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Vida do Elefante Basílio e O Urso com Música
na Barriga, de Erico Verissimo (Companhia das Letrinhas;
52 e 48 páginas; 22 reais cada livro) Autor de obras
que marcaram a literatura nacional, como O Tempo e o Vento e
Incidente em Antares, o gaúcho Erico Verissimo (1905-1975)
foi também um prolífico contador de histórias
infantis. Essa faceta do escritor é resgatada numa coleção
que reúne seis livros para crianças que ele criou
no fim dos anos 30. As caprichadas reedições trazem
ilustrações da paulista Eva Furnari. Em A Vida
do Elefante Basílio e O Urso com Música na
Barriga, os dois primeiros títulos a sair do forno, fica
claro qual era sua maior arma: a imaginação desabrida.
Na primeira história, por exemplo, ele fala sobre um elefante
cujo sonho é voar como uma borboleta.
Leia
trechos de O Urso com Música na Barriga
O
Bosque Perdido é mesmo uma coisa maravilhosa! Se você
entrasse nele, ficaria de boca aberta, olhando para tudo, assim
com ar de bobo...
No
Bosque Perdido o ar é verde. O sol pinta no chão moedinhas
de ouro. As sombras são azuis e convidam a gente para dormir
uma soneca. As sombras são fresquinhas, as sombras falam,
as sombras dizem: "Ó amigo, venha descansar um pouco!".
No
Bosque Perdido mora um rio que de tão estreitinho e raso
nem chega a ser rio, mas sim um filhote de rio. Pois esse filhote
de rio passa a vida cantando uma canção tão
bonita, que os jacarés chegam a chorar de alegria. Muitos
bichos moram no Bosque Perdido. Existem bichos bons, que gostam
da paz. E bichos ruins, que gostam de brigar.
No
Bosque Perdido os esquilos brincam de esconde-esconde nos ramos
das árvores e nos buracos dos troncos.
O
Lagarto-Preguiçoso passa o dia deitado, meio dormindo nos
lugares onde bate o sol. O Lagarto-Preguiçoso não
gosta de trabalhar, não leva comida para a família;
seus filhos vivem dizendo: "Papai não trabalha, não
sei onde é que ele vai arranjar dinheiro para nos comprar
brinquedos quando o Natal chegar". Mas o Lagarto-Preguiçoso
nem faz caso do que os filhos dizem. De dia, toma sol; de noite,
toma lua; e quando chove, toma chuva. Que vida boa leva esse Lagarto-Preguiçoso!
Outro
sujeito engraçado do Bosque Perdido é o Vaga-Lume-Faceiro.
Passa o dia dormindo ou preparando-se para o passeio que faz todas
as noites. O Vaga-Lume-Faceiro engraxa as botinas, passa a sua roupa
a ferro, bota gasolina no motorzinho que tem na barriga, no motorzinho
de avião que faz que ele voe, no motorzinho que produz aquela
luz verde que apaga e acende. Quando a noite chega, o Vaga-Lume-Faceiro
sai de sua casa e vai fazer o seu passeio pelo Bosque Perdido. Sai
voando muito contente, convencido de que é avião.
De vez em quando senta-se num ramo de árvore para descansar.
Depois continua o passeio. Vai ao cinema das borboletas e não
paga entrada porque é amigo do porteiro. E, quando se estraga
a instalação elétrica do cineminha, o Vaga-Lume-Faceiro
acende a sua luzinha e fica muito risonho, iluminando o salão.
As borboletas batem palmas para o Vaga-Lume-Faceiro.
Perto
da árvore maior do Bosque Perdido, fica um mercadinho de
frutas. O dono do mercadinho é o Macaco-Patusco. Vocês
pensam que ele ganha muito dinheiro? Qual nada! Pois o Macaco-Patusco
come todas as frutas das prateleiras e assim não sobra nada
para a freguesia. Esse Macaco-Patusco é um bicho extraordinário.
Sabe contar muitas histórias e sempre anda inventando brincadeiras
para incomodar o Tucano-Narigão. Pobre tucano! Tem um bico
deste tamanho, parece um homem narigudo. Todos os bichos fazem troça
dele, por isso o Tucano-Narigão anda sempre aborrecido da
vida. Está ele muito quieto na sua árvore, pensando
nos seus versos (porque ele é poeta, vocês sabiam?),
quando o Macaco-Patusco agarra uma laranja, fecha um olho, dorme
na pontaria e - zás! - joga a laranja, que vai se esborrachar
na cabeça do pobre Tucano-Narigão. Mas o tucano não
diz nada, porque é um rapaz muito bem-educado.
Sabem
duma? Pois um dia o Tucano-Narigão foi a um baile e pediram-lhe
para recitar um verso. O Tucano-Narigão estava de fraque
preto e gravata vermelha. Ficou muito duro e muito sério
no meio do salão. Os outros bichos estavam quietinhos, esperando.
A Vaca-Amarela, com lábios pintados e brincos nas orelhas,
abanava-se com um leque de plumas. O dr. Burro-Peludo limpava os
óculos de tartaruga. Dona Anta-Gorda, com a sua pata brilhando
de esmalte vermelho, ajeitava os cabelos com ondulação
permanente. Havia muita gente elegante no salão de baile,
esperando que o Tucano-Narigão recitasse. Finalmente o tucano
deu um passo à frente e disse:
-
Vou recitar um verso de minha lavra.
O
dr. Burro-Peludo não entendeu e perguntou:
-
Que vem a ser "lavra"?
O
Tucano-Narigão, muito delicado, explicou:
-
Quero dizer: vou recitar um verso que eu mesmo fiz.
-
Aaan! - fez o burro, mostrando a dentuça amarelada.
-
Hi-hi-hi-hi! - a Vaca-Amarela riu fininho e escondeu o rosto atrás
do leque, encabulada. A Anta-Gorda soltou um ronco. Os outros bichos
resmungaram.
O
Tucano-Narigão começou:
-
Ó Bosque Perdido dos meus sonhos!
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