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Mr. Phillips, de John Lanchester (tradução de Cristina Laguna Sangiuliano Bôa; Best-Seller; 254 páginas; 32 reais) – Ex-crítico de gastronomia do jornal inglês The Observer, John Lanchester viu sua carreira literária deslanchar em meados dos anos 90, quando arrancou elogios rasgados com seu romance de estréia, Gula. Narrado em primeira pessoa, num estilo marcado pelo humor e pelo sarcasmo, o livro lhe rendeu comparações com um autor do porte de Vladimir Nabokov (do clássico Lolita). Lançado no exterior há três anos e agora no Brasil, Mr. Phillips mostra que a prosa de Lanchester continua afiada. Toda a ação transcorre num único dia da vida do personagem-título. Mr. Phillips é um contador cinqüentão, casado e pai de dois filhos, que leva uma existência pacata num subúrbio de Londres – até o dia em que é demitido do emprego no qual permaneceu por 26 anos. Enquanto toma coragem para contar a má notícia à mulher, Mr. Phillips perambula pela cidade e reflete sobre os temas que mais o afligem – como o sexo, que ele pouco pratica e sobre o qual muito fantasia.

Leia trechos do livro

À noite, Mr. Phillips deita-se ao lado de sua esposa, e so­nha com outras mulheres.

Nem todos os sonhos são sobre sexo. Nem todas as mu­lheres são reais. Existem sonhos em que garotas compostas, ninguém que ele conheça, apenas assistem, enquanto Mr. Phillips prossegue em suas tarefas de sonhos, preocupando-se com as coisas, ou procurando as coisas, ou sentindo-se obscuramente culpado sobre as coisas. Há um sonho que ele tem desde os dez anos de idade, no qual Mr. Phillips salva um grupo inteiro de mulheres de uma tragé­dia, desviando um trem descarrilado, ou aterrissando um avião com segurança, ou encorajando-as a se segurarem nas vigas do teto de um navio em naufrágio até o momento certo. Mr. Phillips já teve até mesmo alguns sonhos nos quais ele fazia algo vago, porém heróico, com relação ao túnel sob o Canal da Mancha.

Logo após esses feitos, Mr. Phillips age de maneira adequadamente casual, quase modesta. Para as equipes de câmeras e a imprensa mundial, ele explica que não fez nada demais; mas as mulheres do sonho sabem que isso não é verdadeiro.

Mr. Phillips tem sonhos ansiosos sobre conhecer a rainha, e ser agraciado com alguma homenagem, sem conseguir lembrar-se do motivo pelo qual está sendo homenageado. Ele tem sonhos sobre ser elogiado pela sra. Thatcher. Tem sonhos sobre encontrar sua mãe e não saber ao certo se estão na Austrália (onde, na vida real, ela vive na companhia da irmã de Mr. Phillips), ou em Londres (onde, na vida real, ele vive), ou em um outro lugar qualquer. Uma vez, ele sonhou com Indira Gandhi. Nenhum desses sonhos foi so­bre sexo. Mr. Phillips nunca contou nada sobre eles à sua esposa. 0 que ganharia se contasse?

Quanto aos sonhos de sexo, ele também nunca contou nada. O que ganharia etc..., mas muito mais grave.

Mr. Phillips dá notas de um a dez a seus sonhos sobre sexo. Um sonho nota um é bastante inocente. Por exemplo, ele sonha freqüentemente com Christine Wilson, sua vizinha de rua, quando ele ainda era menino, em Wandsworth. Aos doze anos, ela era um pouco mais elegante que a maior parte das crianças da rua; tinha cabelos castanhos, que ela usava em tranças, e um toque travesso em sua personalidade, que era mantido muito bem escondido dos adultos. Christine costumava instigar tumultos, sem jamais ser acusada de tê-los provocado. Mr Phillips passara do estágio de mal Perceber a existência dela, ao de estar totalmente, perdidamente, irreparavelmente apaixonado por ela, no decor­rer de um único sábado. Haviam passado o dia brincando nas fundações de um novo edifício de escritórios, que esta­va sendo construído em um terreno que havia permanecido vazio, desde que uma bomba perdida o atingira, treze anos antes. Brincavam de esconde-esconde entre os mistura­dores de concreto, esgueirando-se pelas paredes parcialmente construídas. Quando um adulto gritou para eles, os dois correram para casa. Deitado em sua cama, naquela noite, Mr. Phillips descobriu estar perdidamente apaixonado.

No sonho, ele e Christine freqüentam a mesma escola, o que na vida real jamais aconteceu. O sr. Phillips senta-se ao lado dela, na velha carteira dupla de madeira rabiscada. Estão resolvendo, em condições de teste, uma série de equações algébricas simples: a + b = x, se a = 2 e x = 5, qual é o valor de b? Ele tem uma ereção tão forte, que chega a temer sua braguilha vá estourar. O final da aula se aproxima, e ele terá de se levantar, e todos verão o seu pênis. A grande injustiça é que ele não se sente sexualmente excitado, mas tem a ereção porque sua cueca está muito apertada. Na verdade, seu pênis ficou preso na entrada da sua cueca e, por isso, mantém-se na posição vertical. Mas ninguém vai acreditar nisso. Mr. Phillips não acreditaria, se estivesse no lugar deles. No sonho, ele começa a corar, sentindo o sangue subir e seu rosto tomar-se muito quente. Então, ele acorda. Esse é um sonho nota um.


 
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