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livros

Correntezas, de Frances Fyfield (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 320 páginas; 31 reais) – Uma das novas sensações do romance policial, a escritora inglesa Frances Fyfield é advogada criminal e chegou a colaborar com a polícia e com a promotoria de Londres na resolução de crimes. A experiência habilitou Fyfield na hora de criar personagens como os de Correntezas.O livro narra a história de Henry Evans, americano que volta para a cidadezinha de Warbling, na costa da Inglaterra, em busca de Francesca Chisholm, um amor de vinte anos atrás. Descobre, então, que ela está presa sob a acusação de ter afogado o filho de 5 anos. Evans decide provar a inocência da ex-namorada, mesmo que Francesca tenha confessado o crime e todas as provas estejam contra ela.

Capítulo 1

Faltou quem o alertasse para a inconveniência de chegar em fevereiro. Ele conhecia bem o inverno em sua terra: frio, cortante, seco, suportável mesmo a oito graus negativos. Entretanto, não associara a costa da Inglaterra a um clima de fato glacial. Ela jamais o descrevera assim. Chegara a mencionar a fogueira e caminhadas revigorantes; a brisa a arder nos olhos quando se admirava o mar das ameias do castelo, cenas reforçadas por lembranças de leituras de Dickens e fotos de cartões-postais insinuando a modesta camada de neve ou a cobertura de bruma aconchegante do lado de fora, tudo formando um conjunto criativo orquestrado com o único propósito de tornar mais agradável o convite amigo para sentar perto da lareira e saborear a deliciosa torrada quentinha. Era o tipo de frio camarada, coisa de decorador, pois apenas servia de contraste para Lima sala confortável.

Na saída da estação o frio atacou seu casaco feito um cão raivoso. A chuva volteava nas rajadas de vento, fustigando seu rosto e chapéu. A mala pendurada no ombro pesava uma barbaridade, e na corrida para cruzar o estacionamento seu corpo pendia para o lado. Lá se foi a precária sensação de triunfo que saboreara ao desvendar o mistério da abertura da porta antiquada para descer do vagão, quando este parou com um solavanco na frente de Lima placa tão desbotada onde mal se conseguia ler a palavra WARBUNG, um nome como de passarinho desengonçado. O dr. Henry Evans, cientista e apreciador de poesia, dono de um impecável currículo internacional e adepto do confortável estilo de vida norte-americano, considerou-se injustamente ludibriado pelo tempo e odiou a sensação de ter sido tapeado. Mesmo assim congratulou-se brevemente pela abrangência dos preparativos, sua marca registrada. Havia adquirido UM mapa; prestara a devida atenção às instruções transmitidas pelo telefone e sabia exatamente para onde estava indo.

A chuva o fustigava com vigor redobrado. Não tem como errar, chefe. Pegue a Ria na frente da estação e siga reto até chegar ao mar: vire a esquerda. Hotel grande, chefe. Nelson hospedou-se lá muito tempo antes da construção do píer. Henry apreciara o trem, apesar da falta de asseio. Pelo menos podia abrir a janela e respirar Odiava quando se metia naquelas cápsulas de transporte sobre as quais não tinha o menor controle.

E ele ansiava pela primeira visão do mar. Seu coração terrestre amava o suave murmúrio do oceano. Já o via mentalmente, calino e sombrio, melancólico ao luar e pleno de inspiração. As lojas do caminho eram pequenas e, encerradas na escuridão, riem um pouco pitorescas. Notou o cinema deserto com cartazes de filmes a que acreditava ter assistido havia dez anos, o bar desconsolado com um único freguês, a agência dos correios fechada que pelo jeito servia também como farmácia, uma floricultura sem flores. Com exceção de algumas placas iluminadas, a única luz visível vinha do sinal alaranjado junto a faixa para travessia de pedestres que avistou quando chegou a parte da rua em declive, pouco antes da subida em direção ao mar. A luz piscava para uma mulher solitária que aguardasse de autorização especial para atravessar uma pista deserta.


 
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