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Diálogos Borges/Sabato (tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro; Globo; 176 páginas; 32 reais) – Borges (1899-1986) e Sabato, de 93 anos, são dois gigantes da literatura argentina no século XX. O primeiro produziu obras célebres como o volume de contos O Aleph e o segundo, uma poderosa trilogia de romances – O Túnel, Sobre Heróis e Tumbas e Abaddon, o Exterminador. Os dois, porém, sempre tiveram pouco em comum: Borges era um empedernido conservador, e Sabato se declara um anarquista. É por isso que esse diálogo, registrado entre 1974 e 1975, é tão precioso: trata-se de um elegante embate entre duas inteligências muito distintas. Há achados magníficos, como a idéia de Borges de que a obra teológica de Santo Tomás de Aquino deveria ser considerada um exercício de literatura fantástica.

Leia trecho

Barone: Pensa-se que a diferença entre o romance e o conto é a que existe entre uma obsessão de fôlego e outra fugaz.

Borges: É verdade, o conto é um sonho breve, uma curta alucinação.

Sabato: Acho que o conto e o romance são ambos complexos e difíceis, mas de modo diferente. O conto tem que dar em poucas palavras uma idéia total e poética, exige um maior poder de co-centração e uma total perfeição.

Borges: O senhor quer dizer maior densidade no conto?

Sabato: Sim. Em compensação, o romance é como um continente. É preciso, de repente, cruzar pântanos ou vastos lamaçais, ou percorrer longos cam-nhos com poeira e barro para chegar a um lugar encantador. Acho que o Borges falou alguma vez que esses caminhos áridos o entediam, e que inclusive devem ser o mesmo para o leitor. Mas se o -senhor quer encontrar um tesouro em Mato Grosso, é preciso enfrentar muitas contingências.

Borges: Por isso um escritor deve se sentir satisfeito quando conclui um romance. Em compensação, um conto, quando a gente ter-mi-na, não sabe se valeu a pena escrevê-lo.

Sabato: Mas, Borges, em um romance é a mesma coisa. Ou pior: imagine o que acontece se -depois de escrever quinhentas páginas sente-se que não é o que se queria dizer...

Borges: O conto pode ser julgado de uma sentada, como queria Poe. O romance exige tempo. Poe dizia também que não existem poemas longos, que um poema longo é uma sucessão de poemas curtos e que isso produz uma unidade de impressão. Ele acreditava que o poema podia acontecer em cem -linhas, e que, ao prolongar-se, -diluía-se, e ao serem retiradas linhas, perdia-se intensidade. Em resumo, um cálculo arbitrário.

Sabato: Bastante arbitrário. Além disso, seria preciso examinar o que Poe entende por poema. Essas divisões são bastante bizantinas. O que é a Divina comédia? E a Ilíada? São romances e poemas.

Borges: São romances com profundos momentos poéticos.


 
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