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Dois
Assassinatos em Minha Vida Dupla, de Josef Skvorecky (tradução
de Zaida Maldonado; Record; 159 páginas; 19 reais)
A República Checa tem três escritores de renome internacional:
Milan Kundera, Vaclav Havel e Josef Skvorecky. Perseguido pelo comunismo,
Skvorecky há muito deixou o país natal, indo morar
no Canadá. Nesse romance curioso, ele mistura elementos de
autobiografia a uma trama policial. O protagonista do livro é
um professor universitário, que ajuda a elucidar um assassinato
no campus onde leciona ao mesmo tempo que defende sua mulher da
acusação de ter sido uma informante da ditadura checa.
Skvorecky nunca investigou um crime. Mas sua mulher, que ajudou
vários autores do Leste Europeu a se tornarem conhecidos
para além da Cortina de Ferro, sofreu perseguição
semelhante à relatada no livro.
Primeiro
capítulo - Duas das Muitas Garotas de Minha Vida, e Minha
esposa
Do
meu gabinete, através da porta aberta, eu podia enxergar
dentro do escritório em frente ao meu no corredor. Lá
estava ele, a estrela da nossa faculdade, cuidando de seu bigode
de Clark Gable com um pequeno pente e fitando-se em um espelho de
mão. Mas então, minha visão foi obstruída
pelas costas de uma garota vestida com uma jaqueta Gucci. Não
que eu seja assim tão entendido em moda feminina, mas quando
comentei sua boa aparência, ela sorriu dizendo apenas: "Gucci."
Algumas garotas da nossa faculdade teriam se ressentido de minha
demonstração de admiração masculina,
não esta, esta não se submetia ao mero repetir de
opiniões correntes. Seus cabelos louros, recentemente penteados
e brilhantes, caíam-lhe sobre os ombros em ondas encantadoras.
Seu nome era Candace Quentin. Fora eleita A Mais Bela de Edenvale
College.
Pude
ainda observar as pernas elegantes na saia preta até os joelhos,
mas então, todos estes objetos de interesse sumiram-se por
trás da porta que se fechava. Uma placa em dourado sobre
preto anunciava ser aquele o santuário do professor James
E Cooper.
Não
era um acontecimento comum. Desde a distribuição de
um panfleto sobre "Assédio Sexual visando a edificar
os membros masculinos do corpo docente, as portas dos gabinetes
(a não ser os das mulheres) permaneciam entreabertas. Sempre
que uma aluna fechava, distraída, atrás de si a porta
do gabinete de um professor, este corria a abri-la.
Cooper
não o fez. Olhei para o meu relógio de pulso e marquei
o tempo que ela ficava lá dentro. Chequei, em breves intervalos,
por todo um quarto de hora. A porta permaneceu fechada. Depois de
dezoito minutos, um aluno de óculos, o rosto pálido
e sério demonstrando apreensão, apareceu no corredor
e bateu com timidez na porta. Cooper decerto não ouviu a
batida feita em pianíssimo, pois a porta não se abriu.
Com extremo cuidado e vagar, o aluno de óculos girou a maçaneta
e espiou para dentro. Então, num sussurro pronunciado, gaguejou:
- Me
desculpe, professor Cooper! Volto mais tarde.
E de
trás da porta, Cooper ordenou:
- Volte
amanhã, Browning!
- Está
bem, professor - o jovem murmurou, retirando-se, obediente.
Durante
esta breve troca de palavras não consegui dar nem mesmo uma
olhadela no que se passava lá dentro. Estava curioso, pois
Cooper sempre observara com rigor as regras do folheto sobre assédio.
Continuei consultando meu relógio em breves intervalos pelos
dez minutos seguintes.
Súbito,
a sargento de polícia Dorothy Sayers irrompeu em meu gabinete
sem ser anunciada, com certeza na esperança de lá
me encurralar.
Normalmente,
não dava aulas em meu gabinete. Preferia atender aos alunos
no bar da faculdade, o Fósforo Riscado. Mas desta vez Sayers
teve sorte e de imediato aproveitou sua vantagem. Em vez de manter
vigilância à placa preta e dourada de Cooper, fui forçado
a dar parte da minha atenção à policial, que
era também minha aluna. Volta e meia procurava examinar,
por sobre seus ombros, a porta fechada do gabinete. Enfim, quando
Sayers terminava seu relatório sobre o projeto do "Cômodo
Trancado" declarando: "Não sei mais o que inventar,
professor!", eis que a porta se abre de supetão, e por
ela passa correndo Candace com o rosto banhado em lágrimas,
deixando atrás de si a porta do gabinete escancarada. Eu
nunca a vira assim, aquela deusa orgulhosa e confiante.
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