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livros

Windows on the World, de Frédéric Beigbeder (tradução de André Telles; Record; 352 páginas; 39,90 reais) – Em abril passado, esse romance ganhou o prêmio de ficção estrangeira concedido pelo jornal inglês The Independent. A distinção é merecida: trata-se da primeira obra de ficção séria a lidar com o horror dos atentados de 11 de setembro – e o faz de forma ousada. O romance acompanha as últimas horas de um corretor de imóveis que toma seu café-da-manhã no restaurante do World Trade Center, no dia do atentado que derrubará as torres. Beigbeder é, ao lado de Michel Houellebecq, um provocador da literatura francesa contemporânea: em Windows on the World, ele ataca o antiamericanismo francês e exalta a vitalidade da cultura pop dos Estados Unidos.

Leia trecho

8h30

Vocês conhecem o final: morre todo mundo. Claro, a morte acontece a um bocado de gente, cedo ou tarde. A originalidade desta história é que todos vão morrer ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Será que a morte cria laços entre os homens? Ninguém diria isso: eles não se falam. Estão de cara amarrada, como todos os que se levantaram cedo demais e mastigam seu café da manhã em uma cafeteria de luxo. De vez em quando, alguns tiram fotos da vista, que é a mais bela do mundo. Atrás dos prédios quadrados, o mar é redondo, e nele os rastros dos barcos desenham formas geométricas. Nem sequer as gaivotas chegam assim tão alto. A maioria dos fregueses do Windows on the World não se conhece entre si. Quando seus olhares se cruzam por descuido, eles pigarreiam e logo voltam a mergulhar nos jornais. No início de setembro, bem cedinho, estão todos de mau humor: as férias terminaram, é preciso resistir até o Dia de Ação de Graças. O céu está azul, mas ninguém aproveita.

Daqui a um instante, no Windows on the World, uma roliça porto-riquenha vai começar a gritar. Um executi-vo de terno e gravata ficará boquiaberto. "Oh my God!" Dois colegas de escritório emudecerão de assombro. Um ruivo irá vociferar um "Holy shit!" A garçonete continuará a servir seu chá até a xícara transbordar. Há segundos que duram mais tempo que outros. Como se tivéssemos acabado de apertar a tecla "Pause" de um aparelho de DVD. Daqui a um instante, o tempo se tornará elástico. Todas essas pessoas finalmente irão se conhecer. Daqui a um instante, serão todos cavaleiros do Apocalipse, todos unidos no Fim do Mundo.

 

8h31

Naquela manhã estávamos no topo do World, e eu era o centro do universo.

São oito e meia da manhã. Sei que é um pouco cedo para levar os meninos ao topo de um edifício. Mas meus filhos queriam muito tomar o café da manhã aqui, e não sei lhes recusar nada: sinto-me culpado por ter largado a mãe deles. A vantagem de levantarmos cedo é que evitamos as filas. No andar térreo, desde o atentado de 1993, eles triplicaram os controles de identidade, sendo preciso passes especiais para se ir para o batente; os guardas não brincam em serviço quando vistoriam sua bolsa. Até a fivela do cinto de Jerry com a efígie de Harry Potter fez soar o alarme do detector de metais. No átrio high-tech, os chafarizes gargarejam discretamente. O breakfast está reservado; ao chegar disse meu nome no desk do Windows on the World. "Good morning, my name is Carthew Yorston." Logo depois penetramos na atmosfera: tapete vermelho, cordão de veludo trançado, elevador privativo. Nesse hall de estação ferroviária (trinta metros de pé-direito), a mesa de atendimento do restaurante é como um guichê de primeira classe. Excelente idéia ter se adiantado ao rush. Há menos espera para se observar nos telescópios (por 25 cents, pode-se apreciar a chegada das secretárias em todos os prédios em volta, grudadas em seus celulares, apertadas em saias-calça cinza-claras, permanente nos cabelos, de tênis, com seus escarpins escondidos em suas falsas bolsas Prada). É a primeira vez que subo ao topo do World Trade Center: meus dois filhos adoraram os velozes elevadores que sobem os 78 primeiros andares em 43 segundos. A velocidade é tal que sentimos o coração sacolejar dentro da caixa torácica. Eles não queriam mais sair do Skylobby. Depois de quatro subidas e descidas, fui obrigado a me zangar:

— Vamos, chega! São elevadores para as pessoas que trabalham, não está escrito Space Mountain!

Uma recepcionista do restaurante, identificável por um pin preso na gola, nos acompanhou até o outro elevador, o foguete que chega ao 107º andar. Nossa programação para o dia está carregada: breakfast no Windows on the World, depois passeio em Battery Park a fim de pegar o Staten Island Ferry (grátis!) para a estátua da Liberdade, em seguida visita ao Píer 17, umas comprinhas em South Street Seaport, fotos diante da ponte do Brooklyn, uma volta pelo mercado de peixes para sentir o aroma e, finalmente, um hambúrguer sangrento no Bridge Café. Os meninos adoram bifes grossos e suculentos de carne moída encharcados de ketchup. E as Large Coke cheias de gelo picado, contanto que não sejam Diet. Os filhos só pensam em encher a barriga, os pais só em trepar. Sob esse aspecto, tudo bem, obrigado: pouco tempo depois do meu divórcio, conheci Candace, que trabalha na Elite New York. Se vissem o book dela... Ao lado dela, Kylie Minogue parece uma velha. Ela vem todas as noites montar ofegante em cima de mim no Algonquin (ela prefere o Royalton de Philippe Starck, que fica na mesma rua) (isso porque ela não conhece Dorothy Parker) (quem sabe não mostro a ela o Vida a dois para que desista dessa história de casal).

Daqui a duas horas estarei morto, mas quem sabe já não esteja?


 
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