Istambul,
de Ohran Pamuk (tradução de Sergio Flaksman; Companhia das Letras;
408 páginas; 48 reais) Neve, o romance do turco Ohran Pamuk
que mais sucesso encontrou no Brasil, tem lugar na pequena Kars, no interior da
Turquia. O cenário principal da ficção de Pamuk, porém,
é Istambul, a antiga capital do Império Otomano, onde o autor nasceu
em 1952. Ilustrado com muitas fotos de época, Istambul é
um ensaio autobiográfico sobre essa cidade dividida entre a memória
da suntuosidade e a ânsia de imitar os padrões europeus que grassou,
ao longo do século XX, na Turquia secular do líder Ataturk. Com
um toque melancólico, Pamuk revisita sua infância e juventude
a época em que o Nobel de Literatura de 2006 ainda pensava em se tornar
pintor.
Leia
trecho 1.
O outro Orhan Desde
uma idade muito tenra desconfiei que havia mais coisas no meu mundo, para além
do que eu enxergava: em algum lugar das ruas de Istambul, numa casa parecida com
a nossa, vivia outro Orhan tão parecido comigo que poderia passar por meu
irmão gêmeo, até mesmo por um duplo meu. Não lembro
de onde tirei essa idéia ou como ela me ocorreu. Deve ter emergido a partir
de uma teia de rumores, mal-entendidos, ilusões e medos. Mas numa das minhas
memórias mais antigas, já era claro o que eu sentia em torno do
meu outro fantasmagórico. Aos
cinco anos, tive de morar por um curto período em outra casa. Depois de
uma de suas muitas separações tempestuosas, meus pais combinaram
um encontro em Paris, e resolveram que o meu irmão mais velho e eu ficaríamos
em Istambul, mas em casas separadas. Meu irmão ficaria no núcleo
familiar com a nossa avó, no Edifício Pamuk, em Nisantası,
e eu seria mandado para a casa da minha tia, em Cihangir. Pendurado na parede
dessa casa - onde eu era tratado com a mais extrema delicadeza - havia um quadro
representando uma criança pequena, e a toda hora a minha tia ou o meu tio
apontavam para ele e diziam, sorrindo, "Veja! É você!". É
bem verdade que aquele menino dócil de olhos de corça dentro da
moldura branca parecia um pouco comigo. Até usava o mesmo boné que
eu às vezes usava. Eu sabia que eu não era o menino do retrato (uma
representação kitsch de um "menino bonitinho" que
alguém trouxera da Europa). Mas ainda assim ficava me perguntando se não
seria aquele o Orhan que morava naquela outra casa. Claro,
agora também eu estava morando numa outra casa. Era como se eu tivesse
precisado me mudar para cá para poder encontrar meu gêmeo, mas como
tudo que eu queria era voltar para minha casa de verdade, não tive o menor
prazer em ser-lhe apresentado. A brincadeira jovial da minha tia e do meu tio,
dizendo-me que era eu o menino no retrato, acabou se transformando numa implicância
involuntariamente irritante, e a cada vez eu sentia meu espírito se desatar
em idéias sobre mim mesmo e aquele menino parecido comigo, sobre o meu
retrato e o retrato com que eu me parecia, sobre a minha casa e a outra casa -
e tudo isso passava de cambulhada, numa confusão que me deixava ainda mais
ansioso por estar logo de volta à minha casa, cercado pela minha família. Não
demorou muito para o meu desejo se realizar. Mas o fantasma do outro Orhan numa
outra casa em alguma parte de Istambul nunca mais me deixou. Por toda a minha
infância e na maior parte da minha adolescência, ele assombrou meus
pensamentos. Nas noites de inverno, caminhando pelas ruas da cidade, eu espiava
para dentro das casas iluminadas pela clara luz alaranjada do lar e sonhava com
famílias felizes e pacíficas levando vidas confortáveis.
Depois estremecia, quando pensava que o outro Orhan podia estar vivendo numa dessas
casas. À medida que fui envelhecendo, esse fantasma se transformou numa
fantasia e a fantasia num pesadelo recorrente. Em alguns sonhos, eu recebia a
aparição desse Orhan - sempre numa outra casa - com gritos de horror;
noutros, nós dois nos encarávamos num silêncio lúgubre
e impiedoso. Depois disso, enquanto saía e voltava a entrar no sono, eu
me agarrava com mais força ainda ao meu travesseiro, à minha casa,
à minha rua, ao meu lugar no mundo. Sempre que eu me sentia infeliz, imaginava
ir até a outra casa, até a outra vida, ao lugar onde o outro Orhan
vivia, e apesar de tudo quase conseguia me convencer de que eu era ele e sentia
prazer em imaginar quão feliz ele era, um prazer tamanho que, por algum
tempo, não sentia mais a necessidade de sair à procura daquela outra
casa numa outra parte imaginária da cidade. E
aqui chegamos ao cerne da questão: nunca deixei Istambul, nunca deixei
as casas, as ruas e os bairros da minha infância. Embora tenha vivido em
áreas diferentes de tempos em tempos, cinqüenta anos depois vejo-me
de volta ao mesmo Edifício Pamuk onde as minhas primeiras fotografias foram
tiradas e onde a minha mãe me pegou pela primeira vez no colo para mostrar-me
o mundo. Sei que essa persistência deve alguma coisa ao meu amigo imaginário,
o outro Orhan, e ao consolo que eu encontrava no laço que nos unia. Mas
vivemos numa era definida pela migração em massa e por imigrantes
criativos, de maneira que muitas vezes me vejo levado a explicar por que fiquei
não só no mesmo lugar mas no mesmo edifício. E ouço
novamente a voz sofrida da minha mãe: "Por que você não
sai um pouco? Por que não experimenta mudar de ares, viajar...?". Conrad,
Nabokov, Naipaul - eis três escritores conhecidos por terem conseguido migrar
entre línguas, culturas, países, continentes, até mesmo civilizações.
Suas imaginações se alimentavam do exílio, um alimento que
tragavam não através das raízes, mas da falta delas. Minha
imaginação, porém, exige que eu permaneça na mesma
cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando o mesmo panorama. O destino
de Istambul é o meu destino. Estou ligado a esta cidade porque foi ela
quem fez de mim quem eu sou. Gustave
Flaubert, que esteve em Istambul 102 anos antes do meu nascimento, ficou impressionado
com a variedade da vida de suas ruas fervilhantes; numa de suas cartas, profetizava
que dali a um século a cidade seria a capital do mundo. E aconteceu o inverso:
depois do colapso do Império Otomano, o mundo quase chegou a esquecer-se
da existência de Istambul. A cidade em que eu nasci era mais pobre, mais
acanhada e mais isolada do que jamais tinha sido nos dois mil anos da sua história.
Para mim, ela sempre foi uma cidade dominada pelas ruínas e pela melancolia
de fim de império. Passei a minha vida inteira debatendo-me com essa melancolia
ou (como todos os Istanbullus) apossando-me dela. Pelo
menos uma vez na vida, a reflexão sobre nós mesmos nos leva a examinar
as circunstâncias do nosso nascimento. Por que teremos nascido nesse canto
do mundo em particular, nessa data em particular? As famílias em que nascemos,
os países e as cidades a que a loteria da vida nos destina - devemos supostamente
amá-los, e no fim das contas de fato os amamos do fundo do coração,
mas será que não merecíamos melhor sorte? Às vezes
me considero desafortunado por ter nascido numa cidade velha e empobrecida, sepultada
sob as cinzas de um império arruinado. Mas uma voz dentro de mim insiste
em dizer que, na verdade, essa foi a minha sorte. Em matéria de riqueza,
posso certamente me incluir entre os afortunados por ter nascido numa família
próspera num momento em que a cidade se encontrava no ponto mais baixo
da sua história (embora alguns afirmem o oposto com pertinência).
No geral, não tendo a me queixar; aceito a cidade em que nasci da mesma
forma como aceito o meu corpo (por mais que eu preferisse ser mais bonito e ter
uma constituição melhor) e o meu gênero (muito embora eu ainda
me pergunte, ingenuamente, se me teria saído melhor caso tivesse nascido
mulher). Esse é o meu destino, e não faz sentido discutir com ele.
Este livro diz respeito ao destino. Nasci
no meio da noite de 7 de junho de 1952, num pequeno hospital particular de Moda.
Naquela noite, pelo que me contaram, seus corredores estavam tranqüilos,
bem como o resto do mundo. Além do fato de o vulcão Strambolini
ter repentinamente começado a cuspir chamas e cinzas dois dias antes, era
relativamente pouco o que parecia acontecer no nosso planeta. Os jornais estavam
cheios de notícias desimportantes: algumas informações sobre
os soldados turcos que lutavam na Coréia; alguns rumores espalhados pelos
americanos, espicaçando o medo de que os norte-coreanos pudessem estar
na iminência de usar armas biológicas. Nas horas anteriores ao meu
nascimento, a minha mãe vinha acompanhando com avidez uma história
do noticiário local: dois dias antes, os zeladores e os "heróicos"
residentes do Centro Estudantil de Konya tinham visto um homem trajando uma máscara
aterrorizante invadir uma casa em Langa pela janela do banheiro; perseguiram-no
pelas ruas até uma serraria, onde, após amaldiçoar a polícia,
o empedernido criminoso se suicidara; um vendedor de armazém identificara
o corpo como o de um gângster que, no ano anterior, entrara em sua loja
em plena luz do dia e o assaltara à mão armada. Enquanto
acompanhava pelo jornal os últimos desdobramentos desse drama, minha mãe
estava sozinha em seu quarto, ou pelo menos foi o que me contou com uma mistura
de remorso e ressentimento muitos anos depois. Depois de levá-la para o
hospital, meu pai tinha ficado inquieto e, visto que o trabalho de parto da minha
mãe não avançava, saíra para encontrar alguns amigos.
A única pessoa ao lado dela na sala de parto era minha tia, que conseguira
pular o muro do hospital no meio da noite. Quando minha mãe pôs os
olhos em mim pela primeira vez, achou que eu era mais magro e frágil do
que o meu irmão tinha sido. Sinto-me
compelido a acrescentar ou pelo menos foi o que me disseram. Em turco,
temos um tempo verbal específico que nos permite distinguir o que ouvimos
dizer daquilo que vimos com os próprios olhos; quando relatamos sonhos,
contos de fadas ou fatos do passado que não podemos ter testemunhado, é
esse o tempo que usamos. É uma distinção muito útil
quando "rememoramos" as nossas primeiras experiências de vida,
o berço em que dormíamos, o carrinho de bebê em que éramos
empurrados, nossos primeiros passos, tudo da maneira como nos foi contado pelos
pais, histórias que ouvimos com a mesma atenção arrebatada
que poderíamos dar a algum relato brilhante de outra pessoa. É uma
sensação tão agradável quanto a de nos ver a nós
mesmos em sonho, mas pagamos por ela um preço elevado. Depois que se gravam
em nossos espíritos, os relatos alheios sobre o que fizemos passam a contar
mais do que as coisas de que nós mesmos nos lembramos. E da mesma forma
que ficamos sabendo das nossas vidas por intermédio de outros, também
deixamos que os outros acabem dando forma à nossa compreensão da
cidade em que vivemos. Sempre
que aceito como minhas as histórias que ouvi a vida toda sobre a minha
cidade e sobre mim mesmo, sou tentado a dizer, "Era uma vez um tempo em que
eu pintava. Ouvi dizer que nasci em Istambul, e sei que fui uma criança
um tanto curiosa. E então, quando cheguei aos vinte e dois anos, parece
que comecei a escrever romances sem saber por quê". Eu gostaria muito
de escrever assim toda a história da minha vida - como se a minha vida
tivesse acontecido a uma outra pessoa, como se fosse um sonho em que eu sentisse
a minha voz sumir e a minha vontade sucumbir ao encantamento. Por mais que a considere
linda, acho a linguagem da epopéia inconvincente, pois não consigo
aceitar que os mitos que contamos acerca do começo de nossas vidas nos
preparem para as segundas vidas mais autênticas e brilhantes a que precisamos
dar início assim que despertamos. Porque - pelo menos para pessoas como
eu - essa segunda vida é nada menos do que o livro em suas mãos.
Por isso, preste muita atenção, caro leitor. Vou lhe falar com franqueza,
e em troca quero pedir a sua compaixão. |