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O livro Vida Ética, do polêmico filósofo Peter Singer, reúne textos escritos ao longo de trinta anos e compõe um quadro abrangente de seu pensamento. A obra também revela os motivos das hostilidades contra o autor, que considera justificáveis sob certas circunstâncias o aborto, a eutanásia e o infanticídio.

Leia trechos do livro

Vida Ética

Especialistas em Moral
Extraído de Analysis

A posição seguinte tem exercido grande influência na filosofia moral recente: não existe o que se chama especialidade em moral; e, principalmente, os filósofos morais não são especialistas em moral. Os mais destacados filósofos costumam fazer declarações desse teor:

É uma tolice, e também uma presunção, um filósofo, seja qual for o seu tipo, fazer pose de campeão da virtude. E esta é também uma razão pela qual muitas pessoas consideram a filosofia moral um assunto insatisfatório, pois elas se voltam equivocadamente para o filósofo moral, em busca de orientação.

Ou ainda deste outro:

Não faz parte da atividade profissional dos filósofos morais dizer aos indivíduos o que devem ou não devem fazer. Na qualidade de filósofos morais, eles não dispõem, quanto ao certo e ao errado, de nenhuma informação especial que não esteja ao alcance do grande público; tampouco trazem a vocação para assumir aquelas funções exortatórias realizadas de forma tão adequada pelos clérigos, políticos, escritores-líderes...

Declarações como essas são comuns; menos comuns são os argumentos que lhes dão sustentação. O papel do filósofo moral, segundo nos advertem, não é o mesmo do pregador. Mas por que não? O motivo não pode ser, decerto, como parece sugerir C. D. Broad, o fato de o pregador estar fazendo esse trabalho "de forma tão adequada". Se na mente do público a palavra "moralidade" passou a significar um sistema de proibições contra certas formas de fruição sexual, foi em razão do mau desempenho dessas pessoas consideradas pelo público como "líderes morais da comunidade".

Outro possível motivo para insistir em que os filósofos morais não são especialistas em moral é a noção de que os juízos morais são puramente emocionais, e que em sua formação a razão não desempenha nenhum papel. Historicamente, essa teoria pode ter sido importante para moldar a concepção de filosofia moral que temos na atualidade. Obviamente, se os pontos de vista morais de alguém são tão bons quanto os dos demais, não poderá haver especialistas em moral. Entretanto, são poucos os filósofos que endossam uma versão tão grosseira do termo emocionalismo hoje em dia, se é que algum dia ela foi endossada por muitos. Nem mesmo os pontos de vista de C. L. Stevenson implicam que as concepções morais de alguém sejam tão boas quanto as dos demais.

Um argumento mais plausível contra a possibilidade da existência de uma especialidade moral pode ser encontrado num ensaio de Ryle intitulado "Sobre esquecer a diferença entre o certo e o errado", que foi publicado em Essays on Moral Philosophy [Ensaios sobre a Filosofia da Moral), e editado por A. Melden. Ryle argumenta que o conhecimento da diferença entre o certo e errado envolve uma preocupação com esta questão, e assim, de fato, não se trata de um genuíno caso de conhecimento. Não podemos, por exemplo, esquecer a diferença entre o certo e o errado; tudo o que podemos é deixar de preocupar-nos com ela. Por conseguinte, na opinião de Ryle, o homem honesto não é "de forma alguma um especialista, seja lá no que for".

É significativa a afirmação de Ryle de que "O homem honesto" não é um especialista, e mais adiante ele irá declarar o mesmo sobre "o homem caridoso". Sua conclusão teria tido menos plausibilidade inicial se ele tivesse dito "o homem moralmente bom". Ser honesto e ser caridoso são freqüentemente questões simples, em termos comparativos - embora talvez não tão freqüentemente quanto ele parece pensar -, que talvez todos possamos fazer, se nos importarmos com elas. É só nas ocasiões em que, digamos, a honestidade entra em choque com a caridade (se um homem rico me paga a mais, devo alertá-lo ou devo doar o dinheiro para o alívio da fome?), que surge a necessidade de reflexão e argumentação. Um homem moralmente bom deve saber como resolver esses conflitos de valores. A preocupação em fazer o correto é, naturalmente, essencial, sem que, porém, seja suficiente, conforme indicam os numerosos exemplos históricos de homens bem-intencionados, porém mal orientados.

Só não haveria a necessidade de o homem moralmente bom ser um homem ponderado se o código moral de nossa sociedade fosse perfeito e indiscutível, tanto em seus princípios gerais quanto em sua aplicação a casos específicos. Então este homem poderia simplesmente viver de acordo com o código, sem necessidade de reflexão. Se, entretanto, há motivo para crer que a sociedade em que vivemos não dispõe de normas perfeitas, ou se não existem normas consensuais sobre uma grande variedade de questões, o homem moralmente bom terá que tentar elaborar por si mesmo a questão daquilo que lhe compete fazer. Essa "elaboração" é uma tarefa difícil, pois requer, antes de mais nada, informação: eu posso, por exemplo, ter dúvidas sobre se é correto o hábito de comer carne. Eu teria mais probabilidade de tomar a decisão correta, ou pelo menos uma decisão bem fundamentada, se soubesse de uma série de fatos sobre a capacidade dos animais para sofrerem, e sobre os métodos de criação e abate em vigor na atualidade. Talvez me interesse obter informação sobre os efeitos da dieta vegetariana na saúde humana e, considerando a escassez de alimentos no mundo, talvez queira saber se seriam produzidos maiores ou menores quantidades de alimento mediante a suspensão da produção de carne. Obtidas as evidências sobre essas questões, devo avaliá-las e adicioná-las às convicções morais que tenho, sejam elas quais forem. Dependendo do método de raciocínio moral que eu utilize isto pode envolver um cálculo do curso de ação que irá produzir mais felicidade ou menos sofrimento; ou pode significar uma tentativa de me colocar na posição daqueles que são atingidos por minha decisão; ou talvez possa levar-me a tentar "pesar" o conflito de deveres e interesses. Seja qual for o método empregado, devo estar consciente da possibilidade de que o meu próprio desejo de comer carne pode tornar parcial minha deliberação.

Nenhum desses procedimentos é fácil - nem a coleta de informações, nem a seleção da informação relevante, nem a combinação de ambas numa postura moral básica, nem a eliminação da parcialidade. É de se esperar, com certa razão, que alguém habituado a conceitos morais e argumentação moral, que disponha de tempo para reunir informação e refletir sobre ela, chegue a uma conclusão solidamente fundamentada com uma freqüência mais alta que a de alguém pouco habituado a conceitos morais e argumentos morais, e que não disponha de muito tempo. Nesses termos, a especialidade em moral pareceria ser possível. O problema não consiste tanto em saber "a diferença entre o certo e o errado" quanto consiste em decidir o que é certo e o que é errado.

Se é possível existir a especialidade em moral, teriam os filósofos morais o direito de proclamar que não? Para o homem comum, seria tão provável tomar-se um especialista em questões morais quanto o é para o filósofo moral? Com base no que acaba de ser dito, parece que o filósofo moral detém algumas vantagens importantes em relação ao homem comum. Em primeiro lugar, sua formação geral como filósofo iria torná-lo muito mais competente que o homem comum na argumentação e na identificação de inferências inválidas. Além disso, sua experiência específica em filosofia moral lhe daria uma compreensão de conceitos morais e da lógica da argumentação moral. A possibilidade de surgir uma séria confusão, se nos envolvermos na argumentação moral sem termos uma clara compreensão dos conceitos empregados, já foi suficientemente enfatizada na filosofia moral recente e não precisa ser demonstrada aqui. A clareza não é um fim em si, mas é um auxiliar da argumentação sólida, e a necessidade de clareza é algo que os filósofos morais têm reconhecido. Finalmente, há o simples fato de que o filósofo moral pode, caso queira, pensar em tempo integral sobre questões morais, ao passo que a maioria das pessoas tem alguma outra ocupação a cumprir, que interfere na reflexão. Pode parecer ocioso insistir nisso, mas não é. Acho que é muito importante. Se vamos formar juízos morais utilizando alguma base que não nossas intuições irrefletidas, necessitamos de tempo, tanto para reunir fatos quanto para refletir sobre eles.

Os filósofos morais têm, por conseguinte, certas vantagens que, diante de quem não as tem, poderiam transformá-los em especialistas em matéria de moral. Evidentemente, para serem especialistas em moral, seria necessário aos filósofos morais fazer alguma coleta de dados sobre a questão de que estivessem cogitando. Em vista de sua prontidão a lidar com questões normativas, e a examinar fatos relevantes, seria de espantar que os filósofos morais não fossem, em geral, mais aptos que os não-filósofos a chegarem às conclusões morais corretas, ou firmemente fundamentadas. De fato, se assim não fosse, caberia perguntar se a filosofia moral valeria a pena.


 
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