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História da Cidade de São Paulo, organizado por Paula Porta (Paz e Terra; três volumes de 672, 628 e 620 páginas; 140 reais cada um) – São Paulo era a 11ª cidade brasileira quando o Brasil comemorava o cinqüentenário da Independência, em 1872. Era menor do que Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Teresina. Em 1920, com meio milhão de habitantes, já era a segunda maior cidade brasileira, perdendo apenas para o Rio de Janeiro, então capital do país. Hoje, com uma população de mais de 10 milhões de pessoas, é uma das maiores metrópoles do mundo. A formação da cidade, dos tempos coloniais até meados do século passado, está reconstituída nos ensaios de História da Cidade de São Paulo, organizado pela historiadora Paula Porta. São três alentados volumes, com quase 2.000 páginas, reunindo trabalhos de 42 historiadores. Cada volume se ocupa de um período histórico e examina a sociedade, as artes, a religião, a política e a contribuição de diversos povos para a formação da cidade – das várias tribos indígenas anteriores à chegada do colonizador europeu até os italianos, japoneses e outros tantos imigrantes que fizeram sua vida na capital paulista.

Leia trecho

VOLUME 3 – CAPÍTULO 7
Autor: Michael Hall

O movimento operário na Cidade de São Paulo: 1890-1954

Os trabalhadores da Cidade de São Paulo, nas suas lutas entre a década de 1890 e o começo dos anos 1950, enfrentaram um quadro extremamente difícil: condições econômicas geralmente desfavoráveis, patrões quase sempre intransigentes, governos hostis e uma repressão sistemática e feroz aos seus movimentos. As utopias dos trabalhadores foram derrotadas, os triunfos duraram pouco, as organizações frágeis foram, muitas vezes, vencidas. Entretanto, e contra todos os obstáculos, os trabalhadores conseguiram estabelecer alguns limites a sua exploração e melhoraram, até certo ponto, suas condições de vida e de trabalho. No decorrer das décadas, chegaram a se impor como uma força significativa na vida da Cidade; suas esperanças e sua solidariedade avançaram a causa da democracia.

Os trabalhadores emergem como uma força significativa na vida de São Paulo em fins do século xix. O recenseamento da Província, em 1886, não relata as profissões dos 47.697 habitantes da Capital e, para a Província como um todo, parece que operários e artesãos são considerados tão pouco numerosos, que foram enterrados numa categoria de 4% de "outras profissões" da população livre e economicamente ativa. Em 1893, o recenseamento municipal registrou uma população de 130.775 na Cidade, incluindo 3.667 indivíduos na "indústria manufatureira", 10.241 "artistas", e 10.525 na "indústria de transportes". Destes trabalhadores de 1893, 83% eram estrangeiros.

A população da Cidade cresceu rapidamente durante os anos seguintes, em grande parte por causa da imigração, atingindo 239.820 habitantes, em 1900, e 579.033, em 1920. Neste último ano, São Paulo já assumia, inquestionavelmente, o perfil de uma cidade industrial. O recenseamento de 1920 localizou 100.388 pessoas em atividades chamadas de industriais. Esta categoria incluía algumas atividades claramente fabris, como os 10.408 têxteis (53% com menos de 21 anos e 58% mulheres), uma parte dos 10.103 no setor metalúrgico, e alguns dos 34.355 do setor de vestuário; mas a classificação de "indústria" certamente incluiu um grande número de pessoas empregadas em pequenas oficinas, para não falar dos 21.102 (todos homens) no ramo de "edificação" ou os 44.500 nos setores de transporte e de comércio.

Essa primeira classe operária paulistana era composta, em grande parte, de imigrantes.

Em 1912, um levantamento em trinta fábricas têxteis, por exemplo, revelou que 80% dos mais de nove mil operários eram estrangeiros. De fato, muitos dos brasileiros arrolados nesse levantamento eram filhos de estrangeiros, especialmente no caso dos numerosos menores de idade; na única fábrica têxtil que forneceu esta informação, 95% dos 112 operários brasileiros apareceram como filhos de italianos.

O fato da sua origem imigrante influenciou a história da classe de várias maneiras. Os fazendeiros, enfrentando escravos cada vez mais refratários na década de 1880, abandonaram seus supostos princípios liberais e arrancaram verbas vultosas do Estado, com as quais pagavam a vinda de imigrantes para trabalhar em suas fazendas. O programa de imigração subsidiada também criou – talvez sem esta intenção – um enorme exército de reserva para a indústria. Da década de 1880 em diante, grandes contingentes de imigrantes saíram a cada ano das fazendas em busca de melhores condições de vida na Capital.

O movimento operário percebeu, claramente, os obstáculos que a inundação do mercado do trabalho impôs às suas lutas. Como observou o militante anarquista Gigi Damiani, "os que governam o Brasil para a indústria e propriedades dos seus sócios, precisam que haja sempre uma pletora de braços no mercado de trabalho. Com esta pletora, pretendem poder manter salários de fome, horários de casas de detenção e despedaçar a organização da classe". O movimento operário reclamou, sobretudo, da dificuldade de sustentar greves num meio marcado por uma oferta tão grande de mão-de-obra, e se esforçou para interromper a vinda de novos imigrantes. Entretanto, parecem ter tido pouco efeito as várias tentativas neste sentido, como, por exemplo, a distribuição na Europa do panfleto Contra a imigração, descrevendo as péssimas condições de vida e de trabalho que os imigrantes encontrariam em São Paulo.

A predominância de imigrantes na primeira classe operária também colocou outros

problemas. Vários observadores reclamaram de imigrantes cujas aspirações de enriquecimento individual e de ascensão econômica dificultavam ações visando melhorias coletivas ou reformas de longo prazo. Qualquer interesse muito difundido em tentar revolucionar o Brasil, nem pensar. Um militante frustrado lamentou em La Barricata que "o anarquismo aqui tem caminhado a passo de urubu malandro, em comparação com outros países", uma situação que o autor atribuiu à "indiferença que os estrangeiros têm pela vida social de um país para onde, na maioria, vem para arranjar dinheiro e voltar aos seus lares". Mesmo resignados a ficar em São Paulo, segundo La Scure, os imigrantes estão "sempre em busca de melhorar individualmente suas próprias condições econômicas". Poucos militantes, entretanto, chegaram ao grau de irritação do anônimo colaborador da Guerra Sociale, quando afirmou que "em São Paulo não há povo, há um amálgama de detritos de todas as nações, especialmente de refugos italianos, espanhóis e portugueses". Ficou especialmente indignado com o "cálculo", o "egoísmo", a "servidão vil e estomacal" dos "avarentos imigrantes", que "só olham para o tostão, que vão ciscar com a boca na merda, se outras humilíssimas e sujas fadigas não dessem a mesma esmola". Ainda que descontemos as evidentes frustrações deste autor, a freqüência do tema na imprensa operária sugere que, de fato, uma parte significativa dos imigrantes encarou com ceticismo, se não com hostilidade, a possibilidade de sua participação em estratégias políticas baseadas em ação coletiva.


 
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