Quarteto
(Objetiva; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman; 72 páginas;
23,90 reais) e A Rosa de Alexandria (tradução de Rosa
Freire d'Aguiar; Companhia das Letras; 320 páginas; 37 reais), de Manuel
Vázquez Montalbán Morto em 2003, o poeta, romancista e roteirista
catalão Manuel Vázquez Montalbán foi um dos escritores mais
renomados e produtivos da literatura espanhola. Estão chegando
às livrarias dois policiais do autor, que era hábil no gênero.
Quarteto é uma história de assassinato que envolve, na verdade,
um quinteto: dois casais e um amigo. A Rosa de Alexandria é um dos
melhores livros da série estrelada por Pepe Carvalho, um detetive de Barcelona.
Ele investiga a morte de uma mulher cujo corpo é encontrado barbaramente
mutilado num terreno baldio. Leia
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trecho de A Rosa de Alexandria Leia
trecho de Quarteto Eu
não sou quem pareço ser. Não sei por que, desde pequeno,
desde que comecei o segundo grau, repito frases urdidas em torno do verbo ser,
à maneira de exemplos gramaticais que ainda guardo na memória: Eu
sou o que sou... os poucos sábios que no mundo foram... Eu não sou
o que aparento ser, repito uma e outra vez, em voz alta na frente do espelho do
banheiro, em surdina quando não estou sozinho e preciso da companhia fundamental
da minha frase predileta, e mentalmente quando até o sotto voce
surpreenderia a disposição alerta e agressiva que os outros têm
em relação a nós. As poucas pessoas que me conhecem bem,
e que ninguém me obrigue a recenseá-las porque talvez, diante da
pobreza do censo, eu não pudesse dar nenhum nome, mas, enfim, as poucas
pessoas que potencialmente me conheceriam bem sabem que eu as surpreendo vez por
outra com algumas exclamações fixas que são como o refrão
do meu subconsciente. Por
exemplo: Eu
não sou quem pareço ser. Ou
então: E
o que dizer da inabalável luta dos comunistas argelinos? Certa
vez cheguei à conclusão, depois de um esforço de investigação
introspectiva, de que devo ter gravado ambas as frases no meu subconsciente no
começo dos anos sessenta, em decorrência das leituras de Stiller
de Max Frisch e de La Question de Henri Alleg. O primeiro livro, um romance, tinha
relação com o problema da personalidade e se eu quisesse ser pedante
e lembrar da minha primeira vocação, diria que nesse romance há
um eco das teses kierkegaardianas, eco por outro lado muito presente nos literatos
do comportamento como Unamuno ou Pirandello. O segundo era o relato testemunhal
de Henri Alleg, jornalista de Algérie Républicaine e comunista,
que foi torturado pelos pára-quedistas franceses por sua solidariedade
com o FLN (Front de Libération National). Recorrer a essas lembranças
é para mim como entrar no sótão da minha memória culta,
com um certo sorriso irônico no rosto, o meu, suponho. Aliás, quando
às vezes tento compor, em frente ao espelho do banheiro, o sorriso irônico
que imagino em mim, não consigo. Só vejo um estranho manequim cheio
de sorrisos interrompidos ou excessivos, que não consegue compor o sorriso
sutil, como uma espuma tênue, que me faria feliz. O
inspetor, Dávila acho que se chama, elogiou as dimensões da minha
biblioteca. Afirma que gosta muito de ler. —
Estou sempre com um livro nas mãos. Toda noite, quando caio na cama, não
consigo conciliar o sono se não abrir um livro. Apaga a luz, diz minha
mulher mais de uma vez. Mas
não posso apagar, pelo menos até ler um capítulo. O que mais
me incomoda são esses livros modernos que não têm capítulos.
Obrigam a gente a continuar lendo até o final ou
a interromper a leitura num ponto parágrafo. Não sabem mais o que
inventar. Dávila
também gosta muito da minha coleção de cristais de Murano,
especialmente os deliciosos músicos em miniatura sobre um piso de quadrados
vermelhos e brancos, ou meus castiçais barrocos irregulares, peças
únicas em seu gênero que o vendedor me ofereceu na medida da sensibilidade
que descobriu em mim. —
O senhor é o comprador ideal para estes castiçais. Estão
pedindo. Estão lhe implorando: compre-nos. Eles
estavam comigo na expedição a Murano. Os quatro. Carlota, Luis,
Pepa e Modollel. Agora me surpreende que Modollel se chamasse Esteban. Todos o
chamavam de Modollel, até Pepa, sua mulher. A lembrança das minhas
viagens nos últimos dez anos está ligada a esse quarteto, a esses
dois casais, Carlota e Luis, Pepa e Modollel, que conheci em Luxor em 1977 durante
a inevitável sessão de luz e som. Passavam um baseado de mão
em mão e viam o espetáculo dentro deles. Tinham toda a luz nos olhos
e o som eram aqueles risinhos murmurados que trocavam com uma plácida estupidez.
Carlota me disse que já tinha reparado em mim durante a visita a Abu Simbel. —
Você me lembra Anúbis. Não tirei o olho de você, sempre
presta mais atenção nas histórias de Anúbis que nas
de qualquer outro. Carlota
poderia ser a Ofélia de um sonho de afogada botticelliana com o vestido
cheio de flores vivas e ao mesmo tempo apodrecidas, em contraste com a branca
serenidade de seu rosto de primavera dourada. Ao seu lado Luis parecia um ibérico
bonito, desses morenos angulosos, de olhos pretos e grandes, muito barbado, o
cabelo entre encaracolado e desleixado. Mas os dois eram animados pela mesma calma
vital, como se seus movimentos fossem em câmera lenta, forçados a
isso por uma moviola obstinada. Embora Pepa e Modollel tentassem imitar seus movimentos,
sua elegância de heróis cansados, não conseguiam. Modollel
tinha músculos por todos os lados e Pepa era um pedaço de carne
batizada, uma enseada passiva à espera de todos os desembarques. Carlota
passou todo o resto da viagem ao Egito tentando vincular-me ao quarteto e pondo
em meu cabelo as pequenas flores amarelas que encontrava nas encostas do Nilo,
e o fazia com a delicadeza de uma florista como se estivesse arrumando um arranjo
primoroso, diante da atenção de todos os outros, especialmente Luis
que assentia com suas grandes pálpebras, como se estivesse aprovando um
espetáculo maravilhoso que levava para o interior da sua alma. —
Vocês eram muito amigos, muito amigos... Confirma
a si mesmo o inspetor Dávila, como se com essa confirmação
quisesse dar-me os pêsames. —
A amizade não tem preço. Dávila
larga a estatueta de Anúbis e passa a ponta de um dedo nas florescências
dos meus castiçais venezianos e temo pela pureza do cristal, mas permaneço
afundado em minha poltrona Charles Eames, como se meu esqueleto finalmente tivesse
encontrado um final feliz e os movimentos de Dávila pelo quarto não
me inspirassem curiosidade. —
Também eram sócios? —
Não exatamente. Mas todos eles eram muito bem relacionados e às
vezes recorriam a mim como decorador de interiores. Especialmente Carlota, que
tinha uma loja de antigüidades, e Modollel, que é arquiteto. —
Muito bonito. Dávila
balançou afirmativamente a cabeça enquanto se inclinava para trás
tentando abarcar num só olhar toda a ambientação da minha
sala-biblioteca. —
Nota-se que o senhor tem bom gosto e dinheiro. Pensa
que eu posso ter me ofendido e corrige. —
Mas só com dinheiro não se consegue decorar assim. Nem viajar como
vocês viajavam. Viajar é uma arte. Sabe aonde eu iria se ganhasse
na loteria esportiva? Sorrio
como uma criança esperando uma revelação prodigiosa. —
À Birmânia. Agora
minha expressão é de uma surpresa risonha. —
Birmânia, sim, Birmânia. Por causa de um filme que vi quando era jovem.
O senhor deve ser da minha geração. Lembra de Objetivo Birmânia,
com Errol Flynn? Lembro
como um filme cheio de heroísmo e de mosquitos, mosquitos com a mesma crueldade
que os de Murano na branca pele ofeliesca de Carlota. A
Rosa de Alexandria "Não
vamos incomodá-lo. É só um instantinho." Charo
abria a marcha e o sorriso, sem olhar para o rosto de Carvalho, para nele não
enxergar a tempestade ou o fastio. Atrás, se abrigava a evidente prima
Mariquita, uma cinqüentona de permanente e bonitas feições
grandes de mulher robusta, morena e muito envelhecida. E, como se as duas mulheres
fossem um obstáculo a ultrapassar por seus flancos direito e esquerdo,
postaram-se no escritório dois homens jovens. Um deles parecia uma nova
modalidade de concertista de violoncelo, cabelo eriçado e oclinhos de brincadeira,
o outro tinha cara de bancário romântico, de gravata-borboleta, míope,
louro, de cabelo ralo, pálido como uma lua cheia. O concertista avaliou
o cenário, observou os objetos como se os inventariasse e Carvalho como
se fosse um elemento negligenciável. O bancário, por sua vez, procurou
uma cadeira, levou-a para um canto da sala e se sentou cruzando as pernas e tentando
olhar para todos os lados menos um: aquele onde estava Carvalho. O detetive ia
se aproximar dele quando a voz de Charo impôs as condições
da reunião. "Minha
prima Mariquita, Mariquita Abellán, não iria incomodá-lo
se o assunto não fosse grave. Este é Andrés, filho dela,
e este é Narcís Pons, um amigo que os ajudou muito nesse caso." O
da cara de bancário sorriu pelo processo de alargar o risco da boca, uma
fenda num rosto de mármore cor de manteiga. "Vieram
os meninos porque com o meu marido não se pode contar." Era
evidente que com o marido de Mariquita não se podia contar. Carvalho não
estava disposto a facilitar as coisas e permaneceu numa contemplação
pouco interessada do que acontecia mais para lá de sua mesa de trabalho.
Charo procurava cadeiras e Mariquita mordia os lábios com os dentes. Andrés
agora olhava para ele, e o ritmo de seus pensamentos era marcado pelas subidas
e descidas de um pomo-de-adão enorme. O bancário ajeitava a calça
para tapar a evidência de uma panturrilha fina, branca, imberbe, venosa,
e assim deixava à mostra a barra da calça cinza-chumbo e a estreita
fronteira das meias inexplicavelmente marrons. "Meu
marido é que tinha que ter tomado essa iniciativa", opinou de supetão
a prima de Charo, como se estivesse achando muito feio o comportamento do ausente. "Está
me dando vontade de conhecê-lo. Deve ser um cara notável", Carvalho
comentou, como se falasse com os papéis que ele mudava de lugar em cima
do tampo da mesa. "Não
está bem. Meu marido não está bem." E
Mariquita levou um dedo à têmpora. "Pensa
muito e é um perigo pensar, sobretudo quando se têm tantas horas
de folga. Meu marido é um desocupado." "Quem
o viu e quem o vê." Charo
tinha conseguido uma cadeira e se sentara mais perto de Carvalho do que seus acompanhantes. "Se
você tivesse conhecido ele há uns anos, Pepe, uma maravilha. Divertido,
alegre, forte... Perder o emprego e se desmontar inteiro..." Mariquita
havia tirado o lenço de algum lugar e passou uma ponta no cantinho de cada
olho, para desgosto evidente do filho, que cabeceou e levou o olhar para uma das
paredes laterais, como se não quisesse ser testemunha da emoção
da mãe. "Já
lhe falei desse assunto, Pepe. Trata-se de outra prima, irmã de Mariquita,
minha prima Encarnación. Algum dia devo ter lhe falado a respeito." Carvalho
não estava disposto a admitir isso, mas Charo não se deu por achada. "Era
a irmã caçula de Mariquita, você sabe, e tomou outros rumos.
Estava muito bem casada em Albacete, embora a família seja de Águilas,
bem, Águilas, Cartagena, Mazarrón, toda aquela parte. Mas Encarnita
se casou com um senhor de Albacete e vivia em Albacete. As duas irmãs não
se relacionavam muito." "Quase
nada. E bem mal, para o meu gosto", interrompeu Mariquita com os olhos atormentados
pela ardência das lágrimas contidas. "Bem,
o problema não é este. O fato é que há uns meses...
mas conte você, mulher, que sabe mais do que se trata." Mariquita
suspirou e se dirigiu ao filho com voz de resfriada: "Quer
explicar você, nenê?" "Você
está farta de saber, estou fora de todo esse rolo." "Ele
está fora de todo esse rolo", repetiu Mariquita com um toque de ironia
dirigido a Carvalho, como procurando sua compreensão diante da colaboração
nula do filho. "A mim me ensinaram a respeitar os mortos", gritou a
mulher em direção às costas do filho. O rapaz se limitou
a dizer que sim, com a cabeça, sem virar a cara. "Desde que aquilo
aconteceu não consigo dormir. Toda noite me aparece o cadáver de
minha irmã e me diz: Mariquita, Mariquita, ajude-me, dê-me paz, dê-me
paz, Mariquita." Caiu
no choro e entre balbucios e asfixias se queixou de sua sorte de mulher sozinha,
praticamente sozinha para enfrentar uma coisa tão terrível. "Coitadinha.
Em que estado a deixaram. Minha mãe do céu, é de dar dó
no coração. Em que estado a deixaram. Coitadinha." Biscuter
tinha aparecido na porta de comunicação entre a sala e a pequena
cozinha, atraído pelo choro incontido da mulher. Enxugava as mãos
sem saber onde pôr os olhos, sem saber quem era o culpado por tanto desconsolo. "É
que, Pepe, foi horrível...", interveio Charo, e fechou os olhos e
a boca. O
silêncio que se seguiu contribuiu para ressaltar o murmúrio choroso
que saía dos lábios apertados da mulher. O filho virara o rosto
para os presentes e olhava para a mãe com pena e impotência. O bancário
parecia esperar que a orquestra desse os primeiros acordes e se preparava para
assumir a situação. Armazenava ar nos pulmões, achatava os
restos de cabelo com as mãos, introduzia um dedo entre a gola da camisa
e a pele para sentir que estava livre a passagem de ar dos pulmões ao cérebro.
Mas foi o filho que encarou Carvalho. "É
que deixaram minha tia num estado de dar dó. Uma carnificina. O cadáver
estava de dar pena. Estava todo arrebentado. Todo arrebentado. Fui reconhecê-lo
com minha mãe e, bem... não dá para esquecer. Aquilo não
era um ser humano. O cadáver estava todo arrebentado." Charo
e Mariquita faziam que sim com a cabeça, confiantes de que Andrés
conseguiria coragem suficiente para acabar de contar os fatos. Mas o rapaz parecia
satisfeito com sua atuação e se retirava de novo para a contemplação
distanciada da parede lateral direita, onde Biscuter tinha se transformado na
única paisagem, natureza morta de boneco quebrado. "Se
me permitem, já que se trata de um assunto de família, mas tendo
em vista que para vocês, logicamente, é difícil explicar a
questão, pediria que me dessem a palavra." Falara
o rosto pálido, e Carvalho ficou sem saber se seus olhos sorriam ou simplesmente
tentavam subir das profundezas oceânicas das dioptrias. A família
Abellán abdicou do protagonismo e abriu um caminho de silêncio pelo
qual avançou aquele rosto branco e vítreo. "O
senhor tem uma idéia exata do que estão tentando lhe explicar?" Carvalho
negou com a cabeça. "Eu
imaginava. Eles falaram com o coração. Vou fazê-lo com a cabeça.
Quando dizem que o cadáver estava todo arrebentado querem dizer que apareceu
esquartejado, desossado. Primeiro foram encontrados o tórax e o abdômen,
dentro de um barril, num terreno baldio. O resto, semi-enterrado. Perto da Colonia
Güell. Essas partes também não estavam inteiras. Extirparam
a genitália, por dentro e por fora, quer dizer, fizeram um esvaziamento
completo, repito, completo do aparelho sexual e reprodutor." Agora
o sorriso dele era de chinês paciente à espera do desmaio dos interlocutores.
Carvalho divagou o olhar pelos cantos do escritório e passou por cima do
evidente congelamento que sentira o corpo de Biscuter, do esforço para
não chorar que diminuía o corpo de Mariquita, e do inesperado interesse
pelas formigas que demonstravam os olhos de Andrés. "Mas
não é só isso. Também atacaram furiosamente o tórax
e o abdômen, e pode-se dizer que só o coração, um pulmão,
o esôfago, o estômago, o fígado, os rins e o pâncreas
eram órgãos identificáveis." "Até
que não está tão mal assim", Carvalho comentou depois
de um pigarro. "Mas
repito: o corpo foi desossado, com uma estranha perícia, perícia
de um anatomista. O senhor se perguntará como, com tão poucos e
mutilados elementos, foi possível chegar à conclusão de que
o cadáver era de Encarna Abellán." Fez
uma pausa à espera de que Carvalho confirmasse a pergunta. Carvalho não
quis decepcioná-lo e fechou os olhos. "Imagine
o senhor, é um relato muito curioso. Tive uma conversa com o médico
legista, porque sempre me interessei por criminologia, e não é para
me gabar, mas essa consulta profissional se deve sobretudo a meus conselhos, felizmente
acatados pela família Abellán. Pois bem, o médico legista
se encarregou dos restos e percebeu a existência de uma cicatriz num naco
de carne que parecia corresponder ao abdômen. Depois pensou que não
era uma cicatriz porque não se distinguiam as pontas da agulha nas costuras,
como costuma acontecer numa cicatriz. Finalmente, um exame mais detalhado o fez
chegar à conclusão de que sim, era uma cicatriz, resultado de uma
operação de histerectomia, e por aí começou a possibilidade
de identificar o cadáver, possibilidade que o levou a estabelecer a identidade:
Encarnación Abellán tinha sofrido uma histerectomia." "O
senhor é médico, ou estudante de medicina?" "Não",
respondeu o bancário, com os olhinhos fechados e um sorriso deliciado pelo
interesse que havia provocado em Carvalho. "Intelectual?" "Não." "Mas
parece um rapaz culto." "Procuro
ser. Sou autodidata." Meteu
a mão pequena, fina, branca no bolso interno do casaco e tirou dele um
cartão de visita que entregou a Carvalho: Narcís
Pons Puig Autoditata Ronda
de Sant Pere, 17 Carvalho
ficou brincando com o cartão e olhou de alto a baixo o autodidata. "Já
temos o cadáver despedaçado e identificado. O que mais." "A
descoberta foi há três meses. A polícia ainda não encontrou
o assassino. Modestamente posso lhe dizer que tenho algumas idéias sobre
o assunto. Sou amigo da família, segui o caso desde o início." "E
o que eu tenho a ver com tudo isso?" Foi
Charo que se antecipou ao bracejo expressivo da prima e disse: "Queremos
que você desfaça esse rolo." "Posso
dar-lhes alguns conselhos grátis e, depois, até logo, passem bem." "Não
queremos conselhos. Queremos que você pegue o caso." "Duas
primas, um filho desobediente, um autodidata... Só falta um cliente." "O
cliente sou eu", disse Charo categoricamente, ao mesmo tempo em que punha
a bolsa no colo, como se estivesse disposta a atender a qualquer pedido de dinheiro
de Carvalho. Sustentaram-se
os olhares. O de Charo era de desafio. O de Carvalho, de ceticismo. |