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No
Colo do Pai, de
Hanif Kureishi (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras;
208 páginas; 38 reais) No romance Intimidade, o inglês
de ascendência paquistanesa Hanif Kureishi tomou o próprio divórcio
como tema. Ele retorna ao material autobiográfico nesse novo livro, misto
de memórias da adolescência e ensaio literário. Kureishi examina
os romances autobiográficos que seu pai, Shannoo, escreveu mas nunca publicou
e, em paralelo, narra sua própria formação como escritor.
No Colo do Pai gerou uma certa polêmica familiar: a irmã de
Kureishi acusou-o de criar um retrato distorcido de Shannoo. Não é
de surpreender, já que a figura do pai é abordada de forma crua
e desencantada o que torna o livro ainda mais pungente.
Leia trecho Capítulo
1 No
chão, num canto do meu escritório, saliente sob a pilha de papéis
diversos, há uma pasta verde velha e surrada que contém o texto
capaz de, suponho, revelar muita coisa a respeito de meu pai e de meu próprio
passado. Desde que o descobri, porém, fico olhando para ele, depois desvio
a vista para me concentrar em outra coisa, pensando nele sem fazer nada a respeito.
Recebi o original há poucas semanas, reaparecido depois de mais de onze
anos. É um romance escrito por meu pai, um legado de palavras, um testamento
prolongado, talvez - ainda não sei o que contém. Como o restante
de sua obra de ficção, nunca foi publicado. Acho que devo lê-lo. Quando
comecei a pensar no livro que estou escrevendo, deitado à noite na cama
- antes de acharem o texto de meu pai - eu pretendia que a obra começasse
com outros livros. Refletia sobre o passado, como agora faço freqüentemente,
recuando mais e mais nos devaneios, e pensava que reler os autores que apreciava
na juventude talvez fosse um modo de captar meu jeito quando jovem. Retornaria,
por exemplo, a Kerouac, Dostoiévski, Salinger, Orwell, Hesse, Ian Fleming
e Wilde, para ver se conseguiria habitar novamente os mundos que um dia eles criaram
em minha mente, e me reconhecer dentro deles. Além
de tratar dos escritores mais importantes para mim, o livro deveria versar sobre
os anos 1960 e 1970, postos ao lado do presente, incluindo material sobre o contexto
no qual a leitura e depois a releitura ocorreram. Cada livro, eu esperava, reacenderia
lembranças das circunstâncias em que fora lido. Isso faria então
com que eu pensasse no que cada livro específico passara a representar
para mim. Independentemente
de quem mais constasse no livro, decidi desde logo concentrar o foco na obra de
Tchecov, em suas cartas, peças e contos. Ele era um dos escritores favoritos
de meu pai, e o discutíamos com freqüência, o médico
e o homem. Todos os livros contêm alguma atitude perante a vida, mas com
o tempo abandonamos a maioria dessas abordagens; como relacionamentos extintos,
elas não têm mais nada a nos oferecer. Mas ainda sinto curiosidade
a respeito de Tchecov e das numerosas vozes que sua obra consegue sustentar, penso
com freqüência em retornar não apenas a seus escritos mas a
ele como homem, retornar ao modo como ele pensava e sentia e às questões
que propunha. Atingi
uma espécie de consciência pessoal e política nos anos 1970,
uma época particularmente ideológica de auto-representação
agressiva. Mulheres, gays e negros começavam a divulgar uma versão
nova ou inédita de sua história. Para alguém que pretendia
trabalhar no teatro, como eu, era impossível escapar ao argumento de que
a cultura era inevitavelmente política. Depois de Trotsky ter dito que
"a função da arte em nossa época é determinada
por sua atitude perante a revolução", as únicas questões
que restavam aos escritores eram: onde você se encontrava? O que você
estava fazendo? (Ninguém poderia dizer: que revolução? sem
ser excluído da conversa.) Quando
eu não sabia qual era o objetivo de minha arte, ou quando queria pensar
no que fazia como uma exploração de idéias e personalidades,
eu me lembrava de Tchecov. Era um escritor sutil, o poeta supremo da desilusão,
do sofrimento e da impotência; e, a exemplo de Albert Camus, um homem capaz
de ver que ser empurrado para um nicho ideológico não beneficiava
ninguém. O
livro que eu pretendia escrever originalmente teria uma forma "livre",
mais para o diário do que para a crítica, e trataria do modo como
se lê ou se faz uso da literatura, tanto quanto de outras coisas. Afinal,
é raro - para mim - ler um livro de ponta a ponta numa tacada. Leio, vivo,
retorno ao livro, esqueço quem são os personagens (principalmente
se eles têm nomes russos), pego outro livro, deixo de lado, saio de férias,
e talvez chegue ao final sem me lembrar do começo. Na
adolescência, e na fase dos vinte ou trinta anos, eu lia regularmente e
até seriamente. Digo seriamente porque lia coisas que não queria
e até fazia anotações, esperando com isso ajudar que o material
se tornasse parte de mim. Eu imaginava ter tido uma educação precária
até os dezesseis anos. Ou melhor, tendo lido tantos romances sobre escolas
particulares - parecia não haver outro tipo de livros juvenis - eu tinha
fantasias assustadoras sobre os meninos das escolas particulares, lotados de livros,
meninos como meu pai, que conhecia latim e entendia sintaxe. Eu me convencera
de que eles estavam intelectualmente muito à minha frente, e portanto socialmente
também. As pessoas iam querer ouvir o que eles tinham a dizer. O
que eu exigia da leitura era ampliar meus conhecimentos, e o que eu chamava de
minha "orientação". Isso queria dizer ter novas idéias
que funcionassem como instrumentos ou instruções, servindo para
que eu me sentisse menos desamparado no mundo, menos desprovido, menos criança.
Se as coisas fossem conhecidas de antemão, não pareceriam tão
intimidantes, a pessoa estaria preparada, como se tivesse um mapa do futuro. Minha
mãe e minha irmã me intrigavam, por isso eu queria saber mais sobre
sexo, por exemplo, e como eram as mulheres, o que sentiam e pensavam, e se faziam
isso de um jeito diferente dos homens, principalmente quando os homens não
estavam presentes. E, quando comecei a escrever, queria descobrir o que se passava
no mundo literário, o que os outros escritores faziam e pensavam - como
simbolizavam o mundo contemporâneo, por exemplo - e o que eu, por minha
vez, seria capaz de fazer. Embora
eu tenha a meu respeito a idéia de que não recebi instrução
suficiente - suficiente para quê? -, há alguns anos minha mãe
encontrou, no sótão da casa suburbana onde ainda reside, um caderno
com capa caseira de papel de parede. Eu o iniciei em 1964, aos dez anos, e listei
os livros que havia lido. Deve ter sido mais ou menos nessa época que comecei
a anotar tudo em montes de cadernos de nomes cada vez mais pomposos, como se o
mundo só ganhasse realidade quando traduzido em palavras. Pensando nisso
agora, não posso deixar de considerar estranho que "educação"
para mim sempre tenha significado ler, acumular informação. Nunca
pensei nisso em termos de experiência, por exemplo, nem de sentimento, prazer
ou conversas. Em
1964, para minha surpresa, li cento e vinte e dois livros. Alguns de Arthur Ransome;
mais Enid Blyton do que precisava; E. Nesbit; Mark Twain; Richmal Crompton; esquisitices
como Pakistan cricket on the march; Adventure stories for boys,
escrito por "um monte de gente"; Stalky & Co e O livro
da selva. Quatro
anos depois, em 1968, o tom havia mudado. Janeiro começa com Billy Bunter
the hiker, mas logo depois dele veio The man with the golden gun, seguido
por G-Man at the Yard, de Peter Cheyney. Depois, From Russia with love,
The saint, The Freddie Trueman story, P. G. Wodehouse, Mickey Spillane,
e a biografia dos Beatles, de Hunter Davies (entre parênteses, "relido",
o que era incomum para mim naquela altura). Por fim, Writing and selling fact
& fiction, de Harry Edward Neal. Em
1974 eu deveria estar na universidade, mas não sentia vontade de freqüentar
as aulas. Afinal de contas, desde os cinco anos eu ia à escola, comportado,
quieto, atento. Na verdade, estava escrevendo e morando com minha namorada em
Morecambe, Lancashire, uma cidade costeira gélida e decadente, não
muito longe da usina nuclear de Heysham Head. Era a primeira vez que eu vivia
com alguém que não era da família. Certa vez fomos de carona
até a região dos lagos, em Cumbria, mas em geral caminhávamos
pelas pedras e na areia, além de ouvirmos música. De vez em quando
cozinhávamos e fazíamos refeições enormes, com cinco
ou seis pratos, comendo até dizer chega, até que não conseguíamos
mais nos mexer e caíamos no sono. Morecambe
ficava longe de Londres. Era essa a idéia. O problema é que abandonamos
o lar e recriamos a vida doméstica em outro lugar, onde o regime que instauramos
é ainda mais fervoroso, a obediência é ainda maior. Portanto,
eu passava a maior parte do tempo a portas fechadas, tendo escrito em meu diário,
em 1970, "Minha intenção é ficar o tempo inteiro no
meu quarto". Meu pai desejara isso para mim - quando pensou que eu deveria
ser escritor - e aquele já era o único local onde me sentia seguro,
um sentimento que me acompanharia por vários anos, e que ainda me acompanha,
em certa medida. Talvez eu sentisse vergonha da namorada por causa de meu hábito
de anotar tudo, além de preencher listas, cadernos e muito mais. (Ainda
elaboro listas, mas voltadas a outros temas.) Os livros lidos nessa época
eram de Sartre e Camus, Alan Watts e Beckett, antes de a lista se interromper.
Quem sabe eu tenha me aventurado no mundo, por um tempo. O último registro
foi Belos e malditos, de Fitzgerald, do qual não me recordo praticamente
nada, restou apenas a imagem memorável da mulher a chorar na cama, meio
louca, abraçada a um sapato. Eu gostava de tudo que fosse erótico,
claro. Não que houvesse muitas opções. Lady Chatterley,
Lolita e até O apanhador no campo de centeio - então
considerado um livro "sujo" - ficavam guardados no quarto de meu pai.
Nenhum deles me foi de grande valia. James Bond era melhor; Harold Robbins representava
uma satisfação deliciosa, despudorada. Minha namorada, uma boa professora,
me apresentou às obras de Philip Roth e Erica Jong, bem como às
de Miles Davis e Mahler. Mas
esses são outros artistas, e estou divagando. Mais urgente é a questão
do livro semi-oculto na pasta que se projetava sob a pilha de outros papéis
em meu escritório, papéis para os quais eu ainda precisava arranjar
um lugar, e que me censuram cada vez que meu olhar se detém sobre eles.
Devo dizer que a pasta contém um romance chamado Uma adolescência
indiana. Meu pai, funcionário da embaixada paquistanesa em Londres,
escreveu romances, contos, peças para rádio e teatro durante sua
vida adulta inteira. Acho que ele terminou pelo menos quatro romances, todos recusados
por diversos editores e agentes, algo traumático para minha família,
que recebia as recusas como rejeições pessoais. Mas meu pai teve
matérias jornalísticas publicadas sobre o Paquistão, sobre
squash e críquete, além de ter escrito dois livros infanto-juvenis
sobre o Paquistão. Tenho
certeza de que Uma adolescência indiana foi seu derradeiro romance,
escrito provavelmente após a cirurgia no coração, para colocar
pontes, quando já não trabalhava mais na embaixada onde estivera
empregado durante a maior parte de sua vida adulta. Eu não sabia o que
esperar do romance de papai, mas supunha que ficaria chocado e, provavelmente,
comovido e perturbado. Seria pavoroso, seria uma obra-prima ou seria algo intermediário?
Revelaria muito pouco, demais ou a conta certa? Por que hesitar agora? Eu gostaria
de saber se continha algum tipo de mensagem para mim, e como eu poderia reagir. Meu
pai e seus numerosos irmãos sempre leram muito, e com seriedade. Quando
se encontravam, enquanto limpavam e fumavam seus cachimbos, conversavam sobre
literatura e política e trocavam livros. Suponho que o conhecimento fosse,
para eles, uma coisa competitiva; adoravam discutir, a tensão intelectual
entre eles era sempre alta, quase sanguinária, como se combatessem. Com
meu pai havia passeios domingueiros até a "rua dos livros" -
Charing Cross Road - só para homens, enquanto mamãe levava minha
irmã para a aula de balé. A própria cidade era uma revelação
e uma esperança para aquele menino magro e bem moreno que atravessava o
rio de trem, passando pelos cortiços de Herne Hill e Brixton, vindo do
subúrbio. Era intimidante, a grande metrópole imperial cheia de
estátuas enormes: homens de rosto inexpressivo cobertos de titica de passarinho
e medalhas, homens que comandaram exércitos e governaram nações.
Para mim, aquilo era o império: declínio e relíquias. Meu
pai não o via assim, pois nele vivera, como eu começava a entender
quando ele falava na infância - um incidente com um irmão ou professor,
uma piada, mas nada que pudesse entristecer algum dos dois. As
crianças ouvem muitas histórias, de inúmeras formas, antes
que possam lê-las. Mas no centro de sua formação está
a iniciação a uma história em desenvolvimento. Trata-se da
lenda ou tradição familiar; pais e outros parentes tentam inoculá-la
nos filhos. Independentemente do que estivesse acontecendo em minha vida, por
meio dos livros eu penetrava numa narrativa, num mito que envolvia leitura e escritores,
como se fosse uma transação familiar. Os esportes - e o críquete
em especial - participavam desse mito. Provavelmente nenhum de nós teria
sido capaz de dizer exatamente que tipo de história seria. Mesmo assim,
um recado importante estava sendo dado a respeito do que contava na família
e de como eu deveria viver e quem deveria ser. Se cada criança tem seu
lugar nos sonhos ou na economia da família, e se os pais têm um projeto
para cada filho, nem eles nem os filhos podem ter certeza de qual seja. Como
era de se esperar, quando saí de casa eu tinha uma fé enorme nos
livros. Embora as lacunas na leitura de meu pai sejam as minhas, e eu ainda despreze
o que ele desprezava - não há nada mais duradouro do que uma fobia
herdada na infância -, sei que se pode encontrar um livro adequado a cada
estado de espírito, ou um livro capaz de mudar nosso estado de espírito,
ou um livro que sugira um jeito diferente de pensar, sentir e ser. Imagens, pensamentos
e fantasias inéditas surgem em nossa mente quando sentamos para ler. O
livro certo, como uma droga, é capaz de pôr e manter alguém
no estado de espírito desejado, por várias semanas. Depois
de abandonar a London University, para onde fora após apenas um ano na
University of North London, eu tentava me tornar escritor, conforme os planos
de meu pai. Se escrevia de manhã, passeava pela cidade à tarde.
Sem destino, eu era um flâneur - um "vadio", nas palavras
de meu pai, isto é, um desocupado - aprendendo a conhecer Londres por suas
ruas e rostos, ansiando por alguém com quem conversar, uma moça
com quem ficar, visitando sebos de livros, mais abundantes na época do
que agora e onde sempre se podia encontrar obras singulares. Eu andava bem deprimido,
calculo. Por curiosidade, havia começado a visitar um asilo mental antiquado
em Surrey, onde fiquei chocado ao ver lunáticos drogados de cabeça
raspada a balbuciar pelos corredores, e um velho que sempre usava tutu. O objetivo
das visitas era, em tese, dar aos internos possibilidade de contato com o mundo
exterior, mas eu precisa saber mais a respeito dos problemas mentais do que os
livros me ofereciam. Estaria ficando louco? O supervisor me destacou para a função
de "amigo" de uma beldade alemã de cútis porcelanizada
que residia na Boltons, região dos milionários de South Kensington.
Estava quase paralítica, como um dos primeiros casos de Freud, e me fez
lembrar de um verso de Anne Carson, "[...] seu nervosismo extravasado qual
um incêndio num palácio". Seus pais haviam cometido suicídio
recentemente, um deles ao pular pela janela. Ficávamos sentados em seu
apartamento, observando as cortinas esvoaçarem; de vez em quando, friamente,
nos beijávamos. Ela fazia o possível, mas não conseguia me
animar. Creio
que eu começava a perceber que, se é verdade que não podemos
nos sujeitar à vontade de um livro, ele também não vai nos
beijar, responder ao que dizemos ou nos trazer uma xícara de chá.
Começamos a sentir fome e ansiar por algo, embora não saibamos o
que é, pois nos disseram que histórias podem nos dar muita coisa.
Será que podem curar tanto a solidão quanto a difícil realidade
de outras pessoas de carne e osso? As
viagens literárias que eu fazia logo passaram a ser a mesma, todos os dias.
A questão era essa. Do mesmo modo, hoje em dia, embora eu não esteja
escrevendo muito, venho para o escritório e me sento aqui como se estivesse
trabalhando. O local em que escrevo é uma sala no primeiro andar de minha
casa na parte oeste de Londres, onde tenho dois computadores velhos e um monte
de coisas em volta: CDs, livros, fotos, desenhos dos filhos, além de um
retrato de meu pai, feito por minha mãe. Mantenho dúzias de canetas
por perto, muitas delas tinteiro - que eu gosto de lavar e encher. Algumas pertenciam
a meu pai. Prefiro escrever à mão do que digitar; o movimento da
mão se aproxima do desenhar - rabiscar, na verdade - e do movimento interno.
No fim, esses são hábitos; repetições diárias.
Uma novidade serve como desculpa para outra atitude igual. Assim a gente sabe
onde está. Beckett está cheio dessas obsessões - poderíamos
chamá-las de repetições fúteis ou estéticas. Não
pensem que não notei que muitos artistas são impulsionados por rituais
que cercam sua arte - silêncio, encher o papel, amassá-lo, jogá-lo
no lixo - tanto quanto pelo assunto em si. Após alguns anos torna-se óbvio
que a arte está ali para servir ao ritual, que é tudo. Se você
não for obsessivo não poderá ser artista, por mais imaginação
que tenha. Contudo, acho que às vezes me sento à escrivaninha apenas
para obedecer a meu pai. Isso talvez explique por que fico tão furioso
quando começo e por que não sei o que fazer quando termino. No entanto,
se fosse só por isso, a esta altura eu já teria mudado de profissão. Bem,
embarcado neste projeto de "leitura", acreditando que realmente devo
levá-lo adiante, retiro o original de sob a pilha e o folheio. Examino
o livro por um tempo antes de guardá-lo, continuo a ponderar o que devo
fazer com esse objeto, esse presente feito por meu pai. É uma carta de
morto, entregue com mais de dez anos de atraso. Por mais tempo que tenha passado
sem que o lessem, creio que um livro se torna um livro de verdade quando alguém
o abre e tenta penetrar seu sentido, mesmo que seja apenas uma única pessoa.
Examinar a datilografia precária, as supressões e os acréscimos
rabiscados naquele original me leva a pensar nas limitações do romance
produzido em massa, com seu ar impessoal, objetivo e competente. Por vezes sonho
fazer meus próprios livros, manuscritos em cores distintas, com fotos,
desenhos e versões diferentes, para dar uma idéia do processo ou
percurso do livro. Procuro
não esquecer das condições em que meu pai escrevia. Ele passou
a maior parte da adolescência doente. No hospital, convalescendo em casa,
a caminho do médico, ou quase recuperado o suficiente para trabalhar, ou
doente de novo. O pai dele era médico do exército, pretendia que
os filhos e filhas seguissem a carreira. Curiosamente, ninguém quis; só
meu pai dedicava boa parte do tempo aos médicos, assim como, graças
à biblioteca local, aos mestres zen e budistas de vários tipos,
e também aos "curandeiros da alma" literários como Jung
e Alan Watts. No
lugar do islã que descartou meu pai - muçulmano indiano que deixara
o país aos vinte e poucos anos, para nunca mais voltar - criou sua religião
em casa, a partir de livros da biblioteca, de seu descontentamento e de sua ambição
literária. Deve ter sido reconfortante para ele saber que não era
o único místico de subúrbio. Alan Watts nascera a alguns
pontos de ônibus dali, em Chislehurst; freqüentara uma escola perto
de Bickley, antes de ir para a King’s School, em Canterbury, onde estudara outro
médico-escritor, Somerset Maugham, que escreveu sobre ela em A servidão
humana. Watts depois se mudou para Bromley. Foi
em parte graças a Watts, que esporadicamente aparecia na tevê, que
a "contracultura" entrou em nosso lar. Watts, que publicara seu primeiro
livro aos dezenove anos, também escrevera sobre Jung. Numa noite de domingo,
em meados dos anos 1960, as entrevistas de John Freeman com Carl Jung foram televisionadas.
Minha mãe, com um ardor que lhe era atípico, disse, "Esse homem
teve uma bela existência. Sua vida tem sido fascinante e digna de ser vivida".
Por um tempo a fragilidade e as especulações religiosas de Jung
me pareceram mais interessantes que a austeridade e as especulações
sexuais de Freud. Depois
de ler a respeito das experiências de Jung com "associação
de palavras", passei a me interessar pela "escrita automática".
Como isso não me levou muito longe, voltei-me à livre associação
como instrumento para soltar a imaginação. Antes, como escritor,
eu trabalhava baseado em um "modelo acadêmico", acreditando que
as melhores palavras e imagens resultavam do esforço para encontrá-las. Para
meu pai, durante esse período, a doença significava a chegada apressada
do médico no meio da noite, com o pijama a aparecer sob a calça
e as mangas do paletó, seguida da intermitente luz azul da ambulância,
e o pacote precário, subitamente diminuto - meu pai - transportado na traseira.
Adolescente, eu era obcecado por roupa e cabelo, só pensava no que eu poderia
representar para uma mulher. (Em 1974 escrevi em meu diário: "Joanna
falou sobre o dia em que fui jantar na casa dela e disse que lamentava eu ter
apagado e dormido, bêbado, pois queria me conhecer melhor".) Mergulhado
nessas preocupações, não consegui ser solidário o
suficiente com meu pai. Era como se minha robustez, minha curiosidade vigorosa
e meu entusiasmo sexual fossem um insulto ao sofrimento dos meus pais, a sua perda
de força e energia. Como eu podia viver minha vida, se meu pai não
conseguia viver a dele? Mas
a cama pode ser um bom lugar para se escrever, como qualquer outro. Acho que meu
pai escreveu Uma adolescência indiana deitado, com um velho quadro-negro
de criança à sua frente, para apoiar o papel. Quando ele se sentia
melhor, datilografava o texto e o levava para o correio; depois, esperava. Por
um tempo, havia esperança: em breve ele seria um escritor de sucesso. O
livro foi descoberto por minha agente, há alguns meses. Não tenho
idéia de quanto tempo ela ficou com ele em seu escritório, mas faz
quase onze anos que meu pai morreu. Eu nunca havia posto os olhos nele. Após
os dezesseis anos nunca mais li seus romances, e não mostrava meu trabalho
para ele. Suas críticas duras, um tanto irônicas, eram quase insuportáveis,
e eu me comportava de modo igualmente rígido. Isso o magoava. Além
disso, há certos tipos de conhecimento que exigem cautela, informações
a respeito dos pais que não temos certeza se queremos digerir, como se
quiséssemos cristalizar uma idéia a respeito deles e tocar nossa
vida para a frente. Por outro lado, a ignorância voluntária não
é uma boa coisa. Concluí que leria o livro. Seria uma boa maneira
de não reler Tchecov por um tempo. Meu pai não teria aprovado isso,
porém. Ele trabalhava duro, tinha propósitos firmes, e sempre deixou
claro, assim como minha mãe, que os dois passavam o dia fazendo coisas
de que não gostavam. O tempo, portanto, não podia ser desperdiçado.
(De repente eu me recordo de uma carta escrita por Tchecov a Máximo Gorki:
"Você é um indivíduo jovem, vigoroso, rijo; em seu lugar
eu estaria viajando para a Índia".) Tendo
estudado meus pais de perto até o final da adolescência, e pensado
ou sonhado com eles na maioria dos dias desde então, boa parte do que "sei"
deve ser suposição e fantasia. Desconfio que não poderia
ser de outra maneira. Portanto, esta minha forma livre de trabalhar provavelmente
está mais próxima da ficção do que eu gostaria. Mas
nesta busca, espero, chegarei mais longe. Tiro
finalmente as folhas soltas datilografadas da pasta, deito no sofá do escritório,
deposito a xícara de chá onde a posso alcançar, e leio o
livro inteiro, superficial e rapidamente. Não me atenho aos detalhes de
grande parte do romance. Mas percebo que é sobre meu pai, os pais dele
e pelo menos um de seus irmãos. Passa-se em Poona e Bombaim, quase no final
da era colonialista inglesa. Estamos "viajando para a Índia". Ando
pela sala, excitado. Encontrar o livro foi como achar uma caixa de fotos esquecidas
que precisam ser inspecionadas uma a uma, detalhadamente. Contudo, as pessoas
nas fotos permanecem em silêncio, o contexto e os sentimentos só
podem ser suposições. No ensaio "Something given", publicado
em Dreaming and scheming, comecei a escrever sobre meu pai, fora da ficção,
pela primeira vez, tentando pensar em como ele gostaria de ser conhecido como
escritor, e no que isso significava para nossa família. Mas não
tinha acesso objetivo ao passado, como agora. Imagino que haja, aqui - quando
parece que abro uma porta para o passado preservado em palavras -, uma pista ou
chave para a vida de meu pai, para o modo como ele convivia com minha mãe,
para minha educação e para um contexto político e relações
coloniais. Papai fala comigo novamente, e não apenas dentro de minha cabeça. Levei
um dia para ler direito o livro. Depois de terminar a leitura, fico chocado com
tudo que ele parece me dizer, e com tudo que terei de encarar agora que entrei
em seu labirinto. Serei diferente, ao sair? Mais importante, será meu pai
diferente? |