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Tempos
de Guerra, de Steven Pressfield (tradução
de Manoel Paulo Ferreira; Objetiva; 454 páginas; 63,90 reais)
Em Portões de Fogo, seu livro de maior sucesso,
o americano Steven Pressfield conjugou qualidades raras num autor
de ficção histórica. Ele recria a batalha de
Termópilas, conflito entre os gregos e os persas ocorrido
em 480 a.C., com uma narrativa de ritmo eletrizante e calcada numa
pesquisa histórica criteriosa. Nesse seu novo romance, não
é diferente. Pressfield fala sobre a Guerra do Peloponeso,
que opôs os exércitos das cidades-Estado gregas de
Atenas e Esparta no século V a.C. A trama focaliza um personagem
em especial: o general ateniense Alcibíades, figura-chave
no episódio.
Leia
trecho do livro
"A
memória é uma deusa estranha, cujos dons se metamorfoseiam
com o passar dos anos", comentou meu avô, numa dessas
tardes. "Não conseguimos trazer a mente o que aconteceu
há uma hora atrás, mas lembramos de eventos ocorridos
há 70 anos, como se estivessem se desdobrando aqui e agora."
Eu
lhe fazia perguntas, receio que freqüentemente implacáveis,
sobre essas suas antigas recordações (...) Certa vez
perguntei-lhe que homens ele considerava os mais excepcionais dentre
todos os que conhecera.
"O
mais nobre", respondeu sem hesitar, "Sócrates.
O mais ousado e brilhante, Alcibíades. O mais corajoso, Trasíbulo,
o Generoso. O mais cruel, Anito."
O
impulso me levou a uma pergunta correlata: "Há algum
cuja recordação seja mais profunda? Um a quem os seus
pensamentos retornem?".
A
isso, meu avô fez uma pausa. Que estranho que eu perguntasse
isso, replicou afinal, pois havia, sim, um homem que, por alguma
razão que ele ignorava, vinha-lhe muito à memória
ultimamente. Esse indivíduo, declarou meu avô, não
pertencia às fileiras dos célebres ou renomados; não
era almirante nem arconte; e seu nome não seria encontrado
nos arquivos, a não ser como uma sombria nota de rodapé.
(...)
Na mesma hora fiquei intrigado e insisti por detalhes. Meu avô
sorriu e disse que isso poderia levar muitas horas, pois os acontecimentos
da vida do homem tinham ocorrido ao longo de décadas, na
maior parte do mundo conhecido, em terra em mar. Essa perspectiva,
longe de me desencorajar, deixou-me ainda mais ávido por
ouvir. Por favor, implorei; o dia já vai avançado,
mas vamos pelo menos começar.
Ele
sorriu. Vamos começar, então, disse, e ver até
onde o relato nos leva.
"Naqueles
dias", iniciou meu avô, "ainda não surgira
a classe de retóricos profissionais e especialistas em assuntos
dos tribunais. Um homem, quando se encontrava em julgamento, falava
em sua própria defesa. Mas, caso desejasse, podia nomear
um associado para ajudá-lo a preparar seu processo.
"Numa
carta enviada da prisão, esse homem solicitou a mim. Foi
estranho, pois eu não tinha nenhuma relação
pessoal com ele. Tínhamos servido simultaneamente em várias
guerras e ocupado posições de responsabilidade junto
com o jovem Péricles, filho do grande Péricles e de
Aspásia, a quem nós dois tínhamos os privilégio
de chamar de amigos. Naqueles dias, porém, isso estava longe
de ser incomum e não podia de maneira alguma ser interpretado
como um vínculo. Além do mais, esse indivíduo
tinha má reputação, para dizer o mínimo.
Embora fosse um oficial de coragem reconhecida, que prestara um
longo e distinto serviço ao Estado, entrara em Atenas, na
hora em que esta capitulara, não só sob a bandeira
do inimigo espartano como também envergando seu manto escarlate.
Eu acreditava, e disse isso a ele, que o culpado de tal infâmia
devia sofrer a pena suprema, e não poderia contribuir de
maneira alguma para absolvição de um criminoso assim.
"No
entanto o homem insistiu. Visitei-o em sua cela e ouvi a sua história.
Na época, Sócrates fora julgado e condenado à
morte, e aguardava a execução dentro das muralhas
da mesma prisão. Era da assistência dele que eu devia
cuidar acima de tudo, para não mencionar os negócios
de minha família. Ainda assim concordei em ajudar o homem
a preparar sua defesa. Fiz isso não por acreditar que ele
pudesse ou merecesse ser absolvido ele mesmo admitiu prontamente
a própria culpa , mas porque achei que sua história
devia ser divulgada, ainda que apenas perante um júri, e
erguida como um espelho diante da democracia que, ao condenar o
mais nobre cidadão que já produzira, meu mestre Sócrates,
havia demonstrado tamanha crueldade que coroara e consumara sua
própria imolação."
Meu
avô fez silêncio por um longo momento. Dava para ver
seus olhos voltando-se para dentro e seu coração invocando
a recordação daquele indivíduo e do espírito
e da mentalidade daquela época.
"Como
se chamava o homem, avô?"
"Polemides,
filho de Nicolau."
Lembrava-me
vagamente do nome, mas não consegui situá-lo.
"Foi
o homem", esclareceu meu avô, "que assassinou Alcibíades."
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