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O
Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (tradução
de Renata Maria Parreira Cordeiro e Eliane Gurjão Silveira
Alambert; Landy; 432 páginas; 50 reais) Já
existiam cinco traduções dessa obra-prima do romantismo
inglês no Brasil, mas essa nova edição é
um primor, uma bela aquisição para qualquer biblioteca
de clássicos. Ela traz quadros cronológicos do período,
quadros genealógicos da família Brontë, perfis
da autora que morreu em 1848, aos 30 anos e um apanhado
de comentários críticos desde a época do lançamento
do livro até hoje. Com sua atmosfera lúgubre, O
Morro dos Ventos Uivantes é uma história de amor
atormentado, mas também uma espécie de romance metafísico
sobre o homem em confronto com os "poderes eternos". "Um dos mais
belos livros da literatura de todos os tempos", dizia o francês
Georges Bataille em 1957, enquanto o crítico americano Harold
Bloom sentenciou, em 2002: "Uma obra de uma grandiosidade solitária".
Leia trechos do livro
Capítulo
1
1801
Acabo de voltar de uma visita ao meu senhorio - o único vizinho
com quem terei que me preocupar. Belíssima região!
Em toda a Inglaterra, acho que não poderia morar num local
mais afastado da balbúrdia da sociedade. Um verdadeiro paraíso
para misantropos. E o Sr. Heathcliff e eu formamos o par ideal para
compartilhar desse isolamento. Grande sujeito! Nem pôde imaginar
como simpatizei com a sua pessoa quando lhe percebi os olhos negros
se recolherem tão suspeitosos sob as sobrancelhas, conforme
eu me aproximava, e os dedos se esconderem ainda mais no colete,
com desconfiada resolução, assim que lhe disse o meu
nome.
- Sr. Heathcliff? - perguntei.
Acenou afirmativamente com a cabeça.
- Sr. Lockwood, o seu novo inquilino. Fiz questão de falar-lhe
assim que pude, após a minha chegada, para expressar os meus
votos de não tê-lo incomodado com a insistência
em ocupar a Granja da Cruz do Tordo. Ontem, ouvi dizer que o senhor
esteve pensando...
- A Granja da Cruz do Tordo é propriedade minha, senhor -
interrompeu, retraindo-se. - Não permito que ninguém
me incomode, quando o posso impedir. Entre!
O "entre" foi dito com os dentes cerrados e parecia significar
"Vá para o diabo!" Mesmo o portão sobre
o qual se debruçava, contrariando-lhe as palavras, não
se abriu, o que me levou, creio, a aceitar o convite: interessei-me
por alguém cuja reserva parecia ainda mais exagerada do que
a minha.
Quando viu que o peitoral do cavalo já forçava a porteira,
estendeu a mão para abri-la, e então, com vagar, me
tomou a frente no passadiço, gritando, enquanto entrávamos
no pátio:
- Joseph! Leve o cavalo do Sr. Lockwood! E traga-nos vinho!
"Suponho que temos aqui toda a criadagem", foi o que imaginei
ao ouvir a dupla ordem. "Não é de admirar que
o capim cresça entre as lajes e o gado seja o único
a podá-lo."
Joseph era um homem já velho, ou melhor, muito velho; idoso,
talvez, porém saudável e rijo.
"Deus nos ajude!" - resmungou para si mesmo num tom de
flagrante desagrado, enquanto me auxiliava a desvencilhavar-me do
cavalo. Ao mesmo tempo, olhava-me com tamanho azedume que eu, caridosamente,
imaginei que ele estivesse precisando da ajuda divina para digerir
o jantar, e que o apelo religioso não tinha nada a ver com
a minha visita inesperada.
Wuthering Heights (Morro dos Ventos Uivantes) é o nome da
propriedade do Sr. Heathcliff, sendo wuthering um adjetivo provinciano
que designa a turbulência atmosférica a que o local
fica exposto durante as tempestades. Ali, sopra um ar puro e revigorante
em todas as estações, e é possível avaliar
a força do vento norte pela excessiva inclinação
de alguns poucos abetos atrofiados, bem como pelo campo de espinheiros
raquíticos, que esticam, todos, os ramos para a mesma direção,
como se implorassem esmolas ao sol. Por sorte, o arquiteto teve
a prudência de construir a casa com solidez: as janelas estreitas,
profundamente encravadas na parede e os cantos, protegidos por grandes
pedras salientes.
Antes de transpor a soleira, detive-me para admirar algumas extravagantes
esculturas da fachada, particularmente as que circundavam a porta
principal. Acima desta, em meio a um sem número de grifos
apagados e menininhos impudicos, vislumbrei a data "1500"
e o nome "Hareton Earnshaw". Senti-me tentado a fazer
alguns comentários e a pedir um breve relato do lugar ao
mal-humorado proprietário, mas a sua atitude à porta
parecia exigir a minha rápida entrada ou terminante partida,
e eu não queria aumentar a sua impaciência com semelhante
inspeção.
Por um degrau, chegamos à sala de estar, sem nenhum vestíbulo
ou passagem: aqui na região, esse cômodo é,
na maioria das vezes, designado por "a casa". Compõe-se,
em geral, de cozinha e sala de estar; mas creio que no Morro dos
Ventos Uivantes a cozinha teve que ser mudada para outro local,
a julgar pelos longínquos sons de vozes e barulho de utensílios
culinários vindos de dentro, e pela ausência tanto
de sinais de assados, fervuras ou cozimentos em torno da grande
lareira, quanto do brilho de panelas de cobre ou coadores de metal
pendurados na parede. No entanto, numa extremidade refletia-se radiosamente
a luz e o calor que vinham de uma fila imensa de pratos de estanho,
misturados a canecas e jarros de prata, que se empilhavam até
o teto, uns sobre os outros, num grande aparador de carvalho. O
teto nunca fora terminado, e expunha toda a sua anatomia morta aos
olhos dos curiosos, exceto uma parte que ficava escondida por uma
armação de madeira, abarrotada de bolos de aveia,
pernas de boi, carneiro e presunto. Em cima da lareira, alguns fuzis
velhos e medonhos, bem como um par de grandes pistolas. E, falando-se
em ornamentação, havia três latas de metal pintadas
com muito mau gosto, e dispostas ao longo do rebordo. O chão
era liso, de pedras brancas. As cadeiras, de alto espaldar, simples
estrutura e tingidas de verde: uma ou duas, pretas, espreitavam
na sombra. Ao abrigo de um arco debaixo do aparador, repousava uma
grande cadela, da raça perdigueira e de pêlos ruivos,
cercada por filhotes que ganiam, enquanto outros cachorros procuravam
um canto para descansar.
A sala e a respectiva mobília não teriam nada de extraordinário
se pertencessem a um simples rendeiro do norte, de aspecto firme
e físico vigoroso, que se destaca devido aos calções
na altura do joelho e às polainas. Tal indivíduo,
sentado numa poltrona, com a sua caneca de cerveja espumando na
mesa redonda bem à sua frente, pode ser visto num raio de
oito a dez quilômetros por entre aqueles morros, contanto
que o visitante chegue numa hora apropriada após o jantar.
O Sr. Heathcliff, porém, forma um interessante contraste
com a sua propriedade e o seu estilo de vida, pois é cigano
de pele escura quanto ao aspecto e, no trajar e nas maneiras parece
um cavalheiro, isto é, tão cavalheiro quanto muitos
fidalgos do interior, um tanto descuidado, talvez, ainda que não
pareça fora de forma, apesar da negligência, devido
à postura ereta e elegante. Na fisionomia, um pouco taciturno.
Alguns podem pensar que é um tanto orgulhoso, mas certa afinidade
me diz que não se trata de nada disso. Sei, por instinto,
que a sua reserva se origina de aversão a demonstrações
ostensivas de sentimentos e manifestações de gentileza
mútua. Com certeza, ama e odeia de forma disfarçada,
e julga uma impertinência ser correspondido abertamente. Não.
Estou indo rápido demais: confiro a ele os meus próprios
atributos de forma irrestrita. Talvez o Sr. Heathcliff tenha razões
de todo distintas das minhas para manter-se frio ao encontrar alguém
que pretenda uma aproximação. Acredito que a minha
natureza é quase única: a minha querida mãe
costumava dizer que eu nunca teria um lar onde me sentisse bem.
E foi somente no último verão que me dei conta de
ser indigno por completo de merecê-lo.
Enquanto desfrutava de um mês de ameno clima na praia, tive
por companhia a mais fascinante criatura, para mim uma verdadeira
deusa, enquanto não me notou. "Jamais lhe revelei o
meu amor" com palavras; ainda assim, se os olhos possuem uma
linguagem, o mais completo idiota poderia adivinhar que eu estava
perdidamente apaixonado. Enfim, ela me entendeu e retribuiu o olhar
- o mais doce de todos os olhares que pode haver. E o que fiz eu?
Confesso-o envergonhado - encolhi-me, frio, como um caramujo; a
cada olhar, respondia com mais frieza e distância; até
que a pobrezinha, um anjo, acabou duvidando dos próprios
sentimentos, e, sufocada pela confusão do suposto engano,
persuadiu a mãe a partir. Esse meu curioso feitio me valeu
a reputação de cruel. Como não a mereço,
só eu o sei.
Sentei-me à lareira, na extremidade oposta àquela
para a qual o meu senhorio se dirigia, e mantive um momento de silêncio
enquanto buscava acariciar a cadela, que deixara a ninhada e se
esgueirava ferozmente por trás das minhas pernas, com o focinho
arreganhado e os dentes brancos a salivar, na iminência de
um ataque. A minha carícia provocou um longo e gutural rosnado.
- É melhor deixar a cadela em paz - vociferou, na mesma hora,
o Sr. Heathcliff, estancando demonstrações mais violentas
com um soco na pata do animal. - Não está acostumada
a mimos, pois não a criamos como um bichinho de estimação.
Então, dirigindo-se a passos largos para uma porta lateral,
gritou de novo:
- Joseph!
Joseph resmungou qualquer coisa lá do fundo da adega, mas
não deu indício algum de que fosse subir. Por isso,
o patrão desceu, deixando-me face a face com a brutal cadela
e um par de aterrorizantes cães pastores, que compartilhavam
com ela uma zelosa vigilância de todos os meus movimentos.
Nem um pouco ansioso por ter contato com as suas presas, sentei-me,
quieto. Porém, imaginando que lhes seria difícil entender
insultos silenciosos, infelizmente cedi ao desejo de piscar e fazer
caretas para o trio, e alguma expressão do meu rosto acabou
por irritar a cadela, o que a fez, de súbito, irromper em
fúria e saltar-me sobre os joelhos. Eu a repeli com veemência
e apressei-me em pôr a mesa entre nós. Essa movimentação
instigou toda a matilha: meia dúzia de demônios quadrúpedes,
de vários tamanhos e idades, saíram dos ninhos ocultos
para o centro comum. Senti, em particular, os tornozelos e as abas
do casaco como alvos do ataque; e, afastando os maiores combatentes
o mais que podia, com o atiçador, vi-me forçado a
pedir, aos gritos, a ajuda de alguém da casa para restabelecer
a paz.
O Sr. Heathcliff e o criado galgaram os degraus da adega com tranqüilidade
irritante: não creio que tenham andado um segundo a mais
do que o habitual, ainda que a sala estivesse em completo tumulto
de latidos e urros. Por sorte, alguém da cozinha teve uma
ação mais rápida: uma senhora robusta, com
o vestido arregaçado, braços nus, e as bochechas avermelhadas
pelo fogo, pôs-se de pronto entre nós, brandindo uma
frigideira. Usou essa arma e a própria língua com
tamanha determinação que a tempestade se aplacou como
num passe de mágica, restando só ela, ofegante como
o mar depois do vendaval, quando o patrão entrou em cena.
- Que diabos está acontecendo? - perguntou, de um jeito que
não pude suportar, após aquele tratamento inóspito.
- Que diabos, de fato! - resmunguei. - Uma vara de porcos endemoninhados
não teria temperamento pior do que esses seus animais, senhor.
É como deixar um estranho com um bando de tigres.
- Não mexem com quem não toca em nada - observou,
pondo a garrafa diante de mim e recolocando a mesa no lugar. - Os
cães fazem bem em ser vigilantes. Aceita um pouco de vinho?
- Não, obrigado.
- Não foi mordido, foi?
- Se o tivesse sido, teria deixado a minha marca no autor da mordida.
A expressão de Heathcliff suavizou-se num sorriso.
- Ora, vamos - disse. - O senhor está alterado, Sr. Lockwood.
Tome um copo de vinho. Os visitantes são tão raros
nesta casa que eu e os meus cães, devo admitir, não
sabemos como recebê-los. À sua saúde, senhor!
Inclinei-me em agradecimento e retribuí o brinde, dando-me
conta, pouco a pouco, de que seria uma idiotice ficar zangado com
o mau comportamento de um bando de vira-latas. Além do mais,
não estava disposto a lhe proporcionar mais diversão
às minhas custas, pois era esse o clima que imperava na casa.
E, com certeza percebendo, prudentemente, que era uma insensatez
ofender um bom inquilino, relaxou um pouco o estilo lacônico
de empregar os pronomes e verbos auxiliares, e apresentou-me o que
supôs ser objeto de interesse: um discurso sobre as vantagens
e desvantagens do meu atual lugar de retiro. Julguei-o muito inteligente
nos tópicos que abordou e, antes de sair, senti-me encorajado
a lhe dizer que faria uma outra visita no dia seguinte. É
claro que ele não queria que a minha intromissão se
repetisse. Mesmo assim, eu vou. É incrível como me
acho sociável se comparado a ele.
Capítulo
15
Passou-se
mais uma semana... e sinto que se aproxima o dia em que estarei
gozando de plena saúde em plena primavera! Já ouvi
toda a história dos meus vizinhos, em diferentes sessões,
sempre que a Sra. Dean conseguia algum tempo livre das suas ocupações
mais importantes. Continuarei com as suas próprias palavras,
apenas um tanto condensadas. No geral, ela é uma narradora
muito boa e não me julgo capaz de melhorar-lhe o estilo.
Na noite - continuou ela - da minha visita ao Morro dos Ventos Uivantes,
eu tinha a certeza, tão bem como se o tivesse visto, de que
o Sr. Heathcliff estava nos arredores da propriedade, e evitei sair,
porque ainda mantinha a carta no bolso, e não queria mais
ser ameaçada ou perseguida. Decidira-me a não entregá-la
até que o patrão saísse de casa, porque não
conseguia prever até que ponto aquilo afetaria Catherine.
O resultado foi que a carta não chegou às suas mãos
antes de três dias. O quarto dia foi um domingo e eu a levei
ao aposento de Catherine, depois que a família saíra
para a igreja. Um criado fora deixado comigo para vigiar a casa,
e geralmente fechávamos as portas durante as horas do serviço
religioso. Todavia, naquela ocasião, o tempo estava tão
quente e agradável, que as deixei escancaradas e, para cumprir
com o meu compromisso, como sabia que iria acontecer, disse ao meu
companheiro que a patroa queria comer laranjas, e que ele tinha
que ir até o vilarejo para as comprar, e que as pagaríamos
no dia seguinte. Ele saiu e eu subi.
A Sra. Linton estava sentada, como sempre, no seu recanto junto
à janela aberta, trajando um vestido frouxo, branco, com
um xale leve sobre os ombros. Os seus cabelos, longos e bastos,
haviam sido parcialmente cortados no início da doença,
e agora ela os usava penteados, com cachos naturais caindo-lhe sobre
as têmporas e o pescoço. A sua aparência se alterara,
como eu dissera a Heathcliff, mas quando ficava calma, parecia assumir
uma beleza sobrenatural. O brilho dos seus olhos foram sucedidos
por uma suavidade sonhadora e melancólica. Já não
davam a impressão de fitarem os objetos que a circundavam,
pareciam sempre olhar além, muito além... poder-se-ia
dizer que para fora deste mundo. Além disso, a palidez do
seu rosto, cujo aspecto cadavérico desaparecera com a recuperação
do peso, e a expressão peculiar surgida pelo seu estado mental,
embora insinuando, de maneira deveras dolorosa, as suas causas,
ressaltava o tocante interesse que ela despertava - e invariavelmente
para mim, e, acho, para qualquer pessoa que a visse - refutava as
provas mais tangíveis de convalescença, e a marcava
como condenada à morte.
No parapeito da janela, à sua frente, havia um livro, e um
vento quase imperceptível lhe agitava as folhas de quando
em quando. Acho que fora Linton que o pusera ali, pois ela jamais
gostou de entreter-se com leitura ou com qualquer outro tipo de
ocupação, e ele passava horas tentando atrair-lhe
a atenção para coisas que, antes, muito a divertiam.
Ela tomava consciência do desejo do marido, e, nos seus períodos
de melhor humor, suportava calmamente os seus esforços, apenas
mostrando a sua inutilidade, vez por outra, ao reprimir um suspiro
de cansaço, e detendo-o com os mais tristes sorrisos e beijos.
Outras vezes, porém, dava-lhe as costas, petulante, e escondia
o rosto entre as mãos, ou chegava até mesmo a empurrá-lo,
furiosa. Então, ele tratava de deixá-la só,
porque tinha certeza de que aquilo não lhe faria bem.
Os sinos da Capela de Gimmerton ainda tocavam, e o fluxo nítido
e suave do riacho no vale nos chegava calmo aos ouvidos. Era um
doce substituto para o ainda ausente murmúrio das folhagens
de verão, que sufocava aquela música na Granja, quando
as árvores estavam revestidas de folhas. No Morro dos Ventos
Uivantes, sempre podíamos ouvir o seu som nos dias tranqüilos
que se seguiam ao degelo ou a uma estação de chuvas.
E era no Morro dos Ventos Uivantes que Catherine pensava enquanto
escutava o som do riacho, ou seja, se é que ela pensava ou
escutava. Mas tinha o olhar vago e distante, que já mencionei,
que não expressava o reconhecimento das coisas materiais
aos olhos ou aos ouvidos.
- Tenho uma carta para a senhora, Sra. Linton - disse, pondo-a com
delicadeza na mão que repousava sobre o joelho. - Deve lê-la
agora, pois precisa respondê-la. Posso quebrar o selo?
- Sim - replicou, sem desviar o olhar.
Abri-a... era bastante curta.
- Agora, - continuei - leia-a.
Afastou a mão e deixou a carta cair. Coloquei-a outra vez
no seu colo, e esperei até que lhe aprouvesse olhar para
baixo, mas esse movimento estava demorando tanto, que, por fim,
perguntei:
- Devo lê-la, senhora? É do Sr. Heathcliff.
Ela estremeceu e, num doloroso lampejo de recordação,
esforçava-se por ordenar as idéias. Ergueu a carta,
e pareceu lê-la. Quando chegou à assinatura suspirou.
Contudo, achei que não tinha compreendido o significado,
pois, ao meu desejo de ouvir a sua resposta, ela apenas apontou
para o nome, e olhou-me com ansiedade pesarosa e inquiridora.
- Bem, ele quer vê-la - disse eu, percebendo a sua necessidade
de um intérprete. - Está agora no jardim, impaciente
pela resposta que vou levar-lhe.
Ao dizer isso, vi que um enorme cão, postado na relva banhada
de sol logo abaixo da janela, ergueu as orelhas como se estivesse
prestes a latir, e então, baixando-as de novo, anunciou,
pelo abanar do rabo, que alguém se aproximava e não
era considerado um estranho. A Sra. Linton inclinou-se para a frente,
e, sem fôlego, ficou à escuta. Um minuto depois, um
passo atravessou o vestíbulo. A casa, assim escancarada,
era tentadora demais para que Heathcliff resistisse a entrar por
ela, pois talvez ele pensasse que eu estava inclinada a não
cumprir a promessa feita, e decidiu confiar na sua própria
audácia. Com excessiva ânsia, Catherine olhava para
a porta do aposento. Como ele demorasse a descobrir o quarto certo,
ela me sinalizou que o fizesse entrar, mas ele nos encontrou antes
que eu chegasse à porta, e, num ou dois passos, já
estava ao lado dela, apertando-a entre os braços.
Não falou nem a soltou por uns cinco minutos, tempo durante
o qual deu mais beijos do que já dera em toda a sua vida,
e me atrevo a dizer que, embora a minha patroa o tivesse beijado
primeiro, pude com clareza ver que ele mal podia suportar, por inequívoca
angústia, olhá-la de frente! Assim que a abraçou,
constrangeu-o também a mesma convicção que
me ferira, de que não havia perspectiva de ela recuperar-se
por completo... sem dúvida estava condenada a morrer.
- Oh, Cathy! Oh, minha vida! Como posso suportar isso? - foi a primeira
frase que ele disse, num tom que não procurava disfarçar-lhe
o desespero. E olhou-a com tamanha paixão, que pensei que
tal intensidade lhe provocaria lágrimas. Mas os seus olhos
ardiam de angústia... não transbordaram.
- E agora? - disse Catherine, recostando-se e devolvendo-lhe o olhar
com expressão sombria, pois o seu humor era um simples cata-vento
para as suas constantes variações de capricho. - Você
e Edgar partiram o meu coração, Heathcliff! E ambos
vêm lamentar-se disso comigo, como se fossem dignos de piedade!
Não lhes tenho pena, não eu! Mataram-me... e parece
que isso lhes fez bem. Como são fortes! Quantos anos pretende
viver depois que eu me for?
Heathcliff se havia apoiado com um dos joelhos no chão, para
abraçá-la. Tentou levantar-se, mas ela lhe agarrou
o cabelo, e o manteve ajoelhado.
- Gostaria de poder retê-lo - continuou ela, amarga - até
que morrêssemos! Não me importaria com o que você
pudesse sofrer. Nada me importam os seus sofrimentos. Por que não
deveria sofrer? Eu sofro! Você se esquecerá de mim?
Viverá feliz quando eu já estiver debaixo da terra?
Dirá, passados vinte anos "Este é o túmulo
de Catherine Earnshaw. Amei-a há muito tempo, fui um miserável
quando a perdi... mas é passado. Amei muitas outras desde
então, e os meus filhos são muito mais amados do que
ela. E, na morte, não me regozijarei por estar indo para
ela, mas me entristecerei por deixá-los!"? Dirá
isso, Heathcliff?
- Não me torture a ponto de ficarmos ambos loucos - disse
ele, soltando a cabeça com um puxão, e rangendo os
dentes.
Os dois, aos olhos de um frio espectador, formavam um quadro estranho,
de dar medo. Catherine bem poderia considerar o céu como
o seu local de exílio se, com o seu corpo material, ela abandonasse,
igualmente, o seu caráter moral. A sua fisionomia, naquele
momento, apresentava uma selvagem vingança nas faces, no
lábio exangue e nos olhos cintilantes. E mantinha, nos dedos
apertados, uma porção dos cachos que ela agarrara.
Quanto ao seu companheiro, enquanto se erguia com uma das mãos,
segurava-lhe o braço com a outra, e tão inadequado
foi o carinho dispensado dadas necessidades e a condição
da moça, que, ao largá-la, pude ver quatro nítidas
marcas azuladas na sua descorada pele.
- Está possuída pelo demônio, - continuou, selvagem
- para falar desse jeito comigo, quando está morrendo? Não
vê que todas essas palavras ficarão marcadas na minha
memória, aprofundando-se pela eternidade, depois que me deixar?
Sabe que mente quando diz que a matei e sabe, Catherine, que me
seria mais fácil esquecer-me da minha própria existência
do que de você! Não basta ao seu egoísmo infernal
que, enquanto descansa em paz, eu agonize nos tormentos do inferno?
- Não descansarei em paz - gemeu Catherine, desperta para
o sentimento de fraqueza física pelo pulsar violento e arritmado,
que batia de forma audível e visível, devido ao excesso
de agitação. Nada mais disse até o término
do paroxismo. Então, continuou, mais branda. - Não
lhe desejo tormento maior do que o que eu passei, Heathcliff. Queria
apenas que não mais nos separássemos. E, se uma única
palavra minha o fizer sofrer daqui em diante, pense que eu sentirei
o mesmo sofrimento debaixo da terra e, por amor a mim, perdoe-me!
Venha cá e ajoelhe-se de novo! Nunca me magoou na vida. Não,
se me alimentou ira, será uma recordação mais
terrível do que as minhas duras palavras! Não quer
vir para perto de mim outra vez? Venha!
Heathcliff aproximou-se do encosto da sua cadeira, e se inclinou
por cima, mas não tanto para que ela pudesse ver-lhe o rosto
lívido de emoção. Ela se virou para olhá-lo,
mas ele não o permitiu, voltando-se de súbito e caminhando
até a lareira, onde ficou parado, silencioso, de costas para
nós. O olhar da Sra. Linton o seguiu, desconfiado, pois qualquer
movimento dele lhe despertava novas emoções. Depois
de o haver olhado por um tempo considerável, recomeçou
a falar, dirigindo-se a mim, num tom de indignado desapontamento.
- Oh, está vendo, Nelly, ele não cede por um momento
sequer, ainda que seja para manter-me fora da sepultura. É
dessa maneira que sou amada! Bem, não importa. Esse não
é o meu Heathcliff. Amarei o meu apesar de tudo, e o levarei
comigo, pois está na minha alma. E, - acrescentou, pensativa
- o que mais me aborrece, no final das contas, é esta prisão
decadente. Cansei-me de ficar aqui trancada. Exauri-me tanto, que
é melhor ir para aquele mundo glorioso, e ficar lá
para sempre, e não vê-lo vagamente por entre lágrimas,
nem desejá-lo presa entre as paredes de um coração
dolorido, mas estar com ele e nele. Nelly, julga-se melhor e mais
feliz do que eu, em plena saúde e vigor, e lamenta-se por
mim... mas muito em breve a ordem das coisas se inverterá.
Eu é que vou lamentá-la. Numa posição
além e acima de todos de forma incomparável. Posso
adivinhar porque ele não se aproxima de mim! - continuou,
para si mesma. - Achei que quisesse ficar perto de mim, Heathcliff,
querido! Não fique zangado. Venha para mim, Heathcliff.
Na sua ânsia, levantou-se e apoiou-se no braço da cadeira.
Àquele apelo sincero, Heathcliff se voltou para ela, em total
desespero. Os olhos arregalados e úmidos, afinal, fixaram-se
nela como se fossem fuzilá-la; o peito arfava em convulsão.
Por um momento, ficaram separados, e então, como se juntaram,
mal pude ver, mas Catherine deu um salto e ele a pegou, e permaneceram
unidos num abraço apertado, de que achei que a minha patroa
não sairia com vida: de fato, parecia ter perdido os sentidos.
Ele se atirou na poltrona mais próxima, e, quando acorri
para ver se ela desmaiara, ele arreganhou os dentes e espumou como
um cão raivoso, apertando-a contra o corpo, num ciúme
voraz. Julguei que não estava diante de uma criatura da minha
própria espécie: parecia que ele não estava
entendendo, embora eu lhe dissesse. Então, afastei-me e calei-me
em total perplexidade.
Um movimento de Catherine aliviou-me um pouco: ela levantara a mão
para enlaçar o pescoço de Heathcliff, que a segurava
nos braços, e para aproximar-lhe o rosto do seu, enquanto
ele, por sua vez, cobrindo-a com frenéticas carícias,
disse com selvajaria:
- Agora mostrou o quanto tem sido cruel... cruel e falsa. Por que
me desprezou? Por que traiu o seu próprio coração,
Cathy? Não tenho nenhuma palavra de consolo. Fez por merecê-lo.
Matou a si mesma. Sim, pode beijar-me e chorar, arrancar-me beijos
e lágrimas que irão arruiná-la... irão
amaldiçoá-la. Amou-me... então, que direito
tinha de abandonar-me? Que direito, responda-me... em troca de pobres
caprichos que nutria por Linton? Porque nem a miséria, a
degradação, a morte, nem nada que Deus ou Satanás
pudesse infligir nos teria separado, mas você, de livre e
espontânea vontade, o fez. Não parti o seu coração:
você mesma o partiu; e, fazendo isso, partiu também
o meu. Tanto pior para mim, que sou forte. Será que quero
continuar a viver? Que tipo de vida terei quando você... Oh,
Deus! Você gostaria de viver com a alma presa a uma sepultura?
- Deixe-me me paz, deixe-me em paz - soluçou Catherine. -
Se lhe fiz algo errado, vou morrer por isso. Já chega! Também
me abandonou, mas não o repreenderei por isso! Eu lhe perdôo.
Perdoe-me também!
- É difícil perdoar, e olhar para esses olhos e sentir
essas mãos esquálidas - respondeu. - Beije-me outra
vez, e não me deixe ver os seus olhos! Perdôo-lhe tudo
o que me fez. Amo a minha assassina... mas à sua, como eu
poderia perdoar?
Calaram-se, as faces ocultas, banhando-se mutuamente de lágrimas.
Tive a impressão de que ambos estavam aos prantos, pois parecia
que Heathcliff era capaz de chorar numa ocasião como aquela.
Entretanto, fui ficando apreensiva, pois a tarde passava rápido,
e o homem que eu despachara ao vilarejo já havia voltado,
e pude ver, à luz do sol poente que inundava o vale, inúmeras
pessoas aglomeradas na porta da capela de Gimmerton.
- O serviço religioso acabou - O meu patrão chegará
em meia hora.
Heathcliff rosnou um palavrão, e apertou Catherine ainda
mais. Ela não se moveu.
Logo vi um grupo de criados passando estrada acima, em direção
à ala da cozinha. O Sr. Linton não estava muito atrás,
abriu o portão e caminhou devagar, talvez para fruir da agradável
tarde, suave como se estivéssemos no verão.
- Agora ele está aqui! - exclamei. - Pelo amor de Deus, desça
depressa! Não encontrará ninguém nas escadas
da frente. Seja rápido e fique entre as árvores até
que ele entre.
- Preciso ir, Cathy - disse Heathcliff, procurando soltar-se dos
braços da companheira. - Mas, se eu sobreviver, virei vê-la
antes que adormeça. Não me afastarei nem cinco metros
da sua janela.
- Não pode ir! - respondeu, segurando-o o mais firme que
a sua força lhe permitia. - Não pode, não vai.
- Por uma hora apenas - suplicou ele, sério.
- Nem por um minuto, retrucou ela.
- Eu devo... Linton vai subir num instante - insistiu o intruso,
alarmado.
Fez menção de levantar-se e soltar-lhe os dedos à
força, mas ela o agarrou rápido, ofegante, com louca
determinação no rosto.
- Não! - gritou ela - Não se vá! Não
se vá! É a última vez! Edgar não nos
fará mal. Heathcliff, vou morrer! Vou morrer!
- Dane-se o idiota! Lá está ele! - exclamou Heathcliff,
voltando a afundar-se na poltrona. - Calma, querida! Calma, calma,
Catherine! Eu ficarei. Se ele por isso me matar, morrerei com uma
benção nos lábios.
E abraçaram-se outra vez. Ouvi o patrão subir as escadas
- escorria um suor frio pela minha testa. Estava em pânico.
- Vai dar ouvidos aos seus delírios? - disse eu, exaltada.
- Não sabe o que diz. Vai arruiná-la porque ela não
tem juízo e não sabe o que faz? Levante-se! Pode desvencilhar-se
num instante. Esse é o ato mais diabólico que você
já praticou. Estamos todos perdidos: patrão, patroa
e criada.
Torci as mãos e chorei. O Sr. Linton apressou o passo ao
ouvir o barulho que fazíamos. No meio da minha agitação,
fui muito grata ao ver que os braços de Catherine tinham
caído, relaxados, e que a sua cabeça pendia.
"Desmaiou ou morreu", pensei, "Ainda bem. Muito melhor
que tenha morrido do que continuar sendo um fardo e trazer infelicidade
para todos que a cercam."
Edgar investiu contra o visitante indesejado, pálido de perplexidade
e ira. O que ele tencionava fazer, não sei dizer. Entretanto,
o outro estancou todas as demonstrações, pondo-lhe
nos braços o corpo inerte de Catherine.
- Veja! - disse. - A menos que seja um demônio, ajude-a primeiro,
e depois fale comigo!
Ele entrou na sala de estar, e sentou-se. O Sr. Linton chamou-me
e, com grande dificuldade e depois de várias tentativas,
conseguimos fazê-la voltar a si, mas estava toda confusa,
suspirava, gemia e não reconhecia ninguém. Edgar,
na sua ansiedade, esqueceu-se do seu odiado amigo. Mas eu não.
Fui, na primeira oportunidade, ao seu encontro e pedi que partisse,
afirmando que Catherine estava melhor, e que eu diria, pela manhã,
como ela passara a noite.
- Não me recuso a sair - respondeu - mas ficarei no jardim.
E, Nelly, trate de cumprir com a sua palavra amanhã. Esperarei
debaixo daquele pé de larícios. Não se esqueça!
Ou farei uma outra visita, com Linton em casa ou não.
Deu uma rápida olhada pela porta entreaberta do aposento
e, vendo que o que eu dizia era aparentemente verdade, livrou a
casa da sua infeliz presença.
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