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Port Mungo, de Patrick McGrath (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 264 páginas; 42,50 reais) – Filho de um psiquiatra, McGrath traçou impressionantes retratos da loucura em romances como Manicômio e Spider. Em Port Mungo, o autor inglês volta a tratar de uma mente perturbada, dando um toque "gótico" e original ao velho tema do flerte entre gênio artístico e insanidade. O personagem central é Jack Rathbone, um jovem pintor que abandona o elegante meio artístico de Nova York, nos anos 50, para viver, à la Gauguin, em uma ilha tropical de Honduras com sua amante Vera Savage. Quem conta a história é Gin, a devotada irmã de Jack – e ela nem sempre é confiável na sua versão dos fatos, o que só incrementa o clima de mistério do livro.

Leia trecho

Capítulo 1

Quando voltou a Nova York pela primeira vez, e isso já faz vinte anos, meu irmão Jack estava numa espécie de estupor, pois chegou pouco depois de morte de Peg, sua filha. O que se pode dizer a respeito da morte de um filho? A menina tinha dezesseis anos, o impacto em todos nós e principalmente em Jack, claro, foi devastador. Quando vislumbrei o tamanho de sua dor, depois que o choque inicial passou e ele se deu conta de que o aguardavam árduos dias vazios e terríveis - todo o sentido, a esperança e o prazer ausentes da vida -, tentei me aproximar, chamando do outro lado do que parecia ser um abismo, e recebi somente a mais tênue das respostas, o que talvez não passasse apenas de um eco; eu não sabia o que dizer para trazê-lo de volta ao convívio com o mundo, e mais imediatamente comigo, sua irmã. Suponho que não haja muito a dizer.

Entretanto, nunca temi por sua sanidade. Nunca temi que fosse capaz de se ferir, e por um motivo: ele amava o trabalho. A primeira tentativa desanimada e relutante de se reestruturar foi acompanhada pela volta ao ateliê, um loft que eu havia alugado para ele num prédio antigo que servira como depósito, na Crosby Street. Lembro-me de observá-lo silenciosamente, enquanto fazia esboços; a distração proporcionada por aquela atividade tão familiar trazia alívio palpável a sua alma sofrida. Sentada no salão, eu tomava chá e tentava conversar enquanto ele balançava a cabeça, resmungava e montava as molduras; no dia seguinte ele cortou as telas e começou a grampeá-las nas molduras, e novamente era eu quem estava ali sentada a seu lado, falando ou em silêncio, conforme sua preferência, um simples vulto familiar no mesmo lugar desolado durante os dias lentos e penosos. Eu também estava lá quando ele misturou tinta num balde, óxido de ferro e pigmento preto, que diluiu com terebintina até obter consistência de sopa, e me lembro de como ele virou os pincéis com os dedos, passando os pêlos na palma da mão. Descobrira pincéis usados numa loja de ferramentas em Chinatown, a algumas quadras a leste dali, pincéis grandes para serviços de decoração, amaciados pelo longo tempo de uso.

Ao observá-lo, percebi nas suas mãos o efeito dos anos em Port Mungo. Elas haviam sido como as minhas, nossa melhor característica, eu costumava pensar: magras, compridas, com dedos finos sempre a tamborilar, ossos alvos e elegantes intricadamente articulados para lidar com o violino ou quem sabe a caneta-tinteiro. As minhas seguiam brancas como sempre; as de Jack, em contraste, tornaram-se entidades puramente funcionais, feito ferramentas empregadas em serviços diários a exibir as marcas do uso: lascadas e gretadas, unhas córneas, pele bronzeada, tinta velha grudada nos cantos das unhas, costas salpicadas de pêlos duros cor de palha. Conforme ele balançava a cabeça e resmungava eu me dava conta de que por dentro e por fora o homem havia sido igualmente marcado e embrutecido. Considerei que ele passara anos demais sob o sol cáustico daquela cidade decadente.

Um dia, de modo absolutamente inesperado, ele me disse que não queria mais que eu aparecesse no ateliê. Alegou que eu o sufocava—imagine, eu, sufocá-lo! Magoei-me com a rejeição abrupta e a falta de gratidão, mas não fiquei muito surpresa. Isso confirmou que os anos em Port Mungo em nada ajudaram a civilizá-lo; na verdade fiquei com a nítida impressão de que ele destruíra deliberadamente em si todos os traços restantes do trato social aprendidos na infância, num país que não considerava mais seu lar. Só após seis semanas sem dar sinal de vida ele me ligou e convidou para tomar um drinque.

Encontramo-nos num bar da Lafayette Street, e devo dizer que seu estado me preocupou. Em seis semanas ele se transformara num espectro, sem carne nenhuma sobre os ossos. Sufoquei a onda de irritação que sua aparência provocara em mim e invoquei o costumeiro alvoroço de enfadonha preocupação. Escolhemos uma mesa discreta nos fundos do bar, ele tirou os óculos e vi em seus olhos algo que só posso chamar de ausência de espírito; suspeitei que aquilo tinha a ver com outras causas que não a dor. Esperei que ele falasse. Jack brincava com o cigarro. Os dedos amarelados tremiam quando ele ergueu o copo até os lábios e tomou a vodca num único gole.

"Qual é o problema, Jack?"

Ele disse algo sobre não conseguir comer, dormir, trabalhar nem pensar mais direito...

"Por que não?"

Ele pregou os olhos em mim, depois virou a cabeça de lado. Eu conhecia bem o gesto. Fora aprimorado anos antes para enfatizar as profundezas de um tormento que mortal algum jamais poderia compreender, um sentimento reservado a poucas almas escolhidas. Esse gesto já me intimidara antes.

"Você não está se injetando, não é?"

Por um momento pareceu que ele ia se levantar da cadeira num acesso de raiva e sumir na noite para se flagelar ainda mais, pois ninguém o compreendia. Tinha quarenta anos! Mas faltava-lhe ânimo para a saída espetacular. Pensei que talvez precisasse de dinheiro, que era só isso. Eu pagava o aluguel e lhe dava uma mesada, havíamos acertado assim imediatamente após seu retorno à cidade, mas talvez estivesse viciado e precisasse de mais.

"Não, Gin. Estou sofrendo."

Logo tudo veio à tona, o quanto se sentia solitário sem as filhas, pois não perdera apenas Peg. A filha mais nova, Anna, fora tirada dele e morava agora na Inglaterra com Gerald, nosso irmão. Disse que se sentia totalmente desamparado e sem amigos em Nova York, que não suportava mais morar no ateliê - poderia morar comigo por algum tempo? Eu já havia imaginado que ele iria querer algo do gênero. Quis dizer que sim, mas alguma coisa me impediu, creio que uma intuição, ou desconfiança, de que ele se afastara muito dos limites da civilização em Port Mungo e tinha muitas coisas a esconder de mim. Mas partiu meu coração vê-lo ali do meu lado, tão carente. Eu estava disposta a lhe dar muito, porém não tudo; precisava manter uma certa distância, e disse isso a ele. Eu lhe daria uma força para arrumar o que desejasse, mas não poderia recebê-lo em minha casa.

"Não pode me receber na sua casa."

Pelo modo como falou, dava a impressão de que eu me referia a um cachorro.

"Não."

Ele balançou a cabeça, aceitou sem discutir. Creio que percebeu meu tom de voz e entendeu que eu não era mais a irmã compreensiva e obediente de antes, que o adorava sem reclamar. Acabou dizendo que tudo bem, era do que precisava mesmo, que eu lhe desse uma força, e sorriu para mim, provocando um enrugamento e uma tensão na pele esticada da cabeça ossuda que me levou a concluir que não sorria para ninguém fazia um bom tempo. Alegrei-me ao ver aquilo, sorri de volta, e lá estávamos nós, Jack e Gin, como nos velhos tempos.

Bebemos e falamos de Peg, e de Vera também - de Vera Savage, a pintora, mãe de suas filhas. Choramos um pouco, fiz o possível para consolá-lo. A profundidade de suas emoções me impressionou, mas ele dissipara grande parte de sua força e lhe restavam poucos recursos para lidar com a dor. Despedimo-nos carinhosamente depois de tomar várias decisões. Eu lhe disse para voltar direto para casa, sem perambular pela noite. Ele prometeu que o faria. Não confiei nele nem por um minuto. A força de vontade de Jack, quando despertada, era férrea, mas ele estava bêbado, e o álcool dilui a força de vontade acima de tudo. Mas quando cheguei na Crosby Street no dia seguinte ele estava alerta, de olhos límpidos, contou que dormira melhor do que em qualquer outra noite dos últimos meses. Senti-me gratificada ao ver que ainda tinha alguma influência sobre ele. Ninguém mais poderia desviá-lo do rumo que tomara, só eu, mesmo que supostamente o sufocasse.

Organizamos tudo no ateliê, pusemos alguma ordem na bancada onde trabalhava, conversamos a respeito das coisas que ele gostaria de fazer. Suas idéias todas eram sombrias e desoladoras, mas isso não vinha ao caso. Ele precisava trabalhar e, se a breve temporada no que chamava de inferno servisse de combustível para renovar-lhe a criatividade, tanto melhor. Saí confiante; pelo jeito ele tomara seu rumo novamente.

Visitei-o outra vez no dia seguinte, e por vários dias seguidos vi que retomava os velhos hábitos com firmeza, em longos dias de atividade, em imersão profunda. Uma página fora virada; retomando o trabalho ele nunca mais afundou tanto quanto naquelas primeiras semanas. Claro, jamais se recobrou inteiramente. Até o final da vida restou um toque na personalidade de Jack, esmaecido pelos anos até chegar a um sussurro de melancolia, mas que um dia fora um brado atormentado: a morte de Peg desencadeara esse brado, a morte de Peg o sustentava. Mas a morte de Peg não impedia Jack de pintar e, para ele, pintar gerava um entusiasmo capaz de dissipar a pior das dores.

Quanto ao que ele pintava, era perturbador, profundamente impregnado do que eu considerava um resíduo emocional da perda. Tonalidades e valores pesados depositavam-se sobre pesadas bases de pinceladas negras fraturadas, transmitindo uma impressão dominante de calor, decadência, doença - ele se referia a elas como suas pinturas "maláricas", e sem dúvida elas remetiam o observador a pântanos abafados onde proliferavam enfermidades. Para mim, faltava-lhes a força dos quadros feitos em Port Mungo, sombrios em contraste com a vivacidade, mas não falei nada, claro.

Quando parava de trabalhar e se afastava da tela, se atirando sobre o sofá, ele falava de Port Mungo; manifestava seus pensamentos de um modo tão desarticulado e fragmentado que eu o consideraria psicótico caso não entendesse o estado em que ficava durante o ato de pintar. Recordo-me de quando ele falou sobre a noite em que Vera, furiosa, pegou uma faca de cozinha, mas não o atacou, e sim a cama em que dormiam, rasgando e retalhando o mosquiteiro, esfaqueando o colchão, reduzindo os lençóis a tiras, e o ato insano não consumia sua fúria, mas a inflamava. Depois ela avançou contra os quadros e ele teve de desarmá-la, e ele contou que aquela não havia sido a primeira vez em que ela atacara as obras, longe disso. O barulho acordou Peg, ela gritou, tudo tinha a ver com o álcool, claro - fiquei assustada, quis saber o que aconteceu em seguida. Ele precisou botá-la para fora de casa, explicou. Durante uma hora ela esmurrou a porta trancada, mas ele, furioso, se recusou a deixá-la entrar, por isso ela foi embora para algum outro lugar, para a casa do amante, provavelmente...

Creio que eram problemas desse tipo, ligados a eventos ainda frescos em sua mente, que alimentavam a paixão evidente, ao menos para mim, nas pinturas sombrias que fez naquela primavera: o tempestuoso relacionamento com Vera e a morte da filha, claro. E penso que ele se punia, pois mais de uma vez, depois que a bebida limpara o caminho para aflorarem pensamentos honestos, ele insinuou isso, e tentei lhe mostrar que ele fizera todo o possível, que nenhum outro homem poderia ter feito mais, embora eu não tivesse nenhuma prova de que havia sido assim, e ao levar em conta o mistério que ainda envolvia a morte da menina admito que de vez em quando imaginava outras possibilidades, embora não as considerasse seriamente.

Um ano depois ele se declarou pronto para mostrar as telas de Port Mungo, bem como diversas obras de Crosby Street, as tais pinturas maláricas. Galeristas visitaram o loft, e no outono seguinte ele realizou uma exposição na Paula Cooper. Vendeu tudo. Sucesso de crítica. Fiquei muito orgulhosa. Jack Rathbone estava no mapa, e mesmo que tenha deixado sua estrela esmaecer nos anos seguintes, como ele próprio dizia, foi escolha própria. Na verdade, sempre foi escolha sua, tudo que fez, embora pelo jeito eu seja a única a se lembrar disso atualmente. Aquele não era um sujeito que perdera os limites morais, como Vera acredita - e seguramente não era um homem de tirar a própria vida! Isso seria impensável. Escarneceria de tudo.

 

Um último incidente daquele período que para mim representa o patético do fracasso deles mais do que qualquer outro - de Jack e Vera, quero dizer, e o desembocar dos conflitos na tragédia da morte da filha - ocorreu no sufocante verão de 1982. Naquela época quem residia no SoHo tinha de ir até Chinatown fazer compras, e Jack comprara uma grande bicicleta preta, com cesto na frente e um par de bolsas na traseira. Em seu prédio havia uma escada íngreme de metal, e certo dia de agosto ele vinha pedalando pelo calçamento de pedra com mantimentos quando viu uma mulher sentada ao lado de uma mala no alto da escada, a se abanar freneticamente com um jornal.

Port Mungo não tratara Vera com gentileza, coitada. O sol tropical destruíra uma pele que antes parecia porcelana, e ela lutava havia algum tempo contra o alcoolismo. Mas Jack me contou depois que ela mantivera acesa a chama que ele vislumbrara pela primeira vez em Londres quando era um jovem de dezessete anos e ela uma mulher feita de trinta, e isso, afirmou, apesar do fato ou possível e caprichosamente devido ao fato de ela ter sido tão profundamente maltratada pela vida. Ao ouvir aquilo concluí que a atração sexual entre eles não estava morta, nem mesmo adormecida! Ela desceu os degraus e se atirou nos braços dele, a bicicleta caiu ruidosamente no piso e as compras se espalharam por toda parte - ovos quebrados, leite derramado, maçãs a rolar na sarjeta, e os ovos, ele me disse, começaram realmente a fritar na calçada, de tanto calor que fazia.

Eles subiram os sete andares naquela tarde poeirenta para chegar à casa de Jack, setecentos e sessenta metros quadrados de ateliê, um loft com pé-direito alto, paredes de tijolo e janelas enormes, que davam para uma rua estreita. Vera nem tentou ocultar a curiosidade, começou logo a examinar tudo, um artista no espaço de outro artista, um episódio animalesco, uma atividade canina. Sentia inveja, mas que pintor não sentiria? Era um belo ateliê. Eu o descobrira para ele, sabia do que precisava. Não faltava espaço nas paredes nem luz. Pouco depois os dois estavam sentados sob o ventilador, no local que servia de quatro para Jack, onde havia um colchão fedorento e um sofá velho catado na rua. Ela lhe disse que no momento morava ao norte do Hudson, mas estava indo para Londres, onde alguém a convidara para expor.

"Mas acho que em vez disso vou mudar para cá", ela disse.

"Vai nada, porra."

Como conseqüência ele recebeu um olhar fulminante no velho estilo de Vera, a artista tarimbada que o tirara da Inglaterra e o ensinara a pintar. A mãe de suas filhas.

"Você pode dormir três noites no sofá."

"Tem coragem de chamar isso de sofá?"

Foi bom por um tempo, doce por um tempo, mas passou do tempo, Jack revelou mais tarde, passou de tudo, um casulo no qual os dois se entregaram a uma reunião que não poderia ser mantida nem prolongada para além daqueles cinco dias e noites. Um tempo modorrento, tropical, vagaroso como o rio Mississippi - dormiam até o meio-dia, ficavam acordados até as cinco da manhã, pois de madrugada era mais fresco. A cidade sufocava e fedia, envolta no ar úmido, imóvel, num silêncio no qual eles pareciam ser as únicas almas vivas. Dizem que Manhattan rompe a separação entre dentro e fora, mas isso não valia para a experiência de Jack, creio, por ele ser um artista. Quando a porta se fechava ele não se encontrava em Nova York, e sim dentro de sua cabeça, ou nas entranhas, como dizia, e a alegria, quando era mais jovem, estava em largar o trabalho, abrir a porta e retornar à humanidade esfuziante. Havia um ventilador de pedestal de cada lado da cama. Eles comiam, dormiam e faziam sexo várias vezes naquele colchão, saindo do prédio à meia-noite para ir a um bar tomar cerveja. Em geral, conversavam sobre Peg, e, depois de chorar sozinho tantas vezes pela filha, como era bom chorar nos braços de Vera. Eles falavam sobre Port Mungo e Anna, a irmã caçula de Peg, então com oito anos. Ela já morava havia três anos com a família de Gerald - ele, mulher e três filhos, todos mais velhos que Anna - e Vera pretendia visitá-los. Era assim que o tempo passava; e naquele intervalo calmo, pacífico, o agitado impulso criativo de Jack perdeu força e ele manteve contato ao menos espiritual com a família perdida, graças a Vera.

A proposta dela aconteceu na noite em que ia viajar para Londres. Creio que ela sabia não haver nenhum jeito, mas era preciso tentar. Vera era assim mesmo, se uma possibilidade lhe ocorria jamais a sufocaria; o fato de ter passado por sua mente exigia ao menos uma tentativa; continua assim até hoje. Então ela disse que iam reconstruir a vida juntos, não do modo como havia sido e sim de um jeito novo, melhor. Comprariam um galpão no norte do estado, fariam dois ateliês grandes, com vista para o rio. Mungo-sobre-o-Hudson, que tal?

"Mas eu não quero morar do outro lado do Hudson!"

"Então vamos viver em Nova York. Vamos morar aqui."

Ele a olhou com ternura. Não disse: você só está a fim do meu ateliê. Ela falava a sério, e ao mesmo tempo sabia que não daria certo.

"Nada disso, querida", ele disse, e só Deus sabe o quanto lhe custou dizê-lo. Teria ficado furioso com ela por colocá-lo contra a parede, mas sabia que ela o faria, tinha de fazer, soubera desde o momento em que lhe dissera que podia dormir no sofá. Ele não a acompanhou até o Kennedy, ela não permitiu. Não haviam dormido. Ele foi até a escada de incêndio e a viu deixar o prédio. Ela olhou para Jack, protegendo os olhos contra o sol matinal. Parou no meio da rua e o brindou com uma pequena parte da mesura floreada que ele conhecera na Charing Cross Road quando tinha dezessete anos, baixando o chapéu-panamá até perto da calçada - isso mesmo, uma citação do Livro dos Bons Tempos. Ela o entristeceu. Saiu andando depressa pela rua com a mala, aquela mulher maltrapilha, com uma saia justa, cinqüentona , sozinha, arruinada, para pegar um ônibus até o aeroporto e expor numa galeria desconhecida de Londres. Jack pensou: seu potencial ficou para trás, o talento se perdeu completamente. O que será dela? O que acontece com pintores que perdem o talento - pintores esgotados? Ficou parado na escada de incêndio, a observá-la na rua. Ela perdera tudo, exceto o olho clínico. Ainda lhe restava o olhar, e quando ele mostrou as telas, o trabalho feito desde seu retorno a Nova York, ela falou generosamente de seu progresso. Havia muito dela ali, a bem da verdade, mas ele, que chegara recentemente à cidade e mal começava a conhecer o sucesso, ao ouvir os elogios de Vera inchou e ruborizou como jamais inchara e ruborizara com ninguém. Meditando sobre isso, depois, concluí que ele pintava para ela, que pintava unicamente para ela, pois era o julgamento dela, a aprovação dela que contava.

 


 
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