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Quando
Éramos Adultos, de Anne Tyler (tradução
de Ana Puccini Lara; Arx; 356 páginas; 38 reais) Poucos
autores americanos em atividade conseguem tratar dos dilemas da
classe média de seu país com a agudeza de Anne Tyler.
A escritora fez disso a razão de ser de sua obra que
inclui, dentre quinze títulos, o best-seller O Turista
Acidental, transformado em sucesso no cinema. Quando Éramos
Adultos não foge à regra. No centro do romance
está Rebecca, mulher de meia-idade que descobre, quando já
é avó, que se tornou uma pessoa que nunca quis ser.
Na juventude, ela se casou com um homem divorciado e pai de três
filhos. Depois que o marido morreu, Rebecca ficou na posição
de matriarca da família um clã um tanto desajustado.
Com humor e sarcasmo, a escritora mostra o esforço tardio
da protagonista para recuperar o tempo perdido.
Leia
trechos do livro
1
Era
uma vez uma mulher que descobriu que havia se tornado a pessoa errada.
Tinha
cinqüenta e três anos na época - uma avó.
Grande e suave, com covinhas no rosto e duas pequenas mechas de
cabelo seco e liso que se avolumavam quase horizontalmente do meio
da cabeça. Rugas de riso no canto dos olhos. O estilo solto
e colorido de vestir-se quase a fazia parecer-se com uma sacola
de viagem.
Dêem
crédito a ela: a maioria das pessoas de sua idade diria que
era demasiado tarde para qualquer mudança. O que está
feito está feito, muitos diriam. Não adianta tentar
mudar as coisas a essa altura do campeonato.
Ocorreu
a Rebecca dizer a mesma coisa. Mas ela não disse.
No
dia em que fez sua descoberta, ela estava num piquenique à
beira do rio North Fork, no interior do condado de Baltimore. Era
um domingo frio e ensolarado do início de junho de 1999,
e sua família havia se reunido para celebrar o noivado da
mais jovem enteada de Rebecca, NoNo Davitch.
Os
carros dos Davitch estavam estacionados em círculo, como
carroças de pioneiros preparadas para um ataque de peles-vermelhas.
Seus cobertores foram espalhados na grama; garrafas, sacolas térmicas
e equipamentos esportivos amontoavam-se sobre a mesa de piquenique.
As crianças brincavam à margem do rio, um grupo barulhento
e estabanado, e os adultos mantinham-se a certa distância.
Sozinhos ou aos pares, eles se agitavam por ali, arrumando seus
pertences, disputando lugares ao sul, caminhando de um lado para
outro do jeito sorumbático típico da família
Davitch. Uma das enteadas estava sozinha na minivan. Um dos genros
fazia alongamento na pista de jogging. O tio-avô cutucava
o solo com a ponta da bengala.
Minha
nossa, o que o Barry iria pensar? (Barry, o noivo). Ele pensaria
que desaprovavam seu casamento com NoNo.
E
teria razão.
Não
que os Davitch se comportassem de forma muito diferente em outras
ocasiões.
Barry
estava com o cobertor só para ele, porque NoNo esvoaçava
em outro lugar. A mais miúda e bonita das Davitch - um verdadeiro
beija-flor - voou primeiro para junto de uma de suas irmãs
e depois para a outra, abaixando sua coroa de cabelos escuros brilhantes,
sussurrando com urgência.
Talvez
murmurando: Goste dele, por favor. Ou: Pelo menos
faça-o sentir-se bem-vindo.
A
primeira irmã ocupou-se de repente, buscando alguma coisa
dentro de uma cesta. A segunda pôs a mão na testa,
como se protegesse os olhos da claridade.
Rebecca,
que afinal ganhava a vida organizando festas, sentiu que não
tinha saída a não ser bater palmas e dizer alto:
- Vamos lá, pessoal!
Vagarosamente,
eles se viraram para ela. Rebecca pegou uma bola de beisebol que
estava sobre a mesa e ergueu-a. Não, era maior do que uma
bola de beisebol. Bem, era de softbol; sem dúvida propriedade
do genro que se alongava, pois era professor de educação
física na escola secundária local. As bolas eram todas
iguais para Rebecca; ela nunca havia sido do tipo esportista.
Está na hora de um joguinho, minha gente! - gritou. - Barry,
NoNo, venham para cá. Digamos que esta pedra seja a base
principal. Zeb, leve aquele tronco para onde deve ser a primeira
base. A sacola de lona pode ser a segunda, e a terceira... Alguém
tem alguma coisa que possamos usar?
Eles
resmungaram, mas não se mexeram.
Vamos
lá, pessoal! Ânimo! Precisamos gastar todas as calorias
que vamos ingerir daqui a pouco!
Em
câmara lenta, começaram a obedecer, levantando-se de
seus cobertores e andando para onde ela apontava. Ela se virou para
a pista de jogging, e gritou:
- Ei,
Jeep! - Ele parou de esfregar o joelho robusto e olhou-a de esguelha.
- Venha para cá! Estamos organizando um jogo de softbol!
- Ali, Beck - disse ele. - Eu estava pensando em dar uma corrida
agora. - Mas assentiu e veio andando lentamente em sua direção.
Enquanto
Jeep acertava o lugar das bases, Rebecca foi tentar convencer a
enteada que estava na minivan a participar do jogo. A enteada, por
sinal, era a mulher de Jeep. Rebecca torcia para que não
fosse, mais uma das brigas bobas deles.
- Minha
querida - disse ela, delicadamente. Caminhava devagar no capim alto,
levantando a saia comprida vermelha no estilo indiano. - Patch,
abaixe o vidro. Você consegue me ouvir? Aconteceu alguma coisa?
Patch
virou-se e encarou Rebecca. Dava para ver que estava com calor.
Mechas de cabelo escuro grudavam em sua testa, e o rosto sardento
e de traços bem definidos brilhava de suor. Mesmo assim,
não fez nenhum movimento para abrir a janela. Rebecca agarrou
a maçaneta e puxou-a, felizmente antes de Patch pensar em
baixar o trinco da porta.
- Vamos
lá! - disse Rebecca empolgada. - O que está havendo?
- Será que não se pode ter um minuto de paz nessa
família? - disse Patch.
De
camiseta listrada e jeans apertado, Patch parecia ter quatorze anos,
embora estivesse com trinta e sete. E se comportava como se tivesse
quatorze - Rebecca não pôde evitar esse pensamento,
e tudo o que disse foi:
- Venha
com a gente. Vamos jogar softbol.
- Não, obrigada.
- Seja boazinha...
- Pelo amor de Deus, Beck, você não sabe que eu detesto
isso?
- Detesta? - repetiu Rebecca alegremente, preferindo fazer-se de
desentendida. - Mas você é ótima desportista.
Nós não sabemos nem onde pôr as bases. O pobre
Jeep está tendo de fazer tudo sozinho.
Não
sei por que temos de celebrar o casamento da minha irmãzinha
com um... com um...
As
palavras pareciam faltar-lhe. Ela cruzou os braços bem apertados
sobre o peito chato e olhou para frente de novo.
- Com
quem? - perguntou Rebecca. - Um homem bom, decente, educado. Um
advogado.
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