O
Ninho da Serpente,
de Pedro Juan Gutiérrez (tradução de José Rubens Siqueira;
Companhia das Letras; 224 páginas; 37,50 reais) O cubano Pedro Juan
Gutiérrez quase não fala de política em seus livros
que mesmo assim são proibidos no seu país natal. Não é
para menos: Gutiérrez revela o submundo da ilha de Fidel, com suas prostitutas,
seus achacadores, seus miseráveis. Nessa nova obra, ele retrata a adolescência
de seu personagem favorito, o alter ego Pedro Juan, na cidade portuária
de Matanzas, nos anos 60. Filho de um sorveteiro, ele descobre a triste realidade
da ilha comunista, cortando cana ao longo de três anos de serviço
militar. Em compensação, como não pode deixar de acontecer
em um livro de Gutiérrez, Pedro Juan também passa por várias
aventuras sexuais.
Leia
trecho Capítulo
1 Eu
queria ser alguém e não passar a vida vendendo sorvete. Achei que
a solução seria aprender algum ofício. Alguma coisa que servisse
para fascinar as pessoas. E lia Como falar bem em público e conquistar
amigos, de Dale Carnegie. É preciso fascinar. Seduzir. Quem sabe falar
sempre puxa a sardinha para a sua brasa. Por isso os abrutalhados morrem dando
duro e não vão além disso. E os muito falantes se metem em
política e chegam a presidentes. Quem
me deu o livro foi um tio que partiu para Miami. Uma caixa cheia de livros velhos:
O poder da vontade, Hipnotismo para a vida cotidiana, Hinos e salmos
da Igreja Científica do Senhor, História da Real Polícia
Montada do Canadá, Como fazer boas fotos de família,
Biblioteca condensada do Readers Digest. Eu
gostava muito do tal livro sobre hipnotismo. Dizia que é possível
hipnotizar todo mundo e viver como um rei, de papo pro ar. Era perfeito. Seduzir
com lábia e hipnotizar com a mente. O carrinho de sorvetes era muito pesado,
o sol, o suor. Eu tinha quinze anos, mas era grande e forte. Aparentava vinte
e dizia sempre "tenho vinte anos". Ficava mais fácil. Na
época meus amigos me chamavam de Chupavelha, Carniceiro e Tinhosa. Culpa
minha mesmo, porque eu me exibia. "Da próxima vez tenho de ser mais
esperto. Nada de me exibir com putas velhas", pensava. Depois, aprendi a
ser mais discreto. A viver sozinho sem que ninguém conhecesse os meus segredos. Eu
morava na rua Magdalena, a uma quadra de La Marina, no bairro das putas, em Matanzas.
Tinham fechado aquilo tudo uns dois ou três anos antes. Tudo fechado: bares,
bordéis, bilhares, cassinos, clubes. Tudo. Quase não havia marinheiros
por ali. O porto logo ficou semiparalisado e o ambiente começava a ficar
insípido e confuso. Era o ano de 1965. Ninguém entendia muito bem
que porra estava acontecendo, nem para onde as coisas estavam indo. Era como um
barco à deriva, sacudindo em meio à tormenta. Sempre
gostei do bairro das putas. Bem barulhento. Corria dinheiro. Agora menos, com
poucas putas que permaneciam no ofício, tomando cuidado com a polícia.
Perto do rio havia um pequeno zoológico. O parque Watkin. Eu tinha pouco
que fazer. Às vezes atravessava o bairro das putas, chegava ao parque e
me sentava debaixo das árvores lendo meu livrinho. Tinha exercícios
de vocalização, dicção, improvisação
e memória. Era um bom lugar para praticar. Naquela
manhã eu estava distraído, lendo. De repente, passou a meu lado
um macaquinho pequeno e com rabo muito comprido. Guinchava e corria feito um desesperado.
Atrás, vinham dois funcionários com uma rede. Tinha escapado deles.
O macaco não sabia o que fazer e se enfiou dentro da jaula dos leões.
Os caras estavam com fome. Rugiram e deram patadas. O macaco fugiu a tempo. Trepou
pelas barras e subiu para o teto. Lá estavam os guardas esperando com a
rede. Não o pegaram por pouco. O macaquinho escapou de novo para baixo.
Um dos leões deu um salto e quase o mordeu. O macaquinho guinchou aterrorizado
e subiu de novo para a rede. E de novo conseguiu escapar e se enfiar dentro da
jaula. Eu gostava muito do que os leões faziam: ficavam deitados, em aparente
relax, com a cabeça levantada, mas tranqüilos, sem mexer nem um olho.
Quando o macaco descia, um dos leões, o mais próximo, dava um salto
incrível, de quase dois metros, e ao mesmo tempo estendia a pata num golpe
mortal. O macaquinho fugia aterrorizado e os leões esperavam tranqüilamente.
Me lembro sempre dessa cena. Nunca se deve fugir aterrorizado. É preciso
ter a serenidade alerta, a paciência astuta dos leões. Quem foge
aterrorizado vai direto para a morte. O
macaco repetiu o trajeto louco três ou quatro vezes. Não lhe ocorria
fugir para outro lugar. Só subia e descia pelas barras de ferro. Numa dessas,
um dos leões calculou bem e lhe acertou uma patada brutal. O macaco nem
chiou. Direto para a boca. Todos os ossos crepitaram selvagemente. O leão
engoliu o macaco em dois segundos. E se deitou de novo, muito digno, tranqüilo,
digerindo o lanche. Aqui não aconteceu nada. Da
outra jaula, ali ao lado, a macaquinha esposa do dissidente guinchava como se
estivessem tirando o couro dela. Dava saltos e se jogava contra a grade. Quando
viu que o leão tinha engolido o marido, começou a chorar. Encostou-se
nas grades da jaula soluçando desconsoladamente, como uma pessoa. Escalou
a grade até o alto. Pendurou-se pelo dedo indicador da mão esquerda
e soltou todo o corpo. Depressão total. Queria morrer e se pendurou para
esperar a morte. Eu
tinha assistido àquilo tudo dando risada. Era muito divertido. Não
entendia nada de amor, nem de boleros, nem de morte e sensações
de perda. Nada de nada. E portanto era cruel, impiedoso, ignorante e feliz. O
homem típico. Quer dizer, um imbecil perfeito. Num
banco na frente do meu havia se sentado uma mulher. Uma velha. Devia ter quarenta
e poucos anos, mas aparentava sessenta. Chorava feito uma madalena. Estava de
vestido sem alças, com os ombros descobertos, o uniforme das putas. Era
boa, mas muito ferrada. Machucada pela vida. Não tinha mais ninguém
por ali. Só nós dois. Eu era punheteiro. Batia quatro, cinco punhetas
por dia, olhando umas fotos da Brigitte Bardot. Os punheteiros quase sempre são
tímidos. Eu era muito tímido. Tímido demais. Mas o livro
dizia que os tímidos são perdedores em potencial. É preciso
arriscar. E me atirei. Com o coração batendo muito rápido,
quase me saindo pela boca, respirei fundo e disse:
Por que você está chorando? Por causa do macaquinho?
É. E por causa da macaquinha. Coitadinha. O
nariz dela escorria. Eu não tinha lenço. Ela também não.
Apertou com um dedo a fossa nasal esquerda, soprou forte e uma ostra amarela de
muco denso disparou para o chão. Fez a mesma coisa com a direita. Era uma
porca. Dava para ver a um quilômetro de distância. Limpou-se com as
costas da mão e me disse:
Ficou sozinha. E
começou a chorar de novo. Resolvi falar com intimidade. Ela não
merecia outra coisa.
Não chore. São animais, não sofrem.
Sofrem, sim. São filhos de Deus. Não está vendo a macaquinha,
como chora? E olhe o filho-da-puta do leão como está sossegado,
de barriga cheia.
O macaco foi muito burro e não conseguiu fugir. É a lei da natureza.
Este mundo não é para gente tonta e analfabeta.
Ai, como você fala bonito. Que inteligente! Enxugou
as lágrimas. Chupou o ranho e me deu um sorriso. Especial. Eu não
soube o que dizer. As instruções de Dale Carnegie já estavam
dando resultado, mas eu não sabia como continuar.
Está estudando?
Ééé... estou. Não. Não tenho nada para fazer.
Vendo sorvete, mas agora a fábrica fechou e... estou lendo um pouquinho.
Ahhh... Ficou
olhando para mim como se eu fosse o Marlon Brando e ela a Marilyn Monroe. Fiquei
vermelho e baixei os olhos.
Quantos anos você tem?
Vinte.
Não minta. Seu nariz vai crescer. Ela
estava ficando provocante. Olhei melhor. Tinha boa bunda, bons peitos, boas pernas.
Mas tudo machucado, sujo e meio mole. O rosto enrugado pela bebida.
É verdade! Tenho vinte!
Deve ter dezoito, no máximo... Acontece que você é grandão,
um monte de músculos. E muito sério. Por que você é
tão sério? Fiquei
vermelho de novo. Senti o rosto arder. Nunca tinha me acontecido uma coisa daquelas.
Como é o seu nome?
Pedro Juan.
Muito comprido. Posso chamar você de Pedro?
Pode.
Pedrito?
Pode.
Eu me chamo Dinorah.
E o que que você faz, Dinorah?
Nada.
Qual é a sua ocupação?
Nenhuma. Por que você é tão perguntador? Falou
isso sorrindo. Sorri também. Não tinha nada para dizer e estava
começando a ter uma ereção. Era assim o tempo todo. Eu vivia
de ereção em ereção. Talvez fosse muito imaginativo.
Como uma doença incontrolável. Olhando bem, gostava da velhusca.
Os olhos dela eram expressivos. Ria com o olhar.
Chegue mais perto, menino. Eu não mordo. Sentei-me
ao lado dela e pus o livro em cima da braguilha. Me incomodava que ela visse aquele
volume espetado para cima feito uma flecha. Mas ela me atacou com um direto no
queixo:
Logo se vê que você está com um tremendo atraso, papi. Olhou
em volta. Não havia ninguém. Estendeu a mão, agarrou meu
pau e apertou. Meu pau ficou ainda mais duro e meu coração disparou.
Tinha mãos hábeis. Dobrei a perna direita. Ela estava à minha
esquerda. Desceu o zíper da calça. Tirou o pau para fora. Olhou
e me disse:
Ai, menino, que pau mais lindo. Não é todo dia que se vê um
assim. Bateu-me
uma punheta de cabeça e num minuto soltei um jorro a dois metros de distância.
A piroca continuava dura. Não cedeu nem um milímetro. Ela me olhou
nos olhos e disse:
Logo se vê que você está bem alimentado. O que você come?
Carne de cavalo? Olhei
para ela. Estávamos os dois de olhos apertados.
O que vai fazer agora, papi?
Nada.
Guarde isso e vamos pra minha casa que eu vou te ensinar uma coisinha.
O quê?
É uma surpresinha. Prendi
o pau entre as coxas para ver se baixava. Mas ele ficou mais duro. Cada vez mais.
Estava doendo. Fui andando ao lado de Dinorah me cobrindo com o livro. Ela morava
muito perto. Tinha um quarto num cortiço da rua Velarde. Entramos. Ela
fechou a porta com dois ferrolhos. Acendeu uma lâmpada pendurada no teto.
Sentou-se na cama e me disse:
Tira a roupa, titi. Quero ver você inteirinho pra te dar a mamadeira. Engoli
em seco. Continuava com o coração disparado. Tirei a roupa e fiquei
no meio do quarto. Era uma sensação estranha e ambígua: nervoso,
tímido e medroso, mas ao mesmo tempo eu era o Super-Homem misturado com
o Tarzã. Ela me examinou atentamente de cima a baixo. Se ajoelhou e me
chupou o pau olhando para um espelho grande que havia na parede. Minha cabeça
estava em branco. Aí ela apagou a luz e ficou tudo escuro. O quarto não
tinha janelas. Tateando, ela me levou para a cama. Ficou por cima de mim e pouco
a pouco foi enfiando minha piroca para dentro até engolir tudo. Não
sei em que momento ela havia tirado a roupa. Eu
me sentia nas nuvens. Era a primeira vez que trepava. Meu pai sempre me dizia:
Não sei até quando você vai continuar virgem. Você não
gosta de mulher? Com tanta puta que tem neste bairro... Você vai se matar
de tanta punheta. Punheteiro depois não fica de pau duro com as mulheres. Dinorah
tinha um controle muscular fabuloso na vagina. Parecia uma mão. Uma tenaz.
Me apertava o pau, massageava, esticava. Tinha um creme natural, uma lubrificação
excessiva, e sugava. Era como uma mão, um alicate e uma boca. Três
em uma. Incrível aparelhinho! Ela devia patentear aquilo. Raríssimas
mulheres conseguem fazer aquilo. Uma bomba de sucção. Passamos
horas ali. Eu ejaculava e seguia em frente. Tinha ejaculado três vezes,
já. O pau duro. Uma vez ordenhado, era só músculo. Ela estava
desmaiando de tanto orgasmo, mas continuava. Muito gulosa. Pedia mais. Debaixo
da cama havia uma garrafa de aguardente. Ela me passava os goles direto da sua
boca. Um pouco fedida, mas o álcool neutralizava as emanações
de fígado apodrecido. Não
sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama e acendeu a luz. Antes
não tivesse acendido.
Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?
Gosto. Por
fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as coxas cobertas de varizes,
os peitos grandes e caídos, a pele suja e encardida, os dentes amarelos
e podres. Olhou para mim com as mãos na cintura e riu, descarada:
Gosta mesmo de mim? Olhe bem. E
deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere com todas as
medidas do cânone grego. Olhei bem para ela e me deu raiva de mim mesmo.
Ou asco. Não sei.
Uma puta velha é o que você é!
Ah, ficou enjoado depois de comer o doce-de-coco, é? Hahahá. Continue
comendo que é grátis, hahahá. Levantei
da cama e comecei a me vestir. De repente, estava furioso. Ela havia me enganado.
Por isso a luz apagada. Para eu não ver como ela era. Ela sabia que era
um trapo sujo de merda seca. Se aproximou de mim muito melosa, mas eu estava com
nojo. De mim mesmo, acho. A primeira vez que trepava e tinha de ser com aquele
vômito de cachorro. "Você é um cretino, Pedrito, um cretino,
e essa puta aí te enganou", eu dizia para mim mesmo.
Mas o que aconteceu, papi, por que você vai embora tão depressa?
Me deixe em paz.
Não gosta de mim? Aproximou-se
para me acariciar as costas. Me virei. Com a mão esquerda agarrei-a pela
nuca e com a direita meti-lhe umas quantas bolachas na cara. Duras. Bati com vontade.
Descarada, suja, porca, puta, desgraçada!
Ai, chulito mío, não faz isso que eu gozo. Ai, você
vai me matar! Olhe, como me escorre pelas pernas. Olhe, chulito, como você
sabe, filho-da-mãe! Quem te ensinou tudo isso? Abriu
as pernas e separou os lábios para me mostrar como lhe escorria líquido
pelas coxas. Fiquei ainda mais furioso porque a ereção estava voltando.
Olhe como está ficando a sua estaca, papi. Olhe só isso.
Pica de Ouro! Que pica mais linda, meu Deus! Apliquei-lhe
vários pescoções. Mas, quanto mais eu batia, mais frenética
ela ficava. E mais duro ficava meu pau. Ela gemia e se enroscava, fora do mundo.
Tirei o cinto. Aos empurrões, pus ela de bruços e dei-lhe um monte
de cintadas. Ela gritava feito uma cadela e me pedia:
Mete no meu cu. Ai, pare de me bater, seu atrevido! Menino malvado! Filho-da-puta.
Mete no meu cu. Você é um louco. Pica de Ouro! Eu sou filha dos maus-tratos.
Me bate mais com o cinto. Bate pra doer. Meti
no cu dela, na frente e na boca. Gostava daquela porca. Gostava e sentia nojo.
Me sentia bem e mal com ela. Queria beijar até os pés dela e me
excitava até com aquele hálito asqueroso de tabaco, de rum, de cebola
e alho, de dente podre. Queria tirar sangue dela. Gostava do cheiro de umidade,
de mofo, de merda e vômito do quarto dela, mas ao mesmo tempo queria dar
as costas para aquela coisa asquerosa e não voltar nunca mais. A luxúria
e o desespero. Continuamos
tomando aguardente e metendo. Horas e horas. Suando, alucinados, bêbados,
loucos, com o diabo no corpo. Ela apareceu com um pouco de maconha. Enchemos os
pulmões daquilo, até as tripas. Tudo com Dinorah. O mundo estava
rodando. Quando
saí do quarto, era noite. Eu não tinha relógio. Devia ser
de madrugada. As ruas vazias. Cheguei em casa desfalecido, suado, fedido, bêbado.
Quase inconsciente. Me joguei na cama e dormi na mesma hora, como uma pedra. |