Ulf
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 |  | | Cunningham:
obra centrada no poeta Walt Whitman | |
Dias
Exemplares, de Michael Cunningham (tradução
de José Geraldo Couto; Companhia das Letras; 408 páginas; 53 reais)
Em seu romance anterior, As Horas, Cunningham uniu a história
de três mulheres, cada uma em uma época diferente, tendo a literatura
da modernista inglesa Virginia Woolf como fio condutor. Dias Exemplares segue
uma fórmula parecida. O livro começa com a história de um
menino operário no século XIX, segue nos dias de hoje com o drama
de uma psicóloga que se envolve com um jovem terrorista e termina com uma
narrativa de ficção científica, situada num mundo destruído
pela poluição. Desta vez, o escritor que une as três histórias
é Walt Whitman, o grande poeta da democracia americana, que de uma forma
ou de outra inspira os diferentes personagens. Leia
trecho NA
MÁQUINA Walt
disse que os mortos se transformavam em relva, mas não havia relva alguma
onde enterraram Simon. Ele estava com os outros irlandeses do lado de lá
do rio, onde só havia barro, cascalho e nomes escritos em lápides. Catherine
acreditava que Simon tinha ido para o céu. Tinha um medalhão com
o retrato e um pouquinho do cabelo dele dentro. "O
céu é o lugar para ele", disse ela. "Ele era bom demais
para este mundo." Olhou indecisa para a rua pela janela da sala de visitas,
como se esperasse ver uma carruagem reluzente rodando com Simon a bordo, sereno
em sua beleza branca como o leite, a acenar e a sorrir, rumando alegremente para
o lugar que sempre lhe coubera. "Se
você pensa assim", respondeu Lucas. Catherine acariciou o medalhão.
Suas mãos eram afiladas e precisas. Ela era capaz de fazer cerzidos tão
delicados que nem dava para ver. "E
no entanto ele ainda está conosco", disse ela. "Você não
sente?" Apertava a corrente do medalhão como se fosse um rosário. "Acho
que sim", disse Lucas. Catherine pensava que Simon estava no medalhão,
e no céu, e junto com eles ainda. Lucas esperava que ela não julgasse
que ele ficaria feliz em ter tantos Simons como concorrentes. Os
convidados tinham partido, e os pais de Lucas já estavam deitados. Apenas
Lucas e Catherine continuavam na sala, com o que tinha sobrado. Pratos vazios,
a crosta de um pernil. O pernil deveria ter sido para o casamento de Catherine
e Simon. Foi uma sorte tê-lo à mão, em vez disso, para o velório. Lucas
disse: "Ouvi o que os tagarelas falavam, a conversa do começo e do
fim. Mas eu não falo sobre o começo ou sobre o fim". Não
tivera a intenção de falar como o livro. Nunca queria isso, mas
quando estava excitado não conseguia evitar. Ela
disse: "Ah, Lucas". O
coração dele se agitou e bateu contra as costelas. "Eu
me preocupo com você", disse ela. "Você é tão
novinho." "Tenho
quase treze", disse ele. "É
um lugar terrível. Um trabalho tão pesado." "Tenho
sorte. Foi bondade deles me dar o emprego de Simon." "E
a escola?" "Não
preciso de escola. Tenho o livro de Walt." "Você
o conhece de cabo a rabo, não é?" "Ah,
não. Tem muita coisa ainda, vou levar anos." "Você
precisa tomar cuidado na fábrica", disse ela. "Você tem
que..." Parou de falar, embora seu rosto não tenha mudado. Ela continuou
oferecendo seu perfil, que era solenemente belo como o de uma mulher numa moeda.
Continuou olhando para a rua pela janela, esperando pelo desfile do séquito
celestial, com Simon no alto, o orgulho da família, um novo príncipe
dos mortos. Lucas
disse: "Você tem que se cuidar também". "Não
me restou nada mais para cuidar, meu querido. Para mim é só amanhã
e o dia seguinte." Ela
colocou de novo a corrente em torno do pescoço. O medalhão desapareceu
dentro do seu vestido. Lucas queria lhe dizer - o quê? Queria lhe dizer
que estava inspirado e vigilante e corajosamente só, que seu corpo continha
seu inquieto coração e algo mais, algo que ele sentia mas não
era capaz de descrever: algo poroso, eriçado, movediço, com sombras
de pensamento, com desejo e memória; algo de vívido esplendor, um
tremeluzir em branco, verde e leve dourado, como estrelas; algo que amava as estrelas
porque era feito da mesma substância. Precisava dizer a ela que era impossível,
que era intolerável, ser visto sempre como um garoto deformado, estrábico,
de cabeça oca e com o costume de falar em espasmos. Ele
disse: "Eu celebro a mim mesmo, e o que eu aceito você aceitará".
Não era isso o que queria dizer. Ela
sorriu. Pelo menos não estava zangada com ele. Ela disse: "Agora tenho
que ir. Você me acompanha até minha casa?". "Sim",
disse ele. "Sim." Do
lado de fora, na rua, Catherine deslizou a mão para a dobra do cotovelo
dele. Ele tentou ficar firme, caminhar de modo viril, embora tudo o que quisesse
era estancar o passo, elevar-se como fumaça e flutuar sobre a rua, que
estava cheia da sua população noturna, trabalhadores voltando para
casa, garotos vendendo seus jornais. O louco sr. Cain andava de um lado para outro
em sua esquina, vestido com seu casaco cor de terra, catando distraidamente alguma
coisa que fervilhava em sua barba e gritando: "Injúria, ida e esquecida,
o que você fez com os corações despedaçados?".
A rua estava repleta de seu cheiro característico, esterco e querosene,
fumaça acre - alguma coisa estava sempre queimando em algum lugar. Se Lucas
pudesse se elevar acima de seu próprio corpo, ele se tornaria aquilo que
estava vendo, ouvindo e cheirando. Envolveria Catherine como o ar, e a tocaria
em todas as partes. Seria tragado para dentro dela quando ela respirasse. Ele
disse: "O menor dos brotos mostra que não existe de fato morte alguma". "É
como você diz, meu querido", disse Catherine. Um
menino jornaleiro gritou: "Mulher é assassinada brutalmente, leia
tudo sobre o caso!". Lucas refletiu que poderia ser um jornaleiro, mas o
pagamento era muito baixo, e ele não era confiável para anunciar
as notícias, era? Podia se perder e sair pelas ruas gritando: "Cada
átomo que pertence a mim pertence também a você". Ele
se daria melhor na fábrica. Se o impulso o dominasse, poderia gritar com
a máquina de Simon. A máquina não iria entender nem se importar,
não mais do que Simon. Catherine
não abriu a boca enquanto caminhavam. Lucas obrigou-se a manter silêncio
também. O prédio dela ficava três quadras para o norte, na
rua Cinco. Ele subiu com ela a escadaria da entrada e os dois ficaram ali parados
por um momento, diante da porta surrada. Catherine
disse: "Chegamos". Uma
carroça passou por eles com uma paisagem dourada pintada na lateral: duas
vacas pastando entre árvores raquíticas e uma terceira levantando
os olhos para o nome de um laticínio, que flutuava no céu dourado.
Aquilo era para ser o paraíso? Será que Simon queria estar lá?
Se Simon fosse para o paraíso e este se revelasse um campo repleto de vacas
reverentes, que Simon seria ele quando chegasse lá? Seria o Simon completo
ou o despedaçado? Formou-se
um silêncio entre Lucas e Catherine, diferente da quietude com que eles
tinham caminhado. Era hora, pensou Lucas, de dizer alguma coisa que não
soasse como o livro. Disse: "Você vai ficar bem?". Ela
riu, um riso baixo e sussurrante que ele sentiu nos pêlos de seu antebraço.
"Sou eu que devo lhe fazer essa pergunta. Você vai ficar bem?". "Sim,
sim, vou ficar ótimo." Ela
olhou para um lugar logo acima da cabeça de Lucas e se recompôs com
uma ligeira mudança de posição dentro do vestido escuro.
Pareceu por um momento que o vestido, com sua gola alta, sua insinuação
de seda escondida, tinha vida própria. Pareceu que Catherine, tendo considerado
brevemente a possibilidade de se erguer para fora de seu vestido, tivesse em vez
disso decidido permanecer dentro de suas roupas. Ela
disse: "Se tivesse acontecido uma semana mais tarde, eu seria uma viúva,
não seria? Agora não sou nada". "Não,
não. Você é maravilhosa, você é linda." Ela
riu de novo. Ele baixou os olhos para a escada, notou que ela continha partículas
brilhantes. Mica? Colocou-se por um momento no lugar da pedra. Sentiu-se frio
e cintilante, imutável, contente por ser pisado. "Sou
uma velha", disse ela. Ele
hesitou. Catherine tinha passado dos vinte e cinco. Isso foi comentado quando
se anunciou o casamento, pois Simon mal tinha completado vinte. Mas ela não
era velha do jeito que tinha falado. Não estava estragada ou gasta, não
estava descolorida. Ele
disse: "Para mim você não é culpada, nem passada, nem
rejeitada". Ela
tocou o rosto dele com a ponta dos dedos. "Menino doce", disse. Ele
disse: "Verei você de novo?". "Claro
que sim. Estarei bem aqui." "Mas
não vai ser a mesma coisa." "Não.
Não vai ser a mesma coisa, infelizmente." "Se
pelo menos..." Ela
esperou para ouvir o que ele iria dizer. Ele esperou também. Se pelo menos
a máquina não tivesse levado Simon. Se ele, Lucas, fosse mais velho
e mais saudável, com um coração mais forte. Se ele próprio
pudesse se casar com Catherine. Se pudesse sair de seu corpo e se tornar o vestido
que ela usava. Houve
um silêncio, e ela o beijou. Colocou seus lábios nos dele. Quando
ela recuou, ele disse: "A atmosfera não é um perfume, não
tem o gosto do destilado, é inodora, é da minha boca para sempre,
estou apaixonado por ela". Ela
disse: "Agora você precisa ir para casa e dormir". Era
hora de deixá-la. Não havia mais nada a fazer ou a dizer. Mesmo
assim, ele se deteve. Sentia, como ocorria às vezes em seus sonhos, que
estava num palco diante de uma platéia, para a qual devia cantar ou recitar. Ela
se virou, tirou a chave de uma bolsinha, colocou-a na fechadura. "Boa noite",
disse. "Boa
noite." Ele
desceu os degraus. Da calçada, disse para o vulto dela que se recolhia:
"Sou dos velhos e dos jovens, sou tanto dos tolos como dos sábios". "Boa
noite", disse ela de novo. E desapareceu. |