Encontro
em Samarra,
de John O'Hara (tradução de Ana Carolina Mesquita; Ediouro; 262
páginas; 39,90 reais) O escritor americano John O'Hara (1905-1970)
tinha fama de turrão. Perdeu sucessivos empregos na imprensa por causa
de seu temperamento difícil (e de sua insaciável sede de álcool).
Seu primeiro romance seria tão controverso quanto sua personalidade: publicado
em 1934, Encontro em Samarra escandalizou pelo retrato cáustico
que traçou da alta sociedade em uma pequena cidade da Pensilvânia
(estado natal de O'Hara). E também por seu conteúdo sexual: o escritor
americano John Updike diz que o relacionamento do casal de protagonistas de O'Hara
faz Hemingway e Scott Fitzgerald seus contemporâneos mais famosos
parecer românticos insossos.
Leia
trecho I
n t r o d u ç ã o John
Updike
Quando começou
a escrever este romance, em meados de dezembro de 1933, John O’Hara era um jornalista
de vinte e oito anos recém-divorciado, que se destacava principalmente pelo volume
de horas extras que fazia, pela quantidade de bebida que era capaz de ingerir,
e pelo número de empregos dos quais já fora demitido. Tivera e perdera empregos
no Journal, de Pottsville; no Courier, de Tamaqua; no Herald Tribune, de Nova
York; na revista Time; na The New Yorker; no Editor and Publisher; no Daily Mirror,
de Nova York; no Morning Telegraph; no departamento de publicidade da Warner Brothers;
na empresa de relações-públicas de Benjamin Sonnenberg; e numa revista estreante
de Pittsburgh, chamada Bulletin Index, da qual por quatro meses foi editor. Em
todos estes cargos O’Hara demonstrou competência, mas a combinação de horários
irregulares com sua abrasividade inata causava sempre sua saída prematura dos
empregos. Na The New Yorker, de acordo com o chefe da seção The Talk of the Town,
B. A. Bergman, O’Hara apresentava "uns textos excelentes — bem amarrados, cheios
de graciosidade, reveladores, mas, por razões que eu nunca soube, Ross antipatizou
com O’Hara já no primeiro dia de sua contratação, e rejeitava cada texto dele
que eu apresentava". O emprego na The Talk of the Town durou um mês; contudo,
The New Yorker foi um sucesso constante para O’Hara, como colaborador em regime
de free-lance: os editores publicaram-no pela primeira vez em 1928 e, depois disso,
mais de uma centena de vezes, em parte graças ao gosto de Katharine Angell pelo
trabalho do autor. No início de janeiro de 1934, O’Hara escreveu para Ross, com
arrogância mal-disfarçada: "acho que seria bom se você mandasse cunhar uma medalha,
ou fizesse qualquer outra coisa para comemorar o que, na minha opinião, é um fato:
desde 1928, dentre todos os colaboradores, fui eu quem teve mais textos publicados
na The New Yorker". Os pagamentos da The New Yorker, porém, não bastavam para
sustentar ninguém — muito menos um homem como O’Hara, com gosto pela bebida e
por estravagâncias cada vez mais dispendiosas. Ele recebeu quinze dólares por
sua primeira contribuição, e os pagamentos subseqüentes eram na base de dez centavos
por palavra, o que perfazia apenas umas poucas centenas de dólares por ano. Dorothy
Parker foi evidentemente quem encorajou o jovem da Pensilvânia — de volta a Nova
York após largar o cargo de editor em Pittsburgh — a concentrar as energias num
romance de grande porte sobre Pottsville. A cidade-natal de O’Hara já figurara
em seus textos de ficção, e entre os seus planos estava escrever um livro com
três contos longos sobre ela. Já escrevera The Doctor’s Son, baseado na própria
infância como filho mais velho do devotado e briguento doutor Patrick O’Hara,
e The Hoffman Estate, uma história sobre figuras do clube de campo escrita apressadamente
numa tentativa (malsucedida) de ganhar o prêmio literário Scribner’s Prize Novel.
A esses dois contos tencionava acrescentar um outro, a respeito de um "gângster
de Schukill County... espécie de parasita de hospedaria, visitado de vez em quando
pelo pessoal do clube de campo", segundo escreveu ao amigo Robert Simonds, em
dezembro de 1932. Em vez disso, um ano depois, morando num pequeno quarto pelo
qual pagava oito dólares por semana no hotel Pickwick Arms Club Residence (localizado
na East 51st, perto do elevado da Third Avenue), mal conseguindo viver de free-lances
esporádicos, iniciou um romance a partir do título The Infernal Grove, nome de
um poema de Blake. O título lhe foi sugerido por Parker, que o havia descartado
para uma coletânea de contos. Em fevereiro de 1934 já pôde escrever uma sinopse
ao irmão Tom: A
trama do romance, por sinal meio leve, é um pouco difícil de descrever, mas trata
de um jovem e de sua esposa, membros do círculo restrito do clube, e de como o
jovem começa as festas de fim de ano de 1930 atirando um drinque na cara de um
homem que o havia ajudado financeiramente. A partir daí, eu mostro como o medo
da desforra, o tipo de vida que o homem levava e outras coisas contribuem para
o seu aniquilamento. Há ainda mais uns poucos personagens no romance, alguns extraídos
da vida real, outros imaginários, porém a história é essencialmente sobre um jovem
casal e sua derrocada no primeiro ano da Depressão. Não me iludo pensando que
será o grande romance americano, nem o segundo maior, mas é apenas o meu primeiro.
O segundo será ainda melhor. Minha única preocupação, no momento, é terminar de
escrevê-lo. Começarei o trabalho de edição, polimento etc., depois de colocar
no papel tudo o que tenho a dizer. Ainda não reescrevi nada, e editei muito pouco.
Dois meses mais tarde, no dia 9 de abril, O’Hara escreveu para Tom contando que
terminara o livro: "Sinto que manejei a história de modo inábil, mas agora não
posso fazer nada. Ah, sei que há mais trabalho pela frente. Eu sei, porque ainda
não experimentei a sensação de alívio que achei que sentiria ao terminá-la. Desde
dezembro venho trabalhando nisso, sem fazer mais nada; agora terei de desencavar
alguma coisa para a New Yorker, a toque de caixa".
Difícil crer que um dia ele tenha se deparado com todo esse trabalho de "edição,
polimento etc.", porque Encontro em Samarra foi publicado no que hoje parece uma
velocidade relâmpago. Entregue em abril, foi lançado em agosto, e passou por três
reimpressões. Harcourt, Brace, a editora, insistiu em alguns cortes a fim de reduzir
o teor de explicitação sexual, mas ainda assim o livro foi tachado de obsceno
por Henry Seidel Canby e Sinclair Lewis ("nada além de infantilismo: as fantasias
eróticas de um rapazola atrás do celeiro"). Contudo, a obra recebeu elogios de
Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, que escreveu na Esquire: "Se você deseja
ler um livro escrito por um homem que sabe exatamente do que está falando, e escreve
maravilhosamente bem, leia Encontro em Samarra, de John O’Hara". O elogio de Dorothy
Parker foi mais mordaz e judicioso: "Dos olhos e ouvidos do senhor O’Hara nada
foi poupado, mas no coração ele guardou uma misericórdia amarga e intrigante".
O tal romance "leve", o tal resultado de um "manejamento inábil", produzido em
menos de quatro meses, perdurou. Embora O’Hara tenha escrito diversos outros romances,
e produzido uma quantidade impressionante de contos, nunca superou o resultado
artístico alcançado em Encontro em Samarra. Juntamente com Hawthorne e Hemingway,
ele pertence ao grupo seleto de romancistas norte-americanos cujo primeiro romance
é tido, em geral, como o seu melhor. |