga.—Claudia baixou mais ainda a luz do abajur e ficamos quase às escuras.
Sua camisola e seu penhoar pareciam vermelhos agora, por efeito do escuro aumentado.
Também baixou ainda mais a voz, até transformá-la num sussurro
colérico.—Por que você acha que tenho essas dores, que tenho de chamar
um médico para me injetar um sedativo? Ainda bem que só acontece
em noites de jantares ou de festas, quando ele come, bebe e fica animado. Quando
viu que outros me viram. Pensa nos outros ou nos olhos deles, no que os outros
ignoram mas dão por certo ou supõem, e então quer torná-lo
efetivo, não certo nem suposto nem ignorado. Não imaginário.
Então não lhe basta imaginá-lo. —Calou-se um momento e acrescentou:
—Esse mastodonte é um suplício. Embora
nossa amizade viesse de muitos anos, nunca havíamos incorrido nessa classe
de confidências. Não que me incomodasse, ao contrário, nada
me agrada tanto quanto chegar a esse tipo de revelação. Mas eu não
estava acostumado com ela, de modo que pode ser que tenha corado um pouco (mas
ela não deve ter visto) e só pude responder de forma desajeitada,
isto é, talvez dissuadindo-a de prosseguir, que era o contrário
do que eu queria: —Entendo. Soou
a campainha da porta, um toque fraco, o imprescindível, como se toca numa
casa em que já se está atento ou se espera quem toca. —É
o médico noturno—disse Claudia. —Vou
dormir. Boa noite e fique boa logo. Saímos
juntos do escritório, ela se dirigiu para a entrada e eu na direção
oposta, para a cozinha, onde pensava ler um pouco o jornal antes de me deitar,
de noite era a parte menos fria da casa. Mas antes de virar no L do corredor que
me levaria até lá, detive-me um momento, virei-me e olhei para a
porta de entrada, que Claudia abria naquele instante, tapando com suas costas
cor de salmão a figura do médico que chegava: "Boa noite",
e só consegui ver, na mão esquerda do doutor, que sobressaía
do corpo virado da minha amiga italiana, uma maleta idêntica à do
outro médico que me havia sido apresentado na porta da sua amiga também
italiana cujo nome não lembro. Deve ter vindo de carro, pensei sobre o
médico. Fecharam
a porta e avançaram pelo corredor sem me ver, Claudia na frente, então
me encaminhei para a cozinha. Sentei-me, servi-me uma genebra (um disparate essa
mistura) e abri o jornal que havia comprado de tarde. Era do dia anterior, mas
para mim as notícias eram novas. Ouvi
minha amiga e o médico entrarem no quarto das crianças, que estavam
passando o fim de semana com outras crianças, em outra casa. Esse quarto,
com um longo trecho de corredor no meio, ficava bem em frente à cozinha,
de modo que ao fim de alguns minutos movi a cadeira em que havia sentado até
poder captar, com o rabo do olho, a moldura da porta. Tinha ficado entreaberta,
haviam acendido uma luz muito tênue, tão tênue, disse comigo,
como a que havia iluminado o escritório enquanto ela e eu conversávamos
e ela esperava. Não os via, também não os ouvia. Voltei ao
meu jornal e li, mas ao cabo de um momento desviei o olhar outra vez porque senti
que agora havia uma presença na moldura da porta, a porta deles entreaberta.
E então vi o médico, de perfil, com uma injeção na
mão esquerda, erguida. Só vi a figura um instante, já que
estava contra a luz, não pude ver seu rosto. Vi que era canhoto: era o
momento em que médicos e enfermeiros elevam a injeção no
ar e apertam-na um pouco, para comprovar que o líquido sai e que não
há risco de obstrução ou, o que é mais grave, risco
de injetar ar. Era assim que fazia Cayetano, o enfermeiro, na minha casa quando
eu era menino. Depois de fazer esse gesto, deu um passo à frente e desapareceu
de novo do meu campo visual. Claudia devia ter se deitado na cama de um dos meninos,
de onde certamente vinha a luz, para mim tão tênue e para o médico
suficiente. Supus que a injeção seria nas nádegas. Voltei
ao meu jornal e passou muito tempo sem que aparecessem de novo emoldurados na
porta, ela ou o médico republicano, nenhum dos dois. Tive então
uma vaga sensação de intromissão, ocorreu-me que talvez esperassem
justamente que eu me retirasse para o meu quarto a fim de saírem e se separarem.
Também pensei se, absorto como estivera na leitura de uma notícia
esportiva polêmica, não teriam saído em silêncio sem
que eu tivesse percebido. Procurando não fazer barulho para em todo caso
não acordar o velho Hélie, que estaria dormindo há um bom
tempo, resolvi me retirar. Antes de sair da cozinha com meu jornal debaixo do
braço, apaguei a luz, e a luz apagada e minha imobilidade de um instante
(o instante anterior a um primeiro passo no corredor) coincidiram com o reaparecimento
em sua moldura das duas figuras, a da minha amiga Claudia e a do doutor noturno.
Pararam no umbral, e do meu escuro vi como escrutavam em minha direção,
ou assim imaginei. Naquele momento, em que o que viram foi a luz apagada da cozinha
e eu ainda não havia feito o menor movimento, sem dúvida pensaram
que, sem eles repararem, eu já tinha ido para o meu quarto. Se os deixei
acreditar em semelhante coisa, se de fato continuei sem fazer o menor movimento
depois de vê-los, foi porque o médico, sempre contra a luz, tornava
a arvorar uma injeção, e Claudia, com sua camisola e seu penhoar,
estava amparada pelo outro braço dele, como se ele lhe desse coragem com
seu contato, ou com sua respiração, serenidade. Assim amparados
pela sua iminência, deram uns passos para fora do quarto das crianças
e não pude mais vê-los, mas ouvi como se abria a porta do quarto
do casal, em que Hélie devia estar dormindo, e ouvi como se fechava. Pensei
que talvez fosse ouvir na seqüência os passos do médico seguindo
caminho depois de deixar Claudia em seu quarto, para abandonar a casa uma vez
cumprida sua missão sanitária. Mas não foi assim, a penúltima
coisa que ouvi naquela noite foi como se fechava a porta do casal, em que também
se tinham introduzido um médico noturno de passos silenciosos e uma injeção
na mão esquerda. Com
muito cuidado (descalcei-me), percorri todo o corredor até chegar ao meu
quarto. Despi-me, meti-me na cama e terminei o jornal. Antes de apagar a luz esperei
uns segundos, e foi nesses breves segundos de espera que por fim ouvi a porta
da rua e a voz de Claudia, que se despedia do médico com estas palavras:
"Até daqui a quinze dias, então. Boa noite e obrigada".
A verdade é que fiquei com vontade de falar um pouco mais na minha língua
aquela noite, em que perdi por duas vezes a oportunidade de fazê-lo com
um médico compatriota. Na
manhã seguinte eu voltava a Madri. Antes de sair pude perguntar a Claudia
como estava e ela me disse que bem, as dores tinham passado. Hélie, em
compensação, estava indisposto pelos vários excessos da noite
anterior e se desculpava por não poder se despedir. Falei
com ele por telefone posteriormente (isto é, ele atendeu o telefone uma
ou outra vez em que liguei de Madri para Claudia nos meses seguintes), mas a última
vez em que o vi foi quando saí da sua casa naquela noite, depois do jantar
para sete pessoas, a fim de acompanhar a amiga italiana cujo nome não lembro
agora. Precisamente porque não lembro não sei se da próxima
vez que for a Paris me atreverei a perguntar a Claudia por ela, pois agora que
Hélie morreu, não queria correr o risco de talvez ficar sabendo
que ela também ficou viúva depois da minha partida. |