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O
Mensageiro, de L.P. Hartley (tradução de Paulo
Cezar de Mello; Nova Alexandria; 246 páginas; 33 reais)
Escrito nos anos 50, O Mensageiro é um pequeno clássico
da novela de costumes à moda inglesa. Com ironia e sutileza,
seu autor, L.P. Hartley (1895-1972), fala dos jogos de aparência
que regiam as relações sociais na Inglaterra do começo
do século XX. O romance é narrado por Leo Colston,
um homem na casa dos 60 anos que recorda, enquanto relê seu
diário, um episódio da infância que marcaria
sua existência. Aos 12 anos, Colston, de origem humilde, nutriu
uma paixão ingênua pela irmã mais velha de um
colega endinheirado. Ao ganhar a confiança da moça,
cuja mão estava prometida a um nobre, o protagonista passa
a atuar como mensageiro entre ela e seu amante e acaba sendo
o pivô de uma tremenda confusão.
Leia
trechos do livro
O dia
oito de julho caiu num domingo, e, na segunda-feira seguinte, eu
parti de West Hatch, o lugarejo onde morávamos, próximo
de Salisbury, rumo à mansão Brandham. Minha mãe
arranjou para que, ao passar por Londres, eu fosse recebido por
minha tia londrina Charlotte. Em meio a uma agitação
de revirar o estômago, eu aguardava ansiosamente pela visita.
O convite
chegou nesse meio-tempo. Maudsley nunca tinha sido um amigo especial;
eu nem me lembrava do seu primeiro nome. Talvez me lembre mais tarde:
pode ser uma das coisas de que minha memória se esquiva.
Mas naquele tempo os estudantes pouco se tratavam pelo primeiro
nome. Este era considerado simplesmente um estorvo, se bem que um
estorvo não tão grande quanto o nome do meio, o qual
era simplesmente imprudente revelar. Maudsley era um garoto de cabelo
escuro, pálido, cara redonda, lábio superior arrebitado
que fazia aparecer os dentes; era um ano mais novo que eu, e não
se sobressaía nem nas tarefas nem nos jogos, mas, pode-se
dizer, arranjava-se como podia. Eu o conhecia bem porque ele fazia
parte do meu dormitório, e pouco antes do acontecimento do
diário descobrimos uma leve simpatia entre nós dois;
escolhíamos um ao outro como companheiros de caminhadas (saíamos
andando em fila dupla), comparávamos alguns de nossos tesouros
pessoais e partilhávamos fragmentos de informações
mais íntimas, aquelas mais carregadas de perigo, que colegiais
costumam trocar. Uma dessas confidências era o nosso endereço;
ele me disse que sua casa de origem se chamava Brandham e eu lhe
contei que a minha se chamava Court Place. De nós dois, ele
era o mais distinto; tratava-se, como eu descobri depois, de um
esnobe, o que eu nem tinha começado a ser, exceto no mundo
dos Corpos Celestes - ali, era um superesnobe.
o nome
Court Place o predispôs a meu favor, o que suspeito ter acontecido
também com sua mãe. Mas eles se enganavam, pois Court
Place era uma casa bem comum, situada no final da rua do vilarejo.
Bem, não era tão comum assim, já que parte
da casa tinha reputação de ser muito antiga; os bispos
de Salisbury, dizia-se, certa vez instalaram lá sua sede;
daí o nome Court. Atrás da casa, tínhamos um
acre de jardim cortado por um riacho, cuidado três dias da
semana por um ocupado jardineiro. Não era uma corte no sentido
grandiloqüente da palavra, como Matidsley, imagino eu, acreditava.
Não
obstante, minha mãe não achava fácil mantê-la.
Meu pai era, suponho, um excêntrico. Possuía uma mente
aguçada e precisa, que ignorava o que não lhe interessasse.
Sem chegar a ser um misantropo, era insociável e inconformista.
Tinha suas próprias teorias não-ortodoxas sobre educação,
uma das quais determinava que eu não deveria ser mandado
à escola. Até onde pôde, ele mesmo me educou,
com a ajuda de um tutor vindo de Salisbury. Eu jamais teria ido
à escola se sua vontade prevalecesse, mas minha mãe
sempre quis que eu fosse, assim como meu tio logo foi possível,
após a morte dele, eu fui para a escola. Admirava-o e venerava
suas opiniões, mas meu temperamento tinha mais em comum com
o de minha mãe.
Seus
talentos voltavam-se para os passatempos: coleção
de livros e jardinagem; quanto a trabalho, contentava-se com uma
ocupação rotineira e estava perfeitamente satisfeito
como gerente de banco em Salisbury. Minha mãe irritava-se
com sua falta de iniciativa, e era um pouco ciumenta e intolerante
com seus passatempos, que o mantinham fechado em si mesmo (como
fazem os passatempos) e, assim pensava ela, não o levavam
a lugar algum. Nisso, ela acabou se enganando, pois ele era um colecionador
dotado de discernimento e visão, e seus livros renderam uma
quantia que nos surpreendeu quando foram vendidos; na verdade, devo
a eles minha imunidade às mais prementes preocupações
da vida. Mas isso foi muito depois; na ocasião, minha mãe,
felizmente, sequer pensou em vender os livros: ela tratava com carinho
as coisas que foram caras a meu pai, em parte devido a uma sensação
de ter sido injusta com ele; e nós vivíamos com o
dinheiro dela, com a pensão do banco e com o pouco que ele
fora capaz de guardar.
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