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Esquetes de Nova Orleans, de William Faulkner (tradução de Leonardo Fróes; José Olympio; 240 páginas; 27 reais) – Esse volume é uma espécie de retrato do artista quando jovem. O americano Faulkner, principal autor sulista, ao lado de Mark Twain, a figura no panteão da literatura de seu país, o escreveu quando tinha 27 anos e se iniciava na ficção. O livro contém dezesseis textos publicados num jornal de Nova Orleans em 1925, e anuncia de forma admirável as fixações temáticas e estilísticas do Faulkner da maturidade – dos dramas intensos à prosa repleta de imagens simbólicas.Pena que o tradutor tenha tomado a decisão, muito questionável, de adotar termos extemporâneos, como "pô", "xongas", "meu chapa" e "qualé".

Leia trechos do livro

Sobre os Esquetes

Em 1925, Com VINTE E SETE anos de idade, William Faulkner, que até então tinha sido quase exclusivamente poeta, começou a publicar ficção. Durante esse ano, no qual viveu por seis meses em Nova Orleans, ele colaborou com um jornal da cidade, o Times-Picayune, em cuja seção dominical de variedades publicou dezesseis contos e esquetes assinados. São textos de particular interesse; alegrei-me por isso ao dar com eles nos arquivos do Picayune, exatamente um quarto de século após sua publicação, e sou grato a Mr. George W. Healy Jr., então editor-chefe do jornal, por logo me conceder permissão para reproduzi-los.

Antes que isso se tornasse possível, porém, a equipe de Faulkner Studies, tendo sabido da existência de onze dos dezesseis esquetes, reimprimiu-os em 1953 como Mirrors of Chartres Street by William Faulkner. Em 1955, depois de mais dois esquetes do Picayune, do tipo dos Mirrors, lhes terem sido levados à atenção, os mesmos editores os republicaram num volume intitulado Jealousy and Episode: Two Stories by William Faulkner, repondo assim em circulação, em dois volumes, treze dos esquetes. Tais reimpressões ainda deixavam de fora, esquecidos na coleção de 1925 do Picayune, três contos longos e assinados de Faulkner, além de conterem muitos erros de leitura, omissões e acréscimos. Parece portanto útil, agora, juntar todos os dezesseis esquetes num só livro de texto mais apurado. Acrescente-se que este livro reimprime também "New Orleans", um conjunto de vinhetas que Faulkner publicou no número de janeiro-fevereiro de 1925 de The Double Dealer, revista literária de Nova Orleans.

William Faulkner tinha encerrado uma fase de sua vida quando chegou a Nova Orleans em 1925. Três anos antes, voltara de Nova York para sua terra, para trabalhar como agente temporário do correio na Universidade de Mississippi; e para fazer um concurso, em 3 de dezembro de 1921, que o efetivaria no cargo. Na primavera seguinte ele já se tornara agente permanente, situação que manteve até pedir demissão, em 31 de outubro de 1924. Não foi uma experiência agradável e, imediatamente após deixar o emprego, Faulkner fez sua famosa observação sobre o alivio de não mais estar à disposição de todos que, naquela época de módicas tarifas postais, tivessem dois centavos na mão. Parecia também contente por ficar livre para dar-se em tempo integral à escrita - livre, como disse a um amigo no dia seguinte à sua demissão, para observar nas ruas o colorido da vida, para pegar o seu cachimbo e papel e poder sonhar e escrever. Em seus comentários para esse amigo, ele acrescentou que não pretendia mais ser controlado pelo relógio nem pela rotina diária de um emprego convencional.

Outro amigo, Phil Stone, lembra-se de que Faulkner fora para Nova York, antes do emprego no correio, não apenas para estudar artes gráficas, mas também para ficar mais perto de editores que poderiam aceitar sua poesia. Agora, com o fim do trabalho como agente, ele aparentemente decidira viajar à Europa, talvez agindo, como sugere Phil Stone, a partir do princípio de que uma boa maneira de obter reconhecimento literário nos Estados Unidos é consegui-lo primeiro no exterior, princípio que já servira a Robert Frost - e que mais tarde serviria ao próprio Faulkner por vias que então ninguém podia prever. E possível também que Faulkner tenha decidido juntar-se a outros exilados na Europa, em reação ao estado da vida literária na América, pois ele falou desabridamente disso num ensaio publicado pela Double Dealer de Nova Orleans quase em sua chegada à cidade:
O crítico americano... toma a obra em exame por um instrumento no qual tocar difíceis arpejos de virtuosismo. Isso parece tão superficial, tão inútil...

Na Inglaterra eles fazem esse tipo de coisa muito melhor do que na América! Claro que na América há críticos igualmente sensatos e tolerantes e bem-aparelhados, mas com poucas exceções eles não têm status: são ignorados pelas revistas que estabelecem o padrão; ou eles, julgando as condições insuportáveis, ignoram as revistas e vivem no exterior. Em recente número de The Saturday Review, Mr. Gerald Gould, resenhando The Hidden Player, de Alfred Noyes, diz: "As pessoas não falam assim... Não há como fixar a fala comum de pessoas comuns; o resultado em geral seria enfadonho... Dar o detalhe fatal é enganador.” Eis aí a essência da crítica. Tão justa e clara e completa: nada mais há a ser dito. Uma crítica que não só o leitor, mas também o autor, pode ter com proveito. Mas que crítico americano se deixaria ir por aí? A resenha inglesa critica o livro, a americana, o autor. O crítico americano impinge ao público leitor um bufão desnaturado, em cuja sombra se ocultam vagamente os títulos de vários volumes por abrir. Certamente, se há duas profissões nas quais não deveria haver inveja profissional, são elas a prostituição e a literatura.


 
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