Limpeza
de Sangue,
de Arturo Pérez-Reverte (tradução de Paulina Wacht e Ari
Roitman; Companhia das Letras; 232 páginas; 41 reais) – O jornalista e
escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte reavivou um gênero antiquado:
o romance de capa-e-espada, ao estilo de Alexandre Dumas. Limpeza de Sangue
é o segundo livro protagonizado pelo capitão Alatriste, um aventureiro
espanhol do século XVII. Pérez-Reverte inclui até alguns
personagens reais no meio da história, como Francisco de Quevedo, um dos
maiores poetas do chamado "Século de Ouro" da literatura espanhola. Quevedo
e Alatriste são parceiros na tentativa de resgatar uma noviça de
um convento onde estava sendo seviciada por um frei. Os dois heróis acabam
se batendo contra a Inquisição.
Leia
trecho
1. Um lance do senhor de Quevedo Naquele
dia havia tourada na Plaza Mayor, mas o tenente de aguazis Martín Saldaña
perdeu a festa. A mulher aparecera estrangulada dentro de uma liteira, em frente
à igreja de São Ginês, com uma bolsinha entre os dedos contendo
cinqüenta escudos e um bilhete manuscrito, sem assinatura, com as palavras:
Para missas por sua alma. Uma beata madrugadora a havia encontrado, avisou o sacristão
e este o pároco, que após uma urgente absolvição sub
conditione informou à Justiça. Quando o tenente de aguazis se fez
presente no largo de São Ginês, os vizinhos e curiosos já
redemoinhavam em volta da liteira. Aquilo se havia transformado numa romaria,
de modo que foi preciso recorrer aos beleguins para manter as pessoas afastadas
enquanto o juiz e o escrivão lavravam a ata e Martín Saldaña
dava uma olhada sossegada no cadáver.
Saldaña fazia tudo
da maneira mais pachorrenta do mundo, como se dispusesse sempre de muito tempo.
Talvez por sua condição de antigo soldado - combatera em Flandres,
antes que sua mulher conseguisse para ele, diziam, a vara de tenente -, o chefe
dos aguazis de Madri costumava levar as coisas do ofício com muita fleuma,
num passo que certo poeta satírico, o beneficiado Ruiz de Villaseca, descrevera
numa décima envenenada como passo bovino, em clara alusão à
suposta forma de exercer o tenente sua vara, ou seja, atrelado num varal. De todo
modo, embora Martín Saldaña fosse realmente lento para algumas coisas,
não o era em absoluto na hora de lançar mão da espada, da
adaga, do punhal ou dos pistolões bem municiados que costumava portar no
cinto fazendo um ameaçador tilintar de ferragens. O próprio beneficiado
Villaseca, que acabou com três orifícios no corpo, em frente à
porta de sua casa, na noite do terceiro dia após ser divulgada a décima
em questão no mentideiro de São Felipe, podia dar fé disso
no purgatório, no inferno ou onde diabos estivesse àquela altura
da história.
O caso é que o prolongado exame que o tenente
de aguazis fez no cadáver não rendeu coisa alguma. A morta era madura,
mais para os cinqüenta que para os quarenta, e vestia um amplo burel negro
e uma touca que lhe davam aspecto de aia, ou mulher de companhia. Tinha um rosário
na algibeira, junto com uma chave e uma estampa amassada da Virgem de Atocha,
e no pescoço uma corrente de ouro com a medalha de santa Ágata;
e suas feições faziam pensar que na juventude não fora moça
mal-apanhada. Não havia nela outros sinais de violência além
do cordel de seda ainda apertando o seu pescoço e a boca aberta no ricto
da morte. Pela cor e a rigidez, concluiu-se que havia sido estrangulada na noite
anterior, dentro da mesma liteira, antes de ser levada à igreja. O detalhe
da bolsa com dinheiro para pagar missas por sua alma indicava um tortuoso senso
de humor ou uma grande caridade cristã. Afinal, naquela Espanha escura,
violenta e contraditória que foi a do nosso rei católico dom Felipe
iv, onde vadios depravados e rudes valentões pediam confissão aos
gritos depois de receber um pistolaço ou uma estocada, não era singular
deparar-se com um assassino piedoso.
Martín
Saldaña contou-nos a ocorrência à tarde. Ou seria mais exato
dizer que comentou-a com o capitão Alatriste quando nos encontramos na
porta de Guadalajara, ao chegarmos da Plaza Mayor com a multidão, e Saldaña
de sua investigação sobre a mulher morta, cujo cadáver ficara
exposto em Santa Cruz dentro de um caixão de enforcados para ver se alguém
a identificava. Comentou o assunto bastante por alto, mais interessado na bravura
dos touros enfrentados na praça que no crime que tinha nas mãos;
coisa lógica se considerarmos que na perigosa Madri da época eram
muito freqüentes as mortes na rua, mas já começavam a escassear
os bons festivais de touros e varas. As varas, uma espécie de torneio a
cavalo entre quadrilhas de gentis-homens principais, do qual às vezes participava
o rei nosso senhor, haviam sido amaneiradas por janotas e petimetres, mais interessados
em laços, fitas e damas que em arriscar a pele como Deus manda; e não
eram mais, nem de longe, como nos tempos das pelejas entre mouros e cristãos,
ou mesmo ainda em vida do avô do nosso jovem monarca, o grande Felipe II.
Quanto aos touros, esta continuava sendo outra grande paixão do povo espanhol
naquelas primeiras décadas do século. Dois terços dos mais
de setenta mil habitantes de Madri compareciam à Plaza Mayor toda vez que
se lidavam cornúpetos, louvando a bravura e a destreza dos cavaleiros que
enfrentavam os animais. Porque, nesse tempo, fidalgos, grandes da Espanha e até
mesmo pessoas de sangue real não se furtavam a ir à praça,
montados em seus melhores corcéis, para quebrar a garrocha no cachaço
de um touro de Jarama ou matá-lo de pé, com a espada, em meio aos
aplausos da turba entusiasmada, que se guarnecia sob os arcos da praça,
no caso do vulgo, ou em varandas alugadas por até vinte e cinco ou cinqüenta
escudos para cortesãos, núncio e embaixadores estrangeiros. Aqueles
lances eram celebrados mais tarde em coplas e versos; tanto os galhardos, que
eram numerosos, como os engraçados e grotescos, que tampouco escasseavam
e eram material que os engenhos da corte não demoravam a empregar com argúcia.
Como quando um touro perseguiu um aguazil - a Justiça não gozava
então, como tampouco agora, de grande apreço popular - e todo o
público ficou a favor do touro:
O
galhudo justo foi
ao enfrentar o aguazil.
De quatro cornos, ali
sobravam
ao menos dois. Ou,
em outro tipo de situação, certa vez em que o almirante de Castela,
perseguindo a cavalo um touro morlaco, feriu acidentalmente com sua garrocha o
conde de Cabra. Isso fez correrem, no dia seguinte, estes celebrados versos nos
mentideiros mais ferinos de Madri: Mais
de mil tourearam de palavra,
e o Almirante, o único, o primeiro,
pondo
a garrocha em um passageiro,
presumiu que era touro, e era Cabra. É
compreensível então, voltando ao nosso domingo da mulher morta,
e a Martín Saldaña e seu velho amigo Diego Alatriste, que o primeiro
informasse ao segundo o motivo que o impedira de ir aos touros, e este, por sua
vez, relatasse àquele os pormenores da festa, que suas majestades os reis
haviam presenciado da varanda da Casa da Padaria, e o capitão e eu no meio
do público raso, comendo pinhões e tremoços à sombra
do portão de Pañeros. Os touros haviam sido quatro e de bravura
regular; e tanto o conde de Puñoenrostro como o de Guadalmedina brilharam
quebrando garrochas. Um animal de Jarama matara o cavalo de Guadalmedina; e o
conde, mui gentil-homem e valente, sacou a espada curta e, com os pés na
terra, jarretou o cornúpeto antes de matá-lo com duas belas estocadas;
o que lhe rendeu um sacudir de leques das damas, a aprovação do
rei e um sorriso da rainha. Que, pelo que diziam, olhava muito para ele, pois
Guadalmedina era garboso e de bom talhe. A nota pitoresca foi dada pelo último
touro, investindo contra a guarda real. Porque saibam vossas mercês que
as três guardas, espanhola, tudesca e de arqueiros, estavam formadas ao
pé do camarote real com suas alabardas, os homens aglomerados numa barreira
que haviam sido expressamente proibidos de desfazer, por mais que o touro se apresentasse
com as intenções do turco. Dessa vez o animal se aproximara além
do normal e, ao ser atingido pelas alabardas de um ceutense, levou para passear
pela praça, espetado num chifre, um dos guardas tudescos, grande e louro,
com as tripas para fora entre muitos Himmel e Mein Gott, e que foi preciso sacramentar
com toda urgência na própria praça.
- Ele pisava nas
próprias tripas como aquele alferes de Ostende - concluiu Diego Alatriste.
- Lembras? O do quinto assalto ao reduto do Cavalo... Ortiz, ou Ruiz, chamava-se.
Algo assim.
Martín Saldaña assentiu, acariciando a barba
grisalha, de soldado velho, que usava para cobrir o talho no rosto que lhe fizeram
uns vinte anos antes, o terceiro ou quarto do século, justamente durante
aquele ataque às muralhas de Ostende. Haviam saído das trincheiras
ao amanhecer, Saldaña, Diego Alatriste e mais quinhentos homens, entre
os quais se incluía Lope Balboa, meu pai; e depois correram encosta acima
com o capitão dom Tomás de la Cuesta à cabeça, a bandeira
com a cruz de santo André conduzida por esse alferes, Ortiz, Ruiz ou como
diabos se chamava, e com armas brancas tomaram as primeiras trincheiras holandesas
antes de subir pelos parapeitos enquanto o inimigo jogava de tudo em cima deles,
e depois passaram quase meia hora às facadas na muralha, entre mosquetaço
para lá e mosquetaço para cá, e foi então que fizeram
o talho no rosto de Martín Saldaña e outro na sobrancelha esquerda
de Diego Alatriste, e no alferes Ortiz, ou Ruiz, deram um tiro de escopeta à
queima-roupa que o deixou de tripas de fora e se arrastando pelo chão,
na pressa de sair da zona de combate, tentando segurá-las com a mão,
mas não conseguiu se afastar dali porque logo depois o liquidaram com outro
tiro na cabeça. E quando o capitão de la Cuesta, ensangüentado
como um ecce-homo porque também tinha levado a sua cota, disse "senhores,
fizemos o que foi possível, agora é pernas para que vos quero e
salve-se quem puder", meu pai e outro soldado aragonês pequeno e rijo,
um tal de Sebastião Copons, ajudaram Saldaña e Diego Alatriste a
retornar às trincheiras espanholas, com todos os holandeses do mundo alvejando-os
das muralhas com seus arcabuzes enquanto corriam de volta, blasfemando contra
Deus e a Virgem ou encomendando-se a eles, o que no caso dava no mesmo. E alguém
ainda teve tempo e fleuma para trazer consigo a bandeira do pobre Ortiz, ou Ruiz,
em vez de deixá-la no baluarte herege junto com seu cadáver e os
de duzentos camaradas que não iriam mais a Ostende, nem às trincheiras,
nem a lugar nenhum.
- Ortiz, acho que era Ortiz - concluiu por fim Saldaña.
Um
ano depois foram bem vingados o alferes e os outros duzentos, assim como os que
perderam o couro antes e nos assaltos seguintes ao reduto holandês do Cavalo,
quando por fim, na oitava ou nona tentativa, Saldaña, Alatriste, Copons,
meu pai e os outros veteranos do Terço Velho de Cartagena conseguiram atravessar
a muralha aos trancos e os holandeses começaram a dizer srindem, srindem,
que me parece significar amigos, ou camaradas, e veijiven nons over ou algo parecido,
quer dizer, nos rendemos. E foi então que o capitão de la Cuesta,
que era péssimo para as línguas estrangeiras mas tinha uma estupenda
memória, disse "nem srindem, nem veijiven nem a puta que os pariu,
não há quartel, senhores, lembrai-vos, nem um herege vivo neste
reduto", e quando Diego Alatriste e os outros finalmente içaram a
velha e esburacada cruz de santo André no baluarte, a mesma que o pobre
Ortiz portava antes de morrer pisando nas próprias tripas, o sangue holandês
escorria pelas lâminas das suas adagas e espadas até os cotovelos.
-
Dizem que vais voltar lá para cima - disse Saldaña.
- Pode
ser.
Apesar de estar ainda deslumbrado pelos touros, e de não poder
tirar os olhos das pessoas que saíam da praça e caminhavam pela
rua Mayor, as damas e os cavalheiros que ordenavam "dá-me o coche"
e subiam nas carruagens, os gentis-homens a cavalo e os elegantes que iam para
São Felipe ou para as lousas de palácio, prestei grande atenção
às palavras do tenente de aguazis. Naquele ano de 1623, o segundo do reinado
do nosso jovem rei dom Felipe, o reinício da guerra em Flandres exigia
mais dinheiro, mais terços e mais homens. O general dom Ambrosio Spínola
recrutava soldados em toda a Europa e centenas de veteranos vinham se alistar
sob as velhas bandeiras. O Terço de Cartagena, dizimado em Jülich,
onde se deu a morte do meu pai, e aniquilado um ano mais tarde em Fleurus, estava
sendo reconstituído e em breve sairia da praça forte de Breda, ou
Bredá, como dizíamos então. Embora sua ferida de Fleurus
ainda não estivesse completamente cicatrizada, eu estava a par de que Diego
Alatriste havia entrado em contato com antigos camaradas a fim de preparar sua
volta às fileiras. Nos últimos tempos, apesar de sua modesta condição
de espadachim a soldo, ou justamente por isso, o capitão fizera inimigos
poderosos na Corte. Não era insensato, durante algum tempo, estar a certa
distância.
- Talvez seja melhor assim - Saldaña encarava Alatriste
com intenção. - Madri tornou-se perigosa... Vais levar o garoto?
Caminhávamos
entre as pessoas, passando pelas lojas fechadas dos prateiros, em direção
à porta do Sol. O capitão deu um breve olhar em minha direção
e depois fez um gesto ambíguo.
- Talvez seja jovem demais - disse.
Atrás
da barba do tenente de aguazis esboçou-se um sorriso. Pôs sua larga
e sólida mão na minha cabeça, enquanto eu admirava as culatras
das reluzentes pistolas que trazia no cinto, e a adaga e a espada de punho largo
em torno do seu colete de camurça, próprio para proteger o torso
das eventuais facadas inerentes ao seu ofício. Esta mão, pensei,
algum dia também apertou a mão do meu pai.
- Não é
tão jovem para certas coisas, suponho - o sorriso de Saldaña cresceu,
entre divertido e malévolo; sabia das minhas tropelias durante a aventura
dos dois ingleses. - De todo modo, tu te alistaste na idade dele.
E era
verdade. Mais de um quarto de século antes, creio, sendo segundo filho
de uma família de fidalgos do campo, com treze anos e mal dominando as
quatro operações, a escrita e um pouco de latim, Diego Alatriste
fugira da escola e de sua casa. Assim chegou a Madri com um amigo e pôde
se alistar, mentindo sua idade, como pajem-tambor num dos terços que se
dirigiam a Flandres com o infante cardeal Alberto.
- Eram outros tempos
- replicou o capitão.
Havia se afastado para dar passagem a umas
damas, duas mulheres jovens com ar de rameiras de luxo, escoltadas por seus galãs.
Saldaña, que parecia conhecê-las, tirou o chapéu não
sem certa ironia, o que provocou o olhar furibundo de um dos petimetres. Olhar
que se esvaiu como por feitiço quando percebeu todas as ferragens que o
tenente de aguazis trazia penduradas.
- Nisso tens razão - disse
Saldaña, evocador. - Eram outros tempos e outros homens.
- E outros
reis.
O tenente de aguazis, que seguia as mulheres com os olhos, virou-se
para Alatriste com ligeiro sobressalto e depois me olhou de soslaio.
-
Vamos, Diego, não fales assim na frente do garoto. - Olhou para um lado
e para o outro lado da rua, incomodado. - E não me comprometas, por Cristo.
Lembra-te que eu sou a Justiça.
- Não te comprometo. Nunca
faltei a meu rei, fosse qual fosse. Mas servi a três, e te digo que há
reis e reis.
Saldaña acariciou a barba.
- Salve Deus.
-
Salve Deus ou quem mais te aprouver.
O tenente de aguazis olhou-me outra
vez com inquietação antes de voltar-se de novo para Alatriste. Notei
que, por instinto, havia apoiado a mão no punho da espada.
- Não
estarás atrás de briga, certo, Diego?
O capitão não
respondeu. Seus olhos claros sustentavam o olhar do outro, impávidos sob
a aba larga do chapéu. Saldaña, que se erguera um pouco, pois era
fornido e rijo, mas de estatura menor, estava parado diante dele, e os dois se
viam frente a frente, com seus rostos curtidos de velhos soldados cobertos de
finas rugas e cicatrizes, muito próximos um do outro. Alguns pedestres
olharam com curiosidade. Naquela Espanha turbulenta, arruinada e orgulhosa - na
verdade, o orgulho era só o que restava em nossos bolsos -, ninguém
retirava uma palavra pronunciada levianamente, e até mesmo amigos íntimos
eram capazes de se esfaquear por um palavrão ou um desmentido: Falou,
passou, olhou, disse atrevido
alguma coisa em diferente parte,
descoberto
galã ou embuçado,
e num instante foi batalha o prado. Apenas
três dias antes, em plena rua do Prado, um cocheiro do marquês de
Novoa havia dado seis punhaladas no seu amo por ter sido chamado de aldeão;
e tais lances por ninharias eram moeda corrente. De modo que, por um momento,
pensei que Saldaña ia sacar a branca e ambos trocariam estocadas no meio
da rua. Mas não houve nada disso. Porque se bem é verdade que o
tenente de aguazis podia perfeitamente - já o provara antes - pôr
o amigo a ferros e mesmo mandar sua cabeça pelos ares no exercício
de sua autoridade, não é menos verdade que jamais se valeria de
sua vara de justiça contra Diego Alatriste por questões pessoais.
Essa ética tortuosa era muito popular entre os arruaceiros de turno, e
eu mesmo, que freqüentei esses ambientes na juventude e no resto da minha
vida, posso testemunhar que nos malandrins mais desalmados, em velhacos, soldados
e na plebe a soldo, vi mais respeito por certos códigos e regras não
escritas que em pessoas de condição supostamente honorável.
Martín Saldaña era homem dessa casta e, para resolver seus bate-bocas
pessoais, sacava a espada na hora, sem escudar-se na autoridade do rei nem em
coisa nenhuma. Mas, graças a Deus, tudo fora dito em voz baixa, e não
intervinham desaire público nem afronta irreparável contra a velha
amizade, áspera e bronca, que havia entre os dois veteranos. De todo modo,
a rua Mayor depois de uma festa de touros, com toda Madri fazendo a folgança,
não era lugar para enfrentar-se de palavras, nem de aços, nem de
nada. De maneira que, afinal, Saldaña expulsou o ar do peito com um suspiro
rouco. De repente parecia relaxado, e no seu olhar escuro, ainda confrontado com
o do capitão Alatriste, julguei vislumbrar uma faísca de sorriso.
-
Um dia vão te matar, Diego.
- Pode ser. E talvez sejas tu quem o
faça.
Agora era Alatriste quem sorria sob seu espesso bigode de
soldado. Vi que Saldaña movia a cabeça num cômico desalento.
-
É melhor - disse - mudar de assunto.
Levantara um pouco a mão;
um gesto breve, quase tosco, ao mesmo tempo rude e amistoso, tocando por um instante
o ombro do capitão.
- Vamos. Convida-me para tomar um trago.
E
foi só. Poucos passos adiante paramos na taverna dos Herradores que, como
sempre, estava cheia de lacaios, escudeiros, carregadores e velhas dispostas a
se alugar como amas, mães ou tias. Uma jovem pôs duas canecas de
valdemoro sobre a mesa manchada de vinho, que Alatriste e o tenente de aguazis
esvaziaram na hora, porque deitar verbos lhes desatara a sede. Eu, que ainda não
completara catorze anos, tive de me conformar com um copo d'água da tina,
porque o capitão não me permitia beber vinho, exceto nas sopas de
pão que costumávamos tomar como desjejum - nem sempre havia para
chocolate -, ou quando me via mal de saúde, para recuperar a cor. Se bem
que Caridad la Lebrijana me dava, às escondidas, fatias de pão untadas
com vinho e açúcar, que eu apreciava quando jovem, por falta de
numerário para comprar doces. Quanto ao vinho, dizia o capitão que
no futuro eu teria tempo para beber até explodir, se quisesse, e que para
fazer isso nunca é tarde na vida de um homem; acrescentou que havia conhecido
não poucas pessoas íntegras que terminaram perdidas pelo suco de
Baco - tudo isso era dito pouco a pouco, pois creio que já lhes contei
que Diego Alatriste não era homem de muitas palavras, e com muita freqüência
falava mais com os silêncios que em voz alta. O fato é que mais tarde,
quando era soldado e também quando fui outras coisas, algumas vezes bebi
demais. Mas na verdade sempre me mantive moderado nesse vício, que para
mim nunca o foi - tive outros piores -, e sim estímulo e diversão
passageira. E penso que devo ao capitão Alatriste minha moderação,
embora nessa homilia ele nunca pregasse com o exemplo. Ao contrário, lembro
bem de suas prolongadas e silenciosas bebedeiras. Ao contrário de outros
homens, Alatriste não entornava muito quando estava acompanhado, nem era
a alegria o que o levava ao azumbre. Sua maneira de beber era tranqüila,
deliberada e melancólica; e, quando o vinho começava a fazer efeito,
fechava a boca e fugia da presença dos amigos. Na realidade, toda vez que
penso nele bêbado me vem sua imagem a sós, em nossa pequena casa
da rua do Arcabuz, no cortiço que dava para os fundos da taverna do Turco,
imóvel diante do copo, caneca ou garrafa; os olhos fixos na parede de onde
pendiam sua espada, sua adaga e seu chapéu, como se contemplasse imagens
que só ele e seu silêncio obstinado podiam evocar. E, pela forma
como depois crispava a boca sob o bigode de veterano, eu poderia jurar que aquelas
imagens não eram dessas que um homem contempla ou revive com agrado. Se
é verdade que cada um arrasta consigo seus fantasmas, os de Diego Alatriste
y Tenorio não eram serviçais, nem amáveis, nem tampouco companhia
agradável. Mas, como certa vez o ouvi dizer, encolhendo os ombros naquele
gesto singular, tão dele, que parecia feito de resignação
e indiferença: qualquer homem cabal pode escolher a maneira e o lugar onde
morrer, mas ninguém escolhe as coisas que recorda.
O
mentideiro de São Felipe estava em plena agitação. As escadas
e o terraço da igreja fronteiriça à rua Mayor eram um fervilhar
de gente que conversava em rodas, passeava cumprimentando os conhecidos ou ia
se acotovelar na balaustrada das famosas escadarias para observar os coches e
os pedestres que passavam na folgança. Foi ali que Martín Saldaña
se despediu de nós; mas não ficamos muito tempo sozinhos, porque
logo depois encontramos o Caolho Fadrique, boticário de Puerta Cerrada,
e o Domine Pérez, que também chegavam dos touros, elogiando-os muito.
Justamente havia sido o Domine, por estar mais perto, quem dera os sacramentos
ao guarda tudesco que o touro de Jarama mandara para o outro mundo. Comentava
o jesuíta os pormenores do caso, afirmando que a rainha, por ser jovem
e francesa, sentira-se perturbada no camarote, enquanto o rei nosso senhor segurava
sua mão, galante, para confortá-la. De todo modo, a rainha permaneceu
na Casa da Padaria em vez de se retirar, como muitos esperavam que fizesse; e
o gesto foi tão apreciado pelo público que, quando os reis se levantaram,
terminado o espetáculo, ofereceu-lhes uma carinhosa ovação
à qual o quarto Felipe, jovem e gentil-homem como era, correspondeu levantando
o chapéu por um instante.
Já contei em outra ocasião
a vossas mercês que, naquele primeiro terço do século, o povo
de Madri ainda conservava, apesar de sua picaresca natural e sua malícia,
certa ingenuidade em relação a esse tipo de gesto das pessoas reais.
Ingenuidade que o tempo e os desastres se encarregariam de substituir por desilusão,
rancor e vergonha. Mas nos dias desta história o nosso monarca ainda era
jovem; e a Espanha, embora já corrompida e com chagas de morte no coração,
conservava a aparência, o fulgor e os modos. Ainda éramos alguma
coisa, e continuamos sendo alguma coisa por certo tempo, até ficarmos exangues
do último soldado e do último maravedi. A Holanda nos odiava, a
Inglaterra nos temia, o turco andava cheio de cautela, a França de Richelieu
rangia os dentes, o Santo Padre recebia com muito tino nossos graves embaixadores
vestidos de negro, e toda a Europa tremia com a passagem dos velhos terços
- que ainda eram a melhor infantaria do mundo -, como se nas caixas de seus tambores
rufasse o próprio diabo. E eu, que vivi esses anos e os que vieram depois,
juro a vossas mercês que nesse século ainda éramos o que ninguém
jamais foi. E quando por fim caiu o sol que havia iluminado Tenochtitlán,
Pavía, San Quintín, Lepanto e Breda, o ocaso se tingiu de vermelho
com o nosso sangue, mas também com o dos nossos inimigos; como no dia em
que deixei a adaga do capitão Alatriste enfiada num francês, em Rocroi.
Vossas mercês hão de convir que nós, os espanhóis,
deveríamos ter dedicado todo esse esforço e essa coragem a construir
um lugar decente, em vez de desperdiçá-los em guerras absurdas,
malícia, corrupção, quimeras e água benta. E é
bem verdade. Mas apenas conto o que aconteceu. E, além do mais, nem todos
os povos são igualmente razoáveis para escolher sua conveniência
ou seu destino, nem igualmente cínicos para se justificar depois diante
da História ou de si mesmos. Quanto a nós, fomos homens do nosso
século: não escolhemos nascer e viver naquela Espanha, por vezes
miserável e por vezes magnífica, que a sorte nos designou; mas era
a nossa. E essa é a infeliz pátria - ou como diabos a chamem agora
- que, de bom grado ou não, carrego na pele, nos olhos cansados e na memória.
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