Os
Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister,
de Johann Wolfgang von Goethe (tradução de Nicolino Simone Neto;
Editora 34; 608 páginas; 64 reais) Figura maior da literatura alemã,
Goethe (1749-1832) foi um escritor polivalente, que exerceu seu gênio na
poesia, no ensaio, na filosofia e no teatro. Publicado entre 1795 e 1796, Wilhelm
Meister um clássico há muito tempo ausente das livrarias
brasileiras fundou o gênero do "romance de formação",
o livro que acompanha o amadurecimento do protagonista. Filho de um casal burguês,
Wilhelm recusa a carreira comercial planejada por seus pais para se juntar a uma
trupe de atores de teatro. O livro teve grande influência até mesmo
sobre escritores modernos, como o alemão Thomas Mann e o irlandês
James Joyce.
Leia trecho Capítulo
1 O
espetáculo durava muito tempo. De quando em quando a velha Barbara assomava à
janela e punha-se a ouvir o tilintar dos coches. Esperava por Mariane, sua bela
senhora, que, em trajes masculinos de jovem oficial, encantava o público no espetáculo
final daquela noite; a impaciência de Barbara era maior que de costume, quando
não tinha para lhe servir senão uma ceia frugal, pois desta vez ela se surpreenderia
com um pacote que Norberg, jovem e rico negociante, lhe enviara pelo correio como
prova de que, mesmo a distância, não esquecia sua amada. Na
qualidade de velha criada, confidente, conselheira, intermediária e governanta,
Barbara adquirira o direito de romper os lacres das correspondências, e aquela
noite ela pôde resistir tanto menos à curiosidade quanto estava mais preocupada
que a própria Mariane com os favores do amante generoso. Com que alegria descobrira
no pacote uma fina peça de musselina e as mais modernas fitas para Mariane e,
para ela, um corte de chita, lenços de pescoço e um pequeno rolo de dinheiro!
Com que simpatia e com que gratidão recordou-se do ausente Norberg! Com que presteza
decidiu-se a falar a Mariane o melhor possível a seu favor, recordá-la do quanto
ela lhe devia e o que ele poderia esperar e aguardar de sua fidelidade. A
musselina, realçada pelas cores das fitas não de todo enoveladas, estava disposta
sobre a mesinha como uma prenda de Natal; a posição das luzes acentuava o brilho
do presente; estava tudo em ordem, quando, ouvindo os passos de Mariane na escada,
a anciã correu a seu encontro. Recuou porém surpreendida, pois a jovem oficial,
sem dar atenção a suas amabilidades, passou por ela aos empurrões, entrou no quarto
com uma pressa e agitação incomuns, atirou sobre a mesa o chapéu de plumas e a
espada, pôs-se a subir e a descer com impaciência pela casa e nem se dignou dirigir
o olhar para as luzes que queimavam solenes. —
Que tens, minha querida? — perguntou, atônita, a anciã. — Por Deus, filhinha,
que acontece? Olha só para esses presentes! De quem poderiam ser senão de teu
mais carinhoso amigo? Norberg te enviou um corte de musselina para um vestido
de noite; logo logo ele estará aqui em pessoa; parece-me mais solícito e generoso
que nunca. A
anciã se virou, na tentativa de lhe mostrar as lembranças, a ela também destinadas,
quando Mariane, afastando-se dos presentes, exclamou num ímpeto: —
Fora! Fora! Não quero ouvir nada disso hoje; já escutei o que querias, e pronto!
Se Norberg voltar, serei dele novamente; tua eu sou e faz de mim o que queres;
mas até lá quero pertencer a mim mesma, e, ainda que tivesses mil línguas, não
conseguirias demover-me de meu propósito! Todo o meu eu quero dar a quem me ama
e a quem amo. E nada de esgares! Quero abandonar-me a esta paixão como se pudesse
durar eternamente. À
anciã não faltaram objeções e bons motivos; mas como a discussão entre as duas
começava a se tornar amarga e violenta, Mariane saltou a seu encontro e segurou-a
pelos ombros. A anciã soltou uma gargalhada. —
Cuidarei — exclamou ela — para que voltes a vestir tuas roupas femininas, se pretendo
manter minha vida em segurança. Anda, despe-te! Espero que a menina me peça desculpas
pelo mal que me causou o fugidio fidalgote. Tira o jaleco, anda, e todo o resto!
Este é um uniforme incômodo e perigoso para ti, como pude perceber. As dragonas
te dão arroubos! A
anciã pusera as mãos sobre ela, mas Mariane se esquivou. —
Não tão depressa! — exclamou. — Ainda espero visita esta noite. —
Isso não é nada bom — replicou a anciã. — Seria, por acaso, o meigo e imberbe
filho do comerciante? —
Ele mesmo! — respondeu Mariane. —
Parece que a generosidade passou a ser tua paixão dominante — respondeu, zombeteira,
a anciã —, tamanho o fervor que dedicas ao menor desprovido. Suponho que seja
encantador ser adorada como uma benfeitora desprendida. —
Zomba o quanto quiseres. Eu o amo! amo! Com que prazer pronuncio pela primeira
vez estas palavras! Esta é a paixão que tantas vezes representei e da qual não
tinha a menor idéia. Sim, quero lançar-me a seu colo! Quero abraçá-lo, como se
fosse mantê-lo preso para sempre. Quero demonstrar-lhe meu amor por inteiro e
poder gozar o seu em toda plenitude. —
Modera-te! — disse a anciã, impassível. — Modera-te! Pois hei de pôr fim à tua
euforia com quatro palavras: “Norberg está para chegar!”. Dentro de quatorze dias
estará de volta. Eis a carta que veio com os presentes. —
E quando o sol da manhã quiser arrebatar-me o amado, saberei esconder-me. Quatorze
dias! Uma eternidade! Quantas coisas não podem ocorrer em quatorze dias, quantas
coisas não podem mudar? Wilhelm
entrou. Com que impetuosidade voou ela a seu encontro! Com que arroubo abraçou
ele aquele uniforme vermelho, estreitando contra o peito o delicado colete de
cetim branco! Quem se atreveria aqui a descrever, a quem caberia expressar a felicidade
dos dois enamorados! A anciã afastou-se, resmungando, e com ela afastamo-nos nós
também, deixando a sós o casal de venturosos. |