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O Escândalo dos Wapshot, de John Cheever (tradução de Sergio Viotti; Arx; 351 páginas; 46 reais) Com esse romance de 1959, o americano John Cheever deu prosseguimento à saga familiar que iniciara anos antes em A Crônica dos Wapshot (também lançado no Brasil recentemente, pela mesma editora). No primeiro livro, os Wapshot são descritos em seu "ambiente natural", a cidadezinha de St. Botolphs, na Nova Inglaterra. Embora parte da ação dessa seqüência também se passe no lugarejo, onde uma velha representante da família enfrenta dificuldades com o Fisco, seus melhores efeitos vêm da narrativa de como dois Wapshot desgarrados, os irmãos Miles e Coverley, tentam encontrar confusamente seu caminho no mundo exterior. Cheever alcançou o auge como contista, mas ficam patentes nesse romance a sua verve e a precisão de sua linguagem.

Leia trechos do livro

Capítulo 1

A neve começou a cair em St.Botolphs às quatro e quinze na véspera de Natal. O velho Mr. Jowett, o chefe da estação, levou sua lanterna para a plataforma e a levantou. Os flocos de neve brilharam como limalhas de ferro sob o raio de luz, se bem que ali não havia nada a iluminar. A neve o inebriara e refrescara e o tirara - de alma cheia, parecia - de sua carapaça de preocupação e dispepsia. O trem da tarde já estava atrasado uma hora, e a neve (cuja brancura parece ser parte dos nossos sonhos, já que a levamos conosco para todos os lugares) caiu com tal rapidez, tal presteza, que parecia que o vilarejo se separara do seu contexto no planeta e estava pressionando seus telhados e campanários céu acima. O que restava de uma pipa estava pendurado no lato, nos fios dos telefones - uma lembrança da versatilidade do fim do ano. “Quem foi que botou os macacôes no ensopado de Mrs. Murphy?” Mr. Jowett cantou alto, apesar de saber que isso não condizia com a época, o dia e a dignidade de um chefe de estação, o administrador da verdadeira e antiga fronteira da cidade, o seu Portão de Hércules.


 
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