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Canja do Imperador,
de J.A. Dias Lopes (Companhia Editora Nacional; 446 páginas; 38 reais)
Diretor de redação da revista Gula e colunista gastronômico
do jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista José Antonio Dias Lopes
reuniu os melhores textos que escreveu para as duas publicações
nesse livro. Misturando crônicas e receitas, a obra é um passeio
cultural pela cozinha dos séculos, revelando as preferências e os
caprichos culinários de reis, papas, escritores, celebridades. Conta, por
exemplo, que Freud, o pai da psicanálise, apreciava passeios pelos bosques
em busca de cogumelos silvestres e que o conquistador Casanova consumia muitas
ostras para garantir seu desempenho sexual.
Leia
trecho Nunca
houve alguém que gostasse tanto de canja quanto o imperador Dom Pedro II.
Impossível calcular quantas vezes ele saboreou esse prato em 66 anos de
vida (1825-1891). Era um predileção tão forte que se tornou,
nos últimos tempos, o único prato de suas refeições.
Tanto fazia se era canja de galinha ou de macuco - ave brasileira como o peru,
conhecida pelo pio de uma nota só, pelo ovos azuis e pela carne deliciosa,
atualmente ameaçada de extinção e protegida por lei. O importante
é que fosse um sopa rica, capaz de dispensar pratos complementares. O imperador
a sorvia com surpreendente prazer para uma pessoa de paladar pouco exigente. Seus
olhos brilhavam de felicidade cada vez que levava á boca a colher de prata
com aquela saborosa combinação de arroz, caldo e carne. Contudo,
comia sempre com pressa. Em um dos capítulos da Antologia da alimentação
no Brasil (op. cit.), organizada pelo folclorista Luís da Câmara
Cascudo, o historiador Hélio Vianna assinala que o imperador se alimentava
rápido demais, geralmente sozinho ou acompanhado apenas pelos dois cadetes
da Escola Militar que o escoltavam nas saídas do Palácio de São
Cristóvão, no Rio de Janeiro. Se os rapazes não acompanhassem
o ritmo de Dom Pedro II, saíam da mesa com fome. "Pára a má
saúde de Dom Pedro II, em seus últimos anos de vida, terá
contribuído a pressa com que comia", afirma Hélio Vianna. Na
biografia intitulada Artur Azevedo e sua época (São Paulo: Saraiva,
1953.), o escritor R. Magalhães Júnior diz que o imperador ia ao
teatro para assistir companhias teatrais européias. Acompanhava o espetáculo
sem bocejar ou dormir, como seu avô Dom João VI, mas fazia questão
de saborear "uma canja quente entre segundo e o terceiro ato, que só
começava, por isso mesmo, ao ser dado o aviso de que Sua Majestade terminara
a ceiazinha". Órfão
de mãe com 1 ano de idade e tendo 6 anos quando pai, Dom Pedro I, abdicou
do trono do Brasil em seu favor, Dom Pedro II foi criado por aias, preceptores
e tutores. Teve educação particular severa e esmerada. Aprendeu
alemão, astronomia, ciências naturais, dança, desenho, direito,
equitação, esgrima, filosofia, francês, geografia, hebraico,
história, inglês, literatura, matemática, medicina, música,
piano, pintura e português. Homem
de cultura, afeiçoado às letras e artes, vivia entre os livros.
Financiou escritores e artistas, correspondeu-se com personalidades internacionais,
como o naturalista suíço Agassiz, o diplomata e homem de letra francês
Pasteur, pai da microbiologia, e o compositor alemão Wagner. Fez duas longas
viagens ao exterior, a primeira de maio de 1871 a março de 1872, a outra
de março de 1876 a setembro de 1877. Numa caricatura da época, aparece
gritando ao desembarcar em porto estrangeiro: "Onde estão os sábios?
Nesse país não há sábios? Quero ver os sábios".
Entretanto, não lhe ensinaram exercitar o paladar com receitas da cozinha
requintada - ou ele não se interessou por essa disciplina. Além
disso, era abstêmio. Para
satisfazer o apetite do nosso monarca, bastavam uma canjinha de galinha ou macuco
e alguns copos de água com açúcar. Hélio Vianna conta
ainda que o Barão de Paranapiacaba, com o qual Dom Pedro II realizou a
tradução de Prometeu acorrentado, do grego Ésquilo, surpreendeu-se
com a composição do refresco do qual o imperador se servia constantemente,
para enfrentar o calor carioca. Não passava de simples água com
açúcar, armazenada em um grande jarro. Nas viagens ao exterior -
sempre pagas por ele, sem jamais aceitar ajuda de custo - interessou-se por alguns
doces, todos muito simples. Na Espanha, por exemplo, elogiou "argolas de
pão-de-ló com açúcar". A
frugalidade do imperador, porém, não influenciava a corte e a sociedade.
No seu reinado, o Rio foi contagiado pela moda da culinária francesa. A
adoção dessa cozinha virou sinônimo de comer bem e, sobretudo,
de bom gosto. No segundo volume de História da alimentação
no Brasil (op. Cit.), Luís da Câmara Cascudo lembra que "um
prato levado à mesa devia Ter nome francês, ou não ser levado".
Sopas portuguesas eram chamadas de potages. Peru recebia o nome de dindon. Ao
longo de sua obra, o romancista Machado de Assis documenta as estrangeirices da
época, como croquete, maionese de peixe e rosbife, que qualificava de "bife
cru". Prato
de origem asiática, a canja veio para o Brasil depois de fazer escala em
Portugal. No seu Novo dicionário da língua portuguesa (Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1986.), Aurélio Buarque de Holanda Ferreira diz que a palavra
vem do malaiala kanji. É a língua falada em Malabar, na costa sul-ocidental
da Índia, onde ficava a colônia portuguesa de Goa. Significa arroz
com água. A kanji já aportou no Brasil levando carne de galinha,
também indiana. Na transmigração, a receita ainda foi acrescida
de alho, pimenta-do-reino, cebola, louro, batata e até cenoura. Atualmente,
há quem coloque no fundo do prato, antes de servir, um pão passado
na chapa e temperado com alho. No início, era comida para doentes e refeições
familiares. Depois, virou prato da jantares elegantes e ceias intelectuais. No
Brasil, a palavra ganhou novas acepções. "Dar uma canja"
é o mesmo que se apresentar de graça. Cantores profissionais fazem
isso em bares noturnos, após três ou quadro doses de uísque.
"Ser canja" tem o sentido de coisa fácil de conseguir. Outra
paixão do imperador foi o sorvete, introduzindo no Brasil a partir de 1834,
quando passou a chegar gelo natural. Vinha dos Estados Unidos, retirado de lagos
congelados. Os americanos desenvolveram uma tecnologia que solucionou o problema
de estocagem do gelo em navio e armazenamento no porto. Segundo Carlos Ditadi,
pesquisador do Arquivo Nacional, do Rio de Janeiro, que estuda o assunto, o sorvete
tinha duração efêmera. Ainda assim, chegava em volume suficiente
para revolucionar a doçaria carioca. A população o recebeu
com desconfiança, suspeitando que "queimasse as tripas". O preconceito
com sorvete só acabou quando D. Pedro II, ainda menino, obteve licença
de seus responsáveis para experimentar a novidade. Os
depósitos de gelo e as sorveterias foram se multiplicando no Rio de Janeiro.
A maioria ficava no centro da cidade. O italiano Antonio Francione, instalado
na Rua Direita, anunciava seu negócio intitulando-se "sorveteiro de
Sua Majestade". Crônicas da época dizem que o imperador preferia
o de pitanga. A fruta era colhida de árvores existentes na orla então
deserta de Copacabana. Mas existiam sorvetes de outras frutas tropicais, como
abacaxi, caju e coco. Segundo Hálio Vianna, o consumo excessivo de água
com açúcar, além de doces e sorvetes, contribuiu para que
Dom Pedro II "acabasse diabético". Não foi essa, porém,
a doença que o matou. O simpático imperador brasileiro morreu no
exílio, em um modesto hotel de Paris, amargurado pela saudade da pátria
amada, vitima de pneumonia contraída durante o inverno, no caminho da biblioteca
onde continuava a ler livros. |