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Contos,
de Primo Levi (tradução de Maurício Santana Dias; Companhia
das Letras; 528 páginas; 41 reais) Sobrevivente de Auschwitz, o
mais terrível dos campos de concentração nazistas, o químico
italiano Primo Levi (1919-1987) deixou um dos mais eloqüentes testemunhos
do que foi o horror do holocausto em obras autobiográficas como É
Isto um Homem? e A Trégua. Os três livros de contos reunidos
nesse volume Histórias Naturais, que o autor publicou com
o pseudônimo de Damiano Malabaila, Vício de Forma e Lilith
revelam que o talento de Levi não se resumia ao memorialismo.
Alguns contos voltam ao tema central de sua obra, o holocausto. Mas também
há histórias fantásticas e até de ficção
científica.
Leia
trecho Os
mnemagogos O
doutor Morandi (que ainda não se habituara a ser chamado de doutor) desceu
da viatura com a intenção de conservar-se incógnito por no
mínimo dois dias, mas logo viu que seria impossível. A proprietária
do café Alpino o acolhera com neutralidade (evidentemente não era
muito curiosa, ou não muito arguta); mas, pelo sorriso deferente, maternal
e levemente debochado da dona da tabacaria, ele entendeu que já era "o
doutor novo", sem possibilidade de adiamentos. "Devo ter o diploma escrito
na cara — pensou: ‘tu es medicus in aeternum’, e, o que é pior, todos vão
perceber." Morandi não tinha nenhum gosto pelas coisas irrevogáveis
e, naquele momento, sentia-se inclinado a ver naquela história uma grande
e interminável chateação. "Algo parecido com o trauma
do nascimento", concluiu de modo não muito coerente. ...
No entanto, como primeira conseqüência do anonimato perdido, era preciso
encontrar Montesanto, sem mais demoras. Voltou ao café para retirar da
mala a carta de apresentação e se pôs à procura do
endereço que estava no cartão, cruzando a cidade deserta sob um
sol inclemente. Chegou
ao lugar com dificuldade, depois de infinitos giros inúteis; não
quis perguntar a rua a ninguém, porque nos rostos dos poucos que avistou
pelo caminho pareceu discernir uma curiosidade malévola. Esperava
que a placa de identificação da casa fosse velha, mas a achou mais
velha que qualquer expectativa, coberta de ferrugem e com o nome quase ilegível.
Todas as persianas da casa estavam fechadas, e a baixa fachada, descascada e sem
cor. À sua chegada, houve um rápido e silencioso acender de lâmpadas. Montesanto
em pessoa desceu e veio recebê-lo. Era um velho alto e corpulento, de olhos
míopes e vivos num rosto de traços gastos e pesados: movia-se com
a segurança silenciosa e maciça dos ursos. Estava de mangas curtas,
sem colete: a camisa estava puída e não parecia limpa. Pela
escada e em cima, no estúdio, estava fresco e quase escuro. Montesanto
sentou e ofereceu uma cadeira a Morandi, especialmente incômoda. "Vinte
e dois anos aqui dentro", pensou Morandi com um arrepio mental, enquanto
o outro lia sem pressa a carta de apresentação. Mirou ao redor,
enquanto seus olhos se habituavam à penumbra. Sobre
a escrivaninha, cartas, revistas, receitas e outros papéis de natureza
indefinível, todos amarelados e amontoados numa pilha impressionante. Do
teto pendia um longo fio de aranha, apenas visível pela poeira que o envolvia,
balançando molemente aos sopros imperceptíveis da brisa meridiana.
Um armário envidraçado com poucos instrumentos antigos e poucas
garrafinhas nas quais os líquidos tinham corroído o vidro, assinalando
o nível que por muito tempo haviam conservado. Na parede, estranhamente
familiar, a grande moldura fotográfica dos "Laureandi Medici 1911",
bem conhecido dele: aí está o rosto quadrado e o queixo forte de
seu pai, Morandi sênior; e logo ao lado (ai, como seria difícil reconhecê-lo!)
o aqui presente Ignazio Montesanto, magro, nítido e espantosamente jovem,
com ar de herói e mártir do pensamento, tão ao gosto dos
formandos da época. Após
a leitura, Montesanto pousou a carta sobre o monte de papéis da escrivaninha,
onde ela camuflou-se perfeitamente. "Bem",
disse em seguida, "estou muito contente que o destino, a sorte...",
e a frase acabou num murmúrio indistinto, seguido de um longo silêncio.
O velho médico inclinou a cadeira sobre as pernas posteriores e dirigiu
o olhar para o teto. Morandi se dispôs a esperar que o outro retomasse o
discurso; o silêncio já começava a pesar quando Montesanto
retomou subitamente a fala. Falou
por muito tempo, a princípio com muitas pausas, depois com mais rapidez;
a sua fisionomia se ia reanimando, os olhos brilhavam ágeis e vivos no
rosto desfeito. Surpreso, Morandi se dava conta de experimentar uma nítida
e crescente simpatia pelo velho. Tratava-se evidentemente de um solilóquio,
um grande devaneio que Montesanto estava se concedendo. Para ele as ocasiões
de falar (e se via que sabia falar e que conhecia a importância disso) deviam
ser raras, breves retornos a um antigo vigor de pensamento agora talvez perdido. Montesanto
narrava a sua impiedosa iniciação profissional nos campos e trincheiras
da outra guerra; a sua tentativa de carreira universitária, iniciada com
entusiasmo, continuada com apatia e abandonada entre a indiferença dos
colegas, fato que havia enfraquecido todas as suas esperanças; o exílio
voluntário no povoado obscuro, em busca de algo muito indefinido para poder
ser encontrado; e finalmente a vida atual de solitário, estrangeiro numa
comunidade de gente pequena e ociosa, boa e ruim, mas para ele irremediavelmente
distante; a prevalência definitiva do passado sobre o presente e o naufrágio
último de todas as paixões, salvo a fé na dignidade do pensamento
e na supremacia das coisas do espírito. "Velho
estranho", pensava Morandi; notara que o outro falava havia quase uma hora
sem sequer o olhar. De início, tentara várias vezes fazê-lo
voltar a um plano mais concreto, indagá-lo sobre o estado sanitário
da jurisdição, sobre a renovação dos aparelhos, sobre
o armário dos remédios, talvez até sobre a própria
organização pessoal; mas não conseguira, por timidez e por
um mais ponderado respeito. Agora
Montesanto estava calado, com o rosto virado para o teto e o olhar acomodado no
infinito. Era evidente que o solilóquio continuava internamente. Morandi
estava embaraçado; perguntava-se se a sua réplica era esperada ou
não, e qual seria, e se o médico se dava conta de que não
estava sozinho em seu estúdio. Mas
ele se dava conta. De repente deixou a cadeira cair sobre os quatro pés
e, com uma voz curiosa e esforçada, disse: "Morandi,
o senhor é jovem, muito jovem. Sei que é um bom médico, ou
melhor, que se tornará bom; penso até que deve ser um homem bom.
Caso o senhor não seja bom o suficiente para compreender o que eu lhe disse
e o que lhe direi agora, espero que seja bom o bastante para não rir de
mim. E, se rir, não será um grande mal: como o senhor sabe, dificilmente
nos encontraremos de novo; de resto, é da ordem das coisas que os jovens
se riam dos velhos. Só lhe peço que não se esqueça
de que é o primeiro a saber dessas minhas coisas. Não quero adulá-lo
dizendo que o senhor me pareceu particularmente digno de minha confiança.
Sou sincero: o senhor é a primeira ocasião que se apresenta há
muitos anos, e provavelmente a última." "Pode
falar", disse Morandi simplesmente. "Morandi,
já notou com que potência certos odores evocam certas lembranças?" O
golpe chegara imprevisto. Morandi engoliu com esforço: disse que havia
notado e podia até arriscar uma teoria explicativa para o caso. Não
se explicava a mudança de tema. Concluiu com seus botões que devia
se tratar de um "parafuso" solto, daqueles que todos os médicos
têm depois de certa idade. Como Andriani: aos sessenta e cinco anos, cheio
de fama, dinheiro e clientela, tivera tempo de cobrir-se de ridículo com
a história do campo nêurico. O
outro havia agarrado com as duas mãos os ângulos da escrivaninha
e olhava o vazio franzindo a testa. Depois recomeçou: "Agora
mostrarei algo inusitado. Durante os meus anos de assistente em farmacologia,
estudei muito a fundo a ação dos adrenalínicos absorvidos
por via nasal. Não descobri nada de útil à humanidade, mas
apenas um fruto bastante indireto, como o senhor verá. "Mesmo
mais tarde, dediquei muito do meu tempo à questão das sensações
olfativas e de suas relações com a estrutura molecular. Trata-se,
a meu ver, de um campo extremamente fecundo, aberto inclusive a pesquisadores
dotados de recursos modestos. Vi com prazer, ainda recentemente, que alguém
está se ocupando disso, e também estou a par das novas teorias eletrônicas,
mas o único aspecto da questão que agora me interessa é outro.
Creio que hoje possuo o que mais ninguém no mundo possui. "Há
quem não se importe com o passado e deixe que os mortos enterrem seus mortos.
E há os que se interessam pelo passado, entristecendo-se com a sua contínua
desaparição. Há ainda os que têm o cuidado de manter
um diário contínuo, a fim de que cada coisa sua seja salva do esquecimento,
e quem conserva em sua casa e em sua pessoa lembranças materializadas:
uma dedicatória num livro, uma flor seca, um cacho de cabelo, fotografias,
velhas cartas. "Eu,
por natureza, só posso pensar com horror na eventualidade de que uma só
de minhas lembranças seja cancelada, e por isso adotei todos esses métodos;
mas também criei um novo. "Não,
não se trata de uma descoberta científica, simplesmente tirei partido
de minha experiência de farmacologista e reconstruí, com exatidão
e numa forma conservável, um certo número de sensações
que para mim significam alguma coisa. "A
isso (repito, não pense que falo sempre sobre esse assunto) chamo mnemagogos:
‘suscitadores de memória’. Quer me acompanhar?" Ergueu-se
e dirigiu-se ao corredor. Na metade do caminho, voltou-se e acrescentou: "Como
o senhor pode imaginar, devem ser usados com parcimônia, do contrário
seu poder evocativo pode diminuir; além disso, não é preciso
que lhe diga que são inevitavelmente pessoais. Estritamente. Aliás,
pode-se dizer que são a minha pessoa, já que ao menos em parte eu
consisto neles". Abriu
um armário. Ali estavam umas cinqüenta garrafinhas de tampa esmerilhada,
todas numeradas. "Por
favor, escolha uma." Morandi
o olhava perplexo; estendeu uma mão hesitante e escolheu uma. "Abra
e cheire. O que está sentindo?" Morandi
inspirou profundamente várias vezes, primeiro com os olhos em Montesanto,
depois erguendo a cabeça numa postura de quem interroga a memória. "Isso
me pareceria cheiro de caserna." Montesanto cheirou por sua vez: "Não
exatamente", respondeu, "ou pelo menos não é o mesmo para
mim. É o cheiro das aulas nas escolas primárias; aliás, da
minha sala na minha escola. Não vou me estender sobre a composição:
contém ácidos graxos voláteis e uma acetona não-saturada.
Entendo que para o senhor não seja nada: para mim, é a minha infância. "Também
conservo a foto dos meus trinta e sete colegas de escola do primeiro ano primário,
mas o cheiro desta garrafinha é imensamente mais eficaz na evocação
das horas intermináveis de tédio sobre o silabário; o estado
de espírito peculiar das crianças (de mim criança!) à
espera terrificante da primeira prova de ditado. Quando inalo isto aqui (não
agora: é preciso um certo grau de recolhimento, naturalmente), quando cheiro,
minhas vísceras se retorcem como quando esperava ser sabatinado aos sete
anos. Quer escolher mais uma?" "Acho
que esta me lembra... espere... Na casa de meu avô, no campo, havia um quartinho
onde se colocavam as frutas para amadurecer..." "Muito
bem", fez Montesanto com sincera satisfação. "Exatamente
como dizem os tratados. Fico grato de que o senhor tenha escolhido um odor profissional:
este é o cheiro do hálito do diabético em fase acetonêmica.
Com mais uns anos de prática o senhor certamente teria descoberto sozinho.
Como sabe, é um sinal clínico infausto, o prelúdio do coma. "Meu
pai morreu diabético, há quinze anos; não foi uma morte breve
nem misericordiosa. Meu pai representava muito para mim. Eu o velei por noites
inumeráveis, assistindo impotente à progressiva anulação
da sua identidade; não foram vigílias estéreis. Muitas das
minhas crenças foram abaladas, muito do meu mundo mudou. Para mim, portanto,
não se trata apenas de maçãs ou de diabetes, mas do sofrimento
solene e purificador, único na vida, de uma crise religiosa." "...
Esta não passa de ácido fênico!", exclamou Morandi, cheirando
uma terceira garrafa. "De
fato. Pensava que para o senhor esse cheiro também dissesse alguma coisa;
mas ainda não faz um ano que o senhor terminou os turnos de hospital, a
recordação ainda não amadureceu. Porque o senhor deve ter
notado — não é verdade? — que o mecanismo evocatório de que
estamos falando exige que os estímulos, depois de terem agido repetidamente,
associados a um ambiente ou a um estado de alma, em seguida cessem de agir por
um tempo bastante largo. De resto, o senso comum diz que as recordações,
para serem sugestivas, devem ter um sabor antigo. "Eu
também dei muitos plantões em hospitais e respirei ácido
fênico a plenos pulmões. Só que isso ocorreu há um
quarto de século, e, além disso, desde aquela época o fenol
deixou de constituir o fundamento da anti-sepsia. Mas no meu tempo era assim,
e é por isso que ainda hoje não posso cheirá-lo (não
o quimicamente puro, mas este, a que acrescentei pitadas de outras substâncias
que o tornam específico para mim) sem que me surja na mente um quadro complexo,
de que fazem parte uma música então em voga, o meu entusiasmo juvenil
por Blaise Pascal, uma certa languidez primaveril nos rins e nos joelhos e uma
colega de curso que, fiquei sabendo, tornou-se avó recentemente." Dessa
vez ele mesmo escolhera uma garrafa; ofereceu-a a Morandi: "Confesso
que até hoje sinto orgulho deste preparado. Apesar de nunca ter publicado
seus resultados, considero-o o meu verdadeiro sucesso científico. Gostaria
de ouvir a sua opinião." Morandi
aspirou com todo o cuidado. Certamente não era um cheiro novo: poderia
ser qualificado de ardente, enxuto, quente... "...
Quando se chocam duas pedras de ignição...?" "Sim,
também. Parabéns pelo seu olfato. Sente-se esse cheiro no alto da
montanha, quando a rocha se escalda ao sol; especialmente quando há um
desmoronamento de pedras. Asseguro-lhe que não foi fácil reproduzir
in vitro e tornar estáveis as substâncias que o constituem
sem alterar suas qualidades sensíveis. "Antigamente
eu ia muito à montanha, quase sempre sozinho. Quando chegava ao topo, deitava
sob o sol no ar parado e silencioso e me parecia que alcançara um objetivo.
Naqueles momentos, e só se me concentrasse, percebia esse cheiro suave,
raro de ser sentido em outros lugares. No que me diz respeito, deveria chamá-lo
aroma da paz conquistada." Superado
o desconforto inicial, Morandi começava a se afeiçoar ao jogo. Pinçou
ao acaso uma quinta garrafa e a estendeu a Montesanto: "E esta?". "Isto
não é um lugar nem um tempo. É uma pessoa." Fechou
o armário; havia falado em tom definitivo. Morandi preparou mentalmente
algumas expressões de interesse e de admiração, mas não
conseguiu superar uma estranha barreira interna e renunciou a externá-las.
Despediu-se apressadamente, com uma vaga promessa de nova visita, e precipitou-se
pela escada em direção ao sol. Sentiu que enrubescera intensamente. |