A
Dama e o Unicórnio,
de Tracy Chevalier (tradução de Beatriz Horta; Bertrand Brasil;
288 páginas; 33 reais) Em Moça com Brinco de Pérola,
a americana Tracy Chevalier criou ficção em torno de uma pintura
do holandês Johannes Vermeer. Nesse novo livro, a inspiração
é o conjunto de tapeçarias conhecido como A Dama e o Unicórnio,
uma das mais belas peças do Museu Cluny, em Paris. A história se
passa no fim do século XV, quando um nobre de Paris, Jean Le Viste, encomenda
ao miniaturista Nicolas des Innocents que desenhe seis tapeçarias comemorativas
para marcar sua ascensão à corte francesa. Nicolas consegue convencer
Le Viste a mudar o tema da obra: no lugar das vitórias militares do nobre,
as tapeçarias vão retratar os cinco sentidos com uma elaborada alegoria
em que figuram um unicórnio e uma misteriosa dama. Leia
trecho PARIS Quaresma
à Páscoa de 1490 NICOLAS
DES INNOCENTS O
mensageiro disse para eu ir na mesma hora. Jean Le Viste é assim: espera
que todos façam imediatamente o que ele quer. E
eu fiz. Fui atrás, dando uma paradinha para limpar meus pincéis.
Encomendas de Jean Le Viste podem significar comida na mesa durante semanas. Só
o rei diz não a Jean Le Viste, e eu, sem dúvida, não sou
rei. Mas
quantas vezes já atravessei correndo uma ponte do Sena para ir à
Rue du Four e depois voltar sem encomenda alguma? Não é que Jean
Le Viste seja indeciso, pelo contrário, é tão ponderado e
decidido quanto seu amado Luís XI. E tão sem humor também.
Eu jamais brinco com ele. É ótimo sair da casa dele para beber alguma
coisa na taberna mais próxima, rir um pouco e dar uns abraços em
alguma rapariga para reanimar. Jean
Le Viste sabe o que quer. Às vezes, vou conversar com ele sobre mais um
brasão para decorar a lareira ou pintar na carruagem da esposa, ou colocar
num vitral da capela (as pessoas dizem que o brasão dos Le Viste é
tão comum quanto cocô de cavalo). No meio da conversa, ele de repente
pára, balança a cabeça e diz, franzindo a testa: "Isso
não precisa. Eu não devia ficar me ocupando com essas bobagens.
Pode ir." Eu vou, me sentindo culpado, como se fosse falta minha ocupar
a cabeça dele com decoração de carruagem, apesar de ter sido
ele quem me chamou. Estive
na mansão da Rue du Four uma meia dúzia de vezes. Não é
um lugar que impressione. Mesmo com todo o campo à volta, foi construída
como se estivesse no centro da cidade, com os cômodos compridos e estreitos,
as paredes escuras demais e as cocheiras muito perto, fazendo com que a casa esteja
sempre cheirando a cavalos. É o tipo da residência de uma família
que comprou sua entrada na corte: bem grande, mas mal localizada. Jean Le Viste
deve achar que fez bem em conseguir uma propriedade assim, enquanto a corte ri
dele pelas costas. Devia morar perto do rei e da igreja de Notre-Dame, e não
fora dos muros da cidade, nos campos pantanosos em torno de Saint-Germain-des-Prés. Quando
cheguei na casa, o mordomo não me conduziu ao aposento particular de Jean
Le Viste que é cheio de mapas e onde ele resolve seus afazeres da corte
e do rei, além dos assuntos da família. Não, o mordomo me
levou para a Grande Salle, onde os Le Viste recebem e distraem seus convidados.
Eu nunca tinha ido lá. Era uma sala comprida, com uma grande lareira em
frente à porta e uma mesa de carvalho no centro. Não tinha outros
enfeites além do brasão na porta e outro na lareira, esculpido na
chaminé de pedra e o teto de bela madeira trabalhada. Não
é um cômodo tão grande, pensei, olhando em volta. Embora as
venezianas estivessem abertas, a lareira não havia sido acesa e a sala
estava fria, com suas paredes sem tapeçarias.
Aguarde meu patrão aqui disse o mordomo, me olhando firme. Naquela casa,
as pessoas ou respeitavam ou desprezavam os artistas. Virei
as costas para o mordomo e olhei por uma janela estreita, de onde se tinha uma
boa visão das torres de Saint-Germain-des-Prés. As pessoas dizem
que Le Viste ficou com essa casa para que sua devota esposa pudesse ir sempre
e com facilidade à igreja. Atrás
de mim, alguém abriu a porta da sala e virei-me, pronto para fazer uma
reverência. Era só uma criada, que deu um risinho irônico ao
me ver no meio da mesura. Empertiguei-me e olhei-a passar pela sala, com um balde
batendo nas saias. Ajoelhou-se na frente da lareira e começou a recolher
as cinzas. Seria
ela? Tentei me lembrar, pois naquela noite estava escuro lá atrás
das cocheiras. A criada que estava lá era mais gorda do que eu lembrava,
e séria, com uma expressão pesada, mas de rosto bonito. Valia a
pena falar com ela.
Espera um instante pedi, depois que ela se levantou, desajeitada, e foi para
a porta. Escute, pára um instante. Vou te contar uma história. A
moça parou, assustada. É a história do unicórnio? Era
ela. Abri a boca para responder, mas a moça pulou na minha frente. É
uma história que a mulher fica com um barrigão e pode perder o emprego?
É essa a história? Então
era por isso que ela estava gorda. Virei para a janela. Você devia ter
tomado mais cuidado.
Eu não devia era ter dado trela a você, isso sim! Devia ter esticado
sua língua até ela chegar na sua bunda!
Pode sair, seja boazinha. Isso é para você falei, enfiando a mão
no bolso e tirando algumas moedas, que coloquei na mesa. Para ajudar com o bebê. A
moça chegou perto e cuspiu na minha cara. Quando terminei de limpar o cuspe
dos olhos, ela já tinha sumido. Assim como as moedas. Jean
Le Viste chegou pouco depois, acompanhado de Léon, o velho. Quase todos
os mecenas usam um comerciante como Léon para servir de intermediário,
combinar os prazos, redigir o contrato, dar um adiantamento e o material, garantindo
que a obra seja entregue. Eu já tinha negociado com o velho comerciante
sobre um brasão pintado numa chaminé de lareira, uma Anunciação
para os aposentos da esposa de Jean Le Viste e um vitral para a capela no castelo
deles perto de Lyon. Léon
é muito estimado pelos Le Viste. Eu o respeito, mas não consigo
gostar dele. Descende de judeus e não faz segredo disso, mas tira vantagem
do fato, pois Jean Le Viste também é de uma família que mudou
muito com os tempos. Por isso ele prefere Léon são dois homens
de fora da corte que abriram caminho nela. Claro que Léon tem o cuidado
de assistir à missa duas ou três vezes por semana na Notre-Dame,
onde muita gente pode vê-lo, enquanto Jean Le Viste se esmera em comportar-se
como um verdadeiro nobre, encomendando obras para a casa, recebendo soberbamente
seus convidados, fazendo reverências e mesuras para o rei. Léon
ficou me olhando com um sorriso no meio da barba como se tivesse visto um macaco
atrás de mim. Virei-me para Jean Le Viste. Bonjour, meu senhor. Mandou
me chamar? Fiz uma reverência tão grande que minha cabeça
latejou. Isso não me acontece quando a reverência é pequena. O
queixo de Jean le Viste parece uma machadinha e os olhos, duas lâminas.
Eles percorreram o aposento e pararam na janela por cima do meu ombro.
Quero conversar com você, Nicolas des Innocents, sobre uma encomenda disse,
puxando as mangas da túnica que era debruada com pele de coelho e tingida
no vermelho-escuro dos jurisconsultos. Uma encomenda para este aposento. Olhei
o aposento, sem pensar em nada. Era a melhor atitude que se devia tomar com Jean
Le Viste. O que deseja fazer, meu senhor?
Tapeçarias. Vi
que a palavra estava no plural. Talvez dois brasões para dependurar de
cada lado da porta? Jean
Le Viste fez uma careta. Eu não devia ter perguntado nada.
Quero tapeçarias em todas as paredes daqui.
Todas?
Sim. Dei
outra olhada pelo aposento, dessa vez com mais atenção. A Grande
Salle tinha, no mínimo, dez pés de comprimento por cinco de largura.
As paredes eram bem grossas, de pedra bruta cinzenta. Uma das compridas paredes
tinha três janelas e a lareira ocupava a metade da parede do fundo. Tapeçarias
para forrar aquele aposento podiam dar anos de trabalho a um tapeceiro.
Que tema gostaria, meu senhor? Eu já tinha desenhado uma tapeçaria
para Jean Le Viste um brasão, claro. Era bem simples, coloquei o brasão
na proporção da tapeçaria e pintei um pouco de verde em volta. Jean
Le Viste cruzou os braços. Fui indicado no ano passado para presidente
da Cour des Aides. O
cargo não me dizia nada, mas eu sabia o que devia dizer. Sim, meu senhor.
Isso é uma grande honra para o senhor e sua família. Léon
revirou os olhos para o teto esculpido, enquanto Jean Le Viste abanava a mão
como se estivesse tirando fumaça do aposento. Tudo o que eu falava parecia
incomodá-lo.
Quero comemorar o fato com um jogo de tapeçarias. Estou reservando este
aposento para uma ocasião especial. Desta
vez, esperei para dizer alguma coisa.
É fundamental, claro, que o brasão da família apareça
na tapeçaria.
Certamente, meu senhor. A
seguir, Jean Le Viste me surpreendeu. Mas não o brasão sozinho.
Já temos muitos aqui e no resto da casa." Fez um gesto mostrando o
brasão sobre a porta e a lareira, mais os que foram esculpidos nas vigas
do teto, que eu não tinha percebido antes. Não, quero que o brasão
faça parte de uma cena mais ampla, refletindo minha posição
em meio à corte.
Desejaria uma cena de procissão, talvez?
Uma batalha.
Batalha
Sim, a Batalha
de Nancy. Fiquei
pensativo. Cheguei a dar um sorrisinho. Mas, na verdade, eu pouco sabia de batalhas,
e muito menos sobre essa de Nancy quem participou, quem morreu e quem venceu.
Já tinha visto quadros de batalhas, mas nunca fiz um. Cavalos, pensei.
Teria de pintar, no mínimo, vinte cavalos para cobrir as paredes, em meio
a braços, pernas e armaduras de homens. Pensei então por que Jean
Le Viste (ou Léon, como era mais provável) teria me escolhido para
aquele trabalho. Minha fama na corte é de miniaturista, pintor de pequenos
retratos de damas que elas dão para os cavalheiros levarem no bolso. As
miniaturas são apreciadas pela sua delicadeza e recebo muitas encomendas.
Para ter um dinheirinho para a taberna, pinto escudos em portas de carruagens
de damas, mas minha verdadeira arte é fazer um rosto do tamanho do meu
polegar, usando pincéis com algumas cerdas de javali e misturando a cor
com clara de ovo. É preciso mão firme, que eu tenho, mesmo depois
de passar a noite toda bebendo no Le Coq dOr. Mas só de pensar em pintar
vinte cavalos enormes comecei a transpirar, embora o aposento fosse frio.
Tem certeza de que deseja a Batalha de Nancy, meu senhor? considerei, sem fazer
bem uma pergunta. Jean
Le Viste franziu o cenho. Por que eu não teria certeza?
Por nada, meu senhor respondi rápido. Será uma obra grande e
o senhor precisa ter certeza do que quer. Amaldiçoei-me pelas palavras
desajeitadas. Jean
Le Viste bufou: Eu sempre sei o que quero! Mas parece que você não
se entusiasmou muito com a idéia. Talvez eu deva escolher um artista que
se interesse mais pela encomenda. Fiz
outra grande mesura. Não, meu senhor, claro que estou muito honrado e
grato em ser chamado para desenhar um trabalho tão importante! Tenho certeza
de que não mereço sua gentileza em se lembrar de mim. Mas esteja
seguro de que colocarei todo meu empenho nessas tapeçarias. Jean
Le Viste concordou com a cabeça, como se essa bajulação lhe
fosse devida. Vou deixar você aqui conversando os detalhes com Léon
e medindo as paredes disse ele, virando-se para sair. Espero ver os primeiros
esboços pouco antes da Páscoa, na Quinta-feira Santa, e as pinturas
uns quarenta dias depois, na Ascensão. Quando
ficamos a sós, Léon, o velho, deu uma risadinha cacarejante e disse:
Como você é bobo! Com
ele, é melhor ir direto ao assunto e ignorar suas zombarias. Informei:
Meu preço é dez moedas de Tours, sendo quatro agora, três
quando eu entregar os esboços e três quando as pinturas estiverem
prontas.
Pago cinco moedas de Paris retrucou ele, rápido. A metade quando você
entregar os esboços, o resto quando aprontar as pinturas e elas forem aprovadas
por meu senhor.
De jeito nenhum. Não posso trabalhar sem um adiantamento. E só aceito
moedas de Tours. " Era bem típico de Léon tentar esse golpe,
pois as moedas cunhadas em Paris valem menos. Léon
deu de ombros, os olhos brilhando. Estamos em Paris, nest-ce pas? Não
deveríamos negociar em moeda local? Eu prefiro.
Oito moedas de Tours, sendo três agora, depois três e duas contra-ataquei.
Sete. Dou duas amanhã, depois mais duas e três no final. Mudei
de assunto. É sempre bom deixar o comerciante esperar um pouco. Onde
as tapeçarias serão feitas?
No Norte, talvez em Bruxelas. São os melhores tapeceiros. No
Norte? Eu me arrepiei. Estive a negócios uma vez em Tournai, detestei a
luz sem graça da cidade, as pessoas desconfiadas e prometi nunca mais ir
ao norte de Paris. Pelo menos eu só teria de fazer os desenhos, o que podia
fazer aqui mesmo. Quando estivessem prontos, eu não teria mais nada a ver
com a confecção das tapeçarias.
Alors, o que sabe da Batalha de Nancy? perguntou Léon. Dei
de ombros. Que importa? Toda batalha é igual, nest-ce pas?
É como dizer que todas as mulheres são iguais. Sorri.
Insisto que todas as batalhas são iguais. Léon
balançou a cabeça. Tenho pena da mulher com quem você se
casar. Mas, diga: o que vai colocar nas tapeçarias?
Cavalos, homens de armadura, estandartes, lanças, espadas, escudos, sangue.
Qual será o traje de Luís XI?
Armadura, naturalmente. Talvez uma pluma especial no capacete. Na verdade, não
sei, mas tenho com quem me informar sobre essas coisas. Imagino que alguém
vá carregar o estandarte real.
Espero que seus amigos sejam mais inteligentes do que você e lhe informem
que Luís XI não esteve na Batalha de Nancy e um suíço
matou Carlos, o Ousado com apoio de Luís XI, claro. Mas o rei não
esteve lá.
Ah. Era esse o jeito de Léon, o velho: gostava de fazer todo mundo de bobo,
menos o patrão. Ninguém faz Jean Le Viste de bobo. Bon.
Léon tirou uns papéis do bolso e colocou-os na mesa. Já
discuti com meu senhor o que as tapeçarias vão mostrar e tomei algumas
medidas. Você vai ter de medir melhor, claro. Aqui estão disse
ele, mostrando seis retângulos mal desenhados. São duas grandes
tapeçarias aqui e quatro menores. Eis a seqüência da batalha.
Explicou a batalha com detalhes, sugerindo cenas para cada tapeçaria:
os dois acampamentos, o começo da luta, duas cenas do caos da batalha,
a morte de Carlos, o Ousado, e o desfile da vitória dos suíços.
Ouvi tudo o que ele disse e fiz esboços no papel, mas fiquei meio distante,
pensando no que estava aceitando. Não teria nenhuma mulher naquelas tapeçarias,
nada em miniatura, delicado, nada que fosse fácil eu pintar. Ia ganhar
meu sustento com suor e muitas horas de trabalho.
Depois que pintar tudo, seu trabalho estará terminado. Levarei para o tapeceiro
no Norte e o cartonista dele ampliará as pinturas para serem confeccionadas. Eu
devia ficar contente de não ter de ampliar os cavalos. Mas fiquei preocupado
com minha obra. Como vou saber se esse cartonista é um bom artista? Não
quero que prejudique meus desenhos!
Ele não vai mudar o que Jean Le Viste aprovou. Só fará mudanças
que ajudem na confecção das tapeçarias. Você não
fez muitas tapeçarias, não, Nicolas? Acho que só fez um brasão.
Mas eu mesmo o ampliei, não precisei de um cartonista. Posso ampliar também
nessa encomenda.
Essas tapeçarias são bem diferentes de um brasão. Precisam
de um cartonista. Tiens, esqueci de dizer uma coisa! Não deixe de colocar
o brasão dos Le Viste nelas. Meu senhor faz questão.
Ele lutou contra os suíços? Léon
riu. Durante a Batalha de Nancy, Jean Le Viste estava a serviço do rei
no outro lado da França. Mas isso não importa, ponha o brasão
em bandeiras e escudos com alguém carregando. Você talvez queira
ver quadros dessa batalha e de outras. Procure Gérard, o gravador, na Rue
Vieille du Temple, ele lhe mostrará um livro com gravuras da Batalha de
Nancy. Vou avisar que você vai lá. Agora, deixo você aqui tirando
as medidas da sala. Se tiver algum problema, me procure. E me traga os desenhos
lá pelo Domingo de Ramos, pois se eu quiser mudar alguma coisa, você
terá tempo de aprontar até meu senhor ver. Claro
que Léon, o velho, era os olhos de Le Viste. Eu tinha de agradá-lo,
e, se ele gostasse do que visse, o patrão também gostaria. Não
consegui resistir a uma última pergunta: Por que me escolheu para essa
encomenda? Léon
puxou as pontas do manto simples, sem debruns de pele. Não o escolhi.
Por mim, preferiria alguém que tivesse feito mais tapeçarias, ou
então procurava direto o tapeceiro, eles têm desenhos prontos que
usam. É mais barato e os desenhos são bons. Léon era sempre
franco.
Então, por que Jean Le Viste me escolheu?
Você logo vai saber. Alors, me procure amanhã: terei os papéis
prontos para você assinar e o dinheiro.
Ainda não aceitei suas condições."
Ah, acho que aceitou. Há encomendas que um artista não recusa. Essa
é uma delas, Nicolas des Innocents. E saiu, me olhando de soslaio. Ele
tinha razão. Eu falei como se fosse fazê-las. Mesmo assim, as condições
não eram más. Na verdade, Léon não regateou muito,
só fiquei pensando se, no fim das contas, ele ia pagar em moedas de Paris. Olhei
para as paredes que teria de revestir com tanta suntuosidade. Dois meses para
desenhar e pintar vinte cavalos e seus cavaleiros! Fiquei numa ponta da sala e
andei até o outro lado, contando doze pés, depois passei pelo meio.
Deu seis pés de largura. Encostei uma cadeira na parede e subi nela, mas,
mesmo esticando o braço ao máximo, não conseguia alcançar
o teto. Coloquei a cadeira no lugar e, depois de ficar meio indeciso, subi na
mesa de carvalho. Continuava faltando pelo menos uma altura minha para chegar
ao teto. Fiquei
pensando aonde ia achar uma vara para medir a altura; nisso, ouvi um ruído
atrás de mim e virei-me. Uma menina estava me olhando da porta. Uma linda
menina: pele clara, testa alta, nariz comprido, cabelos cor de mel, olhos claros.
Não a conhecia. Fiquei sem conseguir falar por um instante.
Olá, bela consegui dizer, afinal. A
menina riu e foi pulando num pé só. Estava com um vestido azul simples,
de corpete apertado, decote quadrado e mangas justas. Era bem cortado e de ótima
lã, mas sem enfeites. Usava também um lenço simples na cabeça
e seus cabelos iam quase até a cintura. Comparada com a criada que limpou
a lareira, ela era muito fina para ser uma empregada. Seria uma dama de companhia?
A dona da casa quer ver você disse ela, depois virou-se e foi embora,
sempre rindo. Não
me mexi. Com meus anos de experiência, aprendi que, se você ficar
onde está, cães, falcões e damas sempre voltam. Ouvi os pés
dela batendo no assoalho da sala ao lado, depois parando. Um instante depois,
os passos recomeçaram e ela apareceu na porta. Você não
vem? Continuava sorrindo.
Vou, bela, se você for junto comigo e não sair correndo como se eu
fosse um dragão. A
menina riu. Venha chamou, fazendo um sinal, e então desci da mesa.
Tive de andar rápido para acompanhá-la de um aposento a outro. A
saia dela esvoaçava como se fosse soprada por um vento misterioso. De perto,
a menina tinha um cheiro doce e forte, acentuado pelo suor. Mexia a boca como
se mastigasse alguma coisa.
O que tem na boca, bela?
Dor de dente. Mostrou a língua, que tinha na ponta rosada um cravo-da-índia.
Quando vi aquela língua, fiquei duro, tive vontade de pegar a menina nos
meus braços.
Hum, deve estar doendo. Eu sou capaz de chupar melhor, pensei. Mas por que sua
patroa quer me ver? A
menina olhou para mim, divertida. Espero que ela conte. Andei
mais devagar. Para que correr? Será que ela se incomodaria se nós
conversássemos um pouco no caminho?
O que você quer falar? perguntou a menina, antes de subir o degrau de
uma escada em caracol. Saltei
no degrau à frente dela para impedi-la de seguir. Quais os bichos que
você gosta?
Bichos?
Não quero que me considere um dragão. Queria que me achasse um outro
bicho. Um que você goste. A
menina pensou. Um periquito, talvez. Gosto deles. Tenho quatro, e comem na minha
mão. Ela deu a volta para ficar nos degraus de cima da escada. Não
foi além, entretanto. Isso mesmo, pensei. Eu mostrei minhas mercadorias
e ela está dando uma olhada. Chegue mais perto, minha cara, e veja meus
ovos. Pegue-os.
Periquito, não, claro que você não me acha um bicho falante
e que fica repetindo o que os outros dizem.
Meus periquitos não fazem barulho. De todo jeito, você é um
artista, nest-ce pas? Imita a vida, não é o que faz?
Faço as coisas serem mais bonitas do que são, embora existam coisas,
minha menina, que não possam ser melhoradas com tinta. Passei por ela
e fiquei três degraus acima. Queria ver se vinha atrás de mim. Veio.
Seus olhos continuavam grandes e claros, mas a boca fazia um sorriso de quem sabe.
Com a língua, ela passava o cravo-da-índia de um lado para outro
da boca. Vou
possuir você, pensei. Vou sim.
Talvez você seja uma raposa, seu cabelo tem um pouco de ruivo no meio do
castanho avaliou. Eu
me fiz de zangado: Como você é má! Será que pareço
um espertalhão? Eu seria capaz de enganar alguém? Será que
fico fugindo do assunto, sem dizer logo o que pretendo? Pois sou mais parecido
com um cão que fica aos pés da dona, fiel a ela para sempre.
Os cães exigem muita atenção, pulam e sujam minhas saias
com as patas disse ela. Passou à minha frente e dessa vez não
parou. Venha, minha senhora aguarda. Não devemos fazê-la esperar. Eu
ia ter de correr com a conversa, perdi tempo demais com outros bichos. Sei qual
o animal que eu quero ser sugeri, correndo atrás dela.
Qual é?
Um unicórnio. Conhece o unicórnio? A
menina bufou. Tinha chegado ao alto da escada e estava abrindo a porta de outro
aposento. Sei que ele gosta de descansar a cabeça no colo das donzelas.
Você gosta de fazer isso?
Ah, não me julgue tão vulgar! O unicórnio faz algo muito
melhor do que isso. O chifre dele tem um poder especial, sabia? A
menina diminuiu o passo para me olhar. Qual é o poder?
Se a água de um poço for envenenada ...
Ali tem um poço! disse ela, parando e mostrando um pátio lá
fora, pela janela. Uma menina menor estava debruçada na beira de um poço,
olhando lá dentro, o sol banhando os cabelos dela com uma luz dourada.
Jeanne sempre faz isso. Gosta de se ver refletida na água disse a menina.
Quando olhamos pela janela, a menina cuspiu no poço.
Se seu poço estivesse envenenado, bela, ou cuspido, como Jeanne acabou
de fazer, um unicórnio colocaria o chifre na água e ela ficaria
limpa outra vez. O que acha disso? A
menina mexeu o cravo na boca com a língua. O que você quer que
eu ache?
Quero que você pense em mim como sendo seu unicórnio. Às vezes
você fica suja, isso mesmo, até você fica, bela. Toda mulher
fica, é o castigo de Eva. Mas pode ficar limpa outra vez, todo mês,
se deixar que eu cuide de você. Deixe que eu entre em você sem parar
até você rir e gritar, pensei. Todo mês você voltará
para o Paraíso. Era essa última frase que jamais falhava quando
eu estava atrás de uma mulher: a idéia daquele simples paraíso
parecia encantá-las. Elas sempre abriam as pernas para mim, esperando encontrar
o Paraíso. Talvez algumas tenham encontrado. A
menina riu, desta vez um riso rouco. Estava pronta. Estiquei o braço para
apertá-la e selar nossa troca.
Claude? É você? Por que demorou tanto? Uma porta atrás de
nós se abriu e uma mulher ficou nos olhando, de braços cruzados.
Puxei meu braço.
Pardon, mamãe. Aqui está ele. Claude deu um passo para trás
e me indicou. Fiz uma mesura.
O que tem na boca? perguntou a mulher. Claude
engoliu. Um cravo-da-índia. Para meu dente.
Devia mastigar hortelã, é muito melhor contra dor de dente.
Sim, mamãe. Claude riu outra vez provavelmente da minha cara. Virou-se
e saiu correndo do aposento, batendo a porta. Seus passos ecoaram. Estremeci.
Eu tinha tentado seduzir a filha de Jean Le Viste! Sempre
que fui à casa da Rue du Four, só vi as três meninas Le Viste
de longe correndo no pátio, saindo a cavalo, acompanhadas de um grupo
de damas rumo à igreja de Saint-Germain-des-Prés. Claro que a menina
à beira do poço era uma delas se eu tivesse prestado atenção,
teria percebido quando vi o cabelo e o jeito, saberia que era irmã de Claude.
Então eu teria sabido quem eram e jamais contaria a Claude a história
do unicórnio. Só que eu não estava pensando em quem seria
ela, mas em como levá-la para a cama. Se
Claude contasse ao pai o que eu tinha dito, eu seria jogado na rua e perderia
a encomenda. E nunca mais veria Claude. Eu
a desejava muito, mas não só para a cama. Queria ficar deitado ao
lado dela, conversando, tocar aquela boca e aqueles cabelos e fazê-la rir.
Fiquei pensando para onde ela teria ido na casa. Eu jamais poderia entrar lá
eu, um artista parisiense com a filha de um nobre! Fiquei
imóvel, pensando nessas coisas. Talvez tenha ficado um pouco demais. A
mulher na porta se mexeu, o terço preso à cintura bateu nos botões
da manga dela e afastei meus pensamentos. Estava me olhando como se adivinhasse
tudo que ia dentro da minha cabeça. Não disse nada, mas abriu a
porta e entrou. Fui atrás. Eu
tinha pintado miniaturas em muitos aposentos de damas e aquele não era
muito diferente dos outros. Tinha uma cama de castanheiro e cortinas de seda azul
e amarela. Tinha cadeiras de carvalho arrumadas em semicírculo, com almofadas
bordadas. Tinha uma mesa lateral cheia de garrafas e uma caixa de jóias,
vários baús para guardar os vestidos. Uma janela aberta emoldurava
uma vista de Saint-Germain-des-Prés. Num canto, as damas de companhia estavam
bordando. Sorriram para mim como se fossem uma só pessoa, e não
cinco, e me censurei por achar que Claude pudesse ser uma delas. Geneviève
de Nanterre, esposa de Jean Le Viste e dona da casa, sentou-se ao lado da janela.
Ela, sem dúvida, tinha sido tão linda quanto a filha. Ainda era
uma bonita mulher, com a testa larga e um queixo delicado, mas o rosto de Claude
era em forma de coração e o dela tinha ficado triangular. Os quinze
anos de casamento com Jean Le Viste tinham alisado suas curvas, endurecido o rosto,
enrugado sua testa. Seus olhos eram passas negras, enquanto os de Claude eram
marmelos viçosos. Só
num detalhe ela estava melhor do que a filha. O vestido era mais rico: de brocado
verde e creme, todo estampado de flores e folhas. Usava jóias finas no
pescoço e os cabelos eram trançados com seda e pérolas. Jamais
seria confundida com uma dama de companhia: estava vestida para ser servida.
Você esteve com meu esposo na Grande Salle, falando sobre as tapeçarias
disse ela.
Sim, madame.
Creio que ele quer que o tema seja uma batalha.
Sim, madame, a Batalha de Nancy.
E que cenas mostrarão as tapeçarias?
Não tenho certeza, madame. Meu senhor acaba de me falar delas. Preciso
parar e fazer um esboço antes de dizer qualquer coisa.
Terá homens?
Certamente, madame.
Cavalos?
Sim.
Sangue?
Como disse, madame? Geneviève
de Nanterre fez um gesto com a mão. Trata-se de uma batalha. Vai ter
sangue escorrendo dos ferimentos?
Creio que sim, madame. Carlos, o Ousado, foi morto nessa batalha, não?
Já esteve numa batalha, Nicolas des Innocents?
Não, madame.
Quero que se imagine um instante como soldado."
Sou miniaturista da corte, madame.
Eu sei, mas por um instante vamos supor que você é um soldado que
lutou na Batalha de Nancy. Perdeu um braço na luta. Está sentado
na Grande Salle como convidado meu e de meu esposo. A seu lado está sua
esposa, sua bonita e jovem esposa que o ajuda nas pequenas dificuldades pelo fato
de não ter as duas mãos: partir o pão, embainhar a espada,
montar em seu cavalo. A voz de Geneviève de Nanterre tinha um ritmo como
se entoasse uma canção de ninar. Comecei a me sentir flutuando na
correnteza de um rio sem saber para onde estava me levando. Será
que ela é meio doida?, pensei. Geneviève
de Nanterre cruzou os braços e inclinou a cabeça de lado. Enquanto
você come na Grande Salle, olha as tapeçarias da batalha que lhe
custou um braço. Reconhece Carlos, o Ousado, sendo massacrado e sua esposa
vê o sangue escorrendo dos ferimentos dele. Por toda parte, você vê
estandartes dos Le Viste. Mas onde está Jean Le Viste? Tentei
lembrar o que Léon havia dito. Meu senhor está ao lado do rei,
madame.
Isso mesmo. Durante essa batalha, meu esposo e o rei estavam muito bem instalados
na corte em Paris, longe de Nancy. Então, imaginando que você seja
esse soldado sem braço, como se sentiria sabendo que Jean Le Viste jamais
esteve na Batalha de Nancy, apesar de os estandartes dele estarem em todas as
tapeçarias?
Eu ia achar que meu senhor é um homem importante por estar ao lado do rei,
madame. O conselho dele é mais importante do que suas qualidades na batalha.
Ah, você é muito delicado, Nicolas! Bem mais do que meu esposo. Mas
creio que essa não é a resposta certa. Quero que pense bem e diga
o que esse soldado realmente acharia. Nesse
instante, eu já sabia para onde ia aquela torrente de palavras na qual
eu flutuava. Só não sabia o que aconteceria quando eu saísse
da água.
O soldado e a esposa dele ficariam ofendidos, madame. Geneviève
de Nanterre concordou. Isso mesmo.
Mas isso não é motivo...
De plus, além do mais, não quero que minhas filhas vejam um massacre
sangrento enquanto entretêm seus convidados numa recepção.
Você conheceu Claude: gostaria que ela ceasse vendo um cavalo com um corte
profundo nas ancas ou um homem com a cabeça arrancada?
Não, madame.
Pois ela não vai ver. No
canto, as damas de companhia davam um risinho afetado para mim. Geneviève
de Nanterre tinha me levado exatamente aonde queria. Era mais inteligente do que
a maioria das nobres que pintei. Por isso, percebi que eu gostaria de agradá-la
o que poderia ser perigoso.
Não posso discordar da vontade de meu senhor, madame. Geneviève
de Nanterre recostou-se na cadeira. Escute, Nicolas, sabe quem escolheu você
para desenhar essas tapeçarias?
Não, madame.
Fui eu. Eu
a olhei. Por que, madame?
Vi as miniaturas das damas da corte que faz. Você capta alguma coisa delas
que me agradou.
O que é, madame?
A essência espiritual. Fiz
uma reverência, surpreso. Obrigado, madame.
Claude poderia ter mais exemplos dessa essência espiritual. Eu tento dar,
mas ela não ouve a mãe. Fez-se
um silêncio. Arrastei os pés, nervoso. O quê... o que gostaria
que eu fizesse, em vez da batalha, madame? Os
olhos dela brilharam. Um unicórnio. Gelei.
Uma dama e um unicórnio acrescentou ela. Ela
deve ter ouvido minha conversa com Claude. Devia ter ouvido eu falar, senão
não sugeria. Será que tinha ouvido eu agradar a filha? Tentei adivinhar
pelo rosto dela. Parecia satisfeita e até com um ar malicioso. Se sabia
da minha tentativa de seduzir a filha, podia contar para Jean Le Viste (se Claude
já não tivesse contado) e a encomenda estaria cancelada. Mais ainda:
bastava uma palavra de Geneviève de Nanterre para acabar com minha reputação
na corte e eu nunca mais fazer uma miniatura. Não
tinha outra escolha senão tentar agradá-la: A senhora gosta de
unicórnios? Uma
das damas de companhia riu. Geneviève de Nanterre franziu o cenho e a moça
parou. Nunca vi um, não posso saber. Não, minha idéia é
por causa de Claude. Ela gosta de unicórnios e é a mais velha, um
dia vai herdar as tapeçarias. Precisa ter algo de que goste. Eu
tinha ouvido falar na família sem herdeiro e como Jean Le Viste sofria
por não ter um filho para legar seu amado brasão. A culpa de ter
três filhas era da esposa. Olhei-a com um pouco mais de simpatia.
Como gostaria de mostrar o unicórnio, madame? Geneviève
de Nanterre fez um gesto com a mão: "Dê uma idéia do
que ele poderia estar fazendo.
Poderia estar sendo caçado. Meu senhor ia gostar. Ela
negou com a cabeça. Não quero cavalos e sangue. E Claude não
iria gostar se matassem o unicórnio! Eu
não podia me arriscar contando a história do chifre mágico
do unicórnio. Tive de repetir a idéia de Claude:
A dama pode atrair o unicórnio. Cada tapeçaria mostraria uma cena
no bosque, seduzindo-o com música, comida e flores; no final, ele descansa
a cabeça no colo dela. É uma lenda popular.
Talvez. Claro que Claude iria gostar, é uma menina começando a vida.
Sim, a virgem domesticando o unicórnio pode ser uma boa idéia. Embora
eu possa sofrer tanto com isso quanto com uma cena de batalha." As últimas
palavras foram ditas quase que para si mesma.
Por que, madame?
Porque eu ficaria rodeada de sedução, juventude, amor. O que essas
coisas todas significam para mim?" Tentou mostrar desapego por tudo aquilo,
mas parecia melancólica. Achei
que ela não dormia mais na mesma cama que o marido. Teve as filhas e cumpriu
sua parte. Não cumpriu muito bem, pois não teve filhos homens. Agora,
está separada dele e nada lhe sobrou. Eu não costumava ter pena
das nobres com suas lareiras quentes, suas barrigas rotundas e suas damas para
atendê-las. Mas, naquela hora, tive pena de Geneviève de Nanterre.
Pois pensei de repente em mim mesmo dali a dez anos após longos dias
de trabalho, invernos duros, doenças. Estaria sozinho numa cama fria, as
juntas do corpo doendo, as mãos entrevadas, sem conseguir segurar um pincel.
O que seria de mim quando não pudesse mais ser útil? A morte seria
bem-vinda. Fiquei pensando se ela também pensava assim. Estava
me vendo através dos olhos inteligentes e tristes dela. Vai
ter alguma coisa dela nessas tapeçarias, pensei num átimo. O tema
não vai ser apenas sedução numa floresta, porém algo
mais, não só uma virgem, mas uma mulher que voltaria a ser virgem,
de modo que as tapeçarias mostrariam todo o ciclo de vida de uma mulher,
do começo ao fim. Tudo o que ela podia fazer, tudo junto, na mesma trama.
Era isso que eu faria. Sorri para ela. Um
sino tocou na torre de Saint-Germain-des-Prés.
Sexta hora, madame avisou uma das damas.
Já vou respondeu Geneviève de Nanterre. Perdemos os outros ofícios
religiosos e não posso ir às vésperas esta tarde, tenho de
ir à corte com meu senhor. Ela se levantou da cadeira enquanto outra
dama trazia a caixa de jóias. Abriu o fecho do colar que estava usando,
tirou-o, deixando que as jóias brilhassem um instante em suas mãos
antes de serem colocadas na caixa e trancadas. A dama segurou uma cruz cravejada
de pérolas numa comprida corrente, e quando Geneviève de Nanterre
concordou, ela passou a corrente pela cabeça da patroa. As outras damas
começaram a juntar suas costuras e seus apetrechos. Eu sabia que ia ser
dispensado.
Pardon, madame, será que meu senhor vai aceitar unicórnios no lugar
de batalhas? Geneviève
de Nanterre estava arrumando o cinto de tecido trançado enquanto uma das
damas soltava sua sobressaia vermelho-escura, de forma que suas dobras caíssem
até o chão e cobrissem as flores e folhas verdes e brancas do vestido.
Você vai ter de convencê-lo...
Mas a senhora teria de falar com ele, madame. Afinal, conseguiu convencê-lo
a me chamar para fazer os desenhos.
Ah, isso foi fácil, as pessoas não fazem diferença para ele!
Tanto faz um artista quanto outro, desde que seja aceito na corte. Mas o tema
da encomenda é entre você e ele, não posso ter nada com isso.
Então, é melhor você falar.
Talvez Léon, o velho, pudesse falar com ele. Geneviève
de Nanterre desprezou a idéia. Léon não vai discordar de
meu esposo: ele se cuida. É inteligente, mas não sagaz, e para convencer
meu marido é preciso sagacidade. Olhei
para o chão, sério. A confusão dos desenhos que eu ia fazer
tinha me cegado e eu agora estava afundando naquela situação delicada.
Preferia fazer uma dama e um unicórnio do que uma batalha com muitos cavalos,
mas também não queria discordar de Jean Le Viste. Parecia não
haver escolha. Tinha me enrascado na rede formada por Jean Le Viste, a esposa
e a filha e não sabia como sair dela. Essas tapeçarias vão
me dar problemas..., pensei.
Tenho uma boa idéia, madame. A dama de companhia que falou isso era a
mais simples, mas com olhos ágeis, que iam de um lado para outro enquanto
ela falava. Na verdade, é um jogo de palavras. Madame sabe como meu senhor
gosta de trocadilhos.
Gosta mesmo concordou Geneviève de Nanterre.
Em francês, visté significa rápido. O unicórnio corre
muito, nest-ce pas? Nenhum animal corre mais do que ele. Portanto, quando se
pensar em unicórnio, pensamos em viste.
Béatrice, você é tão inteligente! Se meu esposo gostar
de sua idéia, você pode se casar com esse Nicolas des Inocents. Terá
minha bênção. Levei
um susto. Béatrice riu e as damas também. Sorri, educado. Eu não
tinha a menor idéia se a dama estava brincando. Ainda
rindo, a dama e suas acompanhantes saíram da sala, me deixando a sós. Fiquei
parado na sala silenciosa. Tinha de encontrar uma vara comprida e voltar para
a Grande Salle, para continuar tomando as medidas. Mas estava tão agradável
ali, sem damas rindo de mim! Naquele aposento eu conseguia pensar. Olhei
em volta. Havia duas tapeçarias nas paredes e mais o quadro da Anunciação
da Virgem que pintei para o aposento ao lado. Prestei atenção nas
tapeçarias. Mostrava colhedores de uva, os homens cortando os cachos enquanto
as mulheres as esmagavam com os pés, as saias amarradas acima dos joelhos
mostrando suas pernas salpicadas de sumo. As tapeçarias eram bem maiores
do que o quadro e tinham menos perspectiva. A trama fazia com que as imagens parecessem
grosseiras e não tão naturais e próximas quanto a Virgem
no meu quadro. Mas aqueciam o aposento e davam um pouco de aconchego com seus
vermelhos e azuis vivos. Uma
sala inteira cheia de tapeçarias seria como compor um pequeno mundo cheio
de mulheres em vez de cavalos e homens numa batalha. Eu preferia assim, por mais
difícil que fosse convencer Jean Le Viste. Olhei
pela janela. Geneviève de Nanterre e Claude Le Viste iam à igreja
com suas damas de companhia, as saias inflando em volta delas. O sol estava tão
forte que meus olhos lacrimejaram e tive de fechá-los por um instante.
Quando conseguir abri-los, elas haviam sumido, no lugar estava a criada que tinha
meu filho na barriga. Carregava um cesto com esforço e ia na direção
contrária à das damas. Por
que aquela dama de companhia achou tanta graça de casar-se comigo? Eu ainda
não pensava em me casar, mas um dia teria uma esposa para cuidar de mim,
quando ficasse velho. Eu tinha uma boa situação na corte, recebia
sempre encomendas e agora aquelas tapeçarias poderiam sustentar a mim e
a qualquer esposa. Meu cabelo não estava grisalho, eu só tinha perdido
dois dentes e conseguia possuir uma mulher três vezes por noite, se quisesse.
É verdade que eu era um artista e não um escudeiro, nem um comerciante
rico. Mas também não era ferreiro, nem sapateiro ou camponês.
Minhas mãos eram limpas, minhas unhas cortadas. Por que aquela moça
riu tanto? Resolvi
primeiro acabar de medir o aposento, não importando o que eu fosse desenhar
para as tais paredes. Precisava de uma vara e encontrei o mordomo na despensa,
contando velas. Ele foi tão seco comigo quanto antes e me mandou procurar
a vara nas cocheiras. Cuidado com essa vara, não vá causar estrago
com ela recomendou. Ri
com malícia. Não pensei que você fosse alcoviteiro falei. O
mordomo ficou mais sério. Não foi o que eu quis dizer. Mas não
me surpreendo com sua conclusão, pois você não consegue controlar
a própria vara!
O que quer dizer com isso?
Você sabe... Estou falando do que fez com Marie-Céleste. Marie-Céleste
o nome não me dizia nada. Quando
o mordomo viu que não entendi, ficou ríspido.
Marie-Céleste é a criada em quem você fez um filho, seu velhaco...
Ah, sim. Ela devia ter tomado mais cuidado.
E você também. É uma boa moça, merecia alguém
melhor do que você.
Sinto muito. Dei um dinheiro a ela, vai resolver. Mas preciso da vara. O
mordomo resmungou. Quando me virei para ir embora, avisou ele: "Se cuide,
seu velhaco. Achei
uma vara nas cocheiras e estava passando pelo pátio quando vi Jean Le Viste
saindo da casa, apressado. Passou por mim sem nem sequer me olhar deve ter pensado
que eu era mais um criado. Chamei: "Meu senhor! Por favor, um instante!
Se eu não falasse naquela hora, podia não ter outra chance de ficar
a sós com ele. Jean
Le Viste virou-se para ver quem chamava, depois resmungou e continuou andando.
Corri para alcançá-lo. Por favor, meu senhor, gostaria de conversar
um pouco mais sobre as tapeçarias.
Deve falar com Léon, não comigo.
Sim, meu senhor, mas achei que deveria consultá-lo diretamente num assunto
tão importante quanto as tapeçarias. Fui atrás dele, a
ponta da vara bateu numa pedra, ela soltou da minha mão e caiu com estrépido
no chão. O som ecoou por todo o pátio. Jean Le Viste parou e me
olhou.
Estou preocupado, meu senhor falei rápido. Achei que deveria colocar
em suas paredes o que os demais membros da corte esperariam de alguém tão
importante, que é nada menos do que um presidente da Cour des Aides."
Fui andando e escolhendo as palavras.
Qual é o assunto? Estou ocupado!
Nesse último ano, vi os desenhos de diversas tapeçarias que os nobres
encomendaram a meus colegas artistas. Todas tinham algo em comum: o fundo com
millefleurs, pequenas florezinhas. Era verdade estava na moda o fundo com
uma densa estampa de flores, principalmente depois que os tapeceiros do Norte
aperfeiçoaram a técnica de tecê-las.
Flores? repetiu Jean Le Viste, olhando para os pés como se tivesse acabado
de pisar em alguma coisa.
Sim, meu senhor.
Batalhas não têm flores.
Não, meu senhor. Meus colegas não têm feito batalhas. Muitos
desenham cenas com... unicórnios, meu senhor.
Unicórnios?
Sim, meu senhor. Jean
Le Viste parecia tão incrédulo que logo menti mais um pouco, esperando
que ele não descobrisse.
Várias famílias encomendaram: Jean dAlençon, Charles de
St Émilion, Philippe de Chartres. Tentei dar nomes que Jean Le Viste
dificilmente visitaria ou porque moravam longe, ou por serem nobres demais para
os Le Viste, ou não tão nobres quanto.
Não estão encomendando batalhas repetiu Jean Le Viste.
Não, meu senhor.
Unicórnios.
Sim, meu senhor. Eles agora estão à la mode. E pensei que um unicórnio
seria apropriado para sua família. Contei do jogo de palavras de Béatrice. Jean
Le Viste não mudou de expressão, mas concordou, e isso bastava.
Sabe o que vai fazer com esse unicórnio?
Sim, meu senhor, sei.
Então está certo. Avise Léon. E me traga os desenhos antes
da Páscoa. Jean Le Viste virou-se para atravessar o pátio. Fiz
uma reverência às costas dele. Não
foi tão difícil convencê-lo quanto pensei. Eu estava certo
em achar que Jean Le Viste ia querer o que achava que todo mundo tinha. Assim
é a nobreza que não tem antepassados nobres: ela imita em vez de
criar. Não passou pela cabeça de Jean Le Viste que ele poderia ser
mais respeitado por encomendar tapeçarias de batalha quando ninguém
as tinha. Convencido como parecia ser, não ia se opor aos outros. Caso
não descobrisse que não havia outras tapeçarias de unicórnios,
eu estava salvo. Claro que eu teria de fazer os melhores desenhos de tapeçarias,
assim as outras famílias também iam querer e Jean Le Viste se orgulharia
por ser o primeiro a tê-las. Eu
não queria agradar só a ele, mas à esposa e à filha
também. Não sabia quem me interessava mais: o lindo rosto de Claude
ou o rosto triste de Geneviève. Talvez houvesse espaço para ambos
na floresta do unicórnio. Naquela
noite, fui beber no Le Coq dOr para comemorar a encomenda e depois dormi mal.
Sonhei com unicórnios e damas rodeadas de flores, uma menina mastigando
cravo-da-índia, outra se olhando no fundo de um poço, uma dama segurando
jóias ao lado de um cofrinho, uma menina alimentando um falcão.
Tudo tão misturado que não consegui entender. Não foi um
pesadelo, mas um desejo. Quando
acordei, minha cabeça estava desanuviada e eu pronto para fazer os sonhos
se tornarem realidade. |