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Anjos
Caídos, de
Tracy Chevalier (tradução de Beatriz Horta; Bertrand Brasil; 380
páginas; 39 reais) – Em seu romance de estréia, Moça com Brinco
de Pérola, a americana Tracy Chevalier construiu uma bela ficção
baseada no quadro homônimo do século XVII, do pintor holandês Johannes
Vermeer. Nesse segundo livro, ela faz outra reconstituição de época
competente – agora, do início do século XX. A abastada Kitty Coleman
costuma levar sua filha e uma amiga dela para brincar num cemitério
londrino. Em segredo, porém, Kitty e uma empregada da família usam
o local para encontrar seus amantes. Sob essa trama, o livro fala
das mudanças de valores por que passou a sociedade inglesa no final
da era vitoriana.
Leia trecho do livro
Janeiro
de 1901
KITTY
COLEMAN
Acordei,
hoje de manhã, com um estranho em minha cama. A cabeça
loura ao meu lado não era, definitivamente, a do meu marido.
Eu não sabia se ficava chocada ou encantada. Bom, pensei,
eis um jeito diferente de começar o novo século. Depois,
lembrei-me da noite anterior e me senti um tanto aflita. Fiquei
pensando onde Richard estaria naquela enorme casa e como iríamos
nos reencontrar. Todo mundo ali inclusive o homem ao meu lado tinha
bem mais experiência no mecanismo dessas coisas do que eu.
Do que nós. Como Richard brincara ontem à noite, ele
estava tão no escuro quanto eu, embora fosse mais esperto.
Bem mais esperto. Aquilo me fez pensar. Dei uma cotovelada no dorminhoco,
primeiro de leve, depois com mais força até ele acordar
com um ronco.
- Saia
- mandei. E ele saiu, sem dizer nada. Felizmente, não tentou
me beijar. jamais saberei como agüentei aquela barba na noite
passada, acho que o vinho tinto ajudou. Meu rosto ainda está
vermelho de arranhões. Quando Richard entrou no quarto, minutos
depois, segurando suas roupas numa maçaroca, mal consegui
olhar para ele. Estava constrangida e com raiva: com raiva por estar
constrangida e sem esperar que ele também se sentisse assim.
Foi mais irritante ainda porque ele só me deu um beijo e
disse - Olá, querida - e começou a se vestir. Richard
estava impregnado pelo perfume dela. Mesmo assim, não consegui
falar nada. Como eu sempre disse, sou uma liberal e me orgulho disso.
Essas palavras, naquele momento, pareciam morder. Fiquei deitada,
olhando Richard se vestir, e acabei pensando em meu irmão.
Harry sempre zombava de mim porque eu pensava demais, embora ele
não admitisse ser o único responsável por isso.
Todas aquelas tardes passadas revendo comigo o que os tutores lhe
haviam me ensinado de manhã (ele dizia que era para ajudá-lo
a se lembrar das lições) só podiam resultar
em uma coisa: ensinar-me a refletir e a dizer o que penso. Talvez,
depois, Harry tenha se arrependido. Jamais saberei. Acabo de chorar
a morte dele e há dias em que pareço ainda estar amassando
aquele telegrama nas mãos. Harry ficaria mortificado se visse
o resultado do que me ensinou. Não que alguém precise
ser inteligente para fazer isso, a maioria dessas pessoas é
burra como um balde de carvão, inclusive o meu citado barba-loura.
Não havia um com quem eu conseguisse ter uma boa conversa.
Precisei recorrer ao vinho. Sinceramente, é um alívio
não fazer parte dessa gente, já basta chapinhar nessa
água rasa de vez em quando. Desconfio que Richard pensa diferente,
mas, se queria essa vida, casou-se com a moça errada. Ou
talvez tenha sido eu que escolhi errado, embora nunca tenha pensado
assim, na época em que estávamos loucos um pelo outro.
Acho que Richard me obrigou a fazer isso para mostrar que ele não
é tão convencional quanto eu imaginava. Porém
o efeito foi inverso. Quando nos casamos, ele se transformou em
tudo que jamais imaginara. Virou um homem comum. Estou tão
desanimada. Papai e Harry ririam de mim, mas, no fundo, eu esperava
que a mudança de século nos transformaria a todos
e que a Inglaterra tiraria, por milagre, seu casaco preto e sem
graça e mostraria algo brilhante e novo. O século
XX existe há apenas onze horas e sei muito bem que o que
mudou foi só um número. Chega! Hoje, eles vão
andar a cavalo, o que não é para mim. Vou fugir para
a biblioteca com a minha xícara de café. Sem dúvida,
a biblioteca estará vazia.
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