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livros
Ulf Andersen/Getty Images
Kureishi: tintas autobiográficas  

No Colo do Pai, de Hanif Kureishi (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 208 páginas; 38 reais) – No romance Intimidade, o inglês de ascendência paquistanesa Hanif Kureishi tomou o próprio divórcio como tema. Ele retorna ao material autobiográfico nesse novo livro, misto de memórias da adolescência e ensaio literário. Kureishi examina os romances autobiográficos que seu pai, Shannoo, escreveu mas nunca publicou – e, em paralelo, narra sua própria formação como escritor. No Colo do Pai gerou uma certa polêmica familiar: a irmã de Kureishi acusou-o de criar um retrato distorcido de Shannoo. Não é de surpreender, já que a figura do pai é abordada de forma crua e desencantada – o que torna o livro ainda mais pungente.

Leia trecho

Capítulo 1

No chão, num canto do meu escritório, saliente sob a pilha de papéis diversos, há uma pasta verde velha e surrada que contém o texto capaz de, suponho, revelar muita coisa a respeito de meu pai e de meu próprio passado. Desde que o descobri, porém, fico olhando para ele, depois desvio a vista para me concentrar em outra coisa, pensando nele sem fazer nada a respeito. Recebi o original há poucas semanas, reaparecido depois de mais de onze anos. É um romance escrito por meu pai, um legado de palavras, um testamento prolongado, talvez - ainda não sei o que contém. Como o restante de sua obra de ficção, nunca foi publicado. Acho que devo lê-lo.

Quando comecei a pensar no livro que estou escrevendo, deitado à noite na cama - antes de acharem o texto de meu pai - eu pretendia que a obra começasse com outros livros. Refletia sobre o passado, como agora faço freqüentemente, recuando mais e mais nos devaneios, e pensava que reler os autores que apreciava na juventude talvez fosse um modo de captar meu jeito quando jovem. Retornaria, por exemplo, a Kerouac, Dostoiévski, Salinger, Orwell, Hesse, Ian Fleming e Wilde, para ver se conseguiria habitar novamente os mundos que um dia eles criaram em minha mente, e me reconhecer dentro deles.

Além de tratar dos escritores mais importantes para mim, o livro deveria versar sobre os anos 1960 e 1970, postos ao lado do presente, incluindo material sobre o contexto no qual a leitura e depois a releitura ocorreram. Cada livro, eu esperava, reacenderia lembranças das circunstâncias em que fora lido. Isso faria então com que eu pensasse no que cada livro específico passara a representar para mim.

Independentemente de quem mais constasse no livro, decidi desde logo concentrar o foco na obra de Tchecov, em suas cartas, peças e contos. Ele era um dos escritores favoritos de meu pai, e o discutíamos com freqüência, o médico e o homem. Todos os livros contêm alguma atitude perante a vida, mas com o tempo abandonamos a maioria dessas abordagens; como relacionamentos extintos, elas não têm mais nada a nos oferecer. Mas ainda sinto curiosidade a respeito de Tchecov e das numerosas vozes que sua obra consegue sustentar, penso com freqüência em retornar não apenas a seus escritos mas a ele como homem, retornar ao modo como ele pensava e sentia e às questões que propunha.

Atingi uma espécie de consciência pessoal e política nos anos 1970, uma época particularmente ideológica de auto-representação agressiva. Mulheres, gays e negros começavam a divulgar uma versão nova ou inédita de sua história. Para alguém que pretendia trabalhar no teatro, como eu, era impossível escapar ao argumento de que a cultura era inevitavelmente política. Depois de Trotsky ter dito que "a função da arte em nossa época é determinada por sua atitude perante a revolução", as únicas questões que restavam aos escritores eram: onde você se encontrava? O que você estava fazendo? (Ninguém poderia dizer: que revolução? sem ser excluído da conversa.)

Quando eu não sabia qual era o objetivo de minha arte, ou quando queria pensar no que fazia como uma exploração de idéias e personalidades, eu me lembrava de Tchecov. Era um escritor sutil, o poeta supremo da desilusão, do sofrimento e da impotência; e, a exemplo de Albert Camus, um homem capaz de ver que ser empurrado para um nicho ideológico não beneficiava ninguém.

O livro que eu pretendia escrever originalmente teria uma forma "livre", mais para o diário do que para a crítica, e trataria do modo como se lê ou se faz uso da literatura, tanto quanto de outras coisas. Afinal, é raro - para mim - ler um livro de ponta a ponta numa tacada. Leio, vivo, retorno ao livro, esqueço quem são os personagens (principalmente se eles têm nomes russos), pego outro livro, deixo de lado, saio de férias, e talvez chegue ao final sem me lembrar do começo.

Na adolescência, e na fase dos vinte ou trinta anos, eu lia regularmente e até seriamente. Digo seriamente porque lia coisas que não queria e até fazia anotações, esperando com isso ajudar que o material se tornasse parte de mim. Eu imaginava ter tido uma educação precária até os dezesseis anos. Ou melhor, tendo lido tantos romances sobre escolas particulares - parecia não haver outro tipo de livros juvenis - eu tinha fantasias assustadoras sobre os meninos das escolas particulares, lotados de livros, meninos como meu pai, que conhecia latim e entendia sintaxe. Eu me convencera de que eles estavam intelectualmente muito à minha frente, e portanto socialmente também. As pessoas iam querer ouvir o que eles tinham a dizer.

O que eu exigia da leitura era ampliar meus conhecimentos, e o que eu chamava de minha "orientação". Isso queria dizer ter novas idéias que funcionassem como instrumentos ou instruções, servindo para que eu me sentisse menos desamparado no mundo, menos desprovido, menos criança. Se as coisas fossem conhecidas de antemão, não pareceriam tão intimidantes, a pessoa estaria preparada, como se tivesse um mapa do futuro. Minha mãe e minha irmã me intrigavam, por isso eu queria saber mais sobre sexo, por exemplo, e como eram as mulheres, o que sentiam e pensavam, e se faziam isso de um jeito diferente dos homens, principalmente quando os homens não estavam presentes. E, quando comecei a escrever, queria descobrir o que se passava no mundo literário, o que os outros escritores faziam e pensavam - como simbolizavam o mundo contemporâneo, por exemplo - e o que eu, por minha vez, seria capaz de fazer.

Embora eu tenha a meu respeito a idéia de que não recebi instrução suficiente - suficiente para quê? -, há alguns anos minha mãe encontrou, no sótão da casa suburbana onde ainda reside, um caderno com capa caseira de papel de parede. Eu o iniciei em 1964, aos dez anos, e listei os livros que havia lido. Deve ter sido mais ou menos nessa época que comecei a anotar tudo em montes de cadernos de nomes cada vez mais pomposos, como se o mundo só ganhasse realidade quando traduzido em palavras. Pensando nisso agora, não posso deixar de considerar estranho que "educação" para mim sempre tenha significado ler, acumular informação. Nunca pensei nisso em termos de experiência, por exemplo, nem de sentimento, prazer ou conversas.

Em 1964, para minha surpresa, li cento e vinte e dois livros. Alguns de Arthur Ransome; mais Enid Blyton do que precisava; E. Nesbit; Mark Twain; Richmal Crompton; esquisitices como Pakistan cricket on the march; Adventure stories for boys, escrito por "um monte de gente"; Stalky & Co e O livro da selva.

Quatro anos depois, em 1968, o tom havia mudado. Janeiro começa com Billy Bunter the hiker, mas logo depois dele veio The man with the golden gun, seguido por G-Man at the Yard, de Peter Cheyney. Depois, From Russia with love, The saint, The Freddie Trueman story, P. G. Wodehouse, Mickey Spillane, e a biografia dos Beatles, de Hunter Davies (entre parênteses, "relido", o que era incomum para mim naquela altura). Por fim, Writing and selling fact & fiction, de Harry Edward Neal.

Em 1974 eu deveria estar na universidade, mas não sentia vontade de freqüentar as aulas. Afinal de contas, desde os cinco anos eu ia à escola, comportado, quieto, atento. Na verdade, estava escrevendo e morando com minha namorada em Morecambe, Lancashire, uma cidade costeira gélida e decadente, não muito longe da usina nuclear de Heysham Head. Era a primeira vez que eu vivia com alguém que não era da família. Certa vez fomos de carona até a região dos lagos, em Cumbria, mas em geral caminhávamos pelas pedras e na areia, além de ouvirmos música. De vez em quando cozinhávamos e fazíamos refeições enormes, com cinco ou seis pratos, comendo até dizer chega, até que não conseguíamos mais nos mexer e caíamos no sono.

Morecambe ficava longe de Londres. Era essa a idéia. O problema é que abandonamos o lar e recriamos a vida doméstica em outro lugar, onde o regime que instauramos é ainda mais fervoroso, a obediência é ainda maior. Portanto, eu passava a maior parte do tempo a portas fechadas, tendo escrito em meu diário, em 1970, "Minha intenção é ficar o tempo inteiro no meu quarto". Meu pai desejara isso para mim - quando pensou que eu deveria ser escritor - e aquele já era o único local onde me sentia seguro, um sentimento que me acompanharia por vários anos, e que ainda me acompanha, em certa medida. Talvez eu sentisse vergonha da namorada por causa de meu hábito de anotar tudo, além de preencher listas, cadernos e muito mais. (Ainda elaboro listas, mas voltadas a outros temas.) Os livros lidos nessa época eram de Sartre e Camus, Alan Watts e Beckett, antes de a lista se interromper. Quem sabe eu tenha me aventurado no mundo, por um tempo. O último registro foi Belos e malditos, de Fitzgerald, do qual não me recordo praticamente nada, restou apenas a imagem memorável da mulher a chorar na cama, meio louca, abraçada a um sapato. Eu gostava de tudo que fosse erótico, claro. Não que houvesse muitas opções. Lady Chatterley, Lolita e até O apanhador no campo de centeio - então considerado um livro "sujo" - ficavam guardados no quarto de meu pai. Nenhum deles me foi de grande valia. James Bond era melhor; Harold Robbins representava uma satisfação deliciosa, despudorada. Minha namorada, uma boa professora, me apresentou às obras de Philip Roth e Erica Jong, bem como às de Miles Davis e Mahler.

Mas esses são outros artistas, e estou divagando. Mais urgente é a questão do livro semi-oculto na pasta que se projetava sob a pilha de outros papéis em meu escritório, papéis para os quais eu ainda precisava arranjar um lugar, e que me censuram cada vez que meu olhar se detém sobre eles. Devo dizer que a pasta contém um romance chamado Uma adolescência indiana. Meu pai, funcionário da embaixada paquistanesa em Londres, escreveu romances, contos, peças para rádio e teatro durante sua vida adulta inteira. Acho que ele terminou pelo menos quatro romances, todos recusados por diversos editores e agentes, algo traumático para minha família, que recebia as recusas como rejeições pessoais. Mas meu pai teve matérias jornalísticas publicadas sobre o Paquistão, sobre squash e críquete, além de ter escrito dois livros infanto-juvenis sobre o Paquistão.

Tenho certeza de que Uma adolescência indiana foi seu derradeiro romance, escrito provavelmente após a cirurgia no coração, para colocar pontes, quando já não trabalhava mais na embaixada onde estivera empregado durante a maior parte de sua vida adulta. Eu não sabia o que esperar do romance de papai, mas supunha que ficaria chocado e, provavelmente, comovido e perturbado. Seria pavoroso, seria uma obra-prima ou seria algo intermediário? Revelaria muito pouco, demais ou a conta certa? Por que hesitar agora? Eu gostaria de saber se continha algum tipo de mensagem para mim, e como eu poderia reagir.

Meu pai e seus numerosos irmãos sempre leram muito, e com seriedade. Quando se encontravam, enquanto limpavam e fumavam seus cachimbos, conversavam sobre literatura e política e trocavam livros. Suponho que o conhecimento fosse, para eles, uma coisa competitiva; adoravam discutir, a tensão intelectual entre eles era sempre alta, quase sanguinária, como se combatessem. Com meu pai havia passeios domingueiros até a "rua dos livros" - Charing Cross Road - só para homens, enquanto mamãe levava minha irmã para a aula de balé. A própria cidade era uma revelação e uma esperança para aquele menino magro e bem moreno que atravessava o rio de trem, passando pelos cortiços de Herne Hill e Brixton, vindo do subúrbio. Era intimidante, a grande metrópole imperial cheia de estátuas enormes: homens de rosto inexpressivo cobertos de titica de passarinho e medalhas, homens que comandaram exércitos e governaram nações. Para mim, aquilo era o império: declínio e relíquias. Meu pai não o via assim, pois nele vivera, como eu começava a entender quando ele falava na infância - um incidente com um irmão ou professor, uma piada, mas nada que pudesse entristecer algum dos dois.

As crianças ouvem muitas histórias, de inúmeras formas, antes que possam lê-las. Mas no centro de sua formação está a iniciação a uma história em desenvolvimento. Trata-se da lenda ou tradição familiar; pais e outros parentes tentam inoculá-la nos filhos. Independentemente do que estivesse acontecendo em minha vida, por meio dos livros eu penetrava numa narrativa, num mito que envolvia leitura e escritores, como se fosse uma transação familiar. Os esportes - e o críquete em especial - participavam desse mito. Provavelmente nenhum de nós teria sido capaz de dizer exatamente que tipo de história seria. Mesmo assim, um recado importante estava sendo dado a respeito do que contava na família e de como eu deveria viver e quem deveria ser. Se cada criança tem seu lugar nos sonhos ou na economia da família, e se os pais têm um projeto para cada filho, nem eles nem os filhos podem ter certeza de qual seja.

Como era de se esperar, quando saí de casa eu tinha uma fé enorme nos livros. Embora as lacunas na leitura de meu pai sejam as minhas, e eu ainda despreze o que ele desprezava - não há nada mais duradouro do que uma fobia herdada na infância -, sei que se pode encontrar um livro adequado a cada estado de espírito, ou um livro capaz de mudar nosso estado de espírito, ou um livro que sugira um jeito diferente de pensar, sentir e ser. Imagens, pensamentos e fantasias inéditas surgem em nossa mente quando sentamos para ler. O livro certo, como uma droga, é capaz de pôr e manter alguém no estado de espírito desejado, por várias semanas.

Depois de abandonar a London University, para onde fora após apenas um ano na University of North London, eu tentava me tornar escritor, conforme os planos de meu pai. Se escrevia de manhã, passeava pela cidade à tarde. Sem destino, eu era um flâneur - um "vadio", nas palavras de meu pai, isto é, um desocupado - aprendendo a conhecer Londres por suas ruas e rostos, ansiando por alguém com quem conversar, uma moça com quem ficar, visitando sebos de livros, mais abundantes na época do que agora e onde sempre se podia encontrar obras singulares. Eu andava bem deprimido, calculo. Por curiosidade, havia começado a visitar um asilo mental antiquado em Surrey, onde fiquei chocado ao ver lunáticos drogados de cabeça raspada a balbuciar pelos corredores, e um velho que sempre usava tutu. O objetivo das visitas era, em tese, dar aos internos possibilidade de contato com o mundo exterior, mas eu precisa saber mais a respeito dos problemas mentais do que os livros me ofereciam. Estaria ficando louco? O supervisor me destacou para a função de "amigo" de uma beldade alemã de cútis porcelanizada que residia na Boltons, região dos milionários de South Kensington. Estava quase paralítica, como um dos primeiros casos de Freud, e me fez lembrar de um verso de Anne Carson, "[...] seu nervosismo extravasado qual um incêndio num palácio". Seus pais haviam cometido suicídio recentemente, um deles ao pular pela janela. Ficávamos sentados em seu apartamento, observando as cortinas esvoaçarem; de vez em quando, friamente, nos beijávamos. Ela fazia o possível, mas não conseguia me animar.

Creio que eu começava a perceber que, se é verdade que não podemos nos sujeitar à vontade de um livro, ele também não vai nos beijar, responder ao que dizemos ou nos trazer uma xícara de chá. Começamos a sentir fome e ansiar por algo, embora não saibamos o que é, pois nos disseram que histórias podem nos dar muita coisa. Será que podem curar tanto a solidão quanto a difícil realidade de outras pessoas de carne e osso?

As viagens literárias que eu fazia logo passaram a ser a mesma, todos os dias. A questão era essa. Do mesmo modo, hoje em dia, embora eu não esteja escrevendo muito, venho para o escritório e me sento aqui como se estivesse trabalhando. O local em que escrevo é uma sala no primeiro andar de minha casa na parte oeste de Londres, onde tenho dois computadores velhos e um monte de coisas em volta: CDs, livros, fotos, desenhos dos filhos, além de um retrato de meu pai, feito por minha mãe. Mantenho dúzias de canetas por perto, muitas delas tinteiro - que eu gosto de lavar e encher. Algumas pertenciam a meu pai. Prefiro escrever à mão do que digitar; o movimento da mão se aproxima do desenhar - rabiscar, na verdade - e do movimento interno. No fim, esses são hábitos; repetições diárias. Uma novidade serve como desculpa para outra atitude igual. Assim a gente sabe onde está. Beckett está cheio dessas obsessões - poderíamos chamá-las de repetições fúteis ou estéticas.

Não pensem que não notei que muitos artistas são impulsionados por rituais que cercam sua arte - silêncio, encher o papel, amassá-lo, jogá-lo no lixo - tanto quanto pelo assunto em si. Após alguns anos torna-se óbvio que a arte está ali para servir ao ritual, que é tudo. Se você não for obsessivo não poderá ser artista, por mais imaginação que tenha. Contudo, acho que às vezes me sento à escrivaninha apenas para obedecer a meu pai. Isso talvez explique por que fico tão furioso quando começo e por que não sei o que fazer quando termino. No entanto, se fosse só por isso, a esta altura eu já teria mudado de profissão.

Bem, embarcado neste projeto de "leitura", acreditando que realmente devo levá-lo adiante, retiro o original de sob a pilha e o folheio. Examino o livro por um tempo antes de guardá-lo, continuo a ponderar o que devo fazer com esse objeto, esse presente feito por meu pai. É uma carta de morto, entregue com mais de dez anos de atraso. Por mais tempo que tenha passado sem que o lessem, creio que um livro se torna um livro de verdade quando alguém o abre e tenta penetrar seu sentido, mesmo que seja apenas uma única pessoa. Examinar a datilografia precária, as supressões e os acréscimos rabiscados naquele original me leva a pensar nas limitações do romance produzido em massa, com seu ar impessoal, objetivo e competente. Por vezes sonho fazer meus próprios livros, manuscritos em cores distintas, com fotos, desenhos e versões diferentes, para dar uma idéia do processo ou percurso do livro.

Procuro não esquecer das condições em que meu pai escrevia. Ele passou a maior parte da adolescência doente. No hospital, convalescendo em casa, a caminho do médico, ou quase recuperado o suficiente para trabalhar, ou doente de novo. O pai dele era médico do exército, pretendia que os filhos e filhas seguissem a carreira. Curiosamente, ninguém quis; só meu pai dedicava boa parte do tempo aos médicos, assim como, graças à biblioteca local, aos mestres zen e budistas de vários tipos, e também aos "curandeiros da alma" literários como Jung e Alan Watts.

No lugar do islã que descartou meu pai - muçulmano indiano que deixara o país aos vinte e poucos anos, para nunca mais voltar - criou sua religião em casa, a partir de livros da biblioteca, de seu descontentamento e de sua ambição literária. Deve ter sido reconfortante para ele saber que não era o único místico de subúrbio. Alan Watts nascera a alguns pontos de ônibus dali, em Chislehurst; freqüentara uma escola perto de Bickley, antes de ir para a King’s School, em Canterbury, onde estudara outro médico-escritor, Somerset Maugham, que escreveu sobre ela em A servidão humana. Watts depois se mudou para Bromley.

Foi em parte graças a Watts, que esporadicamente aparecia na tevê, que a "contracultura" entrou em nosso lar. Watts, que publicara seu primeiro livro aos dezenove anos, também escrevera sobre Jung. Numa noite de domingo, em meados dos anos 1960, as entrevistas de John Freeman com Carl Jung foram televisionadas. Minha mãe, com um ardor que lhe era atípico, disse, "Esse homem teve uma bela existência. Sua vida tem sido fascinante e digna de ser vivida". Por um tempo a fragilidade e as especulações religiosas de Jung me pareceram mais interessantes que a austeridade e as especulações sexuais de Freud.

Depois de ler a respeito das experiências de Jung com "associação de palavras", passei a me interessar pela "escrita automática". Como isso não me levou muito longe, voltei-me à livre associação como instrumento para soltar a imaginação. Antes, como escritor, eu trabalhava baseado em um "modelo acadêmico", acreditando que as melhores palavras e imagens resultavam do esforço para encontrá-las.

Para meu pai, durante esse período, a doença significava a chegada apressada do médico no meio da noite, com o pijama a aparecer sob a calça e as mangas do paletó, seguida da intermitente luz azul da ambulância, e o pacote precário, subitamente diminuto - meu pai - transportado na traseira. Adolescente, eu era obcecado por roupa e cabelo, só pensava no que eu poderia representar para uma mulher. (Em 1974 escrevi em meu diário: "Joanna falou sobre o dia em que fui jantar na casa dela e disse que lamentava eu ter apagado e dormido, bêbado, pois queria me conhecer melhor".) Mergulhado nessas preocupações, não consegui ser solidário o suficiente com meu pai. Era como se minha robustez, minha curiosidade vigorosa e meu entusiasmo sexual fossem um insulto ao sofrimento dos meus pais, a sua perda de força e energia. Como eu podia viver minha vida, se meu pai não conseguia viver a dele?

Mas a cama pode ser um bom lugar para se escrever, como qualquer outro. Acho que meu pai escreveu Uma adolescência indiana deitado, com um velho quadro-negro de criança à sua frente, para apoiar o papel. Quando ele se sentia melhor, datilografava o texto e o levava para o correio; depois, esperava. Por um tempo, havia esperança: em breve ele seria um escritor de sucesso.

O livro foi descoberto por minha agente, há alguns meses. Não tenho idéia de quanto tempo ela ficou com ele em seu escritório, mas faz quase onze anos que meu pai morreu. Eu nunca havia posto os olhos nele. Após os dezesseis anos nunca mais li seus romances, e não mostrava meu trabalho para ele. Suas críticas duras, um tanto irônicas, eram quase insuportáveis, e eu me comportava de modo igualmente rígido. Isso o magoava.

Além disso, há certos tipos de conhecimento que exigem cautela, informações a respeito dos pais que não temos certeza se queremos digerir, como se quiséssemos cristalizar uma idéia a respeito deles e tocar nossa vida para a frente. Por outro lado, a ignorância voluntária não é uma boa coisa. Concluí que leria o livro. Seria uma boa maneira de não reler Tchecov por um tempo. Meu pai não teria aprovado isso, porém. Ele trabalhava duro, tinha propósitos firmes, e sempre deixou claro, assim como minha mãe, que os dois passavam o dia fazendo coisas de que não gostavam. O tempo, portanto, não podia ser desperdiçado. (De repente eu me recordo de uma carta escrita por Tchecov a Máximo Gorki: "Você é um indivíduo jovem, vigoroso, rijo; em seu lugar eu estaria viajando para a Índia".)

Tendo estudado meus pais de perto até o final da adolescência, e pensado ou sonhado com eles na maioria dos dias desde então, boa parte do que "sei" deve ser suposição e fantasia. Desconfio que não poderia ser de outra maneira. Portanto, esta minha forma livre de trabalhar provavelmente está mais próxima da ficção do que eu gostaria. Mas nesta busca, espero, chegarei mais longe.

Tiro finalmente as folhas soltas datilografadas da pasta, deito no sofá do escritório, deposito a xícara de chá onde a posso alcançar, e leio o livro inteiro, superficial e rapidamente. Não me atenho aos detalhes de grande parte do romance. Mas percebo que é sobre meu pai, os pais dele e pelo menos um de seus irmãos. Passa-se em Poona e Bombaim, quase no final da era colonialista inglesa. Estamos "viajando para a Índia".

Ando pela sala, excitado. Encontrar o livro foi como achar uma caixa de fotos esquecidas que precisam ser inspecionadas uma a uma, detalhadamente. Contudo, as pessoas nas fotos permanecem em silêncio, o contexto e os sentimentos só podem ser suposições. No ensaio "Something given", publicado em Dreaming and scheming, comecei a escrever sobre meu pai, fora da ficção, pela primeira vez, tentando pensar em como ele gostaria de ser conhecido como escritor, e no que isso significava para nossa família. Mas não tinha acesso objetivo ao passado, como agora. Imagino que haja, aqui - quando parece que abro uma porta para o passado preservado em palavras -, uma pista ou chave para a vida de meu pai, para o modo como ele convivia com minha mãe, para minha educação e para um contexto político e relações coloniais. Papai fala comigo novamente, e não apenas dentro de minha cabeça.

Levei um dia para ler direito o livro. Depois de terminar a leitura, fico chocado com tudo que ele parece me dizer, e com tudo que terei de encarar agora que entrei em seu labirinto. Serei diferente, ao sair? Mais importante, será meu pai diferente?


 
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