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Nove Noites, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras; 176 páginas; 28 reais) – O carioca Bernardo Carvalho, de 42 anos, vem-se mostrando um dos mais consistentes entre os novos autores brasileiros. Seus textos quase sempre lidam com enigmas, identidades falsas ou histórias cuja verdade é difícil estabelecer. Em seu sexto romance, ele conta a história real de Buell Quain, jovem antropólogo americano que se suicidou no Amazonas em 1939. As pesquisas de Carvalho sobre as razões do suicídio incluíram contatos com a tribo dos craôs, no Tocantins, e consultas de arquivos nos Estados Unidos. O narrador do livro refaz em boa parte esse trajeto de investigação – mas é guiado por obsessões que só são reveladas no final e têm a ver com seu próprio passado.

Leia trechos do livro

2. Ninguém nunca me perguntou. E por isso também nunca precisei responder. Não posso dizer que nunca tivesse ouvido falar nele, mas a verdade é que não fazia a nienor idéia de quem ele era até ler o nome de Buell Quain pela primeira vez num artigo de jornal, na manhã de 12 de maio de 200 1, um sábado, quase sessenta e dois anos depois da sua morte às vésperas da Segunda Guerra. O artigo saiu meses antes de outra guerra ser deflagrada. Hoje as guerras parecem mais pontuais, quando no fundo são permanentes. Li várias vezes o mesmo parágrafo e repeti o nome em voz alta para me certificar de que não estava sonhando, até entender - ou confirmar, ia não sei - que o tinha ouvido antes. O artigo tratava das cartas de outro antropólogo, que também havia morrido entre os índios do Brasil, em circunstâncias ainda hoje debatidas pela academia, e citava de passagem, em uma única frase, por analogia, 0 caso de Bitell Onain, que se suicidou entre os índios krahö em agosto de 1939.

Procurei à antropóloga que havia escrito o artigo. A princípio, foi seca no telefone. Deve ter achado estranho que alguém lhe telefonasse por causa de um detalhe do texto, mas não disse nada. Trocamos alguns e-mails, que serviram como uma aproximação gradual. Preferia não me encontrar pessoalmente. Queria ter certeza de que os meus objetivos não eram acadêmicos. Mas mesmo se ele de início chegou a desconfiar do meu interesse por aquele homem, não perguntou as minhas verdadeiras intemções. Ou, pelo menos, não insistiu em saber as minhas razões. Supôs que eu quisesse escrever um romance, que meu interesse fosse literário, e eu não a contrariei. A história era realmente incrível. Aos poucos, conforme me embrenhava naquele caso com as minhas perguntas, passou a achar natural a curiosidade que eu demonstrava pelo etnólogo suicida. Talvez por discrição e por sentir que, de alguma forma e por uma experiência que ela não teria podido conceber, eu também havia intuído naquele caso algo que mais tarde ela própria me revelaria ter suspeitado desde sempre, quando por fim nos encontramos e ela me fez a pergunta. Foi ela quem me indicou as primeiras pistas.

Os papéis estão espalhados em arquivos no Brasil e nos Estados Unidos. Fiz algumas viagens, alguns contatos, e aos poucos fui montando um quebra-cabeça e criando a imagem de quem eu procurava. Muita gente me ajudou. Nada dependeu de mim, mas de tinha combinação de acasos e esforços que teve início no dia em que li, para o meu espanto, o artigo da antropóloga no jornal e, ao pronunciar aquele nome em voz alta, ouvi-o pela primeira vez na minha própria voz.


 
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